sábado, 14 de novembro de 2020


14 DE NOVEMBRO DE 2020
LEANDRO KARNAL

BALADA PELO QUE PASSA E PELO QUE FICA 

Houve amores e amigos fundamentais no passado. Havia aquele grupo ótimo com o qual você saía há alguns anos. Como ocorreu a mudança? Como a paixão virou indiferença e, por vezes, até raiva? Oswaldo Montenegro pede que a gente faça uma lista dos afetos de há 10 anos. "Onde você ainda se reconhece na foto passada ou no espelho de agora? Hoje é do jeito que achou que seria? Quantos amigos você jogou fora?"

Fernando Pessoa sugere uma atitude quando encontramos alguém que já foi importante e que hoje é menos ou nada. "Fiquemos, um perante o outro, como dois conhecidos desde a infância, que se amaram um pouco quando meninos e, embora na vida adulta sigam outras afeições, conservam nos caminhos da alma a memória de seu amor antigo e inútil." Sempre ouvirei essa poesia (escrita em prosa) escutando a voz de Maria Bethânia.

Alguns amigos estão inseridos em uma conjuntura profissional ou pessoal. Pertencem a uma temporalidade. Quebrado aquele momento, parte-se o vínculo cotidiano. Nos tempos do falecido Orkut, lembro-me vivamente, eu era acessado por pessoas que não via há 20 anos. "Leandro, que bom te reencontrar!" Falávamos, animados, daquela época. Perguntávamos sobre fulano. Ríamos do que era risível. Todos ficavam enternecidos quando havia a menção a um nome já levado deste mundo e que fazia parte da tropa. Surgiam mais alguns momentos de mensagens. Uma vez reencontrei um daqueles grupos. Só então todos percebiam que, se tínhamos passado 20 anos sem vida em conjunto, era porque já não importava aquele vínculo. Passado o vento da memória avivada, a chama não ressurgia, a cinza dominava. Éramos outros. O primeiro reencontro de um grupo querido foi o último.

O tempo devora tudo. Todo ardor arrefece. Paixões amornam. Votos são fustigados pela realidade. Os budistas insistem na impermanência de tudo. Santa Teresa reafirmava: "Só Deus basta!". Tudo parece destinado ao fim.

O pior não é apenas o prazo de validade incontornável de grupos e amigos que tivemos. Mais dramática é a luz de alerta que lança sobre os atuais. Se já houve pessoas de intimidade total que hoje estão distantes, o que impede que a pessoa a quem confio minha alma venha a virar uma desconhecida no quarteirão seguinte? Ter dito "eu te amo" e ter deixado de amar implica saber-se possuidor de todos os precedentes para a nova queda?

Algum distanciamento sobre a pretensão de eternidade é saudável para toda relação. Impede, ao menos, de cometer o desatino de tatuar o nome da amada no braço. O rio da mutação constante é uma regra do universo. Juntam-se Lavoisier e Heráclito. A mudança é cláusula pétrea do universo. Porém, como somos transgressores, criminosos constantes e altivos contra as disposições naturais, surge um espaço de exceção.

Por um acidente, descuido do fluxo da mutação ou capacidade de ressignificar tudo, temos amigos que atravessam as conjunturas. Há algumas relações, bem poucas, que estabelecem um vínculo permanente. A amizade transformou-se juntamente com tudo. Não trabalhamos mais juntos, estamos em lugares distantes, trocamos de esposas e de maridos, envelhecemos e, diante de nós, está ela ou ele, o amigo permanente. É um milagre, uma pérola rara, um esforço que combina vontade e algo de aleatório.

Há três ou quatro, talvez cinco desses seres na minha biografia Quase Todos Temos um Pequeno e Raro Punhado da Safra dos Amigos Vitalícios. São flores que continuaram vingando em ramagens que continham outros botões que não vingaram. São sobreviventes. Mais: hoje a relação está mais próxima do que antes. O vínculo contrariou o declínio e apontou para uma ascensão adiante. A idade é boa para as amizades. Deixamos de competir. Diminuíram ardores. Ficamos mais sensíveis. O tempo desacelerou. Alguns até aprendem a escutar. A confiança é uma conquista. O cadinho cronológico depura as impurezas. Nossas chatices incontornáveis viraram até um charme extra. A comunicação refinou-se e não precisa mais apenas de palavras. Os amigos se entendem com um leve erguer de sobrancelha, um discreto esgar de sorriso ou um único menear de cabeça.

Não tem jeito. Para obter a flor rara da amizade perene, você precisa cultivar também o campo do banal. Entre cada cem conhecidos, 20 ficarão mais íntimos. Cinco farão parte do "inner circle", do mais profundo da sua alma. Um, com sorte e esforço, chegará a você de verdade. Logo, como na parábola dos evangelhos, urge espalhar sementes. Diferentemente do semeador que vê sucesso no grão centuplicado, a seara dos amigos busca um único e raro germinar. Não se busca a semente que se multiplicará, porém a resposta especial e ímpar de uma planta que se insurge contra o tempo. Assim, entre o semeador e o broto raro, surge algo extraordinário. 

A mais curiosa das metamorfoses ainda é o fato de que eu sou o semeador de cada amigo verdadeiro meu e ele ou ela é o meu agricultor também. A amizade sincera é um caminho recíproco. Sou planta-semeador e flor-jardineiro. Cuido e sou cuidado, semeio e recebo água, existo com e para e cresço amparando-amparado. Esse é mistério único de uma luz rara como um cometa. E, como todos os cometas, podem dar voltas nas profundezas mais longínquas do éter sideral. Um dia ele voltará como se nunca houvesse partido. É preciso ter muita esperança e, pelo menos, um amigo assim.

LEANDRO KARNAL


14 DE NOVEMBRO DE 2020
CRÔNICA

O VAZIO que assombra a travessia

A iMpOssiBiliDADE DA DEspEDiDA é uM DOs AspEctOs MAis DifícEis DEstEs tEMpOs DifícEis DE pANDEMiA. EM pORtO AlEGRE Ou NO sOlO sAGRADO DA REGiãO cONflAGRADA DA juDEiA

"For death is not the end

And I?ll see you in my dreams."

Bruce Springsteen

Em Porto Alegre, ao lado do hospital onde estava meu amigo, há uma ponte. Sobre a ponte, o distraído que plantava palmeiras seguiu seu trabalho sem se dar conta que atravessava o riacho. Resultado: fez o que parecia impossível, e da aparente ilusão, uma realidade. É só olhar bem, acima da ponte em direção aos céus erguem-se majestosas palmeiras, abaixo, onde a inocente ignorância botânica e o senso estético adivinhariam raízes em igual proporção, o vazio. O vão livre, a magia e o mistério.

Há coisas que não se veem. Aprendizados demoram, e há malas que vem de trem. Houve um tempo em que ter um lenço branco, limpo, bem passado, era estar preparado para qualquer eventualidade no trajeto, do suor à lágrima, a esfoladura na queda, da proteção no assento empoeirado ao armistício na declaração de uma guerra.

Tenho usado máscaras, mas sinto falta de lenços. Especialmente à beira do cais.

O silêncio contrito daquele homem já é uma das imagens mais eloquentes no inventário que restará deste tempo de pandemia. A figura do jovem sentado no parapeito da janela de um hospital palestino na cidade de Hebrom, na Cisjordânia, correu o mundo. Numa zona conflagrada, não restou a possibilidade de qualquer outro sentimento que não o da empatia com o sofrimento do filho velando o sofrimento da mãe, internada no hospital sem poder receber visitas.

A mãe de Jihad Al-Suwaiti, de 30 anos, era uma senhora idosa e já vinha sofrendo de um câncer. Ela teve de ser internada no início de julho. A família foi impedida de entrar no hospital devido ao risco de contaminação pela covid-19. O filho a visitou todos os dias até a sua morte, no dia 16 daquele mês. Todos os dias, escalava as paredes externas do hospital até a janela do terceiro andar para acompanhá-la pelo lado de fora do quarto onde ela estava.

Situada na Judeia, Hebrom é a maior cidade da Cisjordânia e é considerada sagrada por judeus, cristãos e muçulmanos. Hebrom significa "confederação", no sentido de amizade, aliança. Palco de vários eventos históricos, é conhecida sobretudo pelos fatos ligados a Abraão.

Não muito longe do hospital onde Jihad ia visitar a mãe fica o Túmulo dos Patriarcas. Para os judeus, o lugar é chamado Me-arat Hamachpelah, em hebraico, o que significa "o túmulo das duplas sepulturas" e, segundo a tradição, lá estão enterrados casais bíblicos importantes. Em Gênesis 49: 29-31, acompanhamos a expressa recomendação de Jacó aos filhos no leito de morte: "Eu me congrego ao meu povo; sepultai-me com meus pais, na cova que está no campo de Efrom, o heteu". E ele argumenta: "Ali sepultaram a Abraão e a Sara sua mulher; ali sepultaram a Isaac e a Rebeca sua mulher; e ali eu sepultei a Léa". Os árabes o denominam Haram el Khalil, "o lugar sagrado do amigo (de Deus)", Abraão.

Kalil significa "amigo", "amigo chegado", "camarada honorável". A expressão é usada quando se fala de alguém muito estimado. Aquele a que me refiro no início da crônica era um destes; e também era esse o seu nome. Por conta de um tabelião, devem ter mudado para Calil, com C. O pai veio do Líbano, de terras próximas àquelas onde Jihad sentou-se à janela do hospital para ver sua mãe. Nas histórias desses Calil, a mesma ligação forte com o respeito ao umbilical cordão que nos une a um vínculo de identidade familiar, tribal, necessário também a um sentimento de pertencimento e transcendentalidade. Ao perguntar suas origens, a resposta é a mesma:

- De onde viemos?

Das montanhas, claro! Descendentes dos fenícios da cidade de Jounieh!

Para além da simbologia religiosa e histórica, ritos de passagem são importantes para a nutrição dos sentimentos da humanidade, uma questão de saúde. Este tempo gris não tem nos deixado exercer o sagrado direito a um adeus. Não consegui me despedir desse amigo. Nem do Henrique, o pai, nem do Chinês, da Simone e do Paulinho...

Mas, dentre tantas coisas que o amigo Calil me ensinou, aquela sua maneira de encerrar qualquer encontro. Presumo que tenha aprendido o bordão quando ainda em Santa Maria era conhecido por "Queijo", astro do basquete estadual. Antes de vir a Porto Alegre para exercer a medicina e encontrar a Gi. Provavelmente o ouvira em ondas radiofônicas imigradas da Argentina, entre tangos e chiados. Ele se despedia com um:

- Tchau. E gracias!

O agradecimento fazia-se de lenço branco; pode ser útil, garantia de não deixar nada para trás.

É preciso plantar palmeiras no trajeto e acreditar que crescerão, mas haverá no caminho uma ponte, uma passagem que se ergue sobre o mistério daquilo que não vemos. Que tenha razão o poeta, que a morte não é o fim e nos veremos em sonhos. Contudo, é bom estar preparado. Fica como mais uma lição:

- Amigo, tchau e gracias!

Médico e escritor - FERNANDO NEUBARTH


14 DE NOVEMBRO DE 2020
FABRO STEIBEL

FACEBOOK DO B 

A eleição norte-americana deu voz a uma nova rede social, o MeWe. O MeWe virou o segundo aplicativo mais baixado nos Estados Unidos, atraindo o público em busca de teorias de conspiração, fraude eleitoral e informação falsa sobre o "vírus chinês". O MeWe é o terceiro aplicativo que cresceu com essa demanda apenas em 2020. Falamos muito em regular as redes sociais para combater a desinformação, mas o que acontecerá se a "inovação" do futuro for pior do que o que temos hoje? Eis o desafio de pensar que o novo é sempre melhor.

Quanto mais estudamos as gigantes da tecnologia, mais compreendemos que elas tendem ao gigantismo. Ser grande ajuda. E, motivado por isso, países se dedicam a limitar esse crescimento desenfreado. Recentemente, a China restringiu a abertura de capital da gigante Ant; os Estados Unidos processaram o Google; a União Europeia chamou diversas conversas para regular as big techs. Só que o que entendemos com esse movimento é que o problema não é o tamanho, e sim a contribuição dessas empresas para com o interesse público.

Veja o caso dos partidos políticos. Há democracias que possuem dois partidos, como o Reino Unido, e outras que possuem partidos diversos, casos de Brasil e Itália. O que queremos dos partidos? Que sejam representativos dos anseios da população. O que não queremos? Que operem pela lógica de cartel, aumentando o próprio fundo eleitoral, criando limites para controle externo, sufocando a oxigenação das novas lideranças.

No Brasil, o PC do B nasceu de uma dissidência do Partido Comunista Brasileiro, a Aliança foi proposta recentemente com desistentes do PSL e o PSDB incluiu vários desertores do PMDB. Nos Estados Unidos, onde há dois partidos gigantes, há facções intrapartidárias, o que explica porque nem todo democrata apoia Joe Biden, e nem todo Republicano gosta de Donald Trump. O tamanho ou a origem dos partidos importa menos do que a contribuição que eles têm dado para o debate.

O mesmo vale para empresas de tecnologia. O que buscamos são formas de avançar no interesse público. Podemos regular investindo em infraestrutura, como a Austrália faz ao criar redes sociais com notícias verificadas, o Brasil, que lançou o Pix para pagamentos, e a Estônia, que oferece identidade digital gratuita para todos. Podemos ainda restringir a lógica de cartel e garantir que o uso de dados e outras vantagens competitivas possam ser compartilhados de modo saudável entre todos, como fazemos ao investir em processos de open banking.

O que devemos evitar é rotular que toda grande empresa é, por definição, ruim. É possível ficar pior que está. Uma nova rede social que promova desinformação é grave, um aplicativo de comida que sufoque pequenos negócios é péssimo, uma plataforma de logística que impeça o trabalho digno é desastroso. Eis onde deve recair nossa preocupação. Mas o gigantismo não é o problema, ele pode inclusive ser a solução. Tudo depende de qual é o problema a ser resolvido.

FABRO STEIBEL

14 DE NOVEMBRO DE 2020
JULIA DANTAS

AS PALAVRAS E SEUS SIGNIFICADOS 

Há uma cientista, Monica Gagliano, que espera provar que as plantas são capazes de aprender. Para isso, criou um mecanismo que provoca uma pequena queda em dezenas de vasos de Mimosa pudica, cujas folhas se fecham em resposta a ameaças. Ela mostrou que, após algumas quedas, as folhas param de se fechar, como se tivessem aprendido que aquilo não era um perigo.

A pesquisa foi muito mal recebida. Mas seus colegas botânicos não questionavam o método nem os resultados: eles criticavam o uso da palavra "aprendizagem" para falar de não animais. O melhor, segundo eles, seria dizer que as plantas são capazes de "habituação".

O debate pode parecer tolo para quem acha que não importam as palavras, só os fatos. Mas conceder que as plantas podem aprender nos confrontaria com questões maiores. O ponto é que talvez não queiramos acreditar que as plantas são seres complexos como nós.

Toda cultura se constrói não sobre fatos, mas sobre discursos. Uma constituição não é mais que um punhado de palavras para interferir na realidade, assim como uma sentença judicial.

Na mesma semana em que veio à tona o vídeo dos abusos verbais sofridos por Mariana Ferrer durante o julgamento de seu estuprador, foi noticiada a alteração de uma sentença no Estado de São Paulo. Trata-se do caso de um homem que havia sido condenado por estupro de vulnerável pelos atos que praticou contra a sobrinha de oito anos, mas um juiz trocou a condenação para "importunação sexual".

Essa mudança faz toda a diferença: passa-se da pena de reclusão de 18 anos para uma de um ano em regime aberto, substituindo a privação de liberdade pela prestação de serviços. A nova sentença descreve os atos e conclui que eles não são tão graves por não ter havido penetração. Eis o texto: "Fazer a vítima se sentar em seu colo e movimentá-la para cima a fim de se esfregar nela e apertar os seus seios por óbvio, não possuem tal gravidade".

Talvez não queiramos, como sociedade, acreditar que um tio seja capaz de estuprar a própria sobrinha de oito anos. Mas ele o fez, e outro homem considerou que é apenas uma importunação sexual, ou seja, o mesmo delito de quando alguém se masturba em público. Para certo segmento da Justiça brasileira, se um homem se masturba num parque ou se ele aperta o peito e esfrega a região genital no corpo de uma criança de oito anos, tanto faz.

Não vou generalizar. Sei bem o quanto há de pessoas no sistema judiciário que lutam por dignidade no tratamento a mulheres. Mas os casos de Mariana Ferrer e da menina de oito anos não são exceções. Estima-se que 90% dos crimes sexuais praticados no Brasil nem sejam denunciados.

Houve um amplo debate a respeito do termo "estupro culposo", que ganhou as redes, mas não consta nos autos do processo. Ele é revelador. Talvez queiramos, como sociedade, acreditar que, se um homem se aproveita de uma mulher inconsciente, isso é sexo, e não estupro. Mas não é. É só estupro mesmo. As palavras que usamos importam. Tanto Mariana Ferrer quanto a menina de oito anos sabem disso, e elas tomaram a palavra para contar suas histórias. O mínimo que nós devemos a elas é fazer coro aos seus gritos por justiça.

JULIA DANTAS

14 DE NOVEMBRO DE 2020
DRAUZIO VARELLA

A COVID-19 E O CORAÇÃO 

Os coronavírus fizeram fama por causar resfriados. O atual Sars-CoV-2, no entanto, além das vias aéreas superiores, agride outros órgãos, em especial os pulmões e o coração. Embora o coronavírus da Sars e da Mers possam provocar miocardites e outras anormalidades cardíacas, o Sars-CoV-2 o faz de maneira mais agressiva.

Descritas logo no início da pandemia, as complicações cardiológicas eram consideradas exclusivas dos casos mais graves, dos pacientes com insuficiência respiratória internados nas UTIs. Essa impressão mudou quando surgiram descrições de mortes súbitas e de arritmias cardíacas em jovens que haviam apresentado quadros de covid-19 assintomática ou com sintomas mínimos.

Para penetrar as células, o atual coronavírus utiliza o receptor ACE2, existente na membrana celular. Esse receptor está presente em diversos órgãos, entre eles o músculo cardíaco, tecido em que atinge concentrações elevadas. Em autópsias, o RNA do vírus é encontrado no fígado, rins, sistema nervoso e, em altas concentrações nos pulmões e no coração. Numa série de 22 autópsias, o RNA viral foi detectado no músculo cardíaco em 16 casos. Em outra, com 39 casos, 31% dos corações continham o RNA do vírus.

O coronavírus lesa as células do miocárdio (cardiomiócitos) por mecanismos diretos e indiretos. Ao infectar o cardiomiócito, por ação direta, ele provoca necrose celular, que leva à desorganização da maquinaria que coordena a contratilidade do músculo. Por mecanismo indireto, a resposta do sistema imunológico armada para destruir o agressor dispara um processo pró-inflamatório que envolve glóbulos brancos e plaquetas, com liberação de citocinas.

Dessa forma, montada com a melhor das intenções, a resposta imunológica se volta contra o hospedeiro, aumentando a propensão para a formar coágulos, que poderão obstruir capilares e os grandes vasos, fenômeno que explica os infartos do miocárdio e acidentes vasculares cerebrais (AVCs) nos mais velhos, mas também em jovens.

A miocardite (inflamação difusa do miocárdio) pode bloquear a condução do estímulo elétrico, causar infarto e, eventualmente, morte súbita, mesmo em jovens. Na Lombardia, esse quadro foi responsável pelo aumento de 77% das mortes súbitas. Alterações cardíacas são detectadas em cerca de 20% dos pacientes hospitalizados, sem cardiopatias prévias, e em 50% dos que já as apresentavam. Os principais sintomas do comprometimento cardíaco são: fadiga, falta de ar aos esforços, alterações do ritmo das pulsações e dor no peito que simula infarto.

Chamam especial atenção os casos do jogador de basquete profissional, de 27 anos, que teve morte súbita num treino, depois de curado de uma covid quase assintomática, e o de quatro episódios de miocardite entre 26 atletas da Universidade de Ohio, que tiveram covid com poucos ou nenhum sintoma. Os mais jovens que se aglomeram nos bares, nas praias e nas festas, sem usar máscara, acham que nada lhes acontecerá se pegarem o vírus, imaginam que a juventude é salvo conduto. Santa ignorância.

DRAUZIO VARELLA

14 DE NOVEMBRO DE 2020
BRUNA LOMBARDI

QUEM NÃO CONCORDA TÁ ERRADO 

Você é dos que acham que existem dois tipos de pessoas no mundo, as que concordam com você e as que estão completamente erradas?

Quando se vive de certezas absolutas, fica difícil escutar o que o outro tem a dizer. Fica impossível mudar de ideia, fica completamente fora de questão reconhecer que se está errado e dar razão pro outro. E por aí vão os mais variados tipos de comportamentos, que convergem e se resumem a um só: eu estou certo e qualquer um que não concordar comigo está errado e ponto final.

Quando somos inflexíveis, tudo dentro de nós endurece e se torna rígido. Por mais que você acredite que só você tem a verdade, saiba que a razão aprisiona também.

Todo fluxo de energia vital dentro do seu organismo se altera com esse tipo de atitude. Você não deixa a energia fluir. Você perde a visão abrangente dos fatos e fica estagnado, imutável. Você impede que sua mente absorva novas ideias, influências, informações.

O bloqueio que você criou é uma muralha, uma fortaleza dentro de você, e ninguém pode transpassar. Você automaticamente se desconecta de quem discorda de você e ignora tudo o que difere de sua convicção. Você destrói as pontes que conectam e constrói muros que separam. E as muralhas se fecham em volta de você e formam as grades da sua própria prisão.

O seu maior algoz é o seu próprio ego, o orgulho que o impede de quebrar essas paredes e se libertar.

Alguém inflexível não é capaz de se adaptar. Não consegue lidar com mudanças, imprevistos e nada que questione o que ele defende. Essa rigidez e intolerância são pesos que impossibilitam o avanço, a evolução.

Muita gente age assim por uma falsa ideia de segurança. Por repetir comportamentos sem repensar, argumentos sem rever novos valores. Pelo medo de perder o controle das coisas. Mas nenhum de nós está no controle de nada. E esses tempos estão nos mostrando isso com muita clareza.

Só a flexibilidade traz leveza, como o bambu, que não quebra com a ventania. Quem melhor se adapta é quem melhor sobrevive.

Brigar com a vida é criar permanente antagonismo e conflito. Certezas absolutas irremovíveis criam polarizações, ódios acirrados e nos colocam uns contra os outros. Esse mecanismo acontece em qualquer escala. Entre países, ideologias, religiões, torcidas, famílias, amigos e até mesmo entre um casal. É a raiz de todas as brigas e de todos os rompimentos.

Desde criança, quando via uma briga ou discussão acalorada, eu imaginava uma cena assim: num estalo de dedos, as duas pessoas paravam e durante 10 minutos trocavam de papeis. Uma teria que defender com a mesma veemência o que a outra vinha defendendo e vice-versa. Durante uma pequena trégua, elas tinham que trocar de pontos de vista. A verdade absoluta de uma passaria a ser a verdade absoluta da outra.

E somente assim, nessa troca de posicionamento, uma poderia entender profundamente a outra. Lembro que cheguei a sugerir isso para os meus pais, que continuaram brigando, sem dar a menor importância à minha solução.

Hoje ainda acho que seria útil. Difícil é conseguir convencer o outro. E quem não concordar tá errado.

BRUNA LOMBARDI

14 DE NOVEMBRO DE 2020
J.J. CAMARGO

DEPOIS DO FIM DO MEDO

Tenho um certo fascínio por este sentimento: o medo. Muito porque convivo com ele todos os dias, confortando pessoas que já perderam o pudor de confessar o medo que sentem - e eu mesmo temendo não conseguir, de fato, ajudá-los.

Mas também porque poucos sentimentos são tão poderosos no mister de transformar as suas vítimas, seja pela submissão ou pela vingança.

Um dos textos mais pungentes na descrição do medo está em Memórias do Esquecimento, em que o maravilhoso Flávio Tavares relata, com uma crueza que nem imaginávamos, a experiência dolorosa de ser torturado e resistir, e ser outra ver exposto à ameaça, à humilhação e à vilania, e a mais sofrimento, e à perda da fé, e ao fim da esperança, e de repente a descoberta de que é possível virar o fio do medo. E perceber, com irresignação, que nada mais poderá intimidá-lo. E entender que a maior vingança dispensa o revide da agressão física e se basta na atitude desapegada de quem não teme mais coisa nenhuma. E nada assusta mais o torturador do que o torturado não sentir medo, porque, reconhecidamente, o núcleo da psicopatia do torturador é a covardia.

Afora essa situação excepcional, produzida pela fusão de maldade com sadismo, há ao longo da vida inúmeras provações que parecem testar a nossa capacidade de resignação ou revolta, diante de circunstâncias cruéis e desafiadoras. É assim na doença grave, nos lutos inesperados e nos amores estilhaçados.

Por absoluta falta de alternativas, estamos sempre sendo testados na definição dos nossos limites de coragem e resiliência. A nossa reação é que costuma ser muito heterogênea e imprevisível. Alguns guardam o choro e lutam, outros se submetem à dor e choram de pena deles mesmos.

Curiosamente, o comportamento da sociedade diante do sofrimento coletivo, como numa pandemia, tende a seguir uma sequência de atitudes que se repetiram em todas as grandes catástrofes que assolaram a humanidades ao longo dos séculos. Depois de um período inicial de negação típica, instala-se uma onda crescente de temor coletivo, em grande parte insuflada pelos donos da comunicação que percebem, como ninguém, o quanto é submissa uma população de covardes receosos. O medo paralisa a sua vítima e a coloca numa prisão virtual, em que o homem assustado guarda, com máximo desvelo, a chave do próprio cárcere.

Mas o algoz sabe, ou devia saber, que este poder macabro é efêmero, e que inevitavelmente chegará o momento da saturação do medo, e então amanhece um tempo de libertação, e sem que ninguém identifique quem deu início, começa a disseminar uma alaúza de destemor, inicialmente recatada e depois assumida e estridente.

Sem dúvida, esta sequência comportamental, em que nos subjugamos até o limite do insuportável, é a mesma que determina a revolta irreprimível que assinala a curva do fim do medo, embota os sensores da prudência e liberta os demônios da ousadia.

Talvez essa atitude libertária da juventude, superlotando bares em aglomerações desprotegidas, não seja só irresponsabilidade e insensatez, mas expresse o sentimento, não necessariamente consciente, de fadiga da repressão. E então desaguamos num paradoxo: quem tem mais tempo por viver é quem menos tolera esperar por vivê-lo. De qualquer modo, dessa legião de empolgados audaciosos, devem estar excluídos os jovens asmáticos e obesos. Além, claro, daqueles que precisem cuidar dos seus amados avós, esses velhinhos fofos que gostariam de um tempinho extra, só para amá-los um pouco mais.

J.J. CAMARGO

14 DE NOVEMBRO DE 2020
DAVID COIMBRA

O primeiro voto a gente nunca esquece 

Meu primeiro voto, eu o dei em 1982. Desde 1965 não havia eleição para governador, então aquele evento parecia de uma relevância única, parecia que mudaria em definitivo a nossa vida. Era lindo ter essa impressão de que estávamos transformando o Brasil. Lembro até hoje da sensação de importância que nos tomava quando discutíamos as candidaturas e seu significado e tudo mais. Eu já estudava na Famecos e já trabalhava como jornalista, na assessoria de imprensa da Livraria Sulina. Ou seja: tinha boa consciência do que estava acontecendo e ficava feliz por participar de algo tão grandioso.

Os candidatos a governador eram quatro: Jair Soares, do PDS; Pedro Simon, do PMDB; Alceu Collares, do PDT; Olívio Dutra, do PT. Curiosamente, todos eles acabaram tornando-se governadores nos anos seguintes.

Em quem deveríamos votar? Era só no que falávamos. Nós tínhamos um grupo anarquista, na faculdade. Líamos Bakunin, Proudhon, Tolstoi e Malatesta, tecíamos grandes teses, atravessávamos a PUC em direção à Bento e nos aboletávamos nos bancos de madeira do Maza. Pedíamos cerveja e churrasquinho. E fazíamos planos para salvar o Brasil. Muito salvei o Brasil, nos bancos do Maza.

Nesses saraus, debatíamos, também, a melhor estratégia a adotar na eleição. Não queríamos que vencessem os candidatos do partido que apoiava a ditadura, o PDS. O problema é que não existia segundo turno. Quer dizer: mesmo que os outros três juntos ganhassem mais votos do que Jair Soares, ele poderia se eleger. Pois foi o que aconteceu. Jair teve cerca de 21 mil votos a mais do que o segundo colocado, Simon. Se metade dos votos do último colocado, Olívio, fosse para Simon, ele teria sido eleito. E Olívio fizera apenas 1,5% da votação... A divisão dos partidos de oposição à ditadura deu a vitória à ditadura.

Para nós, foi uma frustração. Ficamos arrasados. O Mal vencera de novo. Decidimos que a única coisa sensata a fazer era ir para o Maza, beber e reclamar do Brasil. Foi o que fizemos. Nossa intenção era nos queixarmos do Brasil até de manhã, mas aí as gurias da aula foram chegando e a noite ficou mais leve e colorida e nós nos esquecemos do Brasil.

Mas o que sempre lembro quando chega o dia de uma eleição, como a deste fim de semana, é do exato instante em que votei, em 1982. Era preciso escrever na cédula, o processo ainda não era eletrônico. E se votava para vereador, deputado estadual, deputado federal e senador, além de governador. Bastante complexo.

Recordo da emoção orgulhosa com que caminhei até a minha seção eleitoral, o coração batendo forte no peito. Recordo da solenidade com que entrei na chamada "cabine indevassável". Recordo que tremi ao tomar a caneta esferográfica com a qual daria o meu primeiro voto.

Sim, eu tremi.

Fiquei surpreso com isso, na época, e fico ainda hoje. Afinal, eu já tinha 20 anos de idade, não era mais um adolescente. Já trabalhava, já ganhava meu salário, já namorava, já lia os clássicos, já fazia planos. E, mesmo assim, senti a mão trêmula ao escrever o nome dos meus candidatos. "Que bobo!", pensei então. "Que bobo!", penso agora.

Mas, admito, queria poder sentir de novo aquele frêmito na hora de votar. Queria me deixar embalar pela ilusão de que o Brasil evolui a cada eleição. Tristemente, não é assim que me sinto. Sinto até certo cansaço com tudo o que ouço e vejo na política. Talvez esteja desanimado, o que é ruim. Talvez tenha me tornado cínico, o que é pior. Ou talvez esteja apenas ficando velho, o que é inevitável.

DAVID COIMBRA

14 DE NOVEMBRO DE 2020
ARTIGOS - Presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE)

POR UM PAÍS MELHOR E MAIOR

Neste domingo se realiza o primeiro turno das eleições municipais de 2020. Em nome do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), venho convocar todos os eleitores a comparecerem às urnas, bem como prestar contas de tudo o que foi feito para dar segurança a mesários, eleitores e colaboradores da Justiça Eleitoral, diante do quadro da pandemia da covid-19.

Desde o início de maio, constituímos uma comissão médica, composta por sanitaristas, infectologistas e epidemiologistas para monitorar a evolução da doença. A comissão concluiu ser importante adiar as eleições por algumas semanas, fundada na crença - que veio a se confirmar - de que haveria uma queda expressiva no número de casos a partir do final de setembro. Com essa informação, reuni-me com os presidentes do Senado Federal e da Câmara dos Deputados, que também se convenceram da importância de se passar a data das eleições para mais adiante.

Em tempo recorde, o Congresso Nacional aprovou emenda constitucional transferindo o primeiro turno para 15 de novembro e o segundo turno para 29 de novembro. A partir daí, a preocupação maior passou a ser a conciliação entre a realização das eleições, rito essencial da democracia, e a proteção da saúde pública. Uma comissão de estatísticos, integrada por servidores do TSE e pesquisadores do Impa, do Insper, da USP e da Fiocruz concluiu pela conveniência de se estender o horário das eleições em uma hora. De modo que neste ano ele irá das 7h às 17h. Além disso, foi reservado o horário das 7h às 10h para votação preferencial dos que têm mais de 60 anos.

O passo seguinte foi instituir uma consultoria sanitária, composta pela Fiocruz e pelos hospitais Sírio Libanês e Albert Einstein para elaborar um plano de segurança sanitária. Fizemos reuniões nos meses de julho e agosto e um minucioso conjunto de protocolos e procedimentos foi estabelecido. A consultoria recomendou, ainda, a compra de uma grande quantidade de materiais e equipamentos de segurança, que incluíram 9 milhões de máscaras, 2 milhões de protetores faciais (face shields) e 2 milhões de frascos individuais de álcool gel, para proteção dos mesários. Para a proteção dos eleitores, indicaram a aquisição de 1 milhão de litros de álcool gel, para limparem as mãos na entrada e na saída da seção eleitoral, bem como marcadores de chão para distanciamento social e 500 mil canetas. 

LUÍS ROBERTO BARROSO

14 DE NOVEMBRO DE 2020
FLÁVIO TAVARES

OS MARICAS 

O dia a dia do Brasil prescinde de interpretações ou análises. Bastam as palavras dos governantes para temer o pior, que é entrar no reino da estupidez.

Ou não é estúpido festejar a morte de um voluntário que testou (em São Paulo) a vacina da covid-19? E, ainda, apontá-la como "mais uma que o Jair Bolsonaro ganha". Assim disse textualmente o presidente da República, falando de si mesmo e desdenhando o encontro de vacina contra a nova peste.

A ciência médica não tem autor nem nacionalidade, mas o presidente chama de "vacina do Doria" a imunização vinda da China e testada em São Paulo. Foi além e inventou que provoca "morte, invalidez e anomalia" só porque um dos voluntários paulistanos dos testes se suicidou. Em seguida, a Anvisa mandou suspender os testes realizados pelo respeitado Instituto Butantan, como se a vacina provocasse o suicídio.

Imitando soturno mensageiro do apocalipse, em cena vista na TV, o presidente voltou a clamar que "todo mundo morrerá um dia" e, num ímpeto de machismo explícito soltou a pérola: "Temos que deixar de ser um país de maricas".

O termo "maricas" pode estar fora de uso para definir jeito efeminado, mas continua impróprio a um chefe de Estado. Será "maricas", porém, o povo brasileiro?

Esse palavrório rude pode agradar ao chamado povão, que se expressa assim por ignorância, mas sem ter as responsabilidades do presidente.

O "país de maricas", porém, agora ameaça explodir os EUA, maior potência militar e econômica do mundo. Inconformado com a derrota eleitoral de Trump, Bolsonaro voltou a criticar o vitorioso Biden e o acusou de "intromissão" por ter oferecido (ainda candidato) investir US$ 20 bilhões para o Brasil não destruir a floresta amazônica.

"Quando acaba a saliva, tem que ter pólvora", afirmou Bolsonaro em público e indagou ao ministro do Exterior com um "né?" de aprovação: "Guerra com diplomacia não dá, né?", disse ele. Jamais houve declaração de guerra em represália a ajuda oferecida.

Para agravar a confusão, o ministro da Economia, Paulo Guedes, tal qual cartomante, previu que o Brasil "pode ir rápido para uma hiperinflação se não rolar a dívida pública de imediato".

Com isso, abriu portas à especulação financeira, um dos fatores inflacionários sobrepostos à dívida. Não expôs, porém, nenhum plano de ação contra o horror anunciado. Portou-se como mero analista do mercado financeiro, não como ministro investido de mando para evitar desastres.

Seremos, mesmo, um país de maricas?

FLÁVIO TAVARES

14 DE NOVEMBRO DE 2020
ELEIÇÕES 2020

Grupo RBS terá cobertura eleitoral em tempo real

Os veículos do Grupo RBS terão programação especial durante o primeiro turno das eleições municipais, que ocorre neste domingo. Com foco na cobertura em tempo real, GZH, Rádio Gaúcha e RBS TV contarão com conteúdos para manter os gaúchos informados durante o pleito, marcado por mudança de rotina e protocolos sanitários impostos pela pandemia de coronavírus.

Ao longo do dia, leitores, ouvintes e telespectadores terão acesso a informações sobre serviços, a movimentação antes da eleição, durante a votação e após o fim da apuração, mostrando toda a repercussão dos resultados. Confira a seguir os detalhes da cobertura.

Programação GZH

A cobertura de GZH, que já começa na véspera da eleição, será focada em conteúdos de serviço, na movimentação nas ruas e das campanhas, no resultado e em análises. A partir das 6h de domingo, o site disponibilizará conteúdo ao vivo, registrando a movimentação das ruas, as atividades dos candidatos e informações sobre a apuração. Repórteres acompanharão o pleito em Porto Alegre, na Região Metropolitana, em Pelotas, na Zona Sul, em Caxias do Sul, na Serra, e em Santa Maria, na Região Central

Leitores terão acesso a matérias de serviço, como "o que levar para votar" e "os cuidados a tomar no processo", divulgação dos números do candidatos de Porto Alegre e sobre como acompanhar a apuração. Também poderão contar as suas experiências durante a votação em um formulário que será monitorado pela reportagem durante todo o dia

Com o fim da votação e o início da apuração, a partir das 17h, a cobertura da Rádio Gaúcha passará a contar com reforço de imagens. Lives com apresentadores e comentaristas, no estúdio ou em casa, registros das atividades nas ruas e nos comitês estarão entre os conteúdos multimídia de GZH. Nessa etapa, o ao vivo de GZH também contará com conteúdos específicos sobre os resultados da eleição no Estado e no país, além de análises dos colunistas

Na segunda-feira, newsletter resumindo os resultados será enviada

Rádio Gaúcha

A cobertura da emissora começa à 0h de domingo, com programação ao vivo com foco total nas eleições. Equipes vão acompanhar o pleito em Porto Alegre, Santa Maria, Pelotas, Caxias do Sul e região. São Paulo, maior capital do país, e Brasília, capital federal, também contarão com a presença da reportagem da Gaúcha

Equipes da RBS TV no interior do Estado também vão atuar de forma integrada, entrando na programação da rádio com informações locais

Neste ano, a Rádio Gaúcha não levará o estúdio móvel para locais de votação, como tradicionalmente ocorre na cobertura de eleição. A medida visa a não gerar aglomeração e garantir respeito aos cuidados com funcionários e ouvintes na pandemia

A partir das 17h, a emissora acompanha em tempo real a apuração dos votos que indicará os vencedores e os candidatos que irão para o segundo turno da disputa nos municípios com essa possibilidade

RBS TV

A partir das 7h, a emissora inicia a cobertura da abertura das seções eleitorais. A programação ao longo do dia contará com flashes ancorados pelas apresentadoras Simone Lazzari e Carla Fachim

Repórteres espalhados em 17 municípios gaúchos também mostram como está a votação em todas as regiões do Estado

Após o período de votação, às 17h, a RBS TV começa a acompanhar a apuração no Estado em tempo real pelo G1 RS e em flashes apresentados por Elói Zorzetto durante toda a programação do Fantástico. Após o Fantástico, o apresentador também comanda um programa especial com os principais resultados do pleito no Estado. A atração também contará com análise da jornalista e colunista de política Rosane de Oliveira, além de mostrar a festa dos eleitos e o cenário nas cidades em que haverá segundo turno na disputa pelo comando da prefeitura

Valter Nagelstein (PSD)

Está terminando a linha para o Lami às 19h15min. As pessoas não têm sequer transporte.

De acordo com a Empresa Pública de Transporte e Circulação (EPTC), a linha 267.7 (Lami, via Beco da Vitória, atendida pela Carris) vai até as 23h23min em dias úteis.

De fato, uma das linhas de ônibus que chegam ao Lami, a 267.1 (Lami/Varejão via Edgar Pires de Castro), tem 19h15min como último horário no sentido Centro-bairro em dias úteis. Mas, depois de determinado horário, a Carris passa a operar algumas linhas que eram de responsabilidade dos consórcios privados - entre elas, a 267.7, que leva ao Lami. Conforme a EPTC, o horário e a localização em tempo real dos ônibus podem ser consultados na função GPS do app TRI POA ou nas tabelas disponíveis no site da EPTC.

sebastião melo (MDB)

Nelson Marchezan (PSDB)

Só quero lembrar que o atual governo tirou a segunda passagem de todas as trabalhadoras desta cidade e dos trabalhadores.

Já tivemos os dados do Caged de demissões, e eles não são analisados sozinhos, mas nós já tivemos este mês muito mais admissões do que demissões

Melo parece se referir à segunda passagem gratuita para trabalhadores. Em julho de 2017, Marchezan determinou o fim da gratuidade na segunda viagem para vale-transporte e passe antecipado, e os usuários passaram a pagar 50% do valor da passagem. Apenas estudantes seguiram tendo direito ao benefício. Os demais usuários começaram a pagar metade do valor da passagem integral na segunda viagem. Na época, a prefeitura justificou que essa era a isenção que mais pesava no reajuste da tarifa, o que corresponderia a R$ 0,51 da tarifa de 2017.

A questão vinha sendo contestada na Justiça desde então, mas no final de 2019 a ação foi julgada improcedente e não cabem mais recursos.

Os dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), que revelam a diferença entre o número de contratações e dispensas de trabalhadores sob o regime da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), indicam que Porto Alegre registrou pela primeira vez mais admissões do que demissões desde o começo da pandemia.

Embora o candidato tenha se referido a este mês, na verdade o dado mais recente disponível é de setembro e foi divulgado em outubro. Mas a análise está correta: em setembro, pela primeira vez desde a chegada da covid-19 (ocorrida em março), a Capital criou postos de trabalho. Foram geradas 2.283 vagas - resultado de 14.884 admissões e de 12.601 demissões no período. O saldo acumulado de janeiro a setembro ainda é negativo. A conta total do ano registra até o momento 25.625 mais dispensas do que contratações. Assim, embora de fato o dado mais recente do Caged indique uma reversão de tendência, ainda será preciso manter a abertura de vagas por mais tempo para compensar as perdas provocadas principalmente em razão da pandemia.

 


14 DE NOVEMBRO DE 2020
MARCELO RECH

Antipropaganda eleitoral

No meu primeiro trabalho remunerado, na Central RBS de Eleições de 1978, eu era pano de fundo. Ficava no fundão do cenário da TV, em mesões nos quais universitários atendiam às ligações telefônicas que chegavam dos locais de apuração manual dos votos. Nosso trabalho era anotar, seção por seção, o número de votos para cada candidato. As planilhas eram então repassadas a digitadores que alimentavam “um poderoso computador” que ia totalizando, a conta-gotas, a eleição.

Nas pontas, centenas de colegas recolhiam os números nas mesas de apuração e corriam para transmitir por linhas telefônicas exclusivas o resultado de cada urna, de preferência antes do concorrente. Em pleno novembro, suava-se em bicas em ginásios sem ventilação, as cédulas grudando no suor. Fiscais de partidos brigavam por votos de identificação duvidosa e, em cochilos de juízes nos grotões do Brasil, fraudavam-se urnas desbragadamente.

Os apresentadores de rádio e TV se esmeravam no suspense: “Mais 10 urnas de Ijuí!”, “Apurados 7% dos votos da 111ª Zona Eleitoral!”. E assim íamos nós, dia após dia, noite após noite, semana adentro. A operação toda era de uma complexidade monumental. Décadas depois, eu coordenaria uma série de coberturas eleitorais, mas nada se compara ao planejamento ou desgaste físico e emocional de meus antecessores.

Corta para 2020. O Brasil olha para a apuração das eleições nos EUA, faz tsc, tsc e se pergunta como aqueles povos primitivos ainda não descobriram as virtudes da urna eletrônica. Outros 35 países já a adotaram também.

Não temos Prêmio Nobel nem Oscar, mas – além do pioneirismo do carro a álcool e da declaração do Imposto de Renda por computador – a urna eletrônica em um país continental é um dos poucos cartões de visita da inventividade brasileira.

Pois não é que o presidente do Brasil, a quem caberia propalar o sistema que registrou sua eleição e de seus familiares nas últimas duas décadas e meia, acabou por  se tornar garoto-antipropaganda de uma rara conquista verde-amarela? Podíamos estar vendendo a tecnologia para outros países (a Indonésia pretende usar modelo semelhante ao do Brasil apenas em 2024), mas não: Jair Bolsonaro marcha na mesma senda aberta por Leonel Brizola, que foi um adversário de peso da urna eletrônica.

O sistema brasileiro não é barato, mas se paga a cada crise institucional evitada. Retomar o voto impresso, além de aumentar custos, seria uma concessão às nunca provadas teorias conspiratórias de Bolsonaro, Brizola e outros com dificuldades de aceitação da segurança da urna ou com saudade de suar em ginásios abafados.

Em vez de retroceder, o Brasil deveria era pisar fundo na biometria iniciada com o título de eleitor eletrônico. Por que não estendê-la de uma vez para toda a vida burocrática dos brasileiros? Com a biometria única, fraudes como a do auxílio emergencial seriam coisa do passado – como a nada saudosa contagem manual dos votos.

MARCELO RECH

14 DE NOVEMBRO DE 2020
CARTA DA EDITORA

Cobertura completa 

Ao longo da campanha eleitoral, a Redação Integrada de ZH, GZH, Rádio Gaúcha e Diário Gaúcho preparou conteúdos que pudessem ajudar o eleitor a entender os problemas da cidade e a conhecer e escolher seus candidatos a prefeito e a vereador. Fizemos entrevistas exclusivas e reportagens sobre a vida dos concorrentes fora da política, instamos os candidatos a se posicionarem sobre temas do cotidiano da cidade. Realizamos até um amigo-secreto virtual entre eles. Apesar de um ano marcado pelas restrições, a Rádio Gaúcha realizou dois debates inéditos no Brasil, ambos em formato drive-in, que garantiram a segurança sanitária de todos.

E neste domingo não será diferente. Antes mesmo da abertura das urnas, nossas equipes estarão circulando pelas principais seções eleitorais e registrarão o voto dos principais candidatos a prefeito. Todos os concorrentes à prefeitura da Capital darão entrevistas durante o dia para Gaúcha e GZH.

O gerente de Jornalismo Jornais e Rádios da RBS, Nilson Vargas, fala um pouco deste domingo que preparamos para nosso público:

- Informação em tempo real, informação detalhada, análise. O que se espera de uma cobertura como a de uma eleição está disponível nos veículos que têm a assinatura da Redação Integrada. A pandemia trouxe desafios adicionais, mas estamos focados em oferecer a cobertura mais completa ao nosso público.

A cobertura se intensifica a partir das 17h, quando se fecham as urnas e começa a apuração dos votos em cada município. Nosso time de apresentadores e comentaristas irá destrinchar os resultados, analisando vitórias e derrotas.

- A reportagem da Gaúcha estará espalhada pelo Estado e, na hora da apuração, traremos os dados em tempo real, com composição das Câmaras de Vereadores e prefeituras dos municípios do Rio Grande do Sul e das principais cidades do país - explica Andressa Xavier, editora-chefe da Rádio Gaúcha.

Em GZH, a gerente de Produto Digital, Debora Pradella, resume o que nossos assinantes encontrarão:

- Vamos entregar muito conteúdo de serviço e uma cobertura em tempo real do domingo de eleições para quem quiser estar informado ao longo do dia. A partir das 17h, teremos uma transmissão em vídeo para acompanhar toda a apuração dos votos, com informação da Gaúcha, análise dos nossos comentaristas e giros pelos comitês de campanha.

Na segunda-feira, ZH trará em suas páginas as análises de seus colunistas, infográficos com os principais resultados no RS e no país, as primeiras declarações dos vencedores, as surpresas das urnas e as novas composições nas maiores Câmaras de Vereadores gaúchas.

E, por fim, o mais importante: que a eleição ocorra dentro da normalidade para que cada eleitor possa exercer a sua cidadania.

DIONE KUHN

segunda-feira, 9 de novembro de 2020


07 DE NOVEMBRO DE 2020
J.R.GUZZO

Quem perde nos EUA

Se as mesas diretoras da Câmara dos Deputados e do Senado, o plenário do Supremo, o comitê central da OAB e todo os outros que você conhece decidirem um dia promover para o chamado “estado da arte” as chances de fraude nas eleições brasileiras, é bem provável que nos soquem em cima alguma coisa muito parecida com o sistema eleitoral norte-americano. 

O ministro do STF e atual presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Luís Roberto Barroso, foi para os Estados Unidos, como se informou, para nos dar suas luzes na condição oficial de “observador do Brasil” na eleição presidencial americana. A pergunta, em condições normais, seria: observar o quê? Mais: observar para quê? E se ele não gostar de alguma coisa? Será que o STF vai baixar uma liminar pedindo intervenção das Nações Unidas ou coisa parecida? Mas, nas condições reais de temperatura e pressão do presente momento, a questão é outra.

O mais importante, para o bem-estar de todos, é que a viagem do ministro seja apenas aquilo que parece ser: um passeio de luxo aos Estados Unidos, pago com o seu dinheiro. Tomara. O perigo é que lhe venha a ideia, a ser compartilhada com o resto da turma, de melhorar os teores de qualidade da eleição presidencial no Brasil, fazendo por aqui o mesmo que se faz por lá.

A disputa eleitoral entre Donald Trump e Joseph Biden foi na terça-feira (3), mas 48 horas depois ainda não dava para dizer com certeza quem havia ganhado, mesmo porque nos Estados Unidos quem ganha a eleição para presidente da República não é necessariamente quem teve mais votos. O sujeito pode votar depois de encerrado o horário da votação, ou na véspera, ou no dia seguinte. Pode votar pelo correio, por e-mail ou num candidato que já morreu – no caso da eleição para Câmara e Senado, como efetivamente aconteceu, aliás.

Cada Estado americano tem o seu próprio sistema de apuração, os seus prazos, as suas regras, os seus burocratas, a sua lei. Já imaginaram um negócio desses no Brasil? É nessas horas que a gente aprecia um bom TSE; não precisava gastar R$ 9 bilhões por ano, é claro, mas pior que o sistema dos Estados Unidos certamente não é.

No fim das contas, Biden teve mais votos, mas Trump foi para o tapetão, reclamando de fraude; os votos “não presenciais”, como se diz hoje, que são contados segundo os humores de quem controla a máquina da apuração, foram maciçamente a favor do seu adversário. É o tipo de discussão que tem tudo para não acabar nunca. Muito já se comentou sobre o quanto o Brasil teria a perder com a vitória de um ou de outro – especialmente de Biden, mais um declarado “ativista” contra a “destruição da floresta amazônica”, o genocídio dos índios e mais do mesmo. Mas quem realmente está perdendo não é o Brasil, nem a Cochinchina. São os próprios Estados Unidos.

J.R. GUZZO*

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