sábado, 23 de julho de 2022


23 DE JULHO DE 2022
CARPINEJAR

Peito ou asa?

O casal de velhinhos já havia completado bodas de ouro, cinquenta anos de cumplicidade e cuidados recíprocos com o frio. Na véspera de sair, ela o lembrava da boina, ele a lembrava da manta.

Numa noite de inverno gaúcho, os dois foram jantar no apartamento da filha, no Menino Deus. Ela preparou uma galinha assada no forno, do jeito antigo, dourando a ave com o pincel dos temperos. Na hora de servir, a filha perguntou para a mãe: prefere peito ou asa?

A mãe enrubesceu, titubeou e disse: - Asa! Seu marido a interrompeu: - Como asa? Sempre a servi com o peito.

- Pois é, eu gosto mesmo é de asa - ela explicou. Um desconforto dominou a cena. A filha tentou ajeitar o ruído de comunicação, o silêncio esquisito, agora perguntando ao pai o que ele preferia: asa ou peito?

- Peito! - Ele quase gritou, não controlando a determinação do seu desabafo. - Como peito? Sempre separei para você a asa - atalhou a esposa.

- Pois é, sempre gostei mais de peito. Ambos se entreolharam com espanto, e começaram a rir. Desencadearam uma crise de risos sem precedentes, sem trégua. Chegava a doer a barriga, iam para trás e para frente como se estivessem numa cadeira de balanço imaginária, não nas cadeiras fixas ao redor da mesa.

A filha não entendeu qual o motivo para desenfreada graça. Era para chorar, não para rir. Jamais tinha testemunhado gargalhadas sinceras e intermináveis dos seus pais. Ficou até assustada, com medo de que se engasgassem e passassem mal.

Durante o casamento de décadas, um tentou ser mais gentil do que o outro, e assim se anularam. Entenderam errado o que o seu par apreciava e se prontificaram a fazer renúncias. Amor não é telepatia. O casal descobriu isso tarde demais. Mas antes tarde do que nunca.

Adivinhar é um risco, deduzir é temerário, leituras de mentes geram sempre enganos na transcrição ao papel.

Eles acabaram sendo vítimas do excesso de educação. Por não expor o que desejavam, ela comeu peito quando queria asa, ele comeu asa quando queria peito. Ninguém nunca fez objeção, acordaram que era assim desde a primeira galinha juntos. Não esclareceram a falha. Um deixava para o outro a sua parte favorita, jurando que agradava e realizava uma provação de amor.

- Que bom que não morremos com esse equívoco - ela suspirou, aliviada. - Dizem que galinha cisca para trás. Essa galinha foi longe no passado - ele brincou.

O casal de velhinhos se beijou enternecidamente. Um selinho prolongado, como aquelas cartas de outrora fechadas com a cola da saliva. - Sabe o que é o melhor de tudo? - Ela questionou.

- Não, o quê? - Ele ficou curioso. - Veio uma grande esperança: ainda temos muito a nos conhecermos. Tão triste quando não há nada mais a descobrir em quem amamos.

Pela primeira vez na vida, lado a lado, a esposa se deliciou com a asa (seus olhos voavam plenos), o marido degustou o peito (com a altivez dos ombros erguidos), e repetiram a porção três vezes, para compensar o tempo perdido.

CARPINEJAR

23 DE JULHO DE 2022
FLÁVIO TAVARES

INQUIETA PERGUNTA

Uma pergunta inquietante paira no ar: o que pretendeu o presidente Jair Bolsonaro ao reunir-se com cerca de 40 embaixadores estrangeiros para dizer-lhes que o sistema eleitoral do Brasil não é confiável?

Foi adiante o presidente da República, afirmando que a apuração eletrônica é uma farsa e que, por isso, a "estabilidade democrática" depende do ajuste das urnas. Descumprir a "estabilidade democrática" seria um golpe de Estado?

A insinuação foi tão direta que, em Washington, o governo dos Estados Unidos, de imediato, rebateu as afirmações de Bolsonaro: "As eleições brasileiras, conduzidas e testadas ao longo do tempo pelo sistema eleitoral e instituições democráticas, servem como modelo para as nações do hemisfério e do mundo", disse o governo de Joe Biden.

Mesmo soando em apoio ao vigente sistema eleitoral brasileiro, a manifestação do governo Biden não impediu que Bolsonaro mobilizasse diferentes setores governamentais para respaldar suas esdrúxulas afirmações. Os ministros da Defesa e da Justiça, além do Gabinete de Segurança Institucional (ou seja, o tripé da ação política governamental), apoiaram publicamente as afirmações de Bolsonaro aos embaixadores. Logo, somaram-se a Controladoria-Geral da União (CGU) e a Advocacia-Geral da União (AGU), numa tentativa de dar consistência ao que Bolsonaro sustentou.

Mobilizar diferentes áreas governamentais parece mostrar apenas uma tática para chegar a um fim determinado. Quando põe em dúvida o sistema eleitoral sob pretexto de que é "farsa", o presidente da República estaria pensando em quê?

Todas as alternativas levam a uma interrupção da eleição de outubro, algo similar a um golpe de Estado, totalmente diferente de 1964 (que nasceu em Washington em plena Guerra Fria), mas que, em certos aspectos, lembraria 1937. A diferenciação é que, em 1937, o Exército forçou Getúlio a golpear e, agora, Bolsonaro forçaria as Forças Armadas a acompanhá-lo no golpe.

Aqui, no Rio Grande, outra pergunta inquietante: por que três ex-deputados e atuais conselheiros do Tribunal de Contas (Alexandre Postal, hoje presidente do órgão, Marco Peixoto e Iradir Pietroski) continuam se negando a devolver R$ 1,2 milhão ganhos ilegalmente do Estado, descumprindo até uma sentença judicial?

Jornalista e escritor - FLÁVIO TAVARES

23 DE JULHO DE 2022
EDUCAÇÃO

Unisinos encerra 12 dos 26 programas de pós-graduação

Professores foram informados da decisão em reuniões nesta semana. Estudantes têm a conclusão dos cursos garantida

A Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos) informou professores, nesta semana, que deve encerrar parte dos 26 programas de pós-graduação (PPGs), alguns com conceito de excelência reconhecido. Por meio de nota divulgada nesta sexta-feira, a instituição confirmou que 12 PPGs serão descontinuados, mas não divulgou a lista completa.

A reportagem de ZH conseguiu apurar ao menos seis: Comunicação, Psicologia, Economia, Biologia, História e Ciências Sociais. Demissões também teriam sido anunciadas, mas ainda não foram confirmadas.

Os professores foram informados da decisão em reuniões entre quarta e quinta-feira. A Unisinos confirmou a decisão em nota, onde afirma que "o contexto do ensino superior brasileiro mudou radicalmente ao longo dos últimos anos". O comunicado cita, além da queda do número de matrículas, "a redução expressiva de financiamento público para o Ensino Superior" e a pandemia.

"Para promover o equilíbrio financeiro da instituição e sua preparação para crescer de forma sustentável nos próximos anos, a Unisinos está adotando algumas ações que envolvem o início do processo de desativação de uma parte de seus programas de pós- graduação. Os alunos desses programas não serão prejudicados, pois lhes será garantida a continuidade do curso até que concluam sua formação", diz o texto.

A nota afirma ainda que "a Universidade seguirá investindo e mantendo sua reconhecida excelência em pesquisa acadêmica por meio de 14 programas de pós- graduação, produzindo conhecimento que gera impacto positivo para a sociedade", e que "potencializará seu portfólio de cursos e programas, em permanente conexão com as oportunidades e demandas do mercado, visando contribuir ainda mais para o desenvolvimento do Estado."

Psicologia

Em e-mail enviado aos estudantes, o Colegiado do Programa de Pós-Graduação em Psicologia destacou que "essa é uma das mensagens mais difíceis" que já tiveram de escrever. O texto destaca que todas as atividades acadêmicas e bolsas serão mantidas até a data prevista da defesa de cada aluno, bem como o acesso dos mestrandos e doutorandos aos laboratórios de pesquisa.

"A Coordenação e os professores do PPG Psicologia estão profundamente tristes com todo esse cenário. Contudo, pretendemos garantir a qualidade de ensino e pesquisa do Programa até a última defesa, a fim de honrar os 16 anos de excelência em pesquisas na área de Psicologia Clínica do PPG Psicologia", diz ainda o e-mail, que também lamenta a demissão de quatro professores do programa.

 JÉSSICA REBECA WEBER



23 DE JULHO DE 2022
EMPREENDEDORISMO NO RS

É preciso ter um propósito claro para lidar com desafios

Aos empreendedores, Wilson Zatt sugere que se escolham muito bem as pessoas que estarão ao seu lado no início da jornada, que costuma ser árdua. Ele aponta que, se preciso, vale a pena investir um pouco mais de tempo com esse processo antes de começar a empreender efetivamente. Também ressalta que é necessário entender muito bem o que se está fazendo, o que se pretende solucionar e se realmente há clientes buscando essa solução:

- Para se perpetuar no mercado, a empresa tem que ter seu propósito muito claro: por que existe, que dor resolve, o que faz para ajudar a melhorar a vida das pessoas? A partir daí, se consegue entender o que a empresa nasceu para fazer e no que está focada. É isso que a faz conseguir ter pessoas engajadas para superar os desafios.

Alerta ainda que uma startup nasce com os dias contados e pouco recurso. Então, tem de tentar ser assertiva:

- Se tu não tens um propósito claro no momento em que precisa tomar algumas decisões, podes errar mais. Na Lauduz, quando precisamos tomar decisões estratégicas importantes, sempre nos apegamos ao propósito dela, porque essa é a nossa essência.

sábado, 16 de julho de 2022


16 DE JULHO DE 2022
LEANDRO STAUDT

Moça que deu nome ao leite condensado

O Leite Moça é daquelas marcas que já foram sinônimo do produto, presente na infância de várias gerações. Lembro de ficar esperando minha mãe entregar a colher usada para tirar o leite condensado da embalagem antes da preparação de alguma receita na cozinha. Uma briga para saber quem poderia lamber. As latinhas vazias iam para o lixo, mas os rótulos com receitas de sobremesas eram guardados.

O leite condensado, consumido na Europa e nos Estados Unidos, já era anunciado em jornais do Rio de Janeiro na década de 1860. Apresentado como um produto resultante da retirada de água do leite de vaca e adição de açúcar refinado, chegava nas remessas das companhias de importação.

Na década de 1890, a pioneira Anglo-Swiss Condensed Milk Company, que viria a se fundir com a rival suíça Nestlé anos depois, colocou no mercado brasileiro o Milkmaid, nome em inglês da marca de leite condensado com uma moça, camponesa vendedora de leite, no rótulo. A jovem da embalagem acabaria dando novo nome à marca no Brasil.

O produto era oferecido como substituto do leite fresco, que não podia ser conservado como hoje. De acordo com as propagandas, uma lata de leite condensado misturado com água renderia até quatro litros de leite. A marca importada logo enfrentou a concorrência. Em 1911, a Nestlé & Anglo-Swiss Condensed Milk Company publicou em jornal do Rio de Janeiro o que o consumidor precisava observar para não ser enganado: todo rótulo deveria ter a moça com um balde na mão e outro na cabeça.

A primeira fábrica da Nestlé no Brasil foi inaugurada em 1921 em Araras, no interior de São Paulo. Além do novo leite condensado Ararense, produziu no país a famosa marca Moça.

Inicialmente, o Leite Moça era apresentado como um alimento infantil, além dos outros usos domésticos. Um rótulo de 1945 destacava que poderia substituir o leite fresco em todos os seus usos, especialmente indicado para alimentação de crianças. Uma tabela mostrava as porções indicadas da mistura de leite condensado e água para mamadeiras dos bebês a partir de uma semana de vida.

Desde o início, a Nestlé oferecia receitas em livros, além dos famosos rótulos que vieram mais tarde. A indústria passou a direcionar a propaganda para o uso culinário. Atualmente, as embalagens trazem a advertência de que o leite condensado não deve substituir o leite materno, nem ser usado na alimentação de menores de três anos.

LEANDRO STAUDT

16 DE JULHO DE 2022
MARTHA MEDEIROS

O que virá?

Ativismo e tecnologia: dupla explosiva. Nada mais é morno, agora tudo é escaldante. As lutas pelas causas indígenas e pelo meio-ambiente, os movimentos pró-negros e mulheres. É a vida aos gritos, acessível a bilhões de habitantes do mundo, como não se envolver? Para a turma do "me dou o direito de não opinar", uma súplica: fale, traga novas ideias, exponha suas convicções. Estamos surfando uma onda gigantesca e planetária em busca de mudanças, de igualdade de direitos e de conscientização, a fim de que a Terra resista por mais alguns séculos antes de se desintegrar.

Planetária, sim, não é exagero semântico. Até podemos nos iludir, achando que essa onda é exclusivamente brasileira, em função do nosso preocupante embate político, mas somos apenas parte da história. O mundo inteiro agoniza e exige uma nova mentalidade: temos que tomar conta de todos nós ao mesmo tempo, basta de segregações e preconceitos. Zero tolerância para guerras, ganâncias, hegemonias - tudo isso é tão antigo. Uma nova ordem social se faz necessária.

Embalada por tantas transformações, especulo: contra o quê mais deveremos nos rebelar? Sei que não é pouca coisa se mobilizar pela aceitação plena de nossas diferenças, mas ando curiosa a respeito do que provavelmente jamais testemunharei: quais serão nossas próximas lutas? Ou a luta pró-diversidade durará um tempo indeterminado?

Não é pouca briga, essa de apaziguar conflitos históricos, e pode mesmo levar dezenas de anos sem que nunca se chegue lá (esse lugar inatingível: lá). A inclusão é a grande causa atual, mas não abdico de outros flertes com o futuro. O que temos feito para não se render à mesmice dos hábitos? O que ainda nos surpreenderá? Quais artistas estão revolucionando os costumes? Que movimento cultural irá nos fazer questionar o estado das coisas? O que o poder transformador da arte produzirá nos anos 1930, nos anos 1940, nos anos 1950 deste século em curso?

Quem dera surgisse uma nova banda como os Beatles, uma esquisitice provocadora de um Andy Warhol, uma revolução silenciosa como a feita pela bossa nova, um escândalo provocador como os Secos & Molhados, uma hipnotizante Janis Joplin sem medo de sofrer em público, um novo Domingos Oliveira falando de amor, a arte chegando antes do faturamento, e não planejada para tal. A autenticidade da criação, sem o constrangimento de ser pré-avaliada pela quantidade de selfies, postagens e engajamentos virtuais. Tarde demais? Talvez não. Quem sabe consigamos abrir uma brecha em meio a tantos gigabytes. Ando faminta de um movimento puramente libertário, sem o marketing digital incluído, que tantas vezes obscurece a beleza e a verdade da causa. Meu Deus, como envelheci. Caramba, como ainda sou jovem.

MARTHA MEDEIROS

16 DE JULHO DE 2022
CLAUDIA TAJES

Cidadãos

This Much I Know To Be True. No documentário em cartaz no serviço de streaming Mubi, e que eu aqui traduzo porcamente por Isso Eu Sei Que É Verdade - acredito que deva haver mais poesia no original do que o meu inglês alcança, acompanhamos um pouco da relação criativa entre Nick Cave e seu parceiro musical de décadas, Warren Ellis.

Para não parecer que essa é uma coluna esnobe sobre um artista que nunca chegou a ser popular, e um documentário que talvez não mobilize multidões, explico. Sou fã de Nick Cave desde os anos 1980. Tudo o que ele faz me interessa, seus discos, filmes, livros, enfim, o homem é um artista completo. Nick Cave perdeu dois filhos de forma trágica em apenas sete anos. Essas perdas, esse luto que não passa, se refletem de várias formas nos trabalhos dele a partir de 2015.

Depois dessa breve explicação, corta para This Much I Know To Be True, o documentário em cartaz no Mubi. Já quase no final do filme, Nick Cave diz que teve um tempo em que se apresentava como cantor, compositor, roteirista. Não faz muito, percebeu que essas coisas todas não significam o que ele é, são apenas as ocupações dele. E passou a se apresentar como pai, marido, amigo, um cidadão que canta, compõe, escreve, filma.

É aí que eu queria chegar.

Antes de ser um cantor, um desembargador, um médico, um engenheiro, o que for, os homens deveriam se enxergar como pais, maridos, amigos, cidadãos. Aqui me refiro aos homens porque os tristes acontecimentos dos últimos dias, todos eles, tiveram protagonistas masculinos. A autodefinição do Nick Cave deixa no ar o quanto certos absurdos poderiam ser evitados se os homens se enxergassem assim. Maridos, pais, filhos, amigos, cidadãos.

Bem diferente do que se tem visto. Os que querem desmatar, garimpar, pescar, se apropriar da terra sem regra e sem limite, o que inclui matar quem se atravessar no caminho.

O policial - que deveria trabalhar pela segurança das pessoas - invade uma festa que não lhe diz respeito, deixa quatro crianças sem pai, uma viúva e um país inteiro em choque. O tarado vestido de médico estupra mulheres prestes a dar à luz, sedadas por ele mesmo. Em que filme de terror, em que submundo da ficção alguém conseguiu imaginar coisa tão cruel e tão bizarra?

O deputado federal que comemora 38 anos assoprando as velinhas em um bolo decorado com um três-oitão, e ao lado da filha pequena.

O presidente que não se solidariza com nada, nada, nada, como se a dor tivesse orientação política.

Além de toda a beleza do documentário que fala sobre fazer música através do talento de dois artistas, e o parceiro Warren Ellis brilha tanto quanto seu comparsa Nick, This Much I Know To Be True também traz essa brisa de humanidade que anda fazendo tanta falta.

É um consolo.

CLAUDIA TAJES

16 DE JULHO DE 2022
EANDRO KARNAL

Muita gente leu, no Ensino Médio, O Cortiço, de Aluísio Azevedo. Menos pessoas leram um texto anterior do maranhense: O Mulato.

A estética da obra é o naturalismo. As coisas são apresentadas de modo mais cru do que o público estava acostumado. O ambiente é o Maranhão no fim do Império. Raimundo é o mulato, filho de uma mulher negra escravizada e de um português. O menino vai estudar no Exterior e volta à província, para a casa do tio. Seu pai fora assassinado. Lá se apaixona pela prima, Ana Rosa. As críticas ao preconceito são duras, e a análise das hipocrisias tem tom ácido. Ao pedir a mão da amada, encontra uma dura recusa. O motivo? "Recusei-lhe a mão de minha filha, porque o senhor é filho de uma escrava! - O senhor é um homem de cor! - O senhor foi forro à pia, e aqui ninguém o ignora! - O senhor não imagina o que é por cá a prevenção contra os mulatos!"

Não contarei mais para não dar spoiler de uma obra de 1881...

O capítulo 14 contém a dor da consciência do preconceito, no século que criou o racismo como sistema: "Raimundo, ali, no desconforto do seu quarto, sentia-se mais só do que nunca; sentia-se estrangeiro na sua própria terra, desprezado e perseguido ao mesmo tempo. E tudo por quê?... pensava ele, porque sucedera sua mãe não ser branca!... Mas do que servira então ter-se instruído e educado com tanto esmero? Do que servira a sua conduta reta e a inteireza do seu caráter?... Para que se conservou imaculado?... Para que diabo tivera ele a pretensão de fazer de si um homem útil e sincero?... E Raimundo revoltava-se".

A dor de Raimundo, mais culto e ético do que aqueles que o desprezavam, era originada de um não pertencimento à terra que lhe negava plena cidadania. O racismo criava uma exclusão estética, política e social. Sobre o sistema escravista, diz o doutor humilhado em São Luís: "E ainda o governo tinha escrúpulo de acabar por uma vez com a escravatura; ainda dizia descaradamente que o negro era uma propriedade, como se o roubo, por ser comprado e revendido, em primeira mão ou em segunda, ou em milésima, deixasse por isso de ser um roubo para ser uma propriedade!". Argumento jurídico irrefragável!

Vamos a um ponto fora do espectro analisado pelo autor ludovicense. O termo "mulato" tem origem em mula. A mula é o cruzamento da égua com o jumento. Estéril por natureza. Ainda na Idade Moderna, o termo foi sendo associado aos filhos de negra com branco. O tom é depreciativo. Os militantes do movimento negro condenam a palavra.

Volto no tempo. Nosso célebre jesuíta colonial, padre Antonil, disse que "o Brasil é inferno dos negros, purgatório dos brancos e paraíso dos mulatos e das mulatas". Além da origem pejorativa, os mulatos eram vistos como beneficiados do sistema, sedutores, malandros, erotizados. O padre ainda advertiu para que se cuidasse em não alforriar as mulatas, pois, mesmo livres, seriam a perdição de muitos. O mulato teria a inteligência do branco e a esperteza do negro. Era um perigo!

A escola do jesuíta vingou. Os postais das praias do Rio, na minha juventude, ostentavam nádegas de mulatas em biquínis ousados, convidando os turistas ao deleite das belezas disponíveis. O show que Osvaldo Sargentelli promovia pertencia ao mesmo campo. O corpo da mulata era território livre.

O termo (repito) tem origem pejorativa. Além disso, é uma maneira de dividir os negros em categorias mutuamente excludentes e rivais entre si. Os argumentos seriam suficientes para eliminar o uso da palavra?

Caetano Veloso seguiu outro caminho. Seu pai era mulato. Ele, Caetano, acha um purismo excessivo evitar a palavra. O baiano ainda diz que, mesmo se for derivado de mula, ele não tem nada contra o animal.

Vou ao campo pessoal. Tenho uma norma: mesmo que a mim não soe ofensivo o nome ou o grupo em que eu coloco alguém, o uso é determinado pela pessoa. Dúvida de gênero? Consulte a pessoa. A língua é viva e incorpora conceitos culturais. Na minha infância, nenhuma pessoa com Down era chamada assim. Não havia uma aluna plus size ou alguém com identidade não binária. Os termos eram sempre ofensivos e brutais. A língua incorpora cuidados, sabendo que palavras ofendem, deprimem e até matam. A violência começa na fala e abre portas.

"Hoje em dia tudo é ofensa, é muito mimimi." Quando alguém diz isso, sei que há uma chance grande de ser branco, hétero e homem. Não se trata de politicamente correto, ainda que a palavra correto não possa ser atacada, pois, afinal, é correta. Para mim, trata-se de humanidade. Eu tenho direito a pensar qualquer coisa. No trato social, eu devo evitar ofensa. Isso se chama humanismo, mas não politicamente correto. Eu já errei no campo das palavras. Quero aprender e mudar sempre. Vivo das palavras e sei do seu poder. Quero ser crítico e nunca ofensivo. Tenho esperança de que todos entendam o poder do que é dito ou escrito

P.S.: Agradeço a leitura crítica prévia de Djamila Ribeiro.

LEANDRO KARNAL

16 DE JULHO DE 2022
FRANCISCO MARSHALL

ARISTÓTELES E AS OPÇÕES

Seu nome significa o (ou a) melhor (aristos) finalidade (télos); ele mesmo, Aristóteles, afirmou que o mais importante é a finalidade, que podemos chamar, em filosofia, enteléquia - a potência transformada em ato. A finalidade é atingida com a conclusão das transformações possíveis, e isto vale para todos os seres do universo, animados ou inanimados, inclusive para as criações e instituições e especialmente para nós, que somos ou podemos ser humanos. 

Realizar nossas potencialidades, com as condições possíveis, é a finalidade maior da educação e da sociedade, com todos os seus meios, especialmente o mais nobre, a política. Neste ponto, a filosofia de Aristóteles concilia ética e política, para encaminhar a melhor das metas, a felicidade. Ética significa realizar boas escolhas, nutridas por boas virtudes e orientadas para a felicidade. Eis quando chegamos com o filósofo à cena em que precisamos fazer escolhas que nos conduzam à felicidade.

Aristóteles nasceu em 384 a.C. na cidade macedônia de Estágira, hoje na Tessalônica, nordeste da Grécia balcânica, o que lhe rende a alcunha de o estagirita. Aos 17 anos, foi estudar na Academia de Platão, em Atenas, por cerca de 20 anos. Em 347 a.C., partiu rumo à costa norte da Ásia menor, para a cidade de Atarneus (Atarna), onde reinava um colega e amigo seu, Hermias, que viria a ser seu sogro, pai de Pítias, com quem teve uma filha de mesmo nome. Nos cerca de cinco anos em que viveu naquela região, Aristóteles atuou também na cidade vizinha de Assos e na ilha de Safo, Lesbos, onde realizou estudos de botânica e geografia. 

A convite de Filipe II, rei da Macedônia, retornou a sua pátria em 343 a.C. para cuidar da educação de Alexandre, em Pela. O pai de Aristóteles, Nicômaco, fora amigo e médico de Amintas III, o avô do conquistador. Em 335 a.C., após a partida de Alexandre rumo à Pérsia, o estagirita retornou a Atenas e fundou sua escola, o Liceu. Após a morte de Pítias, amigou-se com a conterrânea Herpília, com quem teve um filho que além do nome do avô recebeu também as lições de ética anotadas na obra Ética a Nicômaco. Neste livro, Aristóteles examina as virtudes que podem levar à boa vida, como a coragem, a temperança, a generosidade, a gentileza, a amizade, a sabedoria e a justiça, todas fruto de opções e todas concorrendo para a produção do prazer maior, a felicidade.

Como muitos intelectuais em Atenas e em outras cidades e eras, Aristóteles foi também acusado de impiedade, por sentimentos antimacedônicos que cresceram após a morte de Alexandre (323 a.C.); antes de ter o mesmo destino de Sócrates, partiu em 322 a.C. para Cálcis, na ilha de Eubeia, onde no mesmo ano findou seus dias em terras da família materna; em seu testamento pediu para ser sepultado ao lado da esposa.

Hoje muitos partem desta terra, e os que ficam é com o coração ferido, de tantos horrores que testemunhamos. Mas será com coragem, esperança e sabedoria que recusaremos o ódio e faremos as melhores escolhas, para que um dia todos possam florescer, realizar suas potencialidades e atingirmos a felicidade nesta nação.


16 DE JULHO DE 2022
PNEUMOLOGIA

COMO FUNCIONAM

u São aparelhos alimentados por bateria de lítio e um cartucho ou refil, que armazena o líquido. Esse aparelho tem um atomizador, que aquece e vaporiza a nicotina. O aparelho traz ainda um sensor, que é acionado no momento da tragada e ativa a bateria e a luz de LED.

u A temperatura de vaporização da resistência é de 350°C. Nos cigarros convencionais, essa temperatura chega a 850°C. Ao serem aquecidos, os dispositivos eletrônicos para fumar liberam um vapor líquido parecido com o do cigarro convencional.

u Os cigarros eletrônicos estão na quarta geração, com maior concentração de substâncias tóxicas. Existem ainda os cigarros de tabaco aquecido: dispositivos eletrônicos para aquecer um bastão ou uma cápsula de tabaco comprimido a uma temperatura de 330°C. Dessa forma, produzem um aerossol inalável.

O médico Drauzio Varella publicou recentemente, no caderno Vida, duas colunas em que se manifesta contrário à liberação do cigarro eletrônico. Confira trechos:

"O cigarro é um dispositivo projetado para administrar nicotina, droga que causa a mais escravizadora das dependências químicas. A experiência clínica em cadeias me ensina que é mais fácil largar o crack. Não é à toa que cerca de 20% da população mundial caiu nas garras dos fornecedores: em sua maioria empresas multinacionais que fabricam 6 trilhões de cigarros por ano. Tamanho sucesso de público é explicado pelo fato de que 15 segundos depois de uma tragada, cerca de 25% da nicotina chega aos neurônios dos centros de recompensa do cérebro. Está provado que quanto mais rápido o pico de ação de uma substância psicoativa, maior é o risco de dependência." (14/5/2022)

u "Cigarros eletrônicos estão criando uma legião de novos dependentes de nicotina. Vamos perder décadas de trabalho educativo no combate ao fumo. Descontada a escravidão, o cigarro foi o maior crime continuado da história do capitalismo internacional. Que outro seria comparável ao de investir fortunas em publicidade, criar lobbies para corromper autoridades, pressionar financeiramente a imprensa para não divulgar os malefícios do fumo, contratar cientistas de aluguel para contestar as pesquisas que o ligavam ao câncer, às doenças cardiovasculares, pulmonares e a tantas outras que encurtam a vida dos usuários crônicos em pelo menos 10 anos?" (18/6/2022)

ESTUPRO

Estupradores despertam em mim ímpetos de violência, a custo contidos. Tive o desprazer de entrar em contato com muitos deles nos presídios. No antigo Carandiru, cumpriam pena isolados nas celas do último andar do Pavilhão Cinco, única maneira de mantê-los a salvo do furor assassino da massa carcerária.

Ao menor descuido da segurança interna, entretanto, eram trucidados com requintes de crueldade. As imagens dos corpos mutilados trazidos à enfermaria para o atestado de óbito, até hoje me perseguem.

Para livrá-los da sanha dos companheiros de prisão, a Secretaria da Administração Penitenciária foi obrigada a confiná-los num único presídio, no interior do Estado. Nas áreas das cidades em que a Justiça caiu nas mãos dos tribunais do crime organizado, o estuprador em liberdade não goza da mesma benevolência.

Assinada pela jornalista Claudia Collucci, com a análise de Fernanda Mena, a Folha publicou, em 2017, uma matéria sobre o aumento do número de estupros coletivos no país. Os números são assustadores: dos 22.804 casos de estupros que chegaram aos hospitais no ano passado, 3.526 foram coletivos, a forma mais vil de violência de gênero que uma mente perversa pode conceber. Segundo o Ipea, 64% das vítimas eram crianças e adolescentes.

O estupro coletivo é a expressão mais odiosa do desprezo pela condição feminina. É um modo de demonstrar o poder do macho brutal que exibe sua bestialidade, ao subjugar pela violência. Não é por outra razão que esses crimes são filmados e jogados na internet.

Oficialmente, no Brasil, ocorrem 50 mil registros de estupros por ano, dado que o Ipea estima corresponder a apenas 10% do número real, já que pelo menos 450 mil meninas e mulheres violentadas não dão queixa à polícia, por razões que todos conhecemos.

Em 11 anos atendendo na Penitenciária Feminina da Capital, perdi a conta das histórias que ouvi de mulheres estupradas. Difícil eleger a mais revoltante.

Se você, leitora, imagina que as vítimas são atacadas na calada da noite em becos escuros e ruas desertas, está equivocada. Há estimativas de que até 80% desses crimes sejam cometidos no recesso do lar. Os autores não são psicopatas que fugiram do hospício, mas homens comuns, vizinhos ou amigos que abusam da confiança da família, padrastos, tios, avós e até o próprio pai.

A vítima típica é a criança indefesa, insegura emocionalmente, que chega a ser ameaçada de morte caso denuncie o algoz. O predador tira partido da ingenuidade infantil, das falsas demonstrações de carinho que confundem a menina carente, do medo, da impunidade e do acobertamento silencioso das pessoas ao redor.

Embora esse tipo de crime aconteça em todas as classes sociais, é na periferia das cidades que adquire caráter epidêmico, sem que a sociedade se digne a reconhecer-lhe existência.

A fama do convívio liberal do homem brasileiro com as mulheres é indevida. A liberdade de andarem com biquínis mínimos nas praias ou seminuas nos desfiles de Carnaval fortalece esse mito. A realidade é outra, no entanto: somos um povo machista que trata as mulheres como seres inferiores. Consideramos que o homem tem o direito de dominá-las, ditar-lhes obrigações, comportamentos e regras sociais e puni-las, quando ousarem decidir por conta própria.

Há demonstração mais contundente da cultura do estupro em nosso país, do que os números divulgados pelo Ipea: 24% dos homens acham que "merecem ser atacadas as mulheres que mostram o corpo". Ou, na pesquisa do Datafolha: 42% dos homens consideram que "mulheres que se dão ao respeito não são atacadas".

Não se trata de simples insensibilidade diante do sofrimento alheio, mas um deboche descarado desses boçais para ridicularizar as tragédias vividas por milhares de crianças, adolescentes e mulheres adultas violentadas todos os dias, pelos quatro cantos do país.

O impacto do estupro sofrido em casa ou fora dela tem consequências físicas e psicológicas terríveis e duradouras. O estuprador pratica um crime hediondo que não merece condescendência e exige punição exemplar. Uma sociedade que cala diante de tamanha violência é negligente e covarde.

DRAUZIO VARELLA

16 DE JULHO DE 2022
OPINIÃO DA RBS

O PACTO AVANÇA

É gratificante constatar que o Pacto pela Educação, lançado há um mês e meio para contribuir com a melhoria da qualidade do ensino público no Estado, avança para materializar os seus propósitos. Uma verdadeira reviravolta na aprendizagem exige que as várias boas iniciativas e intenções que sempre existiram se efetivem, vencendo obstáculos de várias naturezas, como os burocráticos.

Desde a apresentação do movimento, 156 propostas chegaram ao site pactopelaeducacao.org e algumas delas foram apresentadas em um encontro realizado na quinta-feira, no auditório do Ministério Público, na Capital. O evento reuniu os criadores da iniciativa, voluntários que se engajaram ao projeto, estudantes e lideranças sociais e comunitárias.

É alentador que, em poucas semanas, o pacto some mais de 1,3 mil assinaturas de apoiadores do manifesto que apresenta os objetivos e 315 cidadãos que decidiram participar de forma ativa, para colocar as ideias em prática. As propostas apresentadas versam sobre melhora na infraestrutura das escolas, conectividade, valorização e formação continuada dos professores e avaliação do impacto da docência sobre a aprendizagem, entre outros pontos.

O Pacto pela Educação, é importante lembrar, consiste em uma mobilização colaborativa, especialmente de pessoas físicas, voltada a reverter o risco de comprometimento do futuro da atual geração de crianças e jovens nas salas de aula. Além do agravamento da situação da educação no Estado nas últimas décadas, escancarado nas provas de avaliação, a pandemia tornou a guinada ainda mais desafiadora e, por outro lado, inadiável. A intenção é contribuir para dar um salto nas condições materiais e de ensino nos colégios que serão auxiliados, mas sem ferir a autonomia das escolas.

Atitudes do gênero merecem amplo apoio e adesão da sociedade, além de cooperação do poder público. Já está claro que, por mais bem-intencionados que sejam governantes e gestores, a tarefa de dar um salto na qualidade do ensino do Rio Grande do Sul tem de ser coletiva. Também não basta que as propostas apresentadas tenham méritos indiscutíveis, elas têm de ser exequíveis. E é essencial que se criem instrumentos de acompanhamento e avaliação quando forem tiradas do papel. 

Seus resultados, da mesma forma, terão de passar por aferição periódica, para possíveis aperfeiçoamentos ou correções de rota. É de extrema relevância ainda que seja uma iniciativa perene e passe a ser percebida como um mecanismo auxiliar às políticas de Estado, imune a trocas de governo. Uma das próximas etapas, agora, será definir os projetos prioritários que possam ter operacionalização imediata. É imprescindível manter a mobilização, e para isso o cumprimento de cronogramas tem um significativo simbolismo, por reforçar a credibilidade.

Não há novidades no diagnóstico de que recuperar a qualidade da educação é a chave para o Estado retomar o caminho de um desenvolvimento econômico mais robusto e combater a indecorosa desigualdade social. O que falta, sem dúvida, é partir para a ação.

 


16 DE JULHO DE 2022
EMPREENDEDORISMO NO RS

Não basta só gostar, é preciso conhecimento sobre gestão

Segundo Denys, quem quer empreender no ramo da cerveja precisa ter em mente que é algo estritamente empresarial e que é necessário ter noção clara das despesas e receitas do negócio. Isso, aponta, é o que falta para as pessoas - e nisso, se inclui - que desejam abrir sua própria empresa. O engenheiro elétrico comenta que, na graduação, não teve aulas sobre tópicos como receitas, despesas, impostos e lucros.

- Às vezes, as pessoas empreendem sem essa noção e, depois que o dinheiro inicial acaba, começam a fazer as contas e se apavoram com a dificuldade. Então, acho que é fundamental ter uma formação básica em gestão empresarial. Não adianta só gostar e querer fazer cerveja, até porque existem muitas pessoas que fazem boas cervejas - argumenta.

Mas ele acredita que existe espaço para empreender nessa área no Rio Grande do Sul, principalmente devido à tradição cervejeira herdada dos imigrantes alemães e ao interesse sempre crescente pelo produto. Porém, julga que algumas cidades já estão saturadas, como Porto Alegre e Caxias do Sul, que aparecem em primeiro e quinto lugares na lista dos municípios brasileiros com mais cervejarias, com, respectivamente, 40 e 19 estabelecimentos.

Os números são do Anuário da Cerveja 2020, o mais recente divulgado pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Os dados também mostram que o RS se destaca no ramo. Até o primeiro ano de pandemia, o território gaúcho tinha 258 cervejarias e ocupava a segunda posição no ranking de Estados com mais estabelecimentos, atrás apenas de São Paulo, com 285.

Mesmo com uma longa estrada no ramo dos negócios, Denys teve dificuldades para transformar seu hobby em uma atividade rentável e com perspectivas de futuro. Para ele, esse é o grande desafio do empreendedor e envolve, principalmente, estabelecer um posicionamento de marca e manter-se nele, mesmo quando precisa fazer adaptações. Isso porque, muitas vezes, o comportamento que o mercado propõe às empresas, baseado nos concorrentes e consumidores, pode acabar levando à falência.

Como exemplo, o cervejeiro cita os refrigerantes de dois litros vendidos a um baixo preço nos supermercados antigamente:

- Aquilo era o mercado tocando uma música para que os empreendedores produzissem refrigerante barato. Não sobrou nenhum, porque entraram em uma briga de quem fazia mais barato. Na cerveja artesanal, isso é o que os americanos chamam de primeira onda: pessoas que não estão preparadas entram no mercado e ele acaba aniquilando essas empresas.

Sem as mudanças feitas durante a pandemia, Denys avalia que teria se desencantado e desistido do negócio. Por isso, considera uma decisão acertada, mas acrescenta que, mesmo sem ter planejado as adaptações com antecedência, manteve o posicionamento em relação ao tipo de produto e, inclusive, ao valor.

- Não posso ser o mais barato, porque preço é indicativo de qualidade. Fazer cerveja diferenciada envolve selecionar os ingredientes, muitas vezes até de fora do país. Eu não economizo. Cervejaria artesanal não deve economizar em insumos, porque é aí que vamos trazer a diferença e o cliente vai perceber.



16 DE JULHO DE 2022
MARCELO RECH

Mal na foto

Na régua de distorções das fake news, uma graduação inicial é a descontextualização de um acontecimento. A situação ocorreu de fato, mas não é possível se tirar uma conclusão definitiva. Parece complicado? Vamos tomar o exemplo das fotografias, mais precisamente das fotos tiradas com políticos. Com a onipresença das câmeras de celular, a mania das selfies e a disseminação de imagens pelas redes, hoje basta se espalhar o flagrante de alguém ao lado de um personagem enrolado para que uma reputação seja abalada.

Aí é que reside o fake. Uma fotinho ao lado de alguém prova coisa nenhuma. Quem quer que já tenha frequentado os corredores de parlamentos e sedes de governos pode testemunhar o tanto que políticos mais populares são requisitados para "tirar uma foto junto". Em alguns casos, são dezenas de solicitações por dia, que se convertem em pequenas armadilhas em potencial. Recusá-las equivale a rejeitar o eleitor ou, pior, o "contato com o povo". Mas, em contrapartida, com um pouco de maldade, podem ser usadas anos mais tarde como suposta proximidade com alguém em maus lençóis.

Veja-se o caso da absurda morte do guarda municipal Marcelo de Arruda em sua festa de aniversário por tiros disparados pelo policial penal Jorge Guaranho. Logo surgiram fotos de Guaranho com o deputado Eduardo Bolsonaro. Alguma comprovação da relação do agressor com o deputado? Pela foto, nenhuma, a não ser uma das incontáveis selfies que o filho de Bolsonaro tira com admiradores da mesma linha ideológica. 

A própria vítima, tesoureiro do PT em Foz do Iguaçu, tem uma foto sua com Jair Bolsonaro. Então deputado federal e uma espécie de líder sindical de corporações da segurança, Bolsonaro recebeu em 2017 o guarda municipal e colegas em Brasília durante um movimento para que a categoria tivesse a aposentadoria equiparada a policiais. Como acontece com frequência nessas situações, registraram o encontro com uma selfie em que aparecem sorridentes.

Uma foto, como se vê, pode ser apenas uma foto, uma cordialidade tão fugaz quanto corriqueira. A situação muda de figura quando há muitas fotos, sobretudo em situações fora de ambientes de trabalho. Ou quando imagens são seguidas de outras evidências materiais da proximidade. É o caso dos pastores que intermediavam verbas do Fundo Nacional da Educação. Jair Bolsonaro deve ter literalmente milhares de fotos com líderes de igrejas. 

Mas a gravação do então ministro Milton Ribeiro admitindo a intervenção do presidente a favor da dupla e as dezenas de registros de visitas de ambos ao ministério e ao Planalto são indicações de que jabutis não sobem sozinhos em árvores. Aí é que começa a entrar o fato amplo e concreto, matéria-prima de quem busca de verdade a verdade.

MARCELO RECH

16 DE JULHO DE 2022
J.R.GUZZO

Lula vai censurar a imprensa

De tudo o que Lula promete que vai fazer de ruim para o Brasil e para os brasileiros, caso seja eleito para a Presidência da República na próxima eleição, nada está tão claro, desde hoje, como a censura à imprensa. Lula faz questão de dizer isso em público; na verdade, garante que a guerra oficial contra a liberdade de expressão será uma das "prioridades" do seu governo. Ele e o PT não dizem que querem a censura, é claro - falam em "controle social da mídia", mas é exatamente a mesma coisa, em termos práticos. Trata-se aí, unicamente, de impedir a circulação de notícias, de opiniões ou de qualquer coisa que o governo não queira que se publique. Fazer isso é censurar.

Na verdade, a esquerda organizada em torno do ex-presidente já está dando uma prévia de como seu governo vai agir nessa área. Um grupo que se apresenta como "movimento dos sem-teto", em São Paulo, fez um comício de protesto nas portas da rádio Jovem Pan; não admitem que a emissora, onde Lula é abertamente criticado, diga as coisas que está dizendo. Inventaram que estavam protestando contra o "machismo" do noticiário da Jovem Pan - por conta da cobertura sobre um episódio de estupro.

 Conversa. O que eles, a esquerda em geral e o PT não toleram na Jovem Pan é a sua postura de independência. Ao contrário do que faz quase toda a mídia brasileira, Lula é tratado ali não como o santo que vai "salvar o Brasil", mas como quem ele realmente é: um condenado na Justiça pelos crimes de corrupção e lavagem de dinheiro, em três instâncias e por nove juízes diferentes.

Lula quer proibir que se diga isso; quer proibir, na verdade, que se diga um monte de coisas, do passado e do presente. Hoje, ele manda militantes profissionais às portas dos veículos de comunicação tentando calar a voz de quem discorda do PT e dele mesmo. Amanhã, vai usar o "controle social da mídia" e a força do governo para fazer isso. Vai ter o apoio do

Supremo Tribunal Federal, das elites e da maioria dos próprios jornalistas e dos donos dos órgãos de imprensa - que no Brasil, por razões ideológicas e de outras naturezas, são contra a liberdade de expressão, em vez de serem a favor. Vão receber de Lula, com certeza, a censura que estão pedindo.

J.R. GUZZO

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