quarta-feira, 14 de outubro de 2015



14 de outubro de 2015 | N° 18324 
MARTHA MEDEIROS

Menos governo


Só agora assisti ao documentário Pro Dia Nascer Feliz, de João Jardim, que foi premiado anos atrás em vários festivais de cinema. A câmera se infiltra em salas de aula da periferia e em escolas de elite também, enquanto o diretor extrai depoimentos de professores e, principalmente, de estudantes que têm entre 12 e 16 anos. Como é a relação deles com a escola? O que aprendem, o que pensam, o que sentem, o que sonham, como lidam com a autoridade e com os colegas, que futuro aguarda por eles?

Quando o filme acabou, juntei meus restos e saí da sala arrastando os pés. A esperança havia espocado em uma cena ou outra, mas, de modo geral, a sensação com que fiquei é de que o Brasil só tem uma saída: reunir todo o dinheiro que sobrou das maracutaias e investir tudo em educação. Tudo. Fazer uma revolução radical no país através da educação. Se o governo fizesse isso, não precisaria fazer mais nada, do resto cuidaríamos nós.

Sei que é uma utopia, mas qual a alternativa? Não existe futuro enquanto a garotada continuar desassistida, carente, cumprindo mecanicamente um currículo que não tem aplicação prática em seu desenvolvimento e se tornando vítima fácil da depressão. Se o governo não dá conta, então o que precisamos é de menos governo. Tchau, governo.

Para que precisamos dele? O alto escalão se ocupa apenas em negociar cargos entre si, em fazer conchavos, em acumular milhões em contas na Suíça. Esqueceram por completo que existe um país implorando por ajuda. O povo brasileiro deixou de existir para quem, a priori, deveria zelar por ele. Poderiam ser indiciados por mais esse crime: abandono de lar.

Bem feito pra nós, que nos acostumamos com a ideia paternalista de que o governo (qualquer governo) existe para solucionar nossos problemas, que é só dele a responsabilidade pelo nosso bem-estar. Deu nisso: um povo mimado. Impossível não perceber a infantilização que há na troca de farpas entre simpatizantes de partidos oponentes, agindo feito crianças: “Foi ele que começou!”.

O que importa isso agora? Estamos todos de castigo.

O jeito é tentar se emancipar. Tomar conta da nossa rua, do nosso bairro, da nossa vida. Ser solidário com os outros, fazer mais voluntariado. Formar grupos de interesse comum, se unir com quem possui os mesmos propósitos, inventar novas maneiras de prosperar. Ser mais independente. Trocar o ressentimento pela proatividade. Usar a internet não para brigar, mas para compartilhar palestras, vídeos criativos, discussões bem embasadas, lançar novos serviços. Aproximar-se da literatura, da música, da filosofia, do esporte, da natureza, da psicologia, da arte, a fim de pensar no país de forma mais positiva e educar-se a si mesmo.

Utopia, de novo? Desculpe, é que ser realista não está funcionando.

sábado, 10 de outubro de 2015



11 de outubro de 2015 | N° 18321 
MARTHA MEDEIROS

Nós, os primogênitos

Certamente há dúzias de estudos, ensaios e teses sobre as características do primeiro filho da família, porém nunca me aprofundei a respeito. Ainda assim, sempre estico os ouvidos quando o assunto surge, só pra ver se confirmo as conclusões que extraio da minha própria observação.
Nós, os filhos mais velhos, fomos a origem de uma emoção colossal, já que a experiência inédita de se tornar mãe e pai se deu através do nosso nascimento. Esse exagero de amor e de expectativa em relação a nós deve ter surtido algum efeito positivo em nossa formação, afinal, fomos os protagonistas do primeiro parto, do primeiro choro, do primeiro dentinho, das primeiras mil fotos clicadas. Não é possível que o primogênito não se sinta um astro de cinema. É muito fanatismo por uma criatura de cerca de 50 cm e pouco mais de 3 quilos.

Dizem que a saúde emocional de cada ser humano é proporcional aos cuidados que recebeu nos primeiros dois anos de vida. Sobre isso já li. Então, se nesse curto período tudo transcorreu como nos comerciais da Johnson & Johnson, o primogênito se tornará um cidadão seguro e confiante. Pois é.

Só que logo depois vem outro filho. Os pais, já tarimbados, se permitem relaxar um pouco. Se antes a chupeta caía no chão e eles lavavam em água fervente, agora o bico cai, eles dão uma assoprada e recolocam na boca do segundinho, que sobrevive. Se eles foram quase xiitas com o primeiro filho, tal era o medo que ele quebrasse, com o tempo descobrem que existe algo chamado anticorpo, e, afinal, para que tanto stress? O filho mais velho, tão ajuizado, já está até ajudando a cuidar do maninho.

Pois é, pois é.

Os pais ofertam ao primogênito um amor absoluto, o tratam como rei e têm medo que ele quebre: nada mais justo que a criança retribua, não quebrando mesmo. Nem fisicamente, nem moralmente. E assim o filho mais velho cresce focado, maduro, responsável, bom exemplo, enquanto que o que veio depois não se obriga a ser exemplo de coisa nenhuma, faz o que bem entende e sente zero culpa – não raro dá problema de montão, mas acaba sempre perdoado. É o famoso “queridinho da mamãe”. Se não é sempre assim, é quase.

Muito já acusei minha mãe de proteger meu irmão caçula, e ela sempre gargalha diante dessa queixa clássica – simplesmente diz que sou louca. E como aqui se faz, aqui se paga, minha filha mais velha me acusa da mesma coisa, diz que protejo sua irmã mais moça, e claro que me defendo dizendo que ela está maluca, para manter o ciclo ativo. E assim a vida se repete através das gerações, restando apenas nossa torcida para que no final o amor justifique tudo, inclusive as consequências emocionais das responsabilidades e mimos que impomos diferentemente a cada filho.

Só lembrando que o primogênito, cedo ou tarde, se dará o direito de pirar. Não é uma ameaça, apenas uma questão de lógica.


11 de outubro de 2015 | N° 18321 
LUÍS AUGUSTO FISCHER

O mistério do parnasianês

Dei de cara com uma verdade estranha, esses dias: a visão escolar dominante sobre o que é certo e errado, no campo da língua materna brasileira, tem uma força desproporcional à história transcorrida Não deu pra entender direito? Vou de novo: o modo como temos concebido o ideal da língua portuguesa, na escola e no mundo letrado, nasceu há uns cem anos e sobreviveu a impressionantes forças históricas contrárias. Como? Por quê?
Simplifico para caber no espaço: o português que a escola brasileira ensinou e perpetuou, desde cem anos atrás até há pouco, brotou no mesmo jardim do Parnasianismo, aquele modo neoclássico de fazer poesia, que adorava o soneto como molde excelso (e gostava de usar “excelso”, aliás) e era capaz de matar para falar de amenidades – e para evitar falar da vida real, cotidiana.

Suor, sexo, carnaval, dureza da vida diária, esgoto a céu aberto, nada disso ganhou direito de entrar na poesia parnasiana. Fosse o poeta parnasiano um qualquer, um deserdado, um marginal, o problema seria pouco; mas ocorreu que foi justamente o poeta parnasiano – Olavo Bilac à frente – quem foi tomado como modelo de língua para todos. Não por acaso, Bilac foi inspetor federal do ensino, e nessa condição percorreu muitas cidades, fazendo conferências e espalhando seu charme conservador Brasil afora. E mais ainda: autor da letra do Hino à Bandeira, escritor de livros infantis e didáticos, foi eleito Príncipe dos Poetas Brasileiros – isso sendo ele, ao que consta, um fervoroso republicano.

Bilac foi beneficiado por outros fatores, em sua entronização como modelo de texto. Em 1897 começou a funcionar a Academia Brasileira de Letras, órgão que veio a ter imensa importância ao protagonizar as várias discussões sobre reforma ortográfica. Ao longo do tempo, a Academia teve papel forte na perpetuação da visão parnasiana do português. (Machado de Assis também compõe esse momento, com seu texto elegante e preciso, que nada tem a ver com a chatice bilaquiana. Quem sim tem a ver com ela é Ruy Barbosa, outra mala no campo da linguagem conservadora e arrebicada.)

Mas o que me chamou a atenção foi comparar essa trajetória com os elementos contrastantes que pelo contrário se expressavam em variantes coloquiais da língua. Acompanhe comigo no riplei: na mesma época do Bilac, gente como Simões Lopes Neto e Valdomiro Silveira escrevia contos e lendas do mundo rural; Lima Barreto escrevia sua vasta, irregular mas viva obra literária; em seguida, anos 20 em diante, o rádio começa a atuar, dando cancha à canção popular, que em geral se expressa na língua da vida real.

No campo letrado, houve o Modernismo paulista, que se esforçou em combater justamente a “máquina de fazer versos” do Parnasianismo. Nos anos 30, toda uma geração de grandes talentos escreveu em português brasileiro suado, os Erico Verissimo, Graciliano, Jorge Amado, os Bandeira e Drummond, e logo depois veio Nelson Rodrigues para ensinar o teatro a falar sem sotaque lisboeta ou vocabulário pernóstico. E veio a televisão, com a telenovela que, a partir de Beto Rockefeller, incorporou a fala brasileira.

Então eu quero saber é como o parnasianês se manteve. Que forças o apoiaram este tempo todo, até sua morte – ainda não totalmente configurada –, que só agora vai ficando clara?

A tradição de haver pouca escola, a escola para poucos, é parte da explicação. A universidade para menos gente ainda, da mesma forma. O bacharelismo, o “data venia”, a força conservadora e excludente do mundo do Direito por certo ocupa papel forte nisso. Para completar, a visão que temos do Brasil como país de um povo burro e incompetente – quadro que se agrava ainda hoje, com o afloramento da corrupção disseminada, à direita e à esquerda, existente desde sempre.

Visão equivocada, que abomina nossas mestiçagem e capacidade de criar soluções. Visão que mal agora começamos a reverter, mas que ainda nos paralisa.




11 de outubro de 2015 | N° 18321 
CARPINEJAR

A solidariedade com a tristeza do outro


Ceder é transcender. Não tenho mais nenhum interesse na vida de mandar no relacionamento: eu me respeito e respeito o outro.

Não planejo nada além de dois dias. Trata-se de um prazo razoável. Porque nunca sei das inconstâncias de meu humor e o de minha mulher e de meus filhos. Não faço mais arrastão, aquilo de marcar uma saída e não aceitar qualquer mudança de plano.

A onipotência (a ânsia de controlar a tudo e a todos) é um risco altíssimo para o casal. Sou mais de acordar com calma e ver como estão as coisas.

Desagradável é a disputa de poder no final de semana. Agendar um passeio e descobrir na hora de se arrumar que a mulher não está mais a fim. Ou porque sofre de enxaqueca ou não dormiu bem ou resta trabalho inacabado, motivos que não existiam antes da promessa.

O que pode acontecer?

Primeira hipótese: você teimar em manter o compromisso e chantagear a esposa para acompanhá-lo pelo simples argumento de que já estava combinado há tempo. Ela poderá ir, absolutamente contrariada, e passará o passeio inteiro com a cara emburrada, desprovida de qualquer vontade de sorrir.

Assim como você comprou briga para sair, agora comprará nova refrega, já que ela não se encontra do modo como imaginou. Não parece nem um pouco disposta.

Ficará furioso que ela não colabora, não ajuda, não se esforça para tornar agradável. Mas ela já havia dito que não tinha nenhuma vontade, você que não foi compreensivo. Não há como funcionar. O que deseja é praticamente o impossível, que a felicidade seja um feitiço e acenda a luz dos olhos dela com uma salva de palmas. A alegria jamais será obrigação, e sim estado de espírito.

Não é que ela não quer ser feliz, não conta com inspiração para ser feliz. Felicidade é contexto, atmosfera, disposição. Não adiantou seguir com o roteiro. Discutirão sem parar, apesar do sol e da comida maravilhosa do restaurante.

Segunda hipótese: também pode colocar tudo a perder permanecendo em casa como provocação. Desmarca, finge que aceita o desânimo dela, porém emburrece e faz qualquer movimento de mau-humor. Não acolhe o impedimento como natural, seu interesse é boicotar as mínimas atitudes dali por diante e mostrar que ela estragou o seu final de semana.

Aponta o egoísmo da tristeza dela e não percebe que o seu contentamento ainda é mais egoísta.

Não custa mudar de opinião e oferecer um voto de confiança. Entender que a nossa companhia não vem partilhando da mesma frequência. Representa um momento, não é para sempre.

Forçar o entusiasmo provocará apenas culpa. Aproveite a folga para ler, ver filme, conversar com os amigos.

Milagrosamente é somente sair de perto, dar espaço para a solidão, não pressionar, que ela virá depois disposta a passear. Quem cede sempre é recompensado com amor. A desobrigação gera a escolha. A escolha é liberdade.



10 de outubro de 2015 | N° 18320
CAPA

Amar (em) Porto Alegre


RBS TV ESTREIA hoje Notas de Amor, minissérie com episódios inspirados em canções do Musical Saracura

 Muitos afetos se concentram em Notas de Amor, minissérie em quatro episódios que a RBS TV exibe a partir de hoje dentro do programa Mistura, às 14h. O projeto idealizado e dirigido pela cineasta Liliana Sulzbach presta tributo ao Musical Saracura, grupo que marcou época no Rio Grande do Sul na virada dos anos 1970 para os 80 com sua lírica fusão de rock e regionalismo. E é também uma homenagem a Porto Alegre. Maltratada e descuidada nos últimos anos, a cidade tem sua beleza realçada em cenários e ângulos que escapam do olhar apressado do dia a dia, em especial as regiões banhadas pelo Guaíba.

Em parceria com os escritores Carol Bensimon e Fabrício Carpinejar, Liliana desenvolveu argumentos em torno de quatro canções do único LP lançado pelo Saracura, em 1982: Nada Mais, Flor, Marcou Bobeira e Toda Moça. Integrantes remanescentes do grupo, Nico Nicolaiewsky, Silvio Marques e Fernando Pezão (Flávio Chaminé morreu em 2004) envolveram-se no projeto que teve início em 2013 e que, além da minissérie, previa um documentário sobre o Saracura e a volta da banda aos palcos. Sob o baque da morte de Nico, em 2014, Liliana, Silvio e Pezão levaram a minissérie adiante.

– Discutimos sobre o uso das canções originais na trilha, mas optamos por regravações com artistas influenciados pelo Saracura, como o Thedy Corrêa (em Nada Mais) e o Humberto Gessinger (em Marcou Bobeira) – diz a diretora.

Silvio faz a releitura de Flor, e Nina Nicolaiewsky, filha de Nico, interpreta Toda Moça. Com roteiros de Liliana e Carol, os episódios conectam-se um ao outro por meio de personagens às voltas com distintas manifestações do amor: reencontros, separações, afinidades e descobertas. Um fio de suspense amarra as quatro histórias – a investigação sobre o acidente com o avião que leva um fictício secretário de meio ambiente da Capital envolvido no debate sobre especulação imobiliária às margens do Guaíba. O modelo internacional Jorge Gelati faz participação especial como o político.

– É uma série em que nada é o que parece ser. O Guaíba não é rio, é lago. Aquele namoro terminou, mas não acabou – explica Liliana.

Diretora de documentários premiados, como o Cárcere e a Rua (2004) e A Cidade (2012), Liliana resume a experiência de realizar com sua produtora, a Tempo, um projeto de ficção com estrutura complexa:

– Você pode fazer um documentário com quatro pessoas. Notas de Amor foi uma experiência impressionante. Uma equipe numerosa, muitas locações externas, tudo precisava funcionar como um relógio. Apesar da pressão, eu me sinto leve. De um documentário, saio carregando o peso da questão social, do envolvimento com os personagens. E Notas de Amor também tem um grande tema, que é essa questão envolvendo o Guaíba.

marcelo.perrone@zerohora.com.br

RUTH DE AQUINO

Fidelidade se compra?

As manobras de Dilma para angariar apoio não estão dando certo. A reforma ministerial dá frutos podres

Não, presidente Dilma Rousseff. Talvez seja tarde para descobrir o óbvio. Fidelidade se constrói, respeito se conquista, amor se cultiva. Mesmo num país em que os partidos políticos se desmoralizam a tal ponto que tudo parece estar à venda no Congresso – do voto à consciência –, Dilma percebe que é hoje uma mulher traída e uma líder mal-amada.

Não importa quantos cargos ela tenha distribuído, quantas concessões tenha feito. Não importa quantos mimos tenha oferecido a seus concubinos. Eles traem. Conspiram. Querem mais. A insatisfação costuma conduzir à infidelidade. Se até os partidos comprados traem Dilma, a rebeldia não se explica apenas pelo vício da prostituição do poder. Nem os pares de Dilma se afeiçoaram a ela – muitos, se não falam mal pela frente, o fazem pelas costas.

Toma lá. E não dá cá. De todas as derrotas sofridas por Dilma nos últimos dias – e não foram poucas –, a falta de quórum na Câmara para votar seus vetos às pautas-bomba pode ter sido a que mais a magoou. Um sinal do que vem por aí. Sua maior luta, hoje, é travada nas duas Casas, e não com juízes, procuradores, jornalistas ou eleitores. “Juntos, somos imbatíveis”, disse Dilma em Barreiras, na Bahia. Juntos... com quem, exatamente? Com senadores e deputados.

As manobras de Dilma para angariar apoio não estão dando certo. A “reforma ministerial”, de custo moral e ético muito alto, dá frutos podres. Delcídio do Amaral (PT-MS), líder do governo no Senado, diz: “Acho que alguma coisa não está funcionando”. Acha mesmo ou tem certeza? O líder do PR na Câmara, Maurício Lessa, afirma: “O governo não pode achar que resolve a vida só com o PMDB”. Não mesmo. Há um novo bloco de partidos revoltados. O “baixo clero” pode ser muito baixo. O que é pior: os dois maridos oficiais – o PT e o PMDB – não estão unidos em torno da matriarca.

O elemento peemedebista Eduardo Cunha, presidente da Câmara, cada vez mais afundado em suas contas movediças, familiares e milionárias em dólares na Suíça, exerce poder avassalador contra Dilma – mas pode cair antes de qualquer um em Brasília. Comprovadas as contas secretas e a origem de corrupção, Cunha não poderá continuar a presidir a Câmara. Simples assim. Não tem moral para falar de moral. Dilma e Lula sonham em lavar Cunha a jato.

Não sinto pena de Dilma. Ela fez por merecer o pesadelo atual. Muito pior foi o pesadelo em que ela jogou o Brasil, ao usar no ano passado R$ 106 bilhões em barbeiragens fiscais para enganar o eleitor mais crédulo. Criou uma Ilha da Fantasia em que o estudante, a dona de casa, o trabalhador, o pequeno empresário, o jovem idealista, a classe média e os mais carentes se inspiraram para reelegê-la.

Dos R$ 106 bilhões, R$ 40 bilhões de bancos públicos foram usados nas pedaladas – o termo usado para adiar pagamentos e maquiar as contas públicas. Estamos, todos nós, pagando agora por isso. Nos primeiros oito meses de 2015, como foi publicado no jornal O Globo na sexta-feira, o Tesouro Nacional já repassou a BNDES, Banco do Brasil e FGTS R$ 14,4 bilhões. Objetivo? Cobrir os gastos com juros subsidiados de programas federais no ano passado. Esse é o preço, até agora, da operação-bomba para reeleger Dilma.

Nunca antes na história um presidente pedalou com um doping dessa magnitude. Nunca antes se usou tamanho artifício para mascarar uma gestão incompetente e temerária e alimentar o marketing piegas da mãe do PAC. É uma constatação financeira, técnica, nada ideológica ou política. Basta examinar os gráficos, ano a ano. São números, não palavras. Não há subjetividade nem torcida contra.

Quando Dilma vê “luz no fim do túnel”, é natural. Não tem saída a não ser parecer otimista. Jaques Wagner, o novo escudeiro imposto por Lula na Casa Civil, é só elogios: “A presidente é uma guerreira, ela opera muito bem diante da dificuldade... ela entende que (a reprovação das contas pelo Tribunal de Contas da União) é uma página virada e que a batalha definitiva será no Congresso”. Leia-se batalha para continuar a governar. Batalha para não sofrer impeachment. Para não desmilinguir.

A reprovação das contas de Dilma pelo TCU já era esperada. Mas não por essa goleada de 8 a zero. Unânime, inédita, histórica. Dilma se preocupa com o uso que o Congresso fará dessa derrota. O país tenta olhar o lado bom. O da prestação de contas. Contas fiscais e morais. Afinal, quem quer fidelidade precisa ser fiel, em primeiro lugar. Precisa ser responsável. A moeda que conta para nós é esta, a da responsabilidade com a nação e com os eleitores. Tanto a presidente quanto o Congresso deveriam saber que não é possível cobrar sacrifício ou fidelidade de quem se sente espoliado ou traído.

quarta-feira, 7 de outubro de 2015



07 de outubro de 2015 | N° 18317 
MARTHA MEDEIROS

Nando


Com o celular na mão, percorro a timeline de pessoas que conheço e ali vejo de tudo, desde bailes de debutantes até manifestações políticas raivosas, desde homenagens aos animais de estimação até piadas cruéis. Pela maioria, passo batido, mas curto as indicações culturais, as viagens, o bom humor, as alegrias alheias. Ainda assim, me pergunto: onde me situo em meio a tantas ideias, tanta informação, tantos perfis?

Off-line é que me reencontrei. Celular mudo dentro da bolsa, dei atenção plena a ele no palco, seduzindo e capturando a todos, música após música. Cada pedacinho de letra cantado com a alma me fazia sentir privilegiada por assistir a ele ao vivo pela primeira vez, domingo passado. Estou falando do show de Nando Reis, ex-Titãs, ex-namorado de Marisa Monte, ex-melhor amigo de Cássia Eller e ex-feio – porque até bonitinho se tornou depois de tanto sucesso.

Nando Reis, que eu só conhecia desses estereótipos, desses resumos, recuperou minha inocência, me fez sorrir por dentro, acho que até meio ruborizada fiquei.

Quem tem projeção hoje em dia? Aquela criatura sinistra que preside a Câmara, os ladrões que se apoderam do dinheiro público, os protagonistas de conchavos e alianças vexatórias a fim de manterem o poder. Logo, é questão de sobrevivência fugir para um território neutro a fim de escutar um branquela ruivo, às vezes desafinado, que canta e celebra o amor. Soa como petulância invocar esse assunto em meio às turbulências políticas, mas é disso que se trata a coluna de hoje: o amor.

Nando Reis, acompanhado apenas de dois violões, fez um espetáculo doce. Roqueiro em seu DNA, mas doce, cálido, poético. Não só pela poesia de suas canções, mas também por ter lido, entre uma música e outra, poemas de Vinicius de Moraes, Fernando Pessoa, Paulo Mendes Campos. Naquele teatro escuro, eu pensava: o que vale na vida, afinal? O que acontece lá fora ou aqui? Como equalizar essas divergências?

A resposta estava dentro de mim. Sempre está dentro de nós. A realidade é a narrativa que contamos a nós mesmos. A minha poderia começar assim: “Estranho seria se eu não me apaixonasse por você...”, que é o primeiro verso da música All Star, composta por ele e eternizada por Cássia anos atrás.

Nando, estranho seria se eu não me apaixonasse por você, se eu não me comovesse, se eu não passasse aquelas duas horas do show recordando meus ex-amores e sonhando com os amores que virão, estranho seria se não me arrepiasse com a possibilidade de um novo encantamento, estranho seria se eu não me enternecesse ao ver alguém tão entregue à própria verdade e ao sentimento, estranho seria se todos nós, na plateia, não nos rendêssemos à raridade da emoção, essa que tanto apanha da razão, mas que ainda insiste, valentemente insiste em manter sua voz.

sábado, 3 de outubro de 2015



04 de outubro de 2015 | N° 18314 
MARTHA MEDEIROS

A cultura da humilhação

A insensibilidade geral tem produzido gargalhadas de um lado e tragédias de outro

Já nem lembrava de Monica Lewinsky, que foi estagiária da Casa Branca e teve um rápido affair com o ex-presidente americano Bill Clinton em 1996. O fato foi explorado à exaustão, na época.

Pois Monica hoje tem 41 anos e fez uma palestra TED recentemente, disponível pelo YouTube. São 20 minutos em que ela conta as consequências daquele episódio comentado no mundo inteiro e faz alertas importantes sobre cyberbullying. Se você nesse instante pensou "imagina se vou perder 20 minutos ouvindo aquela desqualificada", você é o público-alvo desse vídeo.

Você, eu e todos os que usam tecnologia precisamos refletir sobre o assunto. A internet possibilita inúmeros encontros, amplia ações sociais, estimula a criatividade, agiliza negócios e já não se pode viver sem ela, mas tem um lado obscuro, como todos sabem. Reclamamos dos agressivos da web, dos haters, mas até onde pode ir a crueldade alheia?

Em 2010, um estudante chamado Tyler Clementi foi flagrado por uma webcam tendo relações íntimas com outro rapaz em seu dormitório na universidade. As cenas foram parar na internet. Dias depois, Tyler se suicidou. Tinha 18 anos.

O serviço assistencial britânico Child Line, que atende crianças e adolescentes, revela um alarmante aumento no número de suicídios nos últimos anos, e as ridicularizações nas redes sociais têm a ver com esse incremento. O CVV (Centro de Valorização da Vida) também possui dados que apontam nessa direção. A insensibilidade geral tem produzido gargalhadas de um lado e tragédias de outro.

Humilhação pública virou produto de alto valor comercial. Basta que uma pessoa passe vergonha para que o flagrante mereça muitos cliques, e esses cliques valham muito dinheiro, sustentando sites de fofocas e transformando a nós todos em imbecis digitais. Não existe mais compaixão nem respeito pela intimidade alheia.

O que Monica Lewinsky tem a dizer sobre isso? Ouça-a. Estou aqui apenas resumindo a palestra dela a fim de atiçar você para assisti-la. Quando tinha 22 anos, ela se meteu numa encrenca federal (mesmo) e foi o que bastou para todos se sentirem no direito de acabar com sua reputação. Eu postei a palestra na minha fanpage (facebook.com/marthamattosmedeiros) e um dos comentários deixados foi: "Ah, é aquela, a sucker, tenho que ver isso, kkkk". É uma reação automática. Podendo avacalhar, não perdemos a chance. Porém, o que antes era uma pegação de pé em meio a um círculo restrito, ganhou abrangência universal e exposição vitalícia.

Se a gente não quer que essa cultura da humilhação prevaleça, melhor começar a agir com mais responsabilidade agora, já. Até porque ninguém está livre de amanhã ser o alvo.



04 de outubro de 2015 | N° 18314 
CARPINEJAR

Banho sempre juntos


Um casal de amigos toma banho juntos todo dia. Não é exagero: todo santo ou maldito dia. Ambos não abdicam do hábito. Não se unem para sexo ou transas aquáticas, não se abraçam para sedução ou selvagerias líquidas.

Nenhuma pornografia como é possível imaginar. Pois casa não é motel, é refúgio do tumulto do mundo. Os espelhos não estão no teto, mas nos próprios olhos. É banho para a ternura, para a transparência.

É banho para conversar e se atualizar, lavar o silêncio, acalmar a ansiedade. É banho para chorar quando necessário, brincar de espuma, rir dos perigos e organizar os desmandos do trabalho.

É banho de amizade, de cumplicidade auditiva, de intimidade da pele, para saber como foram a manhã e a tarde de cada um e preparar a barca dos sonhos. É banho em que os joelhos e os cotovelos são lembrados, em que as axilas e as costas são esfregadas.

É banho de açúcar, melhor do que o sal grosso para espantar o mau olhado. Dividem o xampu e a esperança. Enquanto um se ensaboa, o outro se enxagua. O revezamento é perfeito como uma dança, como uma coreografia.

Estão nus, sem reservas, sem receios, sem caretas e poses, sem mentiras e distorções, com a humildade de se colocar à disposição. Como Adão e Eva antes da maçã. Antes da amargura.

Adultos que escolheram a água como o refúgio infantil, puro, um confessionário onde nenhum filho abrirá a porta com novas urgências. O box é uma piscina vertical, o box é uma hidromassagem de pé.

O box é uma varanda fechada, uma Veneza em miniatura. O box é uma chuva particular, em que vão chapinhando nas poças e as vozes buscam alguma música brega para distrair as dificuldades.

E se um já tomou banho antes repetirá a operação para não perder a parceria. Mesmo que isso signifique tirar o pijama e deixar o calor da cama. Não passam um dia sem tomar banho lado a lado. Descobriram que a lealdade é abrir um espaço fixo para a palavra.

Os casais devem tirar um momento de sua rotina para estarem absolutamente entregues. Um momento apenas de atenção integral, para renovar o ímã da felicidade.

Pode ser o café da manhã, o almoço, uma horinha de chimarrão no entardecer, uma caminhada pela praça, a leitura de jornais, o colo de uma novela. É dividindo a solidão que os dois serão um só pela vida inteira.



04 de outubro de 2015 | N° 18314 
ROBERTO ROMANO

Servidão voluntária



É fácil notar indivíduos inteligentes e cultos que apoiam governos tirânicos e religiões genocidas. Ao dobrar a cerviz eles se reduzem a instrumentos descartáveis. A solidariedade perversa em política gera o que Merleau-Ponty intitula “a comunhão negra dos santos” (Nota sobre Maquiavel). Os piores malefícios ocorrem se ordenados por hierarcas cuja ideologia a tudo e a todos justifica. Salvo os inimigos.

Mesmo quando vítimas da máquina partidária, militantes ideologizados guardam fidelidade canina. É o caso do Partido Comunista e dirigentes perseguidos por Stalin. A técnica predileta, nos tribunais farsantes de 1936, era colocar o réu em frágil situação psicológica. Sabedores da sua inocência, os promotores lhes perguntavam: “O Partido diz que você é culpado. 

Sua língua nega a verdade do seu partido?”. Ir contra o “seu” partido seria destruir a própria vida, os valores defendidos no pretérito. Mas aqueles princípios eram arruinados pela polícia, promotores e juízes a soldo do “paizinho dos povos”. Situação surreal: garantir a própria inocência seria provar que o governo dos antigos camaradas era escabrosa farsa. Eles aceitaram a culpa farsesca em nome de um passado abolido.

E falo de pessoas eruditas, como Bukharin, Kamenev, Zinoviev e outros.

Em tempos obscurantistas da Igreja Católica, a censura e o castigo tinham um nome: sacrificium intellectus. Segundo Inácio de Loyola tal seria “o terceiro e mais elevado grau de obediência”. Trata-se de ardil para tanger o ser livre ao rebanho. A desculpa da técnica encontra-se na suposta frase de Tertuliano, “credo quia absurdum”, creio porque é absurdo. Como numerosas falas inverídicas, tal enunciado só com muita ardilosidade pode ser lido em Tertuliano. 

Ele faz companhia ao “Paris vale uma missa” jamais dito por Henrique IV; “se eles não têm pão, comam brioches”, de Maria Antonieta; “que grande artista vai perder o mundo” atribuído a Nero. Max Weber generaliza o silêncio obsequioso para toda religião. A depender de suas circunstâncias, elas sempre exigem do fiel… a fidelidade contra o intelecto.

Sempre que num coletivo impera o credo quia absurdum, e as falas são administradas por líderes – não por acaso, Stalin se interessou por linguística – religiosos ou civis, grassa um ódio ao pensamento crítico que aterroriza quem ousa raciocinar, pedir provas factuais ou lógicas das autoridades. É a misologia, termo inventado por Platão.

Quais origens possui o manso, obediente silêncio obsequioso mantido pelos tesoureiros petistas condenados pela justiça? Nos casos Delúbio e Vaccari, a comunhão negra dos santos funciona a pleno vapor. E nela reside a ideologia segundo a qual, para usar a tese de Trotsky: “o partido sempre tem razão (…) só podemos estar certos com e pelo Partido (…) e se o Partido adota uma decisão que um ou outro julga injusta, ele deve dizer, justo ou injusto é o meu partido e eu apoio as consequências daquela decisão até o fim”(26/5/1924). Até o fim, as piores coisas resultaram e ainda virão de tamanho servilismo voluntário.



03 de outubro de 2015 | N° 18313 
NÍLSON SOUZA

HOMENS VERDES


Tudo bem, tem água lá, mas não me convidem para passar as férias de verão em Marte. Estou fora. Viagens longas não me atraem. São 226 milhões de quilômetros, e a previsão, com a tecnologia disponível atualmente, é de que uma nave levaria de seis a nove meses para percorrer a distância entre a Terra e o planeta vizinho. Prefiro ver o filme, ler o livro e ficar olhando daqui mesmo aquela estrelinha avermelhada que não pisca. Mas reconheço que o planeta enferrujado fascina, e como fascina!

É impressionante como a humanidade viaja (no sentido figurado, de sonhar, imaginar, cismar...) quando se fala em vida fora da nossa Terrinha. As recentes notícias sobre a descoberta de córregos gelados no solo marciano tiveram audiência planetária, inundaram os veículos tradicionais de imprensa e as redes sociais. As águas de Marte e os marcianos imaginários também viraram charges, memes e gozações de todo tipo. 

Nossos inspirados chargistas produziram duas das mais divertidas: Iotti publicou um desenho em que aparecem dois homenzinhos verdes pescando num riacho, visivelmente contrariados com a presença de um robô de observação terráqueo; e Marco Aurélio imaginou os mesmos personagens verdinhos estacionando um disco voador para vender garrafões de água mineral marciana. Se o planeta é vermelho, por que seus habitantes seriam verdes? Invenção do escritor norte-americano Edgar Rice Burroghs, criador de Tarzan. Pegou.

Temos uma velha cisma com Marte, planeta historicamente apontado por cientistas e ficcionistas como provável base para uma invasão à Terra. Duvido que atualmente os verdoengos queiram desembarcar em algum ponto da nossa conflagrada superfície, mas marcianos e marcianitas já causaram terror e euforia por aqui, tanto no tempo do rádio pré-histórico quanto nos Carnavais de antanho. Talvez por isso, cada vez que surge uma informação nova sobre a possibilidade de vida por lá, ainda que microbiana, entramos em surto.

Para não ficar de fora dessa piração, entro na onda pela lógica simplista dos meus antepassados lusitanos. Se há água, ainda que gelada e salgada, pode mesmo haver vida. Talvez até haja vida inteligente – o que seria um belo exemplo para nós. Como temos excursões agendadas para o Planeta Vermelho, em breve saberemos. Só espero que, por enquanto, os homens verdes não nos desafiem para um jogo de futebol interplanetário.

Afinal, Messi está lesionado.



03 de outubro de 2015 | N° 18313 PALAVRA DE MÉDICO

J.J. CAMARGO


Felicidade em fatias

Desconfie dos faceiros crônicos. com esses tipos, todo cuidado é pouco
Como não existe felicidade completa e ninguém consegue ser feliz o tempo todo, aprendemos a desconfiar dos faceiros crônicos: porque afora a monotonia irritante da eterna alegria, eles devem ser muito dissimulados e, com esses tipos, todo cuidado é pouco.

Habituados com as saudáveis oscilações de humor reveladoras da nossa condição anímica, pouco atentamos para os graus possíveis de felicidade que, para alguns felizardos, projetam-se na conquista tão fantasiosa quanto inatingível de uma Mega Sena. A maioria mais modesta se contenta com menos, por exemplo, com o resgate das pequenas perdas, essas que só dimensionam bem os que perderam.

Sempre me comovi com a alegria genuína e, geralmente, solitária, dos velhinhos quando retiram o tampão do olho de onde foi removida uma catarata e se deslumbram com o arco-íris das cores que desbotaram no tempo e que agora estão vivas outra vez. Ou com a euforia da avózinha que vinha sendo interpretada como caduca porque quase sempre o que respondia não tinha nada a ver com o perguntado e que, agora, com o aparelho novo ajustado, retoma o convívio ativo com a família e pede, com um certo orgulho na voz, que as pessoas, por favor, falem um pouco mais baixo porque, afinal, ninguém aguenta mais esta gritaria. Parece uma casa de loucos!

Ou de um paciente transplantado de pulmão por um enfisema que representara uma sucessão de perdas acumuladas durante os 10 anos que antecederam a cirurgia e que, às vésperas de ter alta, chamou-me para um pedido: “Doutor, por favor, me examine porque tem uma coisa errada comigo”. Quando quis saber o que sentia, ele surpreendeu: “A impressão que tenho é de que me entra ar por tudo quanto é lugar!”. Depois de 10 anos de esforço progressivo para respirar, era compreensível que a ausência da percepção dessa atividade gerasse a ansiedade em quem tinha esquecido do simples que é o normal.

O Geraldo fumou cigarro de palha durante os 50 anos em que trabalhou na liberdade do pampa. Nos últimos tempos, a atividade física se restringiu ao mínimo e descobriu que um simples banho podia ser uma tarefa bem desagradável. Encantado com o desempenho de um vizinho transplantado de pulmão, marcou uma consulta para saber quando poderia fazer o seu. Foi duro acompanhar seu desencanto na medida em que as contraindicações para o transplante (mais de 70 anos, infarto prévio) foram anunciadas.

Felizmente, seu enfisema comprometera menos os lobos inferiores e foi comunicado que ele era bom candidato para a chamada cirurgia redutora do volume pulmonar, que permite a retirada de áreas mais afetadas para que as menos comprometidas tenham mais espaço para funcionar. Depois de uma fase inicial de desconfiança, o entusiasmo voltou, e ele foi submetido à cirurgia depois de uma intensa preparação para que fosse operado na melhor condição possível.

Decorridos seis meses do procedimento, voltou para a revisão, e foi logo anunciando: “Não tenho ideia de há quanto tempo não respirava tão bem!”. Ele voltara a trabalhar no campo com tal euforia e a relação de proezas e façanhas era tão entusiasmante, que foi inevitável perguntar: “E como é que anda a sua vida sexual?”. Ele fez um longo silêncio e, acomodando o chapéu sobre o joelho magro, confessou: “Mas o senhor sabe que eu nem me lembro!”. Como escrevi, em algum lugar aí acima, felicidade completa é, quase sempre, uma grande fantasia.


RUTH DE AQUINO
02/10/2015 - 21h38 - Atualizado 02/10/2015 21h38

Perdidos no espaço

Dilma desperdiçou o esforço de cooptação, pois Eduardo Cunha foi atingido pelas últimas denúncias


Em aventuras que misturam comédia e ficção científica, a tripulação da nave Brasília luta às cegas para encontrar o caminho de volta para casa e o poder eterno. O Professor Lula, sua companheira Dilma e seus pupilos Wagner, Mercadante e Renan são atacados pelo Doutor Eduardo Cunha, agente inimigo, que tem uma obsessão: sabotar a missão de Lula, Dilma, filhos e afilhados no planeta vermelho.

Cunha é tão desastrado e abilolado que embarca na mesma nave que a família. Não estava preparado para a revolta do robô humanoide, que escapa ao controle de todos e destrói o sistema de navegação da nave Brasília. Estão todos agora perdidos no espaço – mas com contas milionárias, em dólar, em alguma parte da Terra.

O seriado se passa no presente, já teve várias temporadas e se arrasta em capítulos inverossímeis, sob o comando do Professor, o grande timoneiro. A viagem começou com objetivos grandiosos e idealistas. A família embarcou com a missão de encontrar uma alternativa para a supercorrupção política no Planalto. Mas foram desmascarados. Só queriam salvar sua pele, mancomunados em objetivos a anos-luz do bem comum.

A primeira temporada, em preto e branco, tinha embasamento ideológico e apresentava o Doutor Cunha como um espião inimigo, que se revelou perigoso e imprevisível. Na segunda temporada, com ênfase na comédia, as aventuras tornam-se mais absurdas, recheadas de alienígenas birutas (não dá para citar todos aqui, o Congresso brasileiro é um dos maiores do mundo). E a série passa a ser em cores e ao vivo. Na temporada atual, os vilões se alternam no destaque. Não há previsão de fim. Todos podem ser destruídos, especialmente quem não embarcou na nave-mãe e está, hoje, na fila do seguro-desemprego, da escola ou do hospital.

Pressionada pelo Professor, Dilma age em favor de tripulantes que só querem saber de continuar a voar na primeira classe. A troca na poltrona premium da Educação é a mais grave. Sai o filósofo e professor universitário Renato Janine Ribeiro – aplaudido ao sentar ali há poucos meses – e entra quem? Aloizio Mercadante, o “quadro” de Dilma, um quadro desbotado, um economista que pouco fez pela Educação quando foi ministro da Pasta.

Em 2009, Mercadante afirmou, em discurso, que deixaria de ser líder do PT no Senado. Protestava contra o PT, por arquivar investigação da Comissão de Ética contra José Sarney. Após uma noite de conversa com o Professor Lula, voltou atrás. Tudo gogó. O “quadro Mercadante” pode ser pendurado em qualquer parede. Curioso é ele substituir Janine, que declarou ser “assustador” o nível da má alfabetização no Brasil. Mercadante é o terceiro ministro da Educação em dez meses. Leia de novo a última frase.

Outro expulso da nave foi o ministro da Saúde, Arthur Chioro, que cedeu seu assento ao PMDB (Partido Master da Dilma Bolada). O escolhido foi Marcelo Castro, do Piauí, cujo mérito na Saúde é ter como padrinho Leonardo Picciani, líder do PMDB na Câmara. O demitido, Chioro, teve, como Janine, seu momento de sincericídio dias antes. Afirmou que o SUS – Sistema Único de Saúde –, por falta de dinheiro, entrará em colapso em setembro de 2016.

Afinal, por que nos preocupamos com Educação e Saúde num país com tantos analfabetos e semianalfabetos, doentes desassistidos, hospitais em calamidade pública? Por quê? Se o grande timoneiro conseguiu colocar no comando da nave civil o baiano Jaques Wagner, para evitar pedaladas que derrubem a nave Brasília, não precisamos nos preocupar. Wagner sai do Ministério da Defesa para defender Dilma.

Ao menos, quem dá valor à Ciência e Tecnologia pode comemorar! Porque a poltrona, estratégica num país em desenvolvimento, será ocupada por um deputado pau-mandado do espião Cunha, Celso Pansera. Você conhece o Pansera. Lembra aquele episódio do seriado em que o doleiro delator Alberto Youssef acusa Pansera de ameaçar a ele e a sua família para obrigá-lo a calar a boca? Esse mesmo. Grande companheira Dilma.

Ela desperdiçou o esforço de cooptação, pois Cunha parece ter sido atingido pelas últimas denúncias. O “bastião da moralidade” da Câmara, que promove cultos evangélicos na nave Brasília, tem, segundo o Ministério Público da Suíça, US$ 5 milhões em contas bancárias no país europeu com a mulher, Cláudia Cruz, e uma das filhas. Em depoimento à CPI da Petrobras, em março, negou a conta.

O nariz das autoridades máximas no Brasil cresce na mesma proporção em que nosso queixo cai. De episódio em episódio, aumenta a sensação de que somos nós os perdidos no espaço e que o filme em exibição é um apanhado verídico de relatos selvagens. Em vez de rir ou chorar, é hora de agir e protestar.

quarta-feira, 30 de setembro de 2015



30 de setembro de 2015 | N° 18310 
MARTHA MEDEIROS

PODER E STATUS


Três anos atrás, fui a Brasília receber a Ordem do Mérito Cultural. Eram entre 30 e 40 agraciados de diversas regiões do país. Chegando ao hotel, soube da programação: a entrega da comenda seria na manhã seguinte, no Palácio do Planalto, e à tardinha haveria um coquetel no Palácio da Alvorada. Fomos avisados de que cada um de nós teria um carro com motorista à disposição enquanto estivéssemos na cidade.

O dia amanheceu. Enquanto me arrumava para a cerimônia, fui até a sacada do quarto e vi uma fila de sedans pretos enfileirados na porta do hotel. Desci até o lobby para juntar-me ao grupo. Então, em fila, fomos conduzidos cada um para um carro, e saímos em comitiva, todos ao mesmo tempo, para o mesmo local. Patético, pra dizer o mínimo.

Não estou depreciando a honraria concedida, da qual me orgulho muito, mas óbvio que tinha algo errado ali, como sempre teve.

Na Suécia, deputados moram de segunda a sexta em apartamentos funcionais de 40m2 com lavanderia comunitária. Não têm empregados. Seus gabinetes de trabalho possuem 18m2, sem secretária, assessor ou carro com motorista. O dinheiro do contribuinte não é usado para privilégios de qualquer espécie. Além do bom uso do dinheiro público, essa postura é um seletor natural: quem quer mordomia, que bata em outra vizinhança. Entra para a política apenas aquele que deseja servir ao país, e não ser servido por ele.

O papa Francisco, dias atrás, circulou por Washington a bordo de um automóvel compacto e popular, um gesto simples que ajudou a redefinir o que é poder. Todos nós merecemos eficiência e conforto. Buscar mais que isso não é crime, mas é uma necessidade supérflua. Moramos em apartamentos mais espaçosos do que de fato precisamos, contratamos funcionários para fazer o que poderíamos fazer nós mesmos e dirigimos veículos cuja potência a lei nem permite testar (qual a vantagem de um carro ir de 0 a 100 km/h em cinco segundos, a não ser que estejamos fugindo da polícia?).

Em nossa sociedade, a aparência reina. O bairro em que você mora, a marca do seu jeans, o hotel em que você se hospeda: além do benefício real (a qualidade) há o benefício agregado – o status. Tudo bem. Só que status e poder não são a mesma coisa.

Status é ranking. Costuma ser valorizado por quem verticaliza as relações. Não vejo problema em se proporcionar coisas belas, saborosas, requintadas. Se são pagas com o próprio suor, é um direito adquirido, mas não confere poder algum, apenas bem-estar privado.

O poder é horizontal. Poderoso é aquele que distribui, compartilha, multiplica. Que produz ideias, arte, soluções, e as torna úteis e benéficas para os outros. Que não passa a vida tentando preencher o próprio vazio.

Não precisamos que nossas coisas falem por nós, a não ser que nossos atos já não digam nada.

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