
Viver é se despedir
A partir de vídeo de Nanda Costa.
Da mamadeira. Do bico. Do colo. Do berço. Do engatinhar. Do apoio nos corredores. Do travesseirinho. Do paninho. Das festas temáticas de aniversário. Dos balões. Dos livros com desenhos. Dos lápis coloridos. Dos presentes com papel infantil. Dos brinquedos. Da merendeira. Do uniforme da creche. Da toalha com capuz.
Do banquinho para alcançar a pia. Das rodinhas da bicicleta. Do copo de requeijão com personagem. Do beijo de boa-noite antes de apagar a luz. Do dente de leite embrulhado num guardanapo. Do riso banguela. Da autorização com assinatura para a excursão. Do boletim amassado. Da bainha da calça desfeita. Da mão para atravessar a rua.
Do melhor amigo que se transferiu de escola. Da professora que não dava para repetir. Das lições na lousa. Dos materiais escolares. Dos cadernos pautados. Das espirais. Dos amores platônicos. Do nervosismo das provas-surpresa. Do telefone decorado dos responsáveis. Do recreio. Do sinal que mandava retornar para a sala.
Da carteira com rabiscos e corações. Dos bilhetes escondidos. Da turma que prometeu nunca se separar. Das dedicatórias na camiseta no último dia de aula. Do portão de tantas idas e vindas. Das férias longas que produziam saudade de estudar. Do quarto dividido com os irmãos. Da mesada. Da carona. Do dinheiro contado para o cinema. Das viagens com a mochila nas costas. Dos doces dos avós. Da casa cheia.
Dos cartazes na parede e dos adesivos nas janelas. Do aparelho ortodôntico. Das espinhas. Da transformação do timbre. Dos pais esperando acordados no sofá. Da autoescola. Do cursinho pré-vestibular. Do nome na lista dos aprovados.
Do trote com farinha no cabelo. Do troco destinado para o xerox. Dos calhamaços emprestados. Da carteirinha de estudante. Do passe no ônibus. Da foto de beca. Do currículo sem experiência. Do crachá pendurado no pescoço. Da roupa lavada no antigo lar. Das visitas demoradas. Do bairro da infância.
Do colchão no chão. Da geladeira com dois ovos e uma garrafa de água. Do emprego que parecia para sempre. Da primeira vez que você morou com alguém. Do cobertor puxado no meio da madrugada. Da ilusão de romance eterno. Das caixas de mudança. Da marca da aliança no dedo. Do lado da cama vazio. Da volta por cima. Dos garçons que conheciam seu pedido. Das noites inteiras de sono até o meio-dia. Dos bares da sexta-feira. Do tempo de sobra.
Do teste de gravidez. Da mamadeira dele. Do bico dele. Do colo dele. Do berço. Do engatinhar. Do apoio nos corredores. Do travesseirinho. Do paninho. Das festas temáticas de aniversário. Dos balões. Dos livros com desenhos. Dos lápis coloridos. Dos presentes com papel infantil. Dos brinquedos. Da merendeira.
Do uniforme da creche. Da toalha com capuz. Do banquinho para alcançar a pia. Das rodinhas da bicicleta. Do copo de requeijão com personagem. Do beijo de boa-noite que agora é você quem dá antes de apagar a luz. Do dente de leite embrulhado num guardanapo. Do riso banguela. Da autorização que agora é você quem assina para a excursão. Do boletim amassado. Da bainha da calça desfeita. Da mão solta na hora de atravessar a rua. _
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