sábado, 16 de julho de 2022


16 DE JULHO DE 2022
MARCELO RECH

Mal na foto

Na régua de distorções das fake news, uma graduação inicial é a descontextualização de um acontecimento. A situação ocorreu de fato, mas não é possível se tirar uma conclusão definitiva. Parece complicado? Vamos tomar o exemplo das fotografias, mais precisamente das fotos tiradas com políticos. Com a onipresença das câmeras de celular, a mania das selfies e a disseminação de imagens pelas redes, hoje basta se espalhar o flagrante de alguém ao lado de um personagem enrolado para que uma reputação seja abalada.

Aí é que reside o fake. Uma fotinho ao lado de alguém prova coisa nenhuma. Quem quer que já tenha frequentado os corredores de parlamentos e sedes de governos pode testemunhar o tanto que políticos mais populares são requisitados para "tirar uma foto junto". Em alguns casos, são dezenas de solicitações por dia, que se convertem em pequenas armadilhas em potencial. Recusá-las equivale a rejeitar o eleitor ou, pior, o "contato com o povo". Mas, em contrapartida, com um pouco de maldade, podem ser usadas anos mais tarde como suposta proximidade com alguém em maus lençóis.

Veja-se o caso da absurda morte do guarda municipal Marcelo de Arruda em sua festa de aniversário por tiros disparados pelo policial penal Jorge Guaranho. Logo surgiram fotos de Guaranho com o deputado Eduardo Bolsonaro. Alguma comprovação da relação do agressor com o deputado? Pela foto, nenhuma, a não ser uma das incontáveis selfies que o filho de Bolsonaro tira com admiradores da mesma linha ideológica. 

A própria vítima, tesoureiro do PT em Foz do Iguaçu, tem uma foto sua com Jair Bolsonaro. Então deputado federal e uma espécie de líder sindical de corporações da segurança, Bolsonaro recebeu em 2017 o guarda municipal e colegas em Brasília durante um movimento para que a categoria tivesse a aposentadoria equiparada a policiais. Como acontece com frequência nessas situações, registraram o encontro com uma selfie em que aparecem sorridentes.

Uma foto, como se vê, pode ser apenas uma foto, uma cordialidade tão fugaz quanto corriqueira. A situação muda de figura quando há muitas fotos, sobretudo em situações fora de ambientes de trabalho. Ou quando imagens são seguidas de outras evidências materiais da proximidade. É o caso dos pastores que intermediavam verbas do Fundo Nacional da Educação. Jair Bolsonaro deve ter literalmente milhares de fotos com líderes de igrejas. 

Mas a gravação do então ministro Milton Ribeiro admitindo a intervenção do presidente a favor da dupla e as dezenas de registros de visitas de ambos ao ministério e ao Planalto são indicações de que jabutis não sobem sozinhos em árvores. Aí é que começa a entrar o fato amplo e concreto, matéria-prima de quem busca de verdade a verdade.

MARCELO RECH

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Postagem em destaque

12 de Agosto de 2026 CARPINEJAR Os efeitos colaterais das canetas nos restaurantes Desde maio, já circula no Brasil uma caneta emagrecedora ...

Postagens mais visitadas