sábado, 16 de outubro de 2021


16 DE OUTUBRO DE 2021
LYA LUFT

A pálida esperança

Não quero brincar de morrer, como em criança fazia, me deitava na cama, no assoalho, tentando ficar assim por um pouco de tempo que fosse: não conseguia muita coisa. Achava morrer muito ameaçador, e se nunca mais eu conseguir acordar desse sono maluco? Melhor pegar um dos meus amados livros, e entrar naquelas histórias.

Se eu morrer, Pandora vai desaparecer? Ou vai continuar como meu reflexo, com todas aquelas suas sombras no espelho? Não sei se sobreviveríamos separadas. Eu existo nisto que penso ser realidade, ela bruxuleia quando as luzes se apagam: e assim resistimos, as duas.

Não quero ser uma criatura dessas que se movem quando tudo dorme. Não quero ser essa imaginação que ameaça se tornar realidade. Quero meu sangue nas veias, os dentes na boca, o riso, o grito, o olhar, o abraço, as pessoas que importam mais do que os seus reflexos. Quero a juventude que me rodeia, as crianças que me fazem rir, a amizade que me faz florescer sempre de novo, e o amor.

Pois na Caixa de Pandora sobrou o que chamaram "a pálida esperança".

- O que você vê quando olha para mim - perguntei a alguém. Depois de pensar um pouco, ele respondeu: - Vejo calor e vida.

Então eu quero ainda ser isso. Não quero ser uma Penélope cujos dias se resumem a tecer a própria mortalha.

Não quero terminar neste jardim de adeuses, nem subir escadinha fatal nem ter o fio cortado. Não sou Pandora, nem o rosto dela que bruxuleia no espelho é de verdade o meu. Eu a inventei para não me sentir sozinha? Para não ser imortal? Espelhos não serão tão mais importantes, mas a vida em si, a carne, a pele, a voz firme, o mar, o amanhecer vermelho, até mesmo um pedaço da solidão e lágrimas, isso eu quero ser, e por que não?

(E assim que traí Pandora.)

Livro encerrado, mesmo que eu não compreenda nada do que se desenrolou nestas páginas. Jornada de um dia? Trabalho de uma vida? Uma longa ilusão? Não há de fazer muita diferença. Porque a vida e a morte, e o claro e o escuro, e a realidade e a imaginação se entrelaçam, se fundem, se ocultam e se desvendam.

Porque o grão de loucura ilumina a noite e fertiliza a terra. Porque somos melhores do que nos fazem crer que somos. Porque para nós, amadores, indagar é melhor do que entender.

Porque o consolo está em que nada faz muito sentido. Porque, se uma parte de viver são escolhas, a outra parte é milagre dos deuses.

Este texto é um trecho do livro A Casa Inventada

LYA LUFT

16 DE OUTUBRO DE 2021
MARTHA MEDEIROS

Festa de um

No período de 18 meses, as portas do mundo fecharam, ninguém entrou, ninguém saiu. De fronteiras a residências, isolamento foi a palavra adotada. Quem ainda circulava pelas ruas, não fazia por diversão: atendia doentes, comprava mantimentos, ia à farmácia e voltava direto pra casa, sem a habitual passadinha no bar ou na academia no final da tarde. Diante das estatísticas trágicas, e por respeito a tantas perdas, pouco se falou na solidão como efeito colateral da pandemia.

E efeito sério, solidão deprime. Não a todos - há quem lide muito bem com a própria companhia -, mas o ser humano é gregário, sente falta de se juntar, misturar, confraternizar, coisas que só agora, vacinados e aos poucos, tomando os cuidados necessários, começamos a nos atrever. Mas demorou. Antes dessa lenta alforria, foi um tal de dialogar com o espelho do banheiro, passar um tempão no sofá maratonando séries, bater papo com os amigos por WhatsApp, pedir comida por delivery e engordar. Pois é, não bastasse a deprê, solidão engorda. Muita gente ganhou uns quilinhos extras durante o recuo forçado.

Mas a gente se entrega? Se entrega nada. Crises estão aí para serem revertidas, compensadas. Se você não reparou, eu reparei: durante o confinamento, o pessoal começou a dançar entre quatro paredes. Quem estava namorando ou estava casado quando o coronavírus chegou para estragar a festa (e manteve-se heroicamente casado, apesar do excesso de grude), passou a fazer bailinho na sala, pagode na cozinha, ensaiou um tango no corredor. Uma pequena caixa de som, uma boa playlist no Spotify e quem diria? Bebida por conta da casa.

Já quem foi surpreendido pela pandemia em plena entressafra amorosa, sem um par perfeito ou imperfeito, se virou como? Do mesmo jeito. Fez festa de um. Suou a camiseta como se estivesse na pista, cantou alto sem medo de acordar a vizinhança, levantou os braços como se não houvesse amanhã - e ninguém sabia se haveria mesmo. Quem não soltou suas feras, nem caiu na gandaia, ficou mais triste e pesado.

Nunca precisei de uma ameaça global para dançar em casa, mas agora peguei gosto pra valer e enquanto não fraturar uma vértebra, continuarei com minha rave individual ou a dois (ambas as modalidades disponíveis por aqui), embalada por Fade Out Lines (The Avener), Ring My Bell (Anita Ward), Don´t Think I Could Forgive You (Tell me Lies), The Only Thing (Claptone), Save Your Tears (The Weeknd), Sunshine (Cat Dealers, LOthief, Santti), Again & Again (Oliver Tree) e outras músicas da minha playlist específica para noites incontidas. As sugestões são brinde da colunista. De nada.

Se não é meio ridículo dançar sozinho? Pode acreditar, é maravilhosamente ridículo.

MARTHA MEDEIROS

16 DE OUTUBRO DE 2021
CLAUDIA TAJES

Ser pobre faz mal à saúde 

Há pouco mais de um mês, entrevistei o padre Julio Lancellotti, que atende a população mais vulnerável e mais abandonada da cidade de São Paulo. Chamou a atenção que, além da refeição - a única do dia para a maioria daquelas pessoas -, o padre também distribuía máscaras, sabonetes, absorventes e escovas de dente para os moradores de rua. Um deles, inclusive, pediu duas escovas, a segunda para o cachorro que o acompanhava.

A gente, que pode ter mais ou menos, mas que ainda assim tem, esquece que um simples sabonete pode ser artigo de luxo para muitas famílias. O mesmo valendo para o papel higiênico. Para o creme dental. Nem vamos falar em xampu e condicionador, embora baste ter cabelo para saber que são produtos importantes. No mundo em que falta comida, eles são completamente dispensáveis.

A pobreza de higiene é apenas uma entre tantas, a pobreza alimentar, a pobreza de moradia, a pobreza para estudar, a pobreza de perspectivas. Onde tomar banho, se não há casa? Onde escovar os dentes?

No começo da pandemia, o Padre Julio mandou instalar uma pia na entrada da igreja de São Miguel Arcanjo, bem no limite entre os bairros da Mooca e do Belenzinho, para que os moradores de rua pudessem lavar as mãos - a medida mais elementar de combate ao vírus. Se não fosse aqui, ele perguntou, onde eles se lavariam? De que adianta martelar lave as mãos, lave as mãos, lave as mãos, se nem água limpa para isso existe? A ideia do padre Julio bem que podia inspirar outras igrejas.

A essa altura você já deve saber onde este texto vai parar: no veto do presidente à distribuição de absorventes para meninas e mulheres em situação de pobreza. Um projeto que custaria aos cofres públicos R$ 84 milhões. Muito menos que, por exemplo, os R$ 3 bilhões em emendas distribuídas a parlamentares previamente escolhidos e usadas, entre outras coisas, para a compra de tratores com preços superfaturados. Não, não é fake news.

Adolescentes em idade escolar chegam a faltar 45 vezes por ano à escola pela pobreza menstrual, a impossibilidade de comprarem absorventes em seus períodos. Para quem diz "minha avó usava paninho e nunca reclamou", vale lembrar que muitas meninas sequer têm água em casa para lavar os arcaicos paninhos. Acabam usando folhas de jornal.

Por que o presidente vetou o projeto? Segundo ele, por não ter verba de custeio. Damares, a ministra (com caixa baixa mesmo) da Mulher, Família e Direitos Humanos, justificou: querem vacina ou absorvente? Querem arroz ou absorvente? Como se uma coisa tivesse a ver com a outra.

Não que seja um fato isolado. Em julho, o presidente vetou o projeto que reduzia as exigências para que os planos de saúde custeassem remédios orais contra o câncer. Pouco antes, havia vetado integralmente o projeto que assegurava internet grátis para professores e alunos da educação na rede básica. É o Caco Antibes fazendo escola: eu tenho horror a pobre.

Mas faz sentido. No país onde mais de 19 milhões de pessoas passam fome, osso e pelanca viraram iguarias. Remédio, educação, absorvente, tudo isso é perfumaria. Mas o que se tornou supérflua mesmo foi a dignidade.

Que fase.

CLAUDIA TAJES

16 DE OUTUBRO DE 2021
LEANDRO KARNAL

PROCURA-SE COM URGÊNCIA 

Necessito, para admissão imediata, de um profissional muito capacitado. Claro, deve ser bem formado em uma faculdade. O candidato deve dominar a teoria da sua área. Será questionado todos os dias sobre seus conhecimentos. Necessário que seja atentíssimo à demanda de atualização. Nossos clientes são exigentes em grau elevado. Reconheço até que são, eventualmente, chatos.

A tipologia do nosso cliente implica enorme resiliência diante de desgastes pessoais. Indispensável a solidez no campo psicológico. A pessoa que assumir o cargo oferecido deve enfrentar longos dias de estresse que podem crescer em momentos específicos. Deve ter estabilidade pessoal, equilíbrio e nenhum traço de perturbação grave. Nossa experiência ensina que, no cargo oferecido, quem entra equilibrado pode perder parte de sua estabilidade e quem já começa com instabilidades não completa um mês na função.

Pernas fortes são indispensáveis. A pessoa passará muitas horas de pé, quase o tempo todo. A voz deve ser muito especial, pois será usada ao extremo, nos limites da possibilidade humana. As costas merecem cuidados: costumam doer com frequência Importante notar que, além das 8 ou 12 horas diárias, nosso trabalho invade finais de semana. Serão marcadas reuniões aos sábados, por exemplo. Haverá coisas a preparar nos feriados. Nossa empresa gosta de promover festas juninas e precisa de todos os funcionários atuando nas barracas de forma voluntária e com um sorriso. Alguns clientes procurarão seu trabalho e conselho antes de o horário começar e depois de encerrar. Há relatórios a serem revistos até a véspera do Natal. Adoramos reuniões de planejamento ou de avaliação em datas as mais absurdas possíveis.

Há um detalhe que escapa a muitos candidatos. Você será contratado por mim. Eu serei seu chefe. Porém, nossos clientes são considerados seus patrões também. Alguns consumidores do nosso produto, por serem menores, virão com os pais. Eles também costumam se considerar seus chefes. Darão opiniões sobre seu trabalho e nós ouviremos todos, quase nunca você.

Como plano de incentivo, oferecemos café, usualmente sempre passado há muito tempo. Temos unidades onde você terá de colaborar com a compra do pó de café. Há outras, mais generosas, onde o café é de graça. Em regiões nobres, providenciamos até um biscoitinho, mas não todos os dias. Não se acostume. Zelamos pela sua boa forma. Água à vontade, todavia não enquanto trabalha; apenas nas pausas. Se quiser água durante o expediente, traga a sua.

Você precisa ter domínio tecnológico para adaptação a épocas de pandemia. Iluminação, dinamismo de exposição, criatividade gráfica e habilidade de falar com um ponto luminoso na tela por horas de forma a deixar todos satisfeitos e felizes.

Claro: precisamos de você sempre tomado de entusiasmo, disponível diuturnamente, alegre, bem resolvido, sorridente e dócil conosco, com os clientes e seus pais. Uma vez por ano, em data próxima a este anúncio, fazemos uma festa com o dia dos nossos funcionários. Será um dia de cartões e de exaltação a sua tarefa extraordinária. Você será chamado de semeador do futuro, arauto da esperança, apóstolo do saber e servo do conhecimento. Aproveite. É um dia especial. No resto do ano, faremos o contrário de tudo que for dito no seu dia. Então, regozije-se com a data próxima.

Sendo uma profissão vocacionada e dedicada ao cultivo do conhecimento, sabemos que você não escolheu a carreira pela retribuição financeira. Você sabe que nem sempre as pessoas ricas são as mais realizadas. Há casos de milionários depressivos! Querendo evitar os males da tristeza e do apego aos bens materiais, faremos uma proposta salarial modesta. Ela varia de unidade para unidade. Há algumas que até garantem férias um pouco melhores. A maioria investe no seu sacerdócio permanente, beirando o voto de mendicância.

Assim, releia o anúncio. A jornada é muito longa e, para ter melhores rendimentos, você pode acumular várias unidades na sua grade de dedicação. Temos alguns funcionários exemplares que trabalham manhã, tarde e noite. Há danos muito comuns ao corpo: varizes, calos nas pregas vocais, estresse, ansiedade, algum pânico, muita dor na coluna e, frequentemente, depressão. A demanda é alta e está diminuindo a oferta de bons profissionais, mas temos certeza de que você estará seduzido pelas nossas condições.

Sentiu-se atraído? Envie seu currículo para nossa escola. Estamos carentes de professores excepcionais, acima da média, com talento teatral, domínio de conteúdo, habilidades de resistência física e imenso potencial criativo. Queremos professores e professoras que entendam que todos na família descansarão no domingo enquanto você corrigirá provas. E, no final do ano letivo, após terem sido bombardeados de todo lado, sorriam e façam uma avaliação na reunião destacando o amor que sentem pela profissão que abraçaram. 

Queremos nosso corpo docente satisfeito e atualizado. Em resumo, buscamos o perfil de alguém com mente de Prêmio Nobel, transbordando criatividade de artista genial, um corpo de fuzileiro naval, a paciência da Santa Irmã Dulce e o equilíbrio de um lama septuagenário do Tibete. A propósito: feliz dia dos professores e das professoras! É preciso ter esperança mesmo na ironia que, eu espero, alguém tenha ensinado a você na escola.


16 DE OUTUBRO DE 2021
COM A PALAVRA

JOVENS TIVERAM RETROCESSOS NA PANDEMIA. MUITOS RETROCEDERAM ANOS 

MARIA REBECA OTERO GOMES

Coordenadora de educação da unesco no brasil, 57 anos Foi uma das palestrantes do Experience Senac, evento online realizado na semana que passou

Se já não era fácil antes, os desafios da educação no Brasil só aumentaram com a pandemia. E buscar soluções é uma das cruzadas de Maria Rebeca Otero Gomes, coordenadora do Setor de Educação da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) no Brasil. Maria Rebeca integra o escritório de Brasília desde novembro de 2001 e, em 2012, assumiu a coordenação dos projetos de cooperação em educação que a Unesco implementa no país. Mestre em Ciências da Saúde, com especialização em Saúde Pública, ela foi uma das palestrantes convidadas do Experience Senac, evento que ocorreu entre quarta e sexta-feira da semana que passou, com transmissão pela internet. ZH conversou com ela sobre educação plural, as dificuldades no Brasil e medidas mais urgentes.

A RESPEITO DOS DESAFIOS IDENTIFICADOS PELA UNESCO, COMO VOCÊ VÊ O ACESSO À EDUCAÇÃO HOJE NO BRASIL?

Nós temos desafios na questão do acesso à Educação Infantil, ao Ensino Médio, ao Ensino Superior e ao técnico ou profissionalizante. No Ensino Fundamental, a gente conseguia ter bons números de crianças na escola, mas, com a pandemia, estamos perdendo muitos alunos. Muitos não conseguiram fazer aulas remotas. Ou porque não tinham tecnologia, ou ela era insuficiente, como um celular para cinco irmãos. Outros não tinham alimentação adequada ou tinham que trabalhar, ajudar os pais. E muitos estudantes se desestimularam, acham que não aprenderam o suficiente e não estavam conseguindo acompanhar.

ALÉM DO ABANDONO DA ESCOLA, QUE OUTRO IMPACTO DA PANDEMIA DE COVID-19 NA EDUCAÇÃO VOCÊ DESTACARIA?

Estão saindo algumas avaliações mostrando que, infelizmente, muitos jovens tiveram retrocessos nesse período. Eu falava no início da pandemia que o importante era manter o jovem engajado, para ele pelo menos não perder o que aprendeu. Mas muitos retrocederam até alguns anos no aprendizado. Apesar de todos os problemas que já tínhamos, como de aprendizagem, agora nós temos um contingente maior de jovens fora da escola e, muitos alunos que retornaram, andaram para trás. Isso agora vai ter que ser recuperado.

E QUAIS SÃO OS PRIMEIROS PASSOS PARA ESSA RECUPERAÇÃO?

O primeiro é trazer o jovem de volta para a escola. A gente precisa fazer uma busca ativa, preparar as escolas, o currículo, o professor, até para aspectos relacionados à saúde mental e à autoestima desse estudante. A gente precisa fazer com que o aluno seja estimulado a aprender. Já tínhamos mais de 1,5 milhão de estudantes fora da escola, a maior parte dos alunos abandonam a escola no segundo ciclo do Ensino Fundamental. Muito provavelmente essas pessoas não terão uma profissão adequada, que possa trazer uma qualificação da sua vida, um aumento do salário. O segundo passo é fazer uma avaliação de como esses jovens retornaram e quais são suas reais necessidades. Será preciso arranjar novamente o currículo, de forma que atenda às necessidades dos alunos, e proporcionar a estrutura adequada para que tenha segurança e saúde dentro da escola, para a gente não ter que parar novamente.

O QUÃO IMPORTANTE É O DESAFIO DA INCLUSÃO NAS ESCOLAS BRASILEIRAS?

É importante porque a gente precisa dar uma educação de qualidade para todo mundo, não só para uma parte dos jovens. Isso não se faz dando vaga, colocando para dentro da escola. Isso se faz dando a real oportunidade de aprendizagem. É matricular com as devidas oportunidades. Por exemplo, o estudante que é LGBT+ tem que se sentir integrado e incluído. Muitas vezes, o estudante trans abandona a escola por bullying ou por não ter banheiro adequado. Se é um estudante cego, surdo, paraplégico, eu tenho que dar condições para ele, para que possa, de fato, aprender. Se é um estudante pobre, que andou vários quilômetros para chegar na escola, com fome, eu preciso suprir essas necessidades. A escola tem que estar atenta e promovendo inclusão. No Brasil, quando se fala de educação inclusiva, se pensa só em aluno com deficiência, mas, para a Unesco, é geral.

EQUIDADE DE GÊNERO AINDA É UMA QUESTÃO NA EDUCAÇÃO BRASILEIRA?

O Brasil alcançou a paridade de gênero, a gente dá o mesmo número de vagas para meninos e meninas. Mas a gente não tem uma equidade de gênero, realmente. Se uma menina engravida, por exemplo, ela não é acolhida pela escola. Às vezes por causa da amamentação, ela acaba abandonando, porque a escola acha que não é problema seu.

E QUAL VOCÊ CONSIDERA O PRINCIPAL DESAFIO DA EDUCAÇÃO NO BRASIL HOJE?

O desafio da qualidade é o mais importante, e não é alcançado se não tivermos trabalhados esses outros desafios que citei. Há uma série de componentes nele, como o componente curricular. Hoje a gente tem a Base Nacional Comum Curricular, o que é muito bom. Mas cada município tem que desenvolver seu currículo de acordo com sua realidade, fazer um currículo abrangente, que incorpore os aspectos daquela comunidade. 

A parte de estrutura também é importante na qualidade, eu tenho que ter uma sala de aula segura, tenho que ter banheiro, quadra de esportes, computadores, internet rápida, tenho que ter biblioteca. Preciso oferecer uma estrutura que proporcione ao estudante expandir seu aprendizado. Além disso, a gente tem o planejamento educacional, desde o planejamento na secretaria, até dentro da escola, e o relacionamento com os pais também é importante para a qualidade do ensino. Outra questão que influencia demais é a formação dos professores: eles têm que estar preparados para o estudante.

E COMO OS PROFESSORES PRECISAM SER PREPARADOS?

O professor faz o curso de Licenciatura, cai numa sala de aula de educação básica e não sabe como lidar com a realidade que tem ali. É muito diferente do que é ensinado na formação inicial. A gente precisa melhorar o currículo da formação inicial, para que tenha mais prática, para que ele conheça melhor onde ele vai trabalhar depois. Além disso, é necessário haver uma formação continuada, que vai discutindo com o professor, atualizando ele e debatendo os temas mais atuais e importantes de acordo com a sua necessidade de formação. A ideia é ir avaliando e vendo as deficiências do professor para poder saná-las. Mas uma avaliação construtiva, que pretende melhorar e não punir.

E A QUEM CABE RESOLVER TODOS ESSES DESAFIOS?

Do ponto de vista da Unesco, principalmente a educação básica tem que ser pública e gratuita. A implementação cabe ao Estado, e as famílias devem estar dando todo o respaldo para que isso aconteça. No entanto, a responsabilização por uma educação de qualidade é de todos. Ela é da comunidade, dos professores, dos estudantes também, de todas as pessoas.

FALA-SE MUITO SOBRE EDUCAÇÃO PLURAL. O QUE É ISSO?

Educação plural é uma educação para todos, uma educação que compreende as dificuldades existentes e faz com que todas as pessoas, de qualquer etnia, de qualquer raça, qualquer gênero, orientação social, pobre ou rica, tenham oportunidade de aprendizagem igual. A educação plural reconhece a diversidade existente, e a diversidade é muito rica, são muitas experiências, muitas formas de conhecimento. Não há uma juventude no Brasil, há juventudes. Cada estudante tem a sua forma de aprender, e nenhuma é melhor que a outra. Todas são boas, desde que valorizem o aluno e possamos dar a oportunidade de ele aprender. Por exemplo, os indígenas. 

Eles aprendem de uma forma diferente da nossa, têm uma forma de pensar que não é errada, é diferente. E eu tenho que ofertar ensino na língua deles, sei que a criança aprende muito mais quando aprende na língua materna. É minha obrigação fornecer uma educação em português e também na língua dele. Essa pluralidade é muito importante de ser reconhecida por todos, incluindo os pais. Há pais que não querem seus filhos em salas com deficientes, ou então são racistas. Isso infelizmente existe. É preciso ir ensinando a essas pessoas sobre essa pluralidade. Que somos todos diferentes e que, se somos todos diferentes, somos todos iguais.

COMO A EDUCAÇÃO PLURAL IMPACTA A SOCIEDADE COMO UM TODO?

Uma educação que reconhece as diversidades é qualificada e consegue ter melhores resultados. Não no sentido de "tirar 10" na prova, mas no sentido de ter uma construção, uma transformação daquele jovem em uma pessoa melhor. E ele vai poder usar esse conhecimento na sua cidade, no seu Estado, no seu país e globalmente. E progredir. É assim que a gente progride. É importante aprender a viver juntos e desenvolver uma compreensão dos outros, até mesmo um apreço pela interdependência. Por isso é importante respeitar os valores do pluralismo e aprender a gerir conflitos.

DE QUE FORMA SE ENSINA A GERIR CONFLITOS EM SALA DE AULA?

É trabalhar as habilidades socioemocionais, como a empatia, a autoestima, o respeito, o pensamento crítico. Isso você trabalha desde a Educação Infantil, claro que adaptado à idade. Se eu tiver autocontrole, eu não vou entrar em uma briga. Se eu respeito a diversidade, não vou fazer bullying com os colegas. O professor tem que construir uma educação que seja contra a violência e a favor da paz, trazendo todos os elementos da diversidade cultural e da pluralidade.

COMO VOCÊ VÊ O AUMENTO DA LACUNA ENTRE O ENSINO PRIVADO E PÚBLICO DURANTE A PANDEMIA?

O ensino público se prejudicou porque o público com o qual trata é mais pobre, precisa de mais cuidado e de estrutura. Mas eu considero que o setor privado também teve um grande desafio, precisou trabalhar a metodologia, um sistema híbrido. Esse setor conseguiu segurar melhor a peteca, mas também teve dificuldades. A lacuna aumentou mais pela perda do setor público do que pelo privado ter ido melhor.

O ENSINO HÍBRIDO VEM PARA FICAR?

O que a gente fez na pandemia foi o ensino remoto, muitas vezes intermediado por uma apostila ou outros materiais. Uma educação híbrida não necessariamente é assistir à aula transmitida por computador, na casa do aluno. A educação híbrida é aquela que utiliza tecnologia para complementar a aprendizagem. E a tecnologia veio para ficar, então é importante formar os professores na tecnologia, formá-los nas metodologias que devem ser usados com a tecnologia. Devemos pensar em formatos híbridos de educação para cada disciplina e implementar, de fato, uma educação híbrida.

ESPECIFICAMENTE NO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL, QUAIS SÃO OS PRINCIPAIS DESAFIOS IDENTIFICADOS PELA UNESCO?

O Rio Grande do Sul tem mais ou menos os mesmos desafios do que o Brasil na sua totalidade, com uma condição um pouco melhor em alguns aspectos, como na aprendizagem. Mas tem um problema também bastante grande, por exemplo, na questão da diversidade. Ainda há muito racismo no Estado e, falando em equidade, há também a questão de gênero, ainda há muito machismo. É claro que tem muitos lugares avançados, tem muita gente boa. Mas trabalhar a diversidade é superimportante.

QUAL É A REALIDADE DA EDUCAÇÃO NO BRASIL EM COMPARAÇÃO COM OUTROS PAÍSES DA AMÉRICA LATINA E DO MUNDO?

A América Latina é a região mais desigual que existe. Em todos os países, a gente tem problema de inclusão, de qualidade, todos os problemas que existem no Brasil se repetem nas outras nações. E o Brasil é um país continental, tem 48 milhões de estudantes, 2 milhões de professores, uma realidade extremamente difícil de trabalhar. Quem está um pouco melhor são o Chile e o Uruguai, mas há países piores em termos de proficiência mínima, conhecimento de leitura, matemática - casos de Honduras, Guatemala e Paraguai. Com relação aos países desenvolvidos, é complicado fazer esse tipo de comparação, porque os currículos e a realidade socioeconômica são muito diferentes. A Coreia do Sul, por exemplo, no século 12 já tinha universidade. Acho melhor fazer comparações dentro da América Latina, tem uma realidade mais parecida com a nossa.

ENTRE AS METAS DA ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS (ONU) PARA O DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL, QUAIS SÃO AS PRIORITÁRIAS PARA A REALIDADE DA EDUCAÇÃO DO BRASIL?

Os objetivos para desenvolvimento sustentável da ONU são 17, e o número 4 é o que fala da educação, que é "garantir o acesso à educação inclusiva, de qualidade e equitativa, e promover oportunidades de aprendizagem ao longo da vida para todos". Dentro dele, tem metas para a Educação Infantil, de dar aprendizagem profissional aos jovens, de formar professores. Depois, cada país desenvolve suas prioridades. O Brasil tem um Plano Nacional de Educação muito bom, mas muito desse plano, que se estende até 2024, não vai ser cumprido. 

Já estamos vendo que não vai ser cumprido, não está sendo e não vai ser. Na realidade do Brasil, dentro das metas da ONU, eu destacaria a meta 4.7, que diz o seguinte: "Até 2030, garantir que todos os alunos adquiram conhecimentos e habilidades necessárias para promover o desenvolvimento sustentável, inclusive, entre outros, por meio da educação para o desenvolvimento sustentável e estilos de vida sustentáveis, direitos humanos, igualdade de gênero, promoção de uma cultura de paz e não violência, cidadania global e valorização da diversidade cultural e da contribuição da cultura para o desenvolvimento sustentável". Uma educação de qualidade depende disso, depende de que seja transformadora.

NO SEU ENTENDIMENTO, QUAL É O REAL OBJETIVO DA EDUCAÇÃO?

É promover o cidadão para que ele realmente transforme sua vida. Para que ele saiba aprender a aprender, porque ele tem que continuar aprender ao longo da vida; aprender a fazer, ou seja, ter uma profissão; aprender a ser, e aí entra a questão de virtudes, de ética; e aprender a conviver, que é onde vai aprender a viver em sociedade de uma forma harmoniosa. A educação não é apenas aquela que passa conhecimento cognitivo, ela visa a transformar.

 JÉSSICA REBECA WEBER


16 DE OUTUBRO DE 2021
DRAUZIO VARELLA

PREVENT SENIOR DEFENDE AUTONOMIA DO MÉDICO PARA SE SAFAR DE SUAS PRÁTICAS 

A autonomia do médico nunca foi tão defendida. Entre outros, são ferrenhos defensores dela a diretoria da Prevent Senior, os senadores governistas da CPI, o Conselho Federal de Medicina e, pela primeira vez na história da medicina mundial, um presidente da República que a considerou um tema de tanta relevância que fez a apologia dele num discurso de abertura que ficará para sempre nos anais da Organização das Nações Unidas.

É claro que a autonomia é requisito imprescindível para o médico tomar decisões em emergências com risco de morte, situações em que o doente muitas vezes está inconsciente ou incapaz de compreender o perigo que corre. É fundamental, também, para preservar o profissional de pressões para adotar condutas que ele considera erradas ou antiéticas, venham de instituições hospitalares, planos de saúde, autoridades governamentais ou do próprio paciente e seus familiares.

Não é difícil identificar, no entanto, a origem do interesse súbito por esse item do nosso código de ética - vem do famigerado tratamento precoce para a covid-19, defendido com unhas e dentes por muitos políticos e pessoas tão ignorantes em ciências médicas quanto o atual ocupante da cadeira presidencial.

O tratamento precoce caiu com uma luva no discurso dos assim chamados negacionistas, seguidores da orientação daquele que usou o poder de mandatário supremo da nação para conclamar os brasileiros a andar sem máscara e a formar aglomerações, "com coragem e de peito aberto". Se, ao seguir tais conselhos, os incautos porventura se infectassem, não haveria por que ter medo - contariam com remédios maravilhosos.

Com o aval do Ministério da Saúde, cloroquina, ivermectina, azitromicina, zinco e diversas vitaminas foram empacotados num "kit" apregoado como a cura da doença. Embora inúmeros estudos realizados durante a pandemia tenham demonstrado que nenhuma dessas drogas apresentava atividade contra coronavírus, não faltaram médicos para prescrevê-las.

Alguns o fizeram por ignorância, por não terem o hábito de estudar; outros, por imitar colegas que, como eles, não aprenderam a ler e avaliar trabalhos científicos. Outros, ainda, por acreditar nas notícias falsas da internet e por solidariedade ao presidente. Entre esses, estavam os dirigentes do Conselho Federal de Medicina, um grupo que já comungava dos ideais bolsonaristas antes mesmo de Bolsonaro disputar a eleição.

Temerosos de que recomendar o emprego do tal "kit" provocasse forte oposição da academia e dos especialistas mais respeitados do país, os membros do CFM entenderam que a melhor forma de provar lealdade canina ao governo atual seria garantir aos profissionais o direito de prescrevê-lo sob o manto obscuro da autonomia.

Teria sido mais honesto se os nossos conselheiros federais se dirigissem aos médicos que pagam as anuidades em dia para dizer a eles que, por apoiar a linha política do presidente da República, o conselho garantiria a eles o direito de prescrever medicamentos inúteis, sem que precisassem se preocupar com desvios éticos passíveis de punição por parte do Conselho Federal ou dos conselhos regionais.

Depois, bastaria esperar que os médicos fossem obedientes às ordens do general que comandava o Ministério da Saúde e aos "protocolos" adotados pelas operadoras de planos de saúde, como a Prevent Senior, por exemplo.

Atribuir à autonomia a liberdade para receitar remédios inúteis é tão grave quanto admitir que cirurgiões operem doentes sem indicação cirúrgica ou que médicos insuflem ozônio no reto de pacientes intubados e mantidos em ventilação mecânica nas UTIs. Nos Estados Unidos, o ex-presidente também insistiu que a cloroquina era uma grande arma no combate ao vírus. Em meados do ano passado, assim que surgiram os primeiros trabalhos científicos demonstrando a ausência de atividade da droga, os médicos americanos pararam de prescrevê-la. Sabe por que razão, prezado leitor?

Para evitar punições dos conselhos deles e processos na Justiça por "malpractice" com indenizações milionárias de pacientes que se sentissem prejudicados pelos efeitos colaterais de um medicamento sem atividade. O que fez o ex-presidente americano? Para evitar as consequências legais do investimento desperdiçado, desovou no Brasil toda a cloroquina encalhada por lá.

DRAUZIO VARELLA

16 DE OUTUBRO DE 2021
BRUNA LOMBARDI

DE CASO COM A VIDA 

Como é sua relação com a vida? Qual é o principal sentimento que você costuma transmitir, aquele que se manifesta tanto, que acaba se tornando o traço mais marcante da sua personalidade? Sua relação com a vida é um caso de amor? É uma relação doce, serena, pacífica, que faz bem ou é tensa, ansiosa, tóxica, difícil, daquelas que facilmente machuca?

Você consegue perceber o que mais acentuadamente rege a sua postura no mundo?

Consegue destacar uma emoção que te represente porque é a que mais se apresenta em você? Aquela que mais assiduamente puxa o gatilho do seu comportamento? É claro que temos dentro de nós todos os sentimentos, sensações, emoções, somos um misto de tudo, mas um deles acaba se mostrando com mais frequência. E vai ser o mais identificado com você, associado ao seu jeito, mesmo que você não perceba.

Mesmo que a gente não tenha consciência, tem sempre um jeito de estar no mundo que nos define. Da mistura que somos, alguma coisa se repete e se expressa tantas vezes, que acaba sendo a nossa mais perfeita tradução.

Você consegue detectar na maneira como você age, fala e pensa, aquilo que você mais passa para os outros? Pense com calma: suas atitudes em geral nascem de um sentimento negativo ou positivo? O que mais frequentemente motiva as suas ações?

Qual a sensação que habita mais seus pensamentos, que aparece mais nas suas reações, que define melhor a sua postura na vida? Vivemos tempos de ansiedade, medo, cansaço, exaustão. Existe muito sofrimento dentro de fora de nós, coisas que carregamos, pesos que poderíamos e deveríamos descartar.

E sem perceber podemos estar criando um acúmulo de nuvens escuras no nosso céu. Podemos nos sentir vítimas, por exemplo, viver na autopiedade querendo que os outros também se compadeçam como forma de consolo.

Ou então reclamar de tudo e de todos, numa cobrança constante com a vida, com as pessoas ou com nós mesmos. Há os que carregam a dor do mundo, os que se não se conformam, os que se acomodam, os que escolhem a indiferença e o egoísmo como atitude.

Existem pessoas que se deixam invadir pela mágoa, vivem de ressentimento, destilam ódio, raiva, vingança. Tem os que se escondem numa fachada de sarcasmo, de cinismo. Os que se colocam sempre numa posição de julgamento.

Há também os que espalham alegria, renovam o entusiasmo e a esperança e estimulam os outros a fazerem isso. Carregamos dentro de nós uma miríade de sentimentos e podemos passar por todos conforme as circunstâncias. Mas um deles nos guia e nós nos deixamos guiar. Tente perceber se as pessoas te identificam com aquilo que você mesmo se identifica.

Se a gente conseguir determinar nosso principal traço, nossa maneira de ser e encarar o que acontece, vamos nos compreender melhor.

O sentimento que elegemos ou que nos elege determina nossa visão de mundo. E vai determinar também o modo como o mundo nos trata. Somos seres complexos nesse turbilhão de emoções? Complicar a vida é fácil, simplificar dá trabalho.

BRUNA LOMBARDI

16 DE OUTUBRO DE 2021
J.J. CAMARGO

QUEM GARANTE QUE VOCÊ É NORMAL?

 "Toda pessoa só é normal na média." (Sigmund Freud)

Sempre tive um certo encanto pela psiquiatria. Se não fosse uns ruídos da relação pessoal nos estágios precoces do curso médico, talvez hoje eu estivesse lamentando a perda da alegria de transplantar, posto que o cérebro ainda não se transplanta, mesmo sendo o órgão no qual se reconheça um potencial para uma fila gigantesca de candidatos.

Mas voltemos ao começo da meada: estávamos no quarto ano, o estágio da psiquiatria nos colocou na unidade Melanie Klein, e quando o professor ordenou que fizéssemos a anamnese de um jovem recém admitido, Freud deve ter mudado de posição na tumba, porque era certo que não daria certo.

Cercado por quatro estranhos, o nosso pacientinho não moveu nenhum dos mais de 20 músculos da face. Parecia estar a nossa espera - mais do que isso: parecia que se preparara para o momento, tal a naturalidade com que encarou um a um dos incautos visitantes. E então nos descobrimos perdidos, ninguém tinha nos ensinado por onde começar a entrevista com um paciente psiquiátrico, e o "bom dia" sem resposta foi o primeiro sinal de que não era assim que nos tornaríamos confidentes.

Então, alguém do quarteto teve uma ideia luminosa: "Que tal começarmos pela identificação do paciente, como fazemos com todos?".

Sem ninguém com uma sugestão melhor, saiu: "Como é o seu nome?".

A cara de espanto foi inesquecível:"Vocês não sabem meu nome, mas tá dando no rádio a toda a hora?!".

Com a entrevista emperrada, um dos colegas, que o tempo de convívio futuro mostrou ser um grande conciliador, tomou a iniciativa numa trilha que, de tão amistosa, era provável que funcionasse: "Tchê, vou me abrir contigo. Nós somos estudantes, o professor é uma fera, se nós voltarmos lá sem nenhuma palavra tua, o grupo todo vai ganhar zero. A gente quer ser teu amigo, então vamos combinar uma coisa: tu dizes teu nome, onde moras, contas por que vieste para cá, e a gente não te incomoda mais, que tal? Topas?".

A inspeção sequenciada do grupo recomeçou. O olhar gélido dele, batendo no olho aflito de cada um dos parceiros, como se espiasse através dos nossos cérebros e os descobrisse vazios, como acontece quando as pessoas consideradas normais não sabem o que fazer.

E então uma pausa, como se tivesse avaliando se a proposta valia a pena, e uma mudança de posição na cadeira desconfortável só aumentaram nossa ansiedade.

"Topo (funcionou, ufa!). Mas com uma condição: voltem amanhã com um radinho, que eu conto tudo pra vocês! Preciso dum rádio pra descobrir o que estão falando de mim".

O que nasce difícil não melhora com o passar do tempo. Anos depois, já como residente, ouvi do meu chefe, que acompanhava à distância um diálogo meu com um paciente meio estranho, a seguinte lição: "Este papo não vai te levar a lugar nenhum porque estás tentando racionalizar os argumentos de um maluco. Então aprenda o seguinte: em conversa de louco, tu tens que ser o mais louco, porque se não vais ficar numa desvantagem absurda!".

Recapitulando, assumiria que devemos ser menos rigorosos ao rotular, pois, como cantou Caetano, "de perto ninguém é normal".

J.J. CAMARGO

16 DE OUTUBRO DE 2021
DAVID COIMBRA

Cem anos de idade

Dona Adiles Steinert tem cem anos de idade e diz que é minha fã. Ela falou isso para o pessoal do Atendimento ao Leitor, de Zero Hora, dias atrás, e eles me contaram. Fiquei radiante. Mas não é a primeira senhora centenária que gosta de ler minhas crônicas, sério. Tenho prestígio com as avós e as bisavós.

Um dia, estava em algum bar e vi aquela deusa me olhando e sorrindo. Era uma morena lindíssima, de pernas longas e lábios de Angelina Jolie. Fiquei boquiaberto. Pensei: será que ela está olhando para mim mesmo? Estava. E mais: veio de lá na minha direção, e veio ondulando feito a serpente do Paraíso, e veio com um sorriso no rosto de querubim, e veio, e veio, e parou na minha frente. Falou, com voz de amêndoas e mel:

- David... Suspirei. Então ela acrescentou: - A minha avó te a-do-ra!

É sempre assim. Cenas parecidas já se repetiram muitas vezes. Tudo bem, sinto o maior orgulho de ser admirado pela terceira idade. Até porque se trata de admiração mútua. Conheci mulheres singulares com cem anos de idade. A avó da Marcinha, por exemplo, morreu seis meses depois de completar o centenário. Dona Aurinha, seu nome. O Bernardo a chamava de "Bibi". Era doce e inteligente. Gostava de conversar com ela. Um dia, algum tempo depois do seu centésimo aniversário, nós estávamos almoçando juntos e ela olhou para mim e perguntou:

- Sabe o que que eu tenho?

Ergui uma sobrancelha: - O que que a senhora tem, Bibi? E ela, com um meio sorriso divertido: - Cem anos!

Enquanto morei nos Estados Unidos, meu sonho era promover um encontro entre a Bibi e a dona Ethel. A dona Ethel era uma senhora polonesa de 103 anos de idade. Em 1939, ela e o marido fugiram da Segunda Guerra e se instalaram em Brookline, onde abriram um armarinho ao lado da escola Devotion, onde John Kennedy e o meu filho estudaram. Depois de algumas décadas, o marido morreu e ela continuou cuidando da loja. Eu ia até lá, comprava um carrinho para o Bernardo e ficava conversando com ela. Ela colara um cartaz na parede da lojinha: "Eu amo os meus clientes". E amava mesmo. Estava sempre sorrindo, era sempre atenciosa. Numa das férias do Bernardo, nós viemos ao Brasil e voltamos depois de um mês. No primeiro dia de aula, deixei o Bernardo na escola e caminhei até a lojinha. Estava fechada. Um cartaz na porta informava que dona Ethel morrera antes de completar 104 gloriosos anos.

Fiquei chateado porque não a veria mais. Mas compreendi que ela vivera uma vida longa e boa. Gostava do que fazia, gostava do lugar onde morava, era uma pessoa feliz. Com dona Ethel, assim como com a Bibi, o ciclo da existência se completou. Porque o natural seria acontecer o mesmo com todos os seres vivos: eles nascem, crescem, amadurecem, envelhecem e morrem. A morte, portanto, é só mais uma etapa do ciclo, e não uma tragédia. Aprecio esse pensamento, porque, ao diminuir o peso da morte, alivia o da vida. Por isso, sinto vaidade das minhas leitoras que são avós e bisavós. Mas gostaria de sentir vaidade pelas netas também.

DAVID COIMBRA

16 DE OUTUBRO DE 2021
FLÁVIO TAVARES

CRIME OCULTO? 

O crime e o engodo estão em todas as partes. Sorrateiros, às vezes não são visíveis e se ocultam nas decisões do poder político ou se escondem a pleno sol nas manobras dos grandes grupos econômicos.

Com esta visão, a Constituição de 1988 instituiu o Ministério Público como ente independente, com autonomia funcional e administrativa, quase um "quarto poder", como chegou a ser chamado. Assim, resistiria ao assédio do delito oculto nas demais áreas de governança ou influência.

Agora, porém, na Câmara dos Deputados, um projeto de emenda à Constituição tenta podar ou restringir essa independência e autonomia. Ao alterar a composição do Conselho Nacional do Ministério Público, nele inserta parlamentares e faz a Câmara indicar o estratégico posto de corregedor.

Em anos recentes, a independência do MP desnudou o escabroso conluio entre governantes e magnatas do setor privado. A chamada Operação Lava-Jato iluminou os crimes ocultos nas sombras em que se moviam até então "insuspeitos cidadãos" e isto só foi possível pela independência e autonomia do Ministério Público.

Não importa que tribunais superiores tenham interrompido os processos e que, hoje, não haja presos. O conluio macabro veio à tona tal qual um monstro de mil cabeças.

Chama atenção, porém, que a iniciativa da emenda seja de um deputado do PT paulista, Paulo Teixeira, acompanhado por quase toda a bancada petista. A maioria dos 185 deputados que assinam a proposta se dizem "de esquerda", postulando-se como defensores das causas populares, mas apoiaram algo institucionalmente imoral.

Sim, pois a independência e autonomia do Ministério Público revelou o crime abjeto que (na Lava-Jato) uniu políticos e grandes empresários. Agora, deputados bolsonaristas e petistas se unem para decepar a autonomia do MP.

Querem permitir que o crime se oculte?

A celebração da Padroeira e Rainha do Brasil no Santuário de N.S. Aparecida (SP) mostrou como a visão teológica pode elevar a política. Em alusão ao lema do governo Bolsonaro ("pátria amada Brasil"), o arcebispo do santuário, dom Orlando Brandes, frisou que "para ser pátria amada, não pode ser pátria armada".

Defendeu a preservação da Amazônia e "uma pátria sem ódio, uma República sem mentiras e sem fake news". Na missa da tarde, com Bolsonaro de máscara pela primeira vez, o pároco do santuário frisou na homilia: "Se abraçássemos a proposta de Jesus, seríamos um povo desarmado e mais fraterno".

Jornalista e escritor - FLÁVIO TAVARES

16 DE OUTUBRO DE 2021
OPINIÃO DA RBS

ESPERANÇA NA EDUCAÇÃO

Há consenso de que a educação é a base do desenvolvimento. É o alicerce sobre o qual é possível construir um futuro digno no plano pessoal e o suporte para o progresso de qualquer território. Dar uma formação sólida a crianças e jovens significa forjar cidadãos conhecedores de seus direitos, produtivos, aptos a executar tarefas cada vez mais complexas e capazes de acompanhar e serem sujeitos do avanço tecnológico, em ritmo cada vez mais alucinante. Não é novidade que o Rio Grande do Sul, especialmente no ensino público, vem pecando na tarefa de oferecer condições adequadas de aprendizagem em sua rede. Perdem, de alguma maneira, todos os gaúchos, na forma de uma economia que cresce aquém do potencial ou na eternização de impasses sociais.

Mas já passou da hora de a era das lamentações ficar para trás. Se há muito cobra-se investimento compatível com o desafio de recuperar a qualidade do ensino, deve ser celebrado o lançamento pelo Palácio Piratini do programa Avançar na Educação, com um desembolso previsto de R$ 1,2 bilhão. O aporte com recursos próprios, impensável há poucos anos devido à indigência das finanças, é agora possível pelo esforço empreendido para sanear o Estado, com reformas e privatizações. É sem dúvida uma forma inteligente de alocação de recursos, por tratar-se na verdade de um investimento em capital humano.

A iniciativa do governo gaúcho ataca diversas frentes e deficiências. Promete solucionar problemas estruturais das escolas, disponibilizar computadores para todos os colégios, pagar bolsas em dinheiro para alunos, como forma de evitar evasão, e para professores, como estímulo ao aperfeiçoamento. A criação de escolas-padrão, com internet de alta velocidade, equipamentos atualizados e demais condições materiais modelares traz a esperança de que, em um horizonte não tão largo, seja possível torná-las regra na rede estadual, e não exceções. 

São avanços e melhorias, é preciso ressaltar, possíveis graças à busca por reestruturar as finanças do Estado para que possa existir disponibilidade de verba para os serviços essenciais a serem prestados à sociedade, especialmente para os que mais precisam da mão do Estado. Persistir nesta trilha poderá permitir à frente inclusive dar melhor encaminhamento para as justas demandas relacionadas a questões salariais dos professores, os grandes agentes da educação.

O Rio Grande do Sul, décadas atrás, foi exemplo de qualidade do ensino. Ao longo do tempo, conforme se deterioraram as finanças, o padrão foi decaindo e hoje o Estado não está entre as unidades da federação do país que melhor alcançam aos alunos as condições necessárias para um aprendizado compatível com os desafios do presente. O que dirá do futuro. A pandemia, com o longo período de escolas fechadas, levou a um retrocesso na assimilação dos conteúdos ainda mais grave. Aprender significa acumular camadas de conhecimento. 

Agora, é esperar que todo o planejado pelo Estado saia do papel conforme foi prometido, no cronograma previsto e, se possível, tenha continuidade nos próximos governos. Assim será possível mais do que recuperar o prejuí- zo recente na aprendizagem. Viabilizará ter a esperança de que os estudantes gaúchos poderão contar com uma educação que permita amealharem consciência e os saberes e competências necessários para crescerem profissionalmente e como cidadãos, ajudando a fazer do Estado um lugar mais próspero e de melhores oportunidades. 


16 DE OUTUBRO DE 2021
CAMPO E LAVOURA

Uma gota de R$ 2,5 bi em oceano de potenciais bem mais profundos Sementes lançadas

Instrumento que viabiliza investimentos em títulos do agronegócio, as células de produto rural (CPR) começam a ter as cifras mensuradas a partir da obrigatoriedade de registro digital. Levantamento da Bolsa Brasileira de Mercadorias (BBM), uma das habilitadas a fazer essa certificação, contabiliza R$ 2,5 bilhões em recebíveis neste ano. Uma quantia importante, mas que representa uma gota no oceano de possibilidades que se estima para esse mercado.

- É um valor muito insignificante diante do potencial de R$ 200 bilhões que podem ser emitidos anualmente, se considerado todo o universo de CPRs - pondera Edson Bündchen, uma dos sócios da assessoria agroempresarial BWZ.

Sócia da BBM, a empresa é uma das aptas a fazer o registro - foram R$ 110 milhões neste ano. Bündchen projeta que comece a ganhar força em 2022 e que, até o final de 2023 já se tenha um mercado maduro de CPRs, "com vários fundos entrando".

Neste momento, a obrigatoriedade do registro é para títulos acima de R$ 1 milhão. No próximo ano, passa a ser para os acima de R$ 250 mil. E, em 2023, de R$ 50 mil. Essa "declaração" eletrônica está para o negócio como a escritura na venda de um imóvel.

- É uma garantia contra terceiros. Dá validade jurídica para efeitos de cobrança e, também, se quiser negociar esse título - explica Bündchen.

Para o produtor, entra como mais um canal de captação de recursos para financiar a atividade e os investimentos. É visto como o futuro do crédito rural diante de uma demanda que cresce em velocidade superior à capacidade de atendimento pelas fontes tradicionais, com equalizações feitas pelo Tesouro.

- Está muito claro que, no futuro, a grande garantia do agro será a CPR - avalia Antônio da Luz, economista-chefe da Federação da Agricultura do Estado.

Foi com a Lei do Agro e a subsequente regulamentação que se buscou fortalecer os recebíveis dentro de operações de crédito estruturadas. Em abril deste ano, a cooperativa Cotrijal fechou um projeto-piloto para fazer a renegociação de 500 associados, afetados por falta de chuva. A operação foi via Certificado de Recebíveis do Agronegócio (CRA) garantido.

Sementes lançadas

É somente em 2022 que os resultados serão colhidos, mas aos poucos, o RS vai lançando as sementes daquela que poderá ser a nova safra recorde de soja (na foto acima, propriedade em Santa Bárbara do Sul). Com área total estimada em 6,3 milhões de hectares, o Estado deu a largada oficial no plantio em cerimônia em Júlio de Castilhos, na Região Central. A cooperativa Cotrijuc contabiliza 5% de semeadura.

Em outras regiões onde o cultivo começaria, como Santa Maria, Santa Rosa e Pelotas, a chuva acabou adiando o início dos trabalhos no campo, aponta levantamento da Emater. Em Herval, no Sul, somou 3%.

Apesar de segurar um pouco a largada, as precipitações vieram em boa hora avalia Décio Teixeira, presidente da Associação dos Produtores de Soja do Estado (Aprosoja-RS).

- As chuvas são boas para manter a alta umidade no solo para o plantio. E a soja germinando bem é metade da colheita garantida - afirma Teixeira, acrescentando que o plantio no RS normalmente ganha fôlego na metade de outubro em diante.

Com a perspectiva cada vez mais forte de La Niña no Estado, a previsão aponta um último trimestre do ano de tempo mais seco, sempre uma condição a ser monitorada pelos produtores.

- É melhor ter pouca chuva, mas ela ser bem distribuída, do que grandes quantidades em um período só - observa Caio Vianna, presidente da Cotrijuc.

Para o presidente da Aprosoja-RS, o que mais preocupa, neste momento, é a possibilidade de falta de insumos, como fertilizantes, dessecantes e para tratamento de sementes.

Levantamento inicial da Emater estimou a colheita de soja em 19,9 milhões de toneladas, levemente inferior à do último ciclo. Para a Aprosoja, a produção deve ser superior a 21 milhões de toneladas, projeção semelhante à da Companhia Nacional de Abastecimento, de 21,02 milhões de toneladas. Se confirmado, será novo recorde para a safra gaúcha.

GISELE LOEBLEIN

16 DE OUTUBRO DE 2021
TECNOLOGIA

Onde a inteligência artificial tem vez no Rio Grande do Sul

Abrangente área de estudos, que abarca desde tarefas simples do dia a dia até o desenvolvimento de complexos robôs, a inteligência artificial (IA) tem ganhado força na Universidade Federal de Pelotas (UFPel) nos últimos anos. Uma central de inovação com alunos e professores se ocupa, desde 2019, de realizar formações para a comunidade acadêmica e consultorias a empresas, auxiliando-as a usar a IA para encontrar soluções para problemas de forma mais ágil e com menos chance de erros.

Com financiamento misto - parte da UFPel e parte das instituições e empresas parceiras -, o Hub de Inovação em Inteligência Artificial (H2IA) é fruto de reflexões entre a Secretaria Estadual de Inovação, Ciência e Tecnologia (SICT) e a universidade sobre como ampliar esse segmento no Estado. A proposta, de acordo com pró-reitor de Planejamento e Desenvolvimento da UFPel, Paulo Roberto Ferreira Junior, é que o hub sirva para apoiar o desenvolvimento regional na inteligência artificial, permitindo que empresas locais também usem a tecnologia e, com isso, desenvolvam produtos e processos mais inovadores e competitivos. Já há casos, por exemplo, de emprego do recurso em atividades que têm eficácia ampliada em comparação à ação humana, como a análise de qualidade para precificação de grãos (leia na página ao lado).

Aulas

Os dois principais desafios do setor são desenvolver maturidade sobre o tema em empresas e sociedade e formar mão de obra qualificada, explica o coordenador do hub, Ricardo Matsumura Araujo:

- Temos baixa maturidade e uma mão de obra extremamente escassa, a ponto de as poucas empresas que usam IA terem dificuldade de encontrar pessoal. Criamos o projeto para suprir parte dessas faltas que vínhamos observando, principalmente na região Sul.

Ferreira Junior integra o hub desde a sua criação. No entendimento do pró-reitor, o H2IA traz a inteligência artificial para o centro da universidade e permite que pessoas de todos os programas de pós-graduação tenham acesso a esse conhecimento.

Aulas sobre inteligência artificial já foram oferecidas por meio de uma disciplina transversal aberta para todos os cursos de pós-graduação, ministrada por Matsumura.

- É muito importante que a IA permeie outras áreas, porque os grandes avanços que percebemos na pesquisa e no desenvolvimento tecnológico estão na fronteira dos conhecimentos. Quando a inteligência artificial é aplicada à epidemiologia, por exemplo, ambas as áreas têm ganhos, mas principalmente a epide­mio­logia - exemplifica Ferreira.

O grupo é composto por oito professores, 12 estudantes de graduação e seis de pós-graduação. Ainda que vinculado à UFPel, o hub também envolve pessoas da Universidade Federal do Rio Grande (Furg) e do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Sul-rio-grandense (IFSul).

Espaço

Por enquanto, o H2IA ainda não tem sede própria - a expectativa é de que três contêineres já existentes no campus Anglo, da universidade, tenham sua reforma e equipagem concluídas até o final do ano. Durante visita da reportagem de ZH a Pelotas, parte dos integrantes do hub, que tem atuado de forma remota, via pela primeira vez o futuro espaço que o grupo ocupará.

É o caso de Jean Reinhold, 20 anos, aluno de Engenharia da Computação da UFPel.

- Descobri a inteligência artificial no fim do curso de Eletrônica, no IFSul, e me apaixonei. A área ainda é pouco estudada, mas tem muitas possibilidades de atuação. Qualquer atividade do dia a dia que tu penses pode ser alterada com a IA, desde sistemas de segurança até melhores negócios para quitação de dívidas ou para produção de alimentos - cita o estudante, que tem visto o hub como oportunidade de ter uma experiência mais aproximada do mercado e ajudar em demandas reais de empresas.

A ideia do H2IA é desenvolver ações em quatro eixos principais: pesquisa e desenvolvimento, inovação, capacitação e divulgação. Por enquanto, no entanto, o hub tem focado principalmente na formação de alunos - que deve ser ampliada para o público geral no futuro - e na consultoria para empresas.

ISABELLA SANDER

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