sábado, 1 de outubro de 2022


01 DE OUTUBRO DE 2022
MARTHA MEDEIROS

Que país é este?

Tem que ter algo por trás. Não é possível que, diante de tanta vulgaridade e retrocesso, alguém ainda queira manter a situação como está. Não cola mais o argumento de rejeição ao PT, pois mesmo o partido tendo cometido erros no passado, e erros graves, ainda assim tem um histórico de conquistas sociais e de respeito à democracia. 

Na comparação, é a opção que melhor atende as necessidades que o país tem hoje de atrair investimentos estrangeiros, colocar nos ministérios pessoas bem-preparadas e estabelecer um amplo diálogo com a sociedade, através das alianças feitas. Se não é rejeição ao PT, seremos medíocres por natureza, então? Tenho o povo brasileiro em melhor conta. Medíocres, não. Medrosos, é possível.

A repressão sempre nos foi mais familiar do que a liberdade. A escravidão. A religião. O militarismo. Tem gente que ganha a chave de casa, mas não consegue abandonar seu lugar de obediência. Prefere se aprisionar ao que conhece, mesmo que seja algo opressor. Agarra-se à falsa sensação de que existe alguém cuidando de nós, basta que sejamos bonzinhos.

Não querem saber de "invenção de moda", que é como designam as mudanças que o tempo, inevitavelmente, traz. É duro descartar modelos a que se estava acostumado. É preciso preparo psicológico, intelectual e emocional para se adaptar às transformações: ler mais, buscar informação de qualidade, conhecer a verdade dos outros. 

Se os padrões de comportamento se tornam flexíveis, há que se aprender as novas regras, jogar fora conceitos mofados para que um novo "eu" nasça: mas quem garante que será o "eu" definitivo? Com quantos "eus" se atravessa uma vida inteira? O processo parece trabalhoso. E é mesmo, exige coragem.

Como coragem não está à venda na Amazon, inventou-se um aforismo que os acomodados adoram tirar da manga para justificar sua resignação. Algo como "quem não é de esquerda aos 20 não tem coração, quem não é de direita aos 40 não tem cérebro" - há variações em outras palavras. 

Ou seja, quando jovens, temos a permissão de ser idealistas e sonhar em mudar o mundo, mas depois de se casar, ter filhos e ganhar algum dinheiro, viva o cinismo. Melhor ser um conservador, pois, afinal, se meteu nesta enrascada, está preso às convenções e merece uma compensação: pensar apenas no seu bolso e nos seus interesses.

Pois espero que o Brasil continue idealista, entusiasmado e aberto. Que volte a ser amoroso em vez de bélico, que não precise empunhar uma arma para provar que é macho e que saiba reciclar suas ideias para evitar ser antigo. Neste domingo, saberemos se somos um país acovardado e parado no tempo, ou um país livre, a caminho do futuro.

MARTHA MEDEIROS

01 DE OUTUBRO DE 2022
CLAUDIA TAJES

Voto com coração

É nesse domingo, senhoras, senhores e senhorxs. Tantas eleições depois, e olha que estive nas ruas pela redemocratização, não lembro de uma votação assim, com tanto significado. Ou tantos significados.

Aquela tática de votar mais tarde, em um horário de menor movimento para não esperar tanto na fila: nesse ano, acho que não consigo. Estou quase fazendo como os fãs do Guns n' Roses, que foram para o portão da Arena do Grêmio já no sábado de barraca, cadeira de praia, mala e cuia para esperar o show da segunda. Me coçando aqui para pegar um mochinho e um cobertor e me plantar na porta do colégio onde voto. Agora.

Melhor não. Periga a diretora chamar a patrulha da prefeitura. Flagrante por vadiagem dá prisão nesses dias pré-eleitorais? Não vou arriscar.

Vontade de acabar logo com isso, de começar outra história. Deixar para trás a violência, a baixaria. Quem imaginou que as pessoas iam se matar por conta de candidatos diferentes? Só não é a volta da Idade Média porque, como aprendemos na escola, o povo não votava naquele longínquo período histórico. Galera ia direto para a parte da matança.

Pior que, nesses dias estranhos, quem agride e mata alega estar defendendo a "nossa liberdade". "Nossa liberdade" para quem, cara pálida? 

O conceito de liberdade, aliás, foi bem deturpado nos últimos tempos. Virou algo como: ou todo mundo faz o que eu acho, ou isso daí vai complicar no tocante a isso daí. A liberdade de 2022 é a mamadeira de piroca de 2018. Uma fake news que só convence quem não entende o significado de "liberdade". Que, em uma simplificação barata, é o conjunto de condições capaz de dar dignidade a um povo. A pátria, a família, a tradição e até o tão invocado em vão Deus até podem entrar no pacote. Mas menos, né?

Tergiversações pré-eleitorais, se me perdoam. Há quem diga que, dependendo do resultado de domingo, as coisas podem piorar. Há mesmo quem use desse argumento para ameaçar carinhosamente - contradição em termos - o eleitor: olha lá, vê direitinho em quem vai votar, depois a coisa endurece e aí não adianta chorar, estou falando para o teu bem.

Mas o bem não deveria ser para a maioria? Importante: sem bons deputados e senadores, os governadores e o presidente vão continuar reféns de acordos e conchavos. Anular ou votar em branco não ajuda em nada. Aqui em casa, todo mundo já guardou a colinha na carteira. Esquecer não é uma opção.

O que foi feito de bom, o que foi mal feito, a esperança, tudo cabe em uma urna. Domingo a gente vai passar o dia em função de saber o que nos espera. Não sei você, mas eu estou que não me aguento. Vou pegar meu mochinho e esperar na frente do colégio. Se a patrulha aparecer, ainda tento virar o voto dela.

Boa eleição para todo mundo. E que a gente não vote com o fígado, vote com o coração.

CLAUDIA TAJES

01 DE OUTUBRO DE 2022
DRAUZIO VARELLA

A SAÚDE PÚBLICA BRASILEIRA NÃO ESTÁ AO ALCANCE DE SOLUÇÕES SIMPLÓRIAS

O acesso ao atendimento médico está entre as principais preocupações dos brasileiros. Nestas eleições, nada mais importante do que analisarmos as propostas dos candidatos aos cargos majoritários.

O SUS revolucionou a saúde pública no país, a partir do momento em que foi incluído na Constituição de 1988. Seus primeiros passos foram na direção do tratamento das pessoas que adoeciam. Eram atendimentos pontuais: crianças desidratadas, adultos com pneumonia, apendicite, fraturas ortopédicas, vítimas de acidentes. Os pacientes eram operados ou recebiam os medicamentos indicados e voltavam para suas casas.

Trinta e quatro anos depois, encontramos o Brasil em outra realidade econômica e epidemiológica. A faixa da população que mais cresce é a que está com mais de 60 anos. Quando perdemos um parente de 70 anos, dizemos que morreu moço.

O envelhecimento no Brasil ocorreu numa velocidade duas vezes superior à dos europeus. Os brasileiros vivem mais, mas envelhecem mal. Aos 60 anos, metade dos homens e das mulheres sofre de hipertensão arterial e o número de pessoas com diabetes está ao redor de 20 milhões, sem contar os que andam pelas ruas com taxas de glicemia elevadas sem diagnóstico nem consciência da gravidade potencial da doença. A obesidade virou epidemia: o número de adultos acima da faixa de peso saudável já ultrapassou 55% da população.

Esses dados epidemiológicos explicam por que as duas causas principais de morte entre nós são as doenças cardiovasculares e o câncer.

As prioridades deixaram de ser as endemias rurais do país em que concluí o curso médico 50 anos atrás. Sem controle, as pessoas com hipertensão ou diabetes correm o risco de ter ataques cardíacos, derrames cerebrais, insuficiência renal que as torna dependentes de hemodiálises e transplantes de rim, cegueira, amputações de membros e outras complicações que deixam sequelas definitivas - com as quais o SUS precisa lidar com recursos humanos e financeiros de que não dispõe.

Nesse panorama, a atuação do sistema de saúde vai muito além da necessidade de tratar as afecções agudas em pessoas que receberão alta, depois de atendidas. Nas doenças crônicas, o objetivo não é a cura, mas o controle para evitar complicações, tarefa muito mais complexa.

Os estudos mostram que cerca de 30% de condições como diabetes, hipertensão, obesidade e problemas pulmonares dependem de moradia, saneamento básico, acesso a alimentos, salário, tempo desperdiçado no transporte, falta de espaço para lazer, violência urbana e outros fatores alheios à assistência médica. Cerca de 50% são dependentes do estilo de vida: cigarro, álcool, sedentarismo, falta de higiene, alimentação inadequada, horas de sono, entre outros.

DRAUZIO VARELLA

01 DE OUTUBRO DE 2022
BRUNA LOMBARDI

A CRIANÇA QUE TE HABITA

Uma amiga querida, a Miriam, postou recentemente um texto que me doeu, sobre a menina triste que ela foi. Lembra uma infância de brigas, gritos e surras. Uma criança diante da violência. Uma casa de ódio e gritos que a assustaram para o resto da vida. Uma criança que cresceu com muito medo, escondida de pavor, solitária e invisível, como ela escreveu. Que nunca conseguiu se sentir amada ou protegida, nem livre e nem segura, quando todas as meninas em volta pareciam ser. Pareciam ter tudo o que ela nunca teria.

Como se pode crescer com esperança sentindo tamanha rejeição? Como sobreviver com tanta angústia e medo num mundo que é só ameaça? Como essa menina abandonada conseguiu superar, se transformar e achar seu rumo? Ela abriu seu caminho e se tornou uma mulher maravilhosa, com um coração generoso e um trabalho sobre temas relevantes que ajudam a todos.

A criança continua nela. Deve despertar às vezes e ainda provocar momentos de aflição, dor, insegurança. Trazer sentimentos que machucam e teimam em se reacender, como brasas numa lareira. Mas nesse mesmo fogo está a chama de viver, o entusiasmo, o estímulo que reinventamos todos os dias pra encarar a vida.

Sempre teremos incertezas, tempos difíceis. Sustos e surpresas. Lágrimas e euforia. Medos que ainda permanecem e minam nossos passos. Não sabemos onde vai a estrada e vamos caminhando, escolhendo o trajeto, desviando de obstáculos, seguindo sonhos. Mesmo com o vento contra e adversidades, continuamos.

Não podemos mudar o passado, mas podemos construir o presente passo a passo. Uma família pode ser um núcleo de amor e proteção, mas também pode ser um ambiente tóxico e nocivo que marca vidas. A gente se apaixona, junta, casa, tem filhos e de repente, sem se dar conta, se torna responsável pela saúde mental, psíquica e emocional das pessoas desse núcleo.

Muita gente acredita que a compensação financeira substitui presença e afeto, mas sabemos que não. Muita gente reage no impulso da raiva, na explosão diante do problema, sem perceber a consequência que está causando. A energia ruim, o desamor, o ódio, a indiferença, trazem efeitos duros, dores profundas, traumas. A inconsequência gera efeitos indeléveis.

Tudo o que fazemos e dizemos tem um forte poder. E pra não repetir a história que nos fez mal, precisamos reinventar o amor. Ressignificar o amor para que nos aponte a direção e ilumine as trevas. Que ajude a encontrar os becos escuros onde essa criança assustada continua dentro de nós.

Vamos pegar essa criança pela mão, com muito cuidado. Cuidar dela. Abraçar e dizer que ela pode confiar. A menina que você foi não está mais abandonada porque a mulher que você é, com sua consciência, sua sabedoria, seu aprendizado, agora cuida dessa criança.

A pessoa que você se tornou é capaz de curar esse coração machucado. E você pode agradecer essa criança por tudo o que ela passou e segurou, permitindo que você se tornasse a pessoa que você é. Respire fundo e ame a criança que te habita.

BRUNA LOMBARDI

01 DE OUTUBRO DE 2022
J.J. CAMARGO

AS CAUSAS DA ESTUPIDEZ

"O problema do mundo é que as pessoas inteligentes estão cheias de dúvidas, e as pessoas idiotas estão cheias de certezas." (Bertrand Russell) O que causa estupidez é o conhecimento parcial, que é o que ocorre quando você lê meia dúzia de textos sobre algo e acha que sabe tudo sobre aquilo.

Estupidez não nasce da ignorância absoluta, mas do entendimento falho ou incompleto que é o que ocorre quando você lê apenas o suficiente para confirmar o que já pensava antes.

Que estes dois parágrafos atribuídos a Robert Greene sirvam de acesso ao esforço de compreensão desse sentimento que nos aperta o peito nesses últimos tempos, e que ingenuamente consideramos como um pasmo circunstancial. E que, se é circunstancial, parece razoável que consideremos como eficiente paliativo uma caminhada para refrescar as ideias e interromper estes rompantes catastrofistas.

Mas não custa avaliar o quanto essa atitude pacificadora, que beira à alienação, pode ser a responsável para que fatos que constrangeriam, em qualquer época ou sociedade, passem a ser aceitos como banais ou, ao menos, deglutíveis.

Achar que é melhor deixar passar para evitar incômodo é avalizar a perpetuação do absurdo, até o limite da iniquidade, porque todos estão de acordo que, quando começamos a piorar, não paramos mais. E nem vale a pena rememorar os exemplos históricos, porque deles, os bem-intencionados, nunca esquecerão.

Então, aproveitando o ensejo contido neste momento importante para o nosso futuro, quem sabe se, ao invés de caminharmos passivamente para as urnas, com aquele ar ovino dos descomprometidos, tomemos um curto lapso de tempo (e não será necessário mais do que isso) para refletirmos sobre o quanto temos sido responsáveis pelo país, que se tivesse voz humana nos xingaria pela omissão? Porque os minimamente isentos reconhecerão que fazer de conta que está tudo bem é a mais assumida estupidez.

Carlo M. Cipolla, um notável professor de história econômica da Universidade da Califórnia, deu a sua contribuição reconhecendo a estupidez como uma poderosa força maligna, responsável pelo mal estar e infelicidade coletiva. Cipolla editou, recentemente, agora em português, As Leis Fundamentais da Estupidez Humana (editora Planeta, 2020), um clássico publicado pela primeira vez, em italiano, em 1976. Do seu texto, se depreende que a estupidez é mais danosa do que o tráfico de drogas, a escravidão ou qualquer pandemia. Seus efeitos são catastróficos e globais. Ela se encontra em salões de luxo, reuniões de condomínio, comemorações de família e bares de todo o mundo. A sugestão é que cada vez que a incompreensão e a pasmaceira preponderarem, investigue-se por onde a estupidez penetrou a nossa blindagem emocional.

Segundo Tali Sharot, uma brilhante neurocientista israelense, "nosso cérebro está sempre atrás de informações que apenas confirmem nossas convicções". Obcecada por entender como agimos, ela vem estudando a razão do nosso apego às opiniões bizarras, mesmo depois que todas as evidências irrefutáveis apontam para o contrário. Segundo Sharot, predomina a teoria do "viés da confirmação", ou seja, as pessoas buscam confirmar as suas próprias opiniões, e nosso cérebro resiste às evidências contrárias às nossas crenças.

Com fundamentação científica e tudo, ainda vamos precisar de muita paciência para engolir, sem engasgar, que não houve, por exemplo, corrupção e que a devolução do dinheiro, alegadamente desviado, tinha apenas a nobre intenção de contribuir para o futuro do nosso amado país.

Por falar em futuro, responda rápido: se os venezuelanos ingênuos emigraram para o Brasil, nós, deste tamanhão, fugiremos para onde?

J.J. CAMARGO

01 DE OUTUBRO DE 2022
CARPINEJAR

QR code nas lápides

A morte é triste, mas nem por isso precisa ser feia. Dei uma palestra para o Sindicato dos Cemitérios e Crematórios Particulares do Brasil, em Foz do Iguaçu (PR), na última semana. Percebo cada vez mais o quanto o lugar de descanso dos nossos entes queridos não é mais um espaço lúgubre, temido e mal-assombrado como antes, mas de convivência, de passeio e de reflexão.

Cemitérios viraram jardins, parques, praças, áreas verdes imensas e raras na cartografia esgoelada das capitais. Serão cada vez mais frequentados, muito além do Dia de Finados, despertando a vontade de permanecer no ambiente e extrapolar o tempo cronometrado da reza.

Crianças estarão brincando e correndo pelos gramados, famílias estarão mateando e conversando em lounges. Não existirá mais aquela cultura da privação. Passaremos a nos permitir, pouco a pouco, a finitude, exercendo a saudade e agradecendo a presença de quem partiu.

Eu julgava que esses locais de beleza exuberante eram disfarces e eufemismos para enfeitar o fim trágico de uma vida, para dissimular a angústia e o medo dos enlutados, numa estratégia de negação. Hoje entendo que eles propõem experiências de bem-estar em torno de um nascimento, contra a impunidade do esquecimento.

Os velórios não são mais uma ciranda de choros e desabafos, de lamúria e pesar. Eu testemunhei o inesquecível enterro do pintor Luiz Gonzaga Cony no Memorial da Colina, em Cachoeirinha, onde os presentes desfrutaram do direito de colorir o caixão e prestar um tributo. Isso mesmo! Havia tintas e pincéis numa paleta à disposição de cada familiar e amigo na entrada da capela. Era possível colocar a sua mão na madeira ou fazer algum desenho de homenagem, como crianças em trabalho escolar. Netos procuraram o último colo do avô, filhos devolveram um pouco do brilho do olhar paterno na superfície envernizada.

A sala escura de cruz e coroas de flores ficou enfeitiçada de um arco-íris súbito. O artista dormia num berço de luz, numa tela da eternidade, num quadro com frases e símbolos marcantes deixados pelos seus afetos. A cerimônia de adeus será lembrada por todos como uma aquarela.

Nesse intento de ressignificação da morte, está prevista uma revolução na identificação dos falecidos nas lápides. Sempre que eu passeava pelos túmulos, curioso como sou, tentava imaginar quem era cada finado, como tinha sido a sua vivência, mas só contava com a foto ovalada, o nome e as datas de nascimento e de óbito. Não havia dados para definir felicidade, sucesso, profissão, proezas. Ou lamentava-se a existência curta, ou festejava-se a longevidade.

Eu suspirava fantasiando tudo o que não sabia a respeito da passagem daquela figura por aqui, desconhecendo o que tinha acontecido de verdade. Agora, a ideia é colocar um QR code na plaquinha de identificação. A partir da câmera do celular, acessaremos a biografia da pessoa, com um acervo digital reunindo vídeos, fotografias e histórico de suas principais realizações.

Sentiremos o peso da vida, em vez do vazio da morte.

CARPINEJAR

01 DE OUTUBRO DE 2022
LEANDRO KARNAL

Uma boa definição de cultura é a naturalização de ideias e atos que, repetidos à exaustão, chegam a se inserir na ordem natural das coisas. Mulheres usam saias, e homens devem vestir calças faz parecer que sempre foi assim, por exemplo. Modelos, imagens, humor e violência reforçam o código. Homem e calça viram algo como rochas basálticas. Os passadistas insistem: sempre foi assim, é a ordem desejada por Deus. Atrás do reacionário, está a piedosa imagem de Jesus... sem uma calça representativa da sua masculinidade.

"Homens usam cabelos curtos, cabelos compridos são uma modernidade do demônio": os longos cachos do Nazareno se agitam um pouco mais. "Todo homem deve casar e ter filhos." Jesus desiste de vez...

Usei a figura do Messias para dar clareza ao exemplo. Homens já usaram saias, já tiveram cabelos compridos por séculos e a maquiagem carregada era um requisito da masculinidade na corte de Luís XIV. O rei, amante ao extremo de mulheres, jamais dispensava suas meias de seda, capa de veludo e suas plumas. Azul já vestiu meninas. Rosa já adornou machos alfa. Perucas já foram universais. Dançar bem passos complicados de balé era indispensável para a conquista de mulheres. 

Machos aprendiam a dançar ou morriam virgens. Estudar História é mostrar que tudo tem uma origem; nada é "natural" em si. Aprofundar o conhecimento do passado é estabelecer perspectiva: inventamos cenários e fantasias; tentamos convencer crianças e jovens de que sempre foi assim e que assim será para sempre. A tradição é, sem exceção, inventada em algum momento, e reacionários querem naturalizá-la como inserida em uma ordem eterna. É pura falta de estudo!

Sou alguém especial porque possuo muitas sementes de cacau. Minha posição de destaque deriva do uso de tecido adamascado. O lugar em que eu sento durante a missa mostra como eu estou acima dos outros. Minha família é aristocrática porque temos um documento que mostra ancestrais nas cruzadas. Tenho orgulho de ter matado 14 porcos para festas da comunidade nos últimos anos. Esses são ou foram critérios de maias, da corte de Urbino na Itália do Renascimento, da catedral da cidade do México colonial, da França do Antigo Regime ou de um líder do interior de Papua-Nova Guiné.

Para o antropólogo ou o historiador, o prestígio de uma época é motivo cômico em outro instante histórico ou local. Um empreendedor de Wall Street morreria de rir dos códigos vitorianos.

Uma vez inventada uma tradição, ela pode ser percebida como natural e até necessária. Noivas vestidas de branco, homens de terno escuro, mulheres cuidando da comida, roupa preta no enterro, salada antes da comida e doce depois: tudo foi inventado, nada é universal e a-histórico.

Importante: inventadas, as tradições existem, como o bicho-papão do armário causa insônia real em uma criança mesmo não sendo real. Quebrar uma tradição, mesmo criada, tem um custo social, pode causar dor e ruptura de identidade. Os humanos, desde a Revolução Cognitiva há 70 mil anos, somos especialistas em concentrar muita energia em coisas imaginárias. 

Isso é a força e a desgraça da nossa espécie. A importância e a necessidade do Estado, por exemplo, são uma antiga e forte tradição humana; ignoramos que nossa existência foi, quase sempre, sem Estado neste planeta. Cidades, deuses, códigos de vestimenta, etiquetas e salamaleques sociais causaram muitos efeitos históricos, mesmo sendo absoluta mistificação.

Acho fascinante. Por mais de 3 mil anos, egípcios viveram e morreram por uma entidade chamada Osíris. Não há ninguém que reze ao deus egípcio hoje, porém ele teve fiéis por mais tempo do que Jesus de Nazaré. Talvez jamais ocorresse a um habitante do Vale do Nilo, do Novo Império, que, num dia, todos aqueles templos, sacerdotes, livros e tradições seriam peças curiosas em um museu do Cairo ou Paris. 

Trinta dinastias de faraós foram protegidas por seres que, de fato, nunca existiram. Centenas de milhares de vidas foram perdidas, erguendo pirâmides, escrevendo livros de mortos ou mumificando para preparar para o encontro com Anúbis, que, afinal, é um tipo de Boitatá ou de Cuca.

No futuro, os habitantes da região venerariam Alá como islâmicos; Jesus, como coptas; não teriam dúvidas de que Ísis era pura invenção. Deuses nascem, crescem e morrem. Claro: são os deuses dos outros, porque o meu é o verdadeiro. As tradições possuem o dom extraordinário de serem o total da minha percepção do mundo.

Pode parecer contraditório, porém eu gosto das tradições. Criar abstrações forma unidade, identidade e certa segurança. Modelos existem e podem ser bons.

A História me ensinou duas coisas: as tradições, mesmo inventadas, possuem estatuto coletivo de código e podem ser positivas. Amo o Natal, por exemplo. Porém, sabendo que tudo é criado por convenções sociais e arranjos históricos, ninguém deve sofrer por desvios da norma ou quebras de protocolo.

Se o seu Natal não deu certo, se a sua noiva vestiu azul ou se seu filho quer usar rosa, tenha consciência: o mundo não está acabando, apenas continua a se transformar e a quebrar tradições. Somos uma espécie que ama inventar e, logo em seguida, desmontar a invenção. Seja feliz. Tenha esperança, uma das melhores tradições (inventada, claro...).

LEANDRO KARNAL

01 DE OUTUBRO DE 2022
ELIANE MARQUES

AS ANCESTRAIS DA NOVA PEQUENA SEREIA

Se, de um lado, para que meninas racializadas pulassem de alegria foi suficiente verem a nova pequena sereia com a pele semelhante à delas, de outro, isso bastou para arrepiar o pelo de partes do Brasil e de outras terras. Assim como o fez Ulisses ao se amarrar ao mastro do navio para gozar do canto das sereias sem sucumbir a seu encanto, a branquitude o repete ao encontrar o novo objeto no fundo de seu olho para amarrar o ódio contra o desejo de continuar encantada.

Contudo, equivoco-me ao supor medo. Como se todas as sereias dessem continuidade ao "eu profundo" incorruptível popularizado por Hans C. Andersen - pele clara e olhos azuis -, a frase "Ariel é branca" diz do fascínio pela monocultura encantatória. Então, o medo se senta na possibilidade de sua fricção por um canto outro, ainda que se trate de outro encanto do si mesmo ora partido entre mulher e peixe, branco e negro, fundo e superfície.

Em A Autobiografia de Minha Mãe, de Jamaica Kincaid, Xuela e outras crianças viram uma mulher nua na parte do rio onde a foz beija o mar. Para Wole Soyinka, quando o rio molha sua língua no sal marinho, não mais sabemos qual divindade chamar, se a do rio - associada a Oxum - ou a do mar, Olocum ou sua filha Iemanjá. De acordo com Xuela, não era possível definir se a mulher estava em pé ou sentada, o que leva a crer que seu tronco se dava ao fundo dos olhos e sua cauda de peixe se mantinha no fundo do mar. 

Porém Xuela não lhe dá o nome de sereia. Apenas enuncia que era mais linda do que qualquer outra e de uma maneira significativa para ela e não no estilo europeu - sua pele marrom-escura; o cabelo preto, brilhoso e enrolado em pequenos caracóis; seu rosto uma lua suave, marrom, reluzente. As meninas do vídeo que viralizou, exibindo o encanto delas com a sereia racializada, repetem a vivência de Xuela, com a diferença de agora nomearem "serei-a" (serei ela?) e de poderem sonhar-se na pele dessas criaturas impossíveis e, por isso, divinas.

Pois bem, a mulher divina fez um gesto para que as crianças se aproximassem. Alguém disse que deveriam fugir, porém um menino arrogante feito Ulisses foi rindo em direção a ela, sem o truque da cera nos ouvidos, preferindo a entrega à domesticação. À medida que avançava, ela se distanciava, embora não saísse do lugar, até que ambos desapareceram, assim como desapareceu da memória dos que ficaram (no livro e fora dele) quase tudo que diz respeito às tradições não branqueadas e o resto - o que ficou - é "visto" com dúvida ou desamor.

O encontro de Xuela poderia ter sido com Iemanjá ou Oxum, também sereias, mas foi com Mami Wata (que tem muito de cada uma delas). Mami partiu, por amor, da costa africana ao Caribe com o primeiro navio branqueiro. Ela não vinha dentro da embarcação, seguia a esteira de espumas, as lágrimas do oceano. Seu coração de caracol se estremecia de dor (Mãe Sereia, Teresa Cárdenas).

Então, a Ariel do remake da Disney tem lá suas ancestrais esquecidas ou quase, ora lembradas também por amor.

ELIANE MARQUES

01 DE OUTUBRO DE 2022
EUGÊNIO ESBER

DEU NO NY TIMES

Estará a suprema corte brasileira indo longe demais, a pretexto de defender a democracia? A pergunta foi lançada durante a semana pelo jornal New York Times e deu título a uma reportagem publicada com a assinatura de seus dois correspondentes no Brasil. O rol de arbitrariedades e truculências cometidas pelo STF, tendo como ponta-de-lança um ministro que parece ter perdido o juízo, aparece apenas superficialmente no texto. Mas o pouco que contam Jack Nicas e André Spigariol já é o suficiente para estarrecer seus leitores, mundo afora, sobre os riscos que corre "a quarta maior democracia do mundo". 

E não é por obra do presidente da República, como manda a praxe das ditaduras pelo mundo, mas por "justices" (julgadores supremos) que concentram em suas mãos o poder de investigar, acusar e julgar como se não houvesse leis nem Constituição nem princípios jurídicos básicos e universais - principalmente o direito de você saber do que está sendo acusado, ser defendido por um advogado e, caso seja sentenciado, dispor de ao menos uma instância independente para fazer sua apelação.

Ao terminar a leitura do artigo do New York Times, me senti pesaroso e constrangido. Aquele texto veio do CEP errado. Deveria ter sido publicado em português por grandes jornais brasileiros com um histórico de defesa da democracia. E não agora, apenas, mas repetidamente, resilientemente, desde 2019, quando começou esta interminável procissão de ilegalidades perpetradas pelo que um dia já foi nossa veneranda Suprema Corte. A censura imposta pelo ministro Dias Toffoli a uma edição da revista Crusoé que trazia a reportagem "O amigo do amigo do meu pai" foi o primeiro golpe. O ato seguinte foi a instauração, por Toffoli, de um processo tão antijurídico, inconstitucional e abusivamente vago que recebeu de seu colega, o então ministro Marco Aurélio Mello, o apelido que virou título de um livro, o "Inquérito do Fim do Mundo".

Até hoje o inquérito se arrasta, sem propósito aparente a não ser o de espalhar medo. Em sua marcha tsunâmica, vai tragando sem clemência biografias de cidadãos brasileiros para os quais foi e tem sido negado o que se conhece por "devido processo legal". Há jornalista exilado nos Estados Unidos. Dona de casa que teve suas redes sociais desmonetizadas. Houve prisão de deputado, de presidente de partido, banimento de redes sociais de partido político. 

E, numa suprema demonstração de força e de delírio, Alexandre de Moraes, o xerife do Inquérito do Fim do Mundo, colocou sob seu tacão oito empresários que conversavam em um aplicativo de mensagens, determinando contra eles medidas como quebra de sigilo bancário, bloqueio de redes sociais e apreensão de celulares. Um caso de thought police, ou "polícia do pensamento", como bem disse a Subprocuradora Geral da República, Lindôra Araújo, aos repórteres do New York Times.

Precisou dar no New York Times. Será que agora a névoa de silêncio se dissipa? Ou precisaremos esperar que o jornal norte-americano venha perguntar ao presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, quando desengavetará o pedido de impeachment de Alexandre de Moraes?

EUGÊNIO ESBER

01 DE OUTUBRO DE 2022
COM A PALAVRA

COM A PALAVRA

psicanalista e escritora, 37 anos Doutora em Pesquisa e Clínica em Psicanálise, é autora de obras sobre relacionamentos, entre as quais "A Gente Mira no Amor e Acerta na Solidão" (Paidós, 2022)

A ideia que se faz do amor é que vai completar a pessoa. Que, quando o parceria romântica chegar, angústias e aflições vão desaparecer. Professora da Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Paraná e autora de diversos livros sobre relacionamentos, a psicanalista Ana Suy derruba essa fantasia. Em sua obra mais recente, A Gente Mira no Amor e Acerta na Solidão (Paidós, 2022), Ana se dedica a mostrar que, ao amarmos alguém, a parte que antes nos faltava não só seguirá existindo como vai ser duplicada. A partir do enlace, seguimos lidando com nossos desejos, medos e impossibilidades - e precisamos aprender a lidar com os do outro também. O amor não vai fundir um amante ao outro, nem preencher todas as faltas que cada um traz dentro de si. Fica mais fácil, diz a psicanalista, se tirarmos o peso que colocamos em cima dele.

VOCÊ DEFENDE QUE NÃO HÁ AMOR QUE NOS LIVRE DA SOLIDÃO. QUE SOLIDÃO É ESSA QUE OS AMANTES TÊM DE ENCARAR?

Estamos sozinhos debaixo de nossa pele. No encontro amoroso, nos distraímos um pouco dessa solidão, paramos de olhar um pouco para ela. Mas tem algo que é impossível compartilhar. Às vezes, colocamos uma tarefa para o amor para que não nos deixe saber dessa solidão. E isso é impossível.

UMA PESSOA QUE LIDA BEM COM A SOLIDÃO TEM MAIS CHANCE DE TER RELACIONAMENTOS MELHORES?

Não acho que há um tipo de pessoa com mais facilidade para lidar com o outro. Não importa apenas o tipo de pessoa que você é. Depende do encontro que você terá e da invenção que vai fazer na relação com o outro. Todos temos alguma dificuldade no encontro com o outro. Há as pessoas que sofrem mais e as que sofrem menos. Mas não depende da pessoa sozinha, e sim da relação que se estabelece com o outro.

PARECE-ME QUE VOCÊ SE DEDICA A MOSTRAR QUE, NO ENCONTRO AMOROSO, NÃO EXISTE UMA FUSÃO.

A ideia de fusão existe e ela nos norteia. Sem a ideia de fusão, não temos a experiência amorosa. Quando proponho que a gente desidealize a fusão, não se trata de que poderemos nos livrar da fantasia de fusão, mas de reformar essa fantasia. Se eu e o outro vivemos como um só, alguém aí deixou de existir. Conseguir se fundir ao outro é deixar de existir.

VOCÊ DIZ QUE AS PESSOAS QUE A GENTE AMA VÃO NOS DECEPCIONAR. POR QUE A DESILUSÃO É IMPORTANTE?

Porque a desilusão vai nos dar notícia de que o outro continua sendo ele mesmo. Quando temos a fantasia amorosa de fusão, de nos tornarmos um só com o outro, a desilusão vai nos mostrar que o outro ainda é outro. Quando o outro é exatamente aquilo que a gente queria que ele fosse, a gente está se relacionando com a nossa própria imagem, e não com o outro. E existe outra camada de complexidade: aquilo que eu queria que o outro fosse não corresponde, necessariamente, àquilo que eu desejaria que ele fosse. A gente não tem clareza do que desejaríamos que o outro fosse. Às vezes eu gostaria que o outro fosse uma coisa, e então ele é essa coisa, mas isso não me satisfaz. E, às vezes, eu desejo que o outro seja uma coisa, mas ele é outra, e aquilo me move, me anima. Somos seres divididos em relação aos nossos desejos.

OU SEJA, SE A PESSOA SEMPRE CORRESPONDER AO QUE EU DESEJO, PODE SER ATÉ QUE EU FIQUE ENTEDIADA?

A gente acha chato quando o outro nos agrada em tudo, acha que falta química, não ficamos tão interessados. É aquela velha história estereotipada das comédias românticas, quando um fica tentando se adequar ao que supõe que o outro quer, e mesmo assim não funciona. Aí, alguma coisa acontece nessa trama que um dos dois dá notícia do seu defeito, da sua falha, daquilo que tem de equivocado - e então a coisa acontece. A gente se apaixona pelo outro por ser radicalmente outro, e não porque atende ao que idealizamos. As pessoas muito maravilhosas nos entediam. A gente gosta de gente.

A DESILUSÃO É O MOMENTO EM QUE TERMINA A PAIXÃO E ENTRA O AMOR?

No apaixonamento, me sinto plena, acredito que encontrei algo que satisfaça meu desejo. E o amor é furado - furado pelo outro, na sua radicalidade de ser outro. No amor, existe espaço para algum tipo de desilusão, de perda narcísica, espaço para o outro que é real, que não é fantasia. Por isso que, no amor, há solidão.

VOCÊ JÁ AFIRMOU QUE, QUANDO A GENTE ENCONTRA UM PARCEIRO, NÃO ENCONTRAMOS A PARTE QUE NOS FALTA, MAS FICAMOS COM MAIS UMA PARTE QUE COMEÇA A FALTAR. PODE EXPLICAR?

Quando estamos sós, preocupados apenas conosco, sabemos do que precisamos para nos sentir em paz. Agora, como vamos ficar em paz se alguém que a gente ama está passando por um tormento? Amar é estar muito suscetível ao outro. É comum a gente falar: "Se eu pudesse, pegava essa dor para mim". As relações amorosas nos colocam em enorme vulnerabilidade. E isso nos funda. Somos seres de amor.

PESSOAS MAIS SOLITÁRIAS TÊM DIFICULDADE EM SER VULNERÁVEL?

Talvez haja pessoas menos interessadas nos outros. Mas eu proponho a diferença entre solidão e isolamento. O isolamento é uma defesa em relação ao amor. Para não ter de me encontrar com a solidão, eu me isolo. Por exemplo, a pessoa acha que vai se apaixonar, que vai levar um fora, e já se antecipa, evitando. É uma perspectiva facilitada pelo nosso modo atual de viver, em que pregamos a independência, amar sem sofrer, não precisar de ninguém. Nossa relação com a tecnologia também nos induz a isso, já que pedimos um transporte sem falar com ninguém, pedimos comida sem falar com ninguém. Hoje, ligar para alguém é quase falta de educação. Temos que ter muito cuidado ao chegar no outro porque vivemos cada um na sua bolha - o outro pode chegar via tela, mas via corpo é mais delicado. Agora, essa solidão que proponho na minha reflexão é a solidão que resta do amor, que vem depois do amor, como marca do desencontro. É o impossível, e não o que a gente evita.

É AQUELE BURACO QUE NEM O PARCEIRO, NEM O AMIGO, NEM NOSSOS FAMILIARES PREENCHEM.

A fantasia que a gente faz desse buraco é tão assustadora que fazemos de tudo para não saber dele - e, às vezes, nem é tão assustador assim. Neurose é isto: uma defesa em relação ao que a gente não sabe o que é. Saber da própria solidão não é se isolar do outro, é poder suportar esse buraco na relação com o outro, em vez de delegar para ele a tarefa de sumir com esse buraco.

PARECE QUE AS PESSOAS NÃO TÊM CONSCIÊNCIA DE QUE, AO COMPARTILHAR A VIDA COM OUTRO, LEVAM OS TRAUMAS QUE CARREGAM DESDE A INFÂNCIA.

A gente se relaciona em espelho. Então, supomos que o outro entende o que a gente fala. A gente supõe que o outro sente alguma coisa do mesmo jeito que a gente sente. Nós somos seres de linguagem, então o amor não é uma necessidade no sentido que a fome é - podemos comer qualquer coisa que estaremos satisfeitos. Agora, fome de amor não é satisfeita com qualquer objeto. A gente chama de amor coisas que são muito diferentes. Não tem como saber o que é amor para o outro - eu mal sei o que é amor para mim. Quando a gente fala a palavra amor, assim como a gente fala a palavra solidão, a gente acha que está falando a mesma língua, mas não está. A palavra é o que a gente tem para se aproximar do outro, mas não garante a comunicação plena. E existe outra camada: o fato de que vamos nos modificando o tempo todo. Pensando numa relação duradoura: mesmo que algo tenha dado match no início, nada garante que isso vai durar. Precisamos continuamente rever esse encontro. Ele nunca estará garantido.

HÁ UMA DIFICULDADE DE ENCARAR NOSSOS PRÓPRIOS DEFEITOS E QUALIDADES NESSE ESPELHAMENTO?

A ideia que a gente tem de quem nós somos é furada. A gente costuma achar que nos falta alguma coisa, e o outro seria aquele que vai nos completar. No encontro amoroso, eu corrijo minha imagem narcísica. Afinal de contas, se sou cheio de defeitos, mas sou amada pelo outro, significa que não tenho tantos defeitos assim. Então o amor tem essa função corretiva da nossa imagem narcísica. Por outro lado, na experiência amorosa que vai além da paixão, o outro dá notícias dos seus defeitos e problemas, o que escancara os meus defeitos e problemas. Além de eu ter que me resolver com as minhas faltas, também terei de lidar com o fato de que eu não salvo o outro, não completo o outro. Na relação amorosa, em vez de a gente corrigir nossos furos, a gente amplia.

HÁ PESSOAS QUE NÃO ABREM MÃO DA SOLIDÃO PORQUE NÃO SABEM LIDAR COM A REALIDADE DO AMOR. FICAM À ESPERA DE ALGUÉM QUE SE ENCAIXE NAQUILO QUE DESENHARAM.

Se você sabe o que quer da vida, e encontra alguém que tem outros valores, vai ser difícil, né? A gente precisa se identificar com o outro para poder amá-lo. Mas tem outra coisa. Eu até posso encontrar alguém que corresponde àquilo que eu queria, mas nada acontece. E, às vezes, é um cara sacana, e aí se forma um casal improvável. Isso me dá notícias do quanto eu sou um mistério também para mim. Como assim, vou me interessar por alguém que não tem nada a ver comigo!? Por isso, na psicanálise, a gente fala que ama com o inconsciente. A imagem que a gente faz de nós mesmos não diz tudo sobre nós. Somos muito mais do que aquilo que a gente pensa que é. O amor é uma completude da nossa imagem e, ao mesmo tempo, uma desconstrução da nossa imagem.

VOCÊ FALA QUE A DESILUSÃO É IMPORTANTE, MAS SEGUIR TENDO EXPECTATIVAS COM O OUTRO TAMBÉM NÃO É IMPORTANTE?

É impossível viver sem expectativas. Hoje, tem esse discurso de não criar expectativas, mas aí estamos na expectativa de não criar expectativa. A gente sempre vai esperar que alguma coisa aconteça. Por mais bem-sucedida que a realidade for, é mais limitada do que a nossa fantasia. Na fantasia, posso ser uma mulher independente que faz um mochilão pelo mundo e não se apega a ninguém. Posso ser uma mulher que tem família e filhos ou um marido e cinco amantes. Tudo é possível. Agora, na realidade, somente uma dessas coisas será possível. Não se trata de não criarmos expectativas, mas de saber que a realidade não tem como competir com a fantasia, porque é limitada. Precisamos abrir mão de certas fantasias para acolher a realidade. Caso contrário, ficaremos em uma superexigência com a realidade que nos impede de desfrutar. E isso nos deixa isolados, exigindo do outro e de nós mesmos de uma maneira infeliz.

OUTRO DIA EU ESTAVA DENTRO DO UBER COM UMA AMIGA, CASADA HÁ MUITOS ANOS, E ELA ME DISSE QUE, COM O TEMPO, O RESPEITO ENTRE O CASAL SE PERDE. O MOTORISTA ENTROU NA CONVERSA E CONTOU QUE, APÓS 40 ANOS DE CASAMENTO, FINALMENTE TINHA SE DIVORCIADO, PORQUE ELE E A EX-COMPANHEIRA JÁ NÃO TROCAVAM MAIS CARINHO ATÉ SE HUMILHAVAM. POR QUE OS CASAIS PODEM VIRAR INIMIGOS?

A gente ignora que, no amor, existe ódio também. O amor é constantemente um exercício de se fundir ao outro, que também é um exercício de mortificar a existência do outro. A gente precisa se separar do outro para poder amá-lo. O amor é afetado por essa ausência do outro e é, continuamente, uma tentativa de destruir essa separação. Faz sentido? Sabe aquela expressão "Queria te colocar num potinho?". Mostra o ódio que há no amor. Se você ama alguém e o coloca num potinho, você acabou com o amor. Amar é suportar a impossibilidade de prender o objeto amoroso. E a gente odeia o objeto amado porque ele, de certo modo, nos faz refém. Ouvimos adolescentes falando: "Não posso fazer isso porque minha mãe me mata". É justamente a expressão do ódio no amor. Ou seja: eu amo você, então você precisa cuidar disso. Ninguém é mais suscetível a ser objeto do nosso ódio do que o objeto do nosso amor. A quem somos indiferentes, tanto faz.

POR QUE A DESILUSÃO COM O SER AMADO TAMBÉM É IMPORTANTE NUMA RELAÇÃO DE PAIS E FILHOS?

Se os filhos não decepcionam os pais, eles ficam capturados em ser aquilo que os pais gostariam de ter sido. Quando temos filhos, vamos desejar que eles sejam aquilo que a gente não foi. Se o filho não se desvencilha dessa idealização, ele se torna uma tentativa de clone dos pais. Mas o filho é outra pessoa. Os filhos precisam se separar dos pais para poderem construir a imagem de quem eles são. E não quer dizer que os pais não vão gostar. É mais comum que os pais encontrem beleza em ver o filho tornar-se outra pessoa que não eles. Mas também tem perrengue.

A DESILUSÃO É VISTA COMO ALGO NEGATIVO, MAS VOCÊ COLOCA COMO ALGO FUNDAMENTAL PARA A CONSTITUIÇÃO DO AMOR.

Só quando a gente se desilude é que conseguimos permitir que o outro apareça. Grande parte das pessoas interessadas em pensar o amor são as mulheres. Só agora podemos pensar nisso. O casamento, por exemplo, não surgiu para a gente amar e ser feliz. A proposta era de negociação de bens entre homens. Só quando as mulheres vão ganhando espaço e direitos que começam a questionar o amor. A gente está em um momento de descoberta. Temos poucos modelos de como viver bem uma relação amorosa. Quando olhamos para as gerações anteriores, encontramos coisas que, hoje, as mulheres não aceitam viver. Estamos em uma superinvestigação a respeito do amor.

O QUE VOCÊ PENSA SOBRE RELACIONAMENTOS ABERTOS?

O molde do relacionamento monogâmico, que vai durar para sempre, com família, já não é mais único. Estamos experimentando muitas coisas. E acho interessante que a gente possa rever esses combinados. A experiência amorosa não se replica. Cada amor que a gente tem é único. Então, é bom rever as regras a cada experiência amorosa. Parece que ninguém sabe muito bem o que está fazendo, mas está todo mundo tentando viver o amor de uma maneira que esteja afinada com sua proposta de viver.

CASAIS QUE SE DÃO MAIS LIBERDADE TÊM MAIS CHANCES DE FICAREM MAIS TEMPO JUNTOS?

Quando as pessoas estão muito fixadas no próprio relacionamento, acabam colocando muitas demandas em cima do parceiro para que, assim, se sintam bem. E, quando a gente não espera tanto de um relacionamento, no sentido de ter outros interesses, outras formas de ter tesão na vida, então tendemos a exigir menos da parceria amorosa. Por consequência, talvez a gente possa ter experiências mais interessantes.

PULVERIZAR O AMOR EM OUTRAS RELAÇÕES: AMIGOS, COLEGAS DE TRABALHO, FAMÍLIA, VIZINHOS.

Em psicanálise, Freud vai dizer que tudo é sexual, porque tudo que é sexual nos traz prazer na vida. É precário pensar que a única coisa que possa nos trazer satisfação é o desejo amoroso e sexual. Tem mais coisas para fazer na vida, e poder ter acesso a outras modalidades amorosas, para além da romântica, é algo vital.

É QUE POR MUITO TEMPO A RELAÇÃO ROMÂNTICA FOI VISTA COMO A MAIS VALIOSA.

Era isso o que se esperava das mulheres. Não é "do nada" essa fixação que nós temos pelo relacionamento romântico e sexual. Seria ingenuidade achar que sairíamos de um século para o outro sem qualquer marca. A possibilidade que hoje temos de acesso às artes, ao trabalho, à literatura, a tantas outras coisas, muda tudo.

E OS HOMENS? ESTÃO AMANDO MELHOR?

Há os que estão se coçando, revendo seus modos, interessando-se por coisas novas, e os que estão dizendo que toda essa mudança não deve acontecer - estão mortificados, tentando voltar no tempo. Tem homens mais ligados e outros que estão ficando para trás. Na pandemia, o número de divórcios aumentou muito. Podemos entender que ficou escancarada a desigualdade na divisão de tarefas, o quanto as mulheres já não precisam mais aguentar certas coisas que aguentavam antigamente. Ou os homens vão ficar na solidão como defesa, ou vão se reinventar, repensar o que é ser homem nos dias de hoje.

 KARINE DALLA VALLE


01 DE OUTUBRO DE 2022
FLÁVIO TAVARES

O PODER DO VOTO

Às vésperas da eleição, é imprescindível falar do poder do voto. Não importa que a politicalha nos engane, e que demagogos se apossem dos partidos ou que os partidos se transformem em aglomerados de gente em busca de poder pessoal fingindo servir à sociedade inteira.

Nada disso destrói o poder do voto. É o voto real de 2 de outubro que definirá o que queremos (ou seremos) nos próximos quatro anos. Por isso, insisto que as pesquisas de intenção de voto pouco valem, sendo só um artifício para nos induzir a optar pelo eventual ganhador, como em aposta no hipódromo.

Agora, porém, há um fato novo, que jamais ocorreu numa eleição. Um dos candidatos, exatamente o atual presidente que busca a reeleição, põe em dúvida o sistema eleitoral e afirma que "se não for eleito, é porque houve fraude nas urnas eletrônicas". Dias atrás, em entrevista à TV Record, ao ser indagado se aceitaria o resultado se não for eleito no primeiro turno, Jair Bolsonaro respondeu: "Olha, vou esperar os resultados".

Assim deixou aberta a porta para o chamado "golpe institucional" sugerido por seus adeptos, integrantes do PL. O partido do presidente da República, sob pressão de Bolsonaro, agora divulgou documento acusando as urnas eletrônicas de "fraudulentas" sem apresentar prova nem indícios.

A acusação do partido presidencial passa a ter, assim, a característica de tumultuar a eleição, tal como interpretou o presidente do Tribunal Superior Eleitoral. Vale indagar: por que o partido do presidente da República insiste em duvidar da lisura das urnas eletrônicas?

Na área estadual, o debate entre os candidatos a governador não apresentou dúvidas sobre a urna eletrônica. Foi, porém, um amontoado de generalidades, sem planos concretos. O único claro foi demonstrar que é irreal (ou falsa) a prosperidade obtida nos anos do governador que renunciou ao mandato e que, novamente, é candidato agora.

O derradeiro debate pela TV entre os candidatos presidenciais (transmitido pela RBS TV) foi, mais do que tudo, uma troca de acusações misturada com exibicionismo pessoal.

Apenas Ciro Gomes e Simone Tebet apresentaram propostas concretas de desenvolvimento econômico ou educacional, mas não fugiram à regra de desviar-se do tema sorteado e nada esclarecer sobre ele.

Jornalista e escritor - FLÁVIO TAVARES

01 DE OUTUBRO DE 2022
OPINIÃO DA RBS

O PÓS-ELEIÇÕES

Um olhar para o passado recente mostra que, desde 2013, a partir das manifestações de rua difusas depois batizadas de jornadas de julho, o país mergulhou em um período de constantes sobressaltos políticos, institucionais e sociais. Neste intervalo, passaram-se duas eleições gerais tensas, um impeachment e a mais grave pandemia em um século, episódios que aprofundaram a cisão da sociedade. Foram 10 anos em que o mundo cresceu e se desenvolveu, enquanto o Brasil ficou para trás, amarrado em embates fratricidas. É tempo de virar esta página da História.

São mais de 156 milhões de cidadãos aptos a irem às urnas neste domingo. Elegerão 27 senadores, 513 deputados federais, 1.035 parlamentares estaduais e outros 24 distritais. Neste primeiro turno, votam também para o governo de 26 Estados e do Distrito Federal e, principalmente, para presidente da República, disputas que podem se encerrar neste 2 de outubro ou serem decididas no próximo dia 30.

Mais importante do que os nomes dos eleitos é a postura que irão adotar. Dos vencedores, nos Executivos e nos Legislativos, esperam-se gestos na direção do serenar de ânimos e da recuperação de um país mais fraterno e unido. O pós-eleição vai exigir dos ungidos pelas urnas mensagens claras de que se comprometem a trabalhar em nome dos interesses de toda a população e seus estratos, e não apenas para os seus apoiadores mais empedernidos. A mesma responsabilidade tem de ser demonstrada pelas candidaturas derrotadas e seus eleitores. O primeiro ato voltado a colaborar com a aquietação nacional e com o fortalecimento da democracia deve ser o acatamento do veredito dos votos. Reerguer o Brasil requer a cooperação de toda a sociedade, afazer em que precisam estar inseridos vencedores e vencidos, como partícipes de um mutirão cívico.

O país tem sérios problemas a enfrentar em temas como educação, saúde, preservação de recursos naturais e ambiente de negócios, entre várias outras áreas. Não há dúvida: será menos custoso suplantar esses desafios se, no lugar das desavenças inconciliáveis, existir um esforço comum para buscar o entendimento em torno de consensos mínimos que permitam ao país avançar e levar maior bem-estar à população.

O Brasil é uma democracia jovem, em busca do desenvolvimento, da construção de uma economia mais próspera e da diminuição da desigualdade social. Eleições periódicas justas e limpas fazem parte das premissas do Estado de direito. Assim como a aceitação de seus resultados. A alternância no poder deve ser compreendida como algo natural e salutar. Grupos que hoje estão na situação e na oposição, em alguns pares de anos, podem trocar de lugar. 

Assim, deve-se crer que todos preferem, quando chegar a sua vez, gerir um país na trilha do progresso para aperfeiçoá-lo, e não administrar escombros e gastar tempo e energia apenas para sair de crises. Acima da disputa política, portanto, precisa estar o compromisso com o futuro do Brasil e dos brasileiros. Isso inclui, no âmbito federal e nos Estados, um comportamento consequente das oposições, o que não elimina a tarefa de fiscalizar e cobrar os situacionistas, de forma dura mas civilizada, como deve ser em uma democracia hígida.

Mas é da figura a presidir o Brasil pelos próximos quatro anos, eleita ou reeleita, que deve vir o principal chamamento para a sociedade deixar para trás a polarização destrutiva. Quem ocupar o Planalto de 2023 a 2026 surgirá legitimado pelo sufrágio da maioria absoluta dos eleitores e terá o dever moral de, pela força do exemplo, semear a mensagem capaz de iniciar, inclusive, a cicatrização das feridas de relações pessoais abaladas por divergências ideológicas.

Ao eleitor, que neste domingo começa a desenhar o novo mapa do poder, cabe votar com consciência, conhecendo a trajetória, os ideais e as propostas dos candidatos. Pede-se sabedoria semelhante aos nomeados pelo povo e aos derrotados para que, cientes do espírito do tempo, firmem um armistício que permita ao país superar os dissensos de lesa-pátria da última década.

OPINIÃO DA RBS


01 DE OUTUBRO DE 2022
NFORME ESPECIAL

Um voto de confiança

Ela deixou no passado um tempo marcado por longas, conturbadas e duvidosas contagens de votos em papel. Antes da era das fake news, figurava no hall de conquistas da nação. Neste domingo, com 26 anos de história e nenhuma fraude comprovada, a urna eletrônica chega a mais uma eleição, em meio a ataques.

Desde os tempos do Brasil Império, a adulteração de resultados foi uma constante nas disputas por cargos eletivos no país. O problema só começou a ser combatido de forma estruturada a partir de 1932, com a criação da Justiça Eleitoral. Desde então, o processo evoluiu, e a informatização foi fundamental para reduzir a intervenção humana, principal causa de erros, involuntários ou não.

Os questionamentos em torno do equipamento, usado pela primeira vez em 1996, não são novos. Mas lançar suspeitas ao vento sem evidências sólidas é, no mínimo, desconsiderar o fato de que todo o processo, do início ao fim, é fiscalizado por um batalhão de gente: mesários, militantes, membros de organismos independentes, especialistas. Isso sem contar as mais de 30 barreiras de segurança do sistema.

Antes de compartilhar qualquer conteúdo nas redes neste fim de semana, pare e pense: o que há por trás de mensagens que tentam desqualificar o processo sem provas? A quem interessa tumultuar a votação? Se presenciar qualquer suspeita de violação no próximo domingo, leve às autoridades. Faça a sua parte. Mas dê um voto de confiança às urnas.

JULIANA BUBLITZ

quinta-feira, 29 de setembro de 2022


29 DE SETEMBRO DE 2022
CARPINEJAR

Queremos passe livre!

É uma zombaria não ter passe livre em Porto Alegre no dia da votação. Houve mudança das datas de gratuidade há um ano, por baixo dos panos, em conluio entre o Paço Municipal e a Câmara de Vereadores, ficando restritas ao feriado de Navegantes e ao Dia D da vacinação.

Não acredito em acaso, não confio em atos falhos. Existe uma intenção na alteração de lei. Porque, em todas as eleições no nosso período recente eleitoral, que acontecem a cada dois anos, contamos com a disponibilidade do serviço para facilitar o deslocamento da população das periferias até os colégios eleitorais.

Então, o voto é obrigatório e o trabalhador porto-alegrense ainda tem que custear ônibus para votar? Já não bastam a redução das linhas e o aumento do tempo de espera nas paradas durante o final de semana?

A raridade de um ônibus não é exagero de minha parte. De acordo com a Empresa Pública de Transporte e Circulação (EPTC) e com a Secretaria de Mobilidade Urbana, a partir de levantamento de junho, a Capital tem 110 linhas a menos do que antes da pandemia: 158 foram desativadas nos últimos dois anos - incluindo a D43 Universitária, que atendia o Campus do Vale da UFRGS - contra 48 criadas.

Diferentemente de outros pleitos, é uma maneira de atacar a democracia, de influenciar a decisão, desfavorecendo os candidatos favoritos nas classes C e D. Só pode ser uma manobra política. Quisera pensar diferente, mas não encontro uma segunda motivação no horizonte próximo.

É um desestímulo para o comparecimento às urnas no primeiro turno, que unicamente permanecerão abertas das 8h às 17h de domingo. Em horário exíguo para quem mora longe. Não existe misericórdia para um minuto sequer de atraso - os portões serão fechados sem desculpa.

Passa-se a ideia de que não compensa votar, de que é mais barato permanecer em casa, pois as passagens de ida e volta custam R$ 9,60 - R$ 4,80 por viagem - e a multa por não votar é de cerca de R$ 3. Ou seja, o deslocamento custa três vezes mais do que a sanção pela ausência não justificada.

Que o prefeito Sebastião Melo, eleito com passe livre, possa rever sua posição e baixar um decreto. A lei permite que sejam autorizados até seis dias de passe livre por ano na cidade. Além dos dois obrigatórios, mais quatro opcionais. Um deles deveria ser garantido agora. Para não gerar dúvidas quanto a interesses espúrios.

CARPINEJAR

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