sábado, 17 de outubro de 2026


"O teu conhecimento a inteligência artificial nunca vai ter"

Antes de ser uma aclamada escritora, Martha Batalha, 53 anos, era repórter dos principais jornais do Rio de Janeiro. Seu romance de estreia, A Vida Invisível de Eurídice Gusmão (2016), foi adaptado para o cinema em 2019, rendendo prêmio da mostra Un Certain Regard do Festival de Cannes. Autora de outros livros, ela mora em Santa Mônica, na Califórnia, e atua como cronista de O Globo desde 2020. 

Dessa experiência surgiu O Algoritmo Sou Eu, que reúne 58 crônicas sobre temas como feminismo, maternidade, imigração, tecnologia, cotidiano familiar, cultura e política. Na obra, Martha faz um trato com o leitor, garantindo que, enquanto escrever, nenhuma linha de suas crônicas será gerada por inteligência artificial.

Carlos Redel

Como foi o processo de selecionar as 58 crônicas que foram parar no livro? Por que estas foram as escolhidas?

Acho que o principal critério foi escolher crônicas que permanecessem. Procurei ter crônicas que pudessem ser lidas hoje e daqui a 10 anos, que não envelhecessem. Mesmo que falassem de algo pontual - por exemplo, tem umas que falam da pandemia -, que fossem crônicas que pudessem ser lidas como referência a uma época, mas que não parecessem datadas. Penso muito nisso, evito os temas que estão na moda.

O que torna uma crônica interessante no seu ponto de vista?

Gosto muito de falar que crônica é voz. Quando você pensa em voz, você pensa em música, e quando alguém canta ou toca um instrumento, você sabe quando afina e desafina. A crônica é a mesma coisa: você tem que encontrar uma sintonia para poder contar essa história. A crônica vem de você estar aberta para o mundo, estar sempre procurando, tentando descobrir algo a mais. Imagina que você tem a sua visão de frente, mas tem outras coisas que estão acontecendo pelo lado também. 

Então, a crônica está, às vezes, pelo lado. Por exemplo, fui com meu marido a um restaurante romântico, com aquelas comidas todas elaboradinhas e ele não estava conseguindo enxergar o cardápio. Então, pediu meus óculos para ver. Comemos e fomos para casa. Esse é um fato. Só que a crônica tratou sobre a primeira vez que ele pegou meus óculos de vista cansada para ver o menu. E eu entendi que a gente estava envelhecendo juntos.

No material de divulgação de O Algoritmo Sou Eu, consta que você, como cronista, é herdeira de nomes como Luis Fernando Verissimo e Martha Medeiros. Como você enxerga o trabalho destes dois gênios gaúchos e como é ser comparada a eles?

Eu e todos os cronistas sempre tentamos fazer a nossa voz, o nosso texto, em cima do que a gente leu. Eu leio o Verissimo, o Rubem Braga, a Martha e falo: "Quem é agora a Martha Batalha? Qual é a voz que a Martha tem a partir dessas pessoas?". O que eu aprendi com a Martha é essa coisa da lucidez, tem muito afeto também nos textos dela. É uma mistura bastante interessante. 

Algo que aprendi com o Verissimo é que ele falava assim: "Cada crônica tem que ter pelo menos uma piada. Se você tem uma piada na crônica, você já fez o seu trabalho". Não é uma escolha muito consciente, mas quando estou escrevendo, sempre percebo que solto uma pitada de humor. E isso cria um mecanismo de aproximação com o leitor, porque ele está lendo e, em algum momento, vai ter aquela dose de dopamina e vai continuar lendo para ter outra. É uma mistura de consciência e intuição também. Você tem que saber quando você solta, o que você solta.

No primeiro texto do livro, você explica como nascem as crônicas e diz que uma escrita sua jamais vai ter uma linha sequer feita por inteligência artificial. Enquanto isso, a gente vê cada vez mais materiais feitos por IA. Como você enxerga o futuro para autores e qual o papel da criatividade humana?

Acho que é muito importante para nós, escritores, que a gente permaneça fiel ao que sabemos fazer, ao nosso ofício, e que é realmente feito de horas e mais horas em frente ao computador. Às vezes, ficamos todo esse tempo sem saber o que escrever, mas esperando que alguma coisa vá nascer de algum lugar e que, quando nascer, vai ser muito humano. 

A diferença da inteligência artificial para uma pessoa é o seguinte: a IA pensa em termos de probabilidades, é matemática. Os humanos pensam em termos de possibilidades: a gente tem esperança, tem criatividade, tem um passado que vai se associar cada vez de uma forma diferente para você poder criar um texto. O teu conhecimento a inteligência artificial nunca vai ter. Não posso dizer o que vai acontecer, mas tenho muita certeza de que a inteligência artificial nunca vai conseguir fazer um texto bem trabalhado como é um texto de um bom profissional da escrita, porque ela não é feita com um material humano para isso. 

Porque não é só o português perfeito, não são só as associações perfeitas, a lógica perfeita. Tem muitas outras pequenas particularidades do texto que são muito humanas e isso não pode ser reproduzido.

Você fala que os fracassos também são importantes para essa construção de bagagem que leva para os textos. Como você transforma frustrações em combustível?

O escritor tem que estar acostumado a fracassar porque é parte muito grande da nossa rotina. Às vezes, a gente está escrevendo um romance e joga capítulos fora. A gente tem que ter essa resiliência. Acho que a grande sabedoria é poder aprender com os seus erros, olhar um texto que escreveu e falar: "Isso aqui não está bom, eu vou jogar isso fora". É uma bênção você olhar uma coisa que não é boa que você escreveu e saber que não é bom e não se intimidar por isso, mas construir a partir daquele erro, a partir daquele fracasso e continuar tentando.

A Vida Invisível de Eurídice Gusmão está completando uma década. Como você avalia a trajetória do livro?

Me sinto muito feliz. Ele ainda é muito lido e acho que é uma grande dádiva para um escritor fazer um livro que permaneça e que tenha mexido na vida de tantas pessoas. Ainda recebo cartas de pessoas dizendo que se emocionaram com o livro, que se identificam. Então, é muito bonito. O A Vida Invisível começou quando não existia ainda todo esse movimento de vozes feministas e femininas na literatura brasileira. Era uma coisa que estava começando ali, foi um dos primeiros livros dessa nova leva.

Uma década depois do lançamento do livro e mais de 70 anos da história que ele retrata, como você enxerga essa a questão do machismo presente no dia a dia, que transforma, muitas vezes, histórias de mulheres extraordinárias em invisíveis?

Acho que existe, ainda hoje, uma escala de violências contra a mulher dependendo de onde você nasce, do seu status, da sua cor, da sua condição social, da sua condição financeira. Existem mulheres que estão batalhando para ter o mesmo salário que os homens. Existem meninas que, se tiverem sorte, não vão engravidar com 14 anos. Existem mulheres que estão começando a ter voz agora, reivindicando os seus direitos e estão sendo mortas. Então, ainda tem muito para se mudar. São várias lutas dentro de uma escala que atinge mulheres de modos diferentes. 

 

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