quinta-feira, 17 de agosto de 2023


17 DE AGOSTO DE 2023
CARPINEJAR

Polêmicas do Conselho Estadual de Cultura

O Conselho Estadual de Cultura (CEC), responsável pela aprovação de projetos aptos a captar recursos pela Lei de Incentivo à Cultura (LIC) do Estado, está chamando atenção nos últimos meses.

Se virou notícia, tem algo de errado, já que é uma instância de consulta e júri para dar visibilidade ao que há de melhor nas artes do Rio Grande do Sul.

Sua controvertida aparição na cena pública decorre da façanha de negar verbas a encontros inquestionáveis de nossa tradição, colocando em risco as suas respectivas realizações.

Reprovou a Feira do Livro.

Reprovou o Festival de Cinema de Gramado.

Reprovou o Acampamento Farroupilha.

Reprovou o Porto Alegre em Cena.

Reprovou o Musicanto.

Agora recusou a Expointer, alegando que é uma atividade própria do agronegócio. Trata-se de desconhecer a sua importância de lazer para mais de 600 mil gaúchos. É um costume assistir a shows no parque de exposições de Esteio. A edição deste ano, que ocorrerá de 26 de agosto a 3 de setembro, pode ficar sem programação de apresentações regionais, porque o projeto cultural, que previa a verba para pagar essas contratações, acabou sumariamente negado.

Ao desmerecer eventos de grande porte, historicamente consolidados, com sucesso de visitação, que elevam o nome do Estado nacionalmente e internacionalmente, comprometendo o planejamento de seus orçamentos, não sobrará nada para os pequenos eventos. Pois é uma cadeia de negócios. Atacou-se a base que gera investimentos para fortalecer o entorno cultural. Milhões de reais que seriam captados da iniciativa privada desaparecem pelo ralo.

Ameaçando o funcionamento da Feira do Livro, por exemplo, atinge-se a saúde financeira das livrarias de rua e dos autores independentes. Feiras por outras cidades também perdem valioso apoio da Câmara Rio-Grandense do Livro, que fornece logística e intermedeia nomes de relevância da área.

Emagrecendo de investimentos o Porto Alegre em Cena, nossa maior vitrine cênica, que estabelece intercâmbio local com as tendências e vanguardas do teatro, dança e música do cenário mundial, anfitriã de convidados como Peter Brook, Hanna Schygulla, La Fura Dels Baus e Philip Glass, colocam-se em risco festivais de menor porte, pois ela é responsável pelo reconhecimento e pela permanência em cartaz das nossas peças no Interior.

Valorizo a independência do Conselho de Cultura, formado por gente séria e diligente. De seus 27 integrantes, dois terços são eleitos por entidades culturais de todas as regiões do RS. Minha mãe já foi conselheira. Valiosos amigos já foram conselheiros, como o saudoso Walter Galvani, presidente por duas gestões.

Mas está ocorrendo um erro de interpretação da nossa realidade artística. Com o objetivo de priorizar propostas em municípios que menos receberam recursos da LIC nos últimos 12 meses, desprezando os bastiões anuais de plateia, prejudicam-se exatamente os municípios menos contemplados com evasão de público, desemprego de profissionais do setor e desligamento de patrocínio das maiores empresas. Não haverá negócios de um modo generalizado.

A lista sucessiva de recusas acontece ironicamente quando o governo do Estado duplicou os recursos para a LIC, passando de R$ 35 milhões para R$ 70 milhões. Ou seja, quando sobram recursos para as mais diferentes envergaduras de espetáculos, do mais incipiente ao mais consagrado.

O CEC, criado pela Lei Nº 14.310 de 30 de setembro de 2013, vem desmerecendo símbolos que surgiram muito antes dele.

Até porque sua origem tem como propósito incluir, não excluir. Como diz meu colega da Rádio Gaúcha, José Alberto Andrade: se todos os alunos são reprovados numa turma, o problema é o professor.

CARPINEJAR

À ESPERA DAS CAUSAS DO APAGÃO

O país ainda aguarda as explicações sobre a causa do apagão de terça-feira pela manhã que atingiu 25 Estados e o Distrito Federal. O que se sabe até agora, conforme o governo federal, é que teria sido o resultado de dois eventos concomitantes. Um deles, uma sobrecarga em linhas de transmissão no Ceará. Sobre o outro, não há certeza de local ou natureza.

Em episódios anteriores de apagão, em regra as razões foram descobertas e divulgadas poucas horas após o ocorrido, ressaltou em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo o engenheiro Luiz Eduardo Barata, ex-secretário-executivo do Ministério de Minas e Energia e ex-diretor-geral do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS). Chama atenção, portanto, a demora para detectar o que ocorreu e prestar os devidos esclarecimentos.

A busca pela elucidação deve ser guiada por critérios puramente técnicos, respeitando o histórico dos diversos órgãos e agências vinculados ao setor elétrico do Brasil. Buscar politizar o tema é um caminho equivocado e perigoso. Foi imprudente, por exemplo, a primeira-dama do país, Rosângela da Silva, ao insinuar em postagem em rede social que o apagão poderia ser consequência da privatização da Eletrobras. O Brasil, afinal, passou por inúmeros episódios semelhantes no período em que a empresa era estatal. A companhia, aliás, tinha como um dos grandes gargalos a incapacidade financeira para realizar os investimentos necessários para robustecer o sistema elétrico nacional.

A entrevista coletiva do ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, na terça-feira à tarde, além de pouco esclarecedora, de certa forma também sugeriu a possibilidade de algum vínculo do corte de fornecimento de energia com a desestatização. Silveira deu ainda margem a interpretações de que alguma sabotagem poderia estar por trás do apagão. Depois, admitiu que não existia nenhum indício concreto neste sentido. Ontem, o ministro da Casa Civil, Rui Costa, afirmou que a causa seria um erro ou falha técnica, retirando a ênfase em uma possível origem dolosa.

Por óbvio, não se deve, de largada, descartar qualquer hipótese. O Ministério da Justiça pediu à Polícia Federal uma apuração preliminar para averiguar se haveria elementos para a instauração de um inquérito. Mas, como dito antes, não se deve desviar de uma investigação puramente técnica, seja em qual seara for.

É importante deixar claro que não há, neste momento, nenhum problema estrutural de geração, transmissão ou distribuição. Mesmo assim, tem grande relevância conhecer as causas do episódio. Pode ter sido um erro humano, mas também alguma falha de sistemas ou de equipamentos. Fragilidades têm de ser conhecidas para serem sanadas. Desta forma, amplia-se a confiabilidade do sistema. O setor elétrico tem grande complexidade. Assim, melhor seria também se o caso fosse tratado com abordagem mais técnica e menos política, inclusive nas manifestações públicas sobre as causas.


17 DE AGOSTO DE 2023
O PRAZER DAS PALAVRAS

Ponte levadiça

A coluna de hoje responde a duas jovens estudantes do Ensino Fundamental, casualmente ambas da 9ª Série mas de cidades diferentes. De Criciúma, a jovem Betânia manda um simpático apelo: Na aula de Geografia, a professora projetou fotos de Porto Alegre e mostrou a ponte levadiça erguida com um navio passando. Para fazer piada, um dos garotos perguntou se levadiça era irmã de levadinha, e a professora disse que daria um ponto na nota para quem trouxesse a explicação até o dia 23, que é na semana que vem. Não sei se o senhor vai ter tempo de responder até lá, mas criei coragem para perguntar porque sou muito sua fã no podcast. Gosto muito de mitologia e não perco nenhum episódio. Se o senhor não puder, obrigada assim mesmo".

Ora, prezada leitora, respondo, sim! Essas duas palavras não têm nada a ver uma com a outra, a não ser a enganosa semelhança entre elas. Levadinha é o diminutivo de levada, feminino de levado, vocábulo que significa, entre outras coisas, "quem é traquinas; travesso, moleque" - a famosa criança levada que todos nós fomos um dia.

Já levadiça vem de elevar; isso ficaria mais claro se a palavra fosse elevadiça (irmã do elevador), mas perdeu o E inicial no caminho. Ao verbo veio se juntar o sufixo -iço, que se liga a um verbo para formar um adjetivo. Todo o mundo conhece a areia movediça (que se move), o terreno alagadiço (que costuma alagar), o material quebradiço (quebra com facilidade), a porta corrediça (que corre sobre um trilho). 

Vocês já devem ter lido O Cortiço, do Aluísio Azevedo; pois ali ele descreve a Pombinha como "bonita, posto que enfermiça e nervosa ao último ponto" (lembrando, Betânia, que posto que aqui é sinônimo de "embora"). No Dom Casmurro, Machado de Assis narra que "veio ela confessar-nos que o meu amigo Escobar era um tanto metediço e tinha uns olhos policiais a que não escapava nada" - ou seja, Pombinha frequentemente ficava doente e Escobar vivia se metendo na vida dos outros.

A outra vem de Francisco Beltrão, Paraná, onde a jovem Cássia deparou, talvez pela primeira vez, com aquela enriquecedora sensação de que as palavras têm muito mais conteúdo do que parecem. Este é o momento mágico em que deixamos de ser indiferentes aos vocábulos a nosso redor e passamos a ver o dicionário como uma fonte inesgotável de conhecimento e diversão. 

A Cássia conta que sua avó usa palavras e expressões muito "engraçadas", que antes a faziam rir, mas agora passaram a despertar seu interesse desde que a professora de Português explicou a origem dos nomes dos planetas e a de Biologia mostrou de onde veio o nome de várias partes do corpo (meus parabéns, aqui, a essas colegas que não conheço). Ela não disse como ficou sabendo desta coluna, mas a prática nos ensina que a água, quando começa a se mover, sempre termina achando o seu caminho - e foi o que ela fez. "Professor, pode ser pergunta boba, mas gostaria de saber por que minha avó, quando quer saber o dia, pede que eu veja na folhinha do celular. Já percebi que é uma maneira antiga de falar no calendário, mas não vejo a relação que possa ter com uma folha".

Não é pergunta boba não, Cássia, como vais ver. O nome veio da forma antiga dos calendários da minha infância - geralmente um bloco gorducho, pois tinha no mínimo 365 páginas, cheias de informações, a cada dia, sobre as fases da lua, os santos do dia, os períodos favoráveis ao plantio de hortaliças, etc. Este bloco, em geral do tamanho A6 (uns 14 por 10 centímetros), vinha com as páginas coladas no topo, permitindo que elas fossem destacadas sem dificuldade. Alguém, na família, assumia a responsabilidade, antes de dormir, de descartar a página daquele dia e deixar o calendário atualizado para o dia seguinte - ou seja, no olhar das crianças, tinha o privilégio de arrancar a folhinha.

Com o tempo, o atarracado bloquinho se reduziu a doze páginas, uma para cada mês, servindo, até hoje, como um utilíssimo material publicitário para vários ramos de comércio. Há, também, publicações em forma de livro, como almanaques, contendo todos aqueles dados que vinham antes nas folhas soltas - mas o nome folhinha continuou a ser usado por quem já estava acostumado.

Talvez a mais antiga de todas, a Folhinha de Mariana, editada pela Arquidiocese daquela cidade mineira, vem sendo publicada desde 1870, e merece ser conhecida porque gerou um delicado poema de nosso Carlos Drummond de Andrade, intitulado Ordem:

Quando a Folhinha de Mariana

exata informativa santificada

regulava o tempo, as colheitas,

os casamentos e até a hora de morrer,

o mundo era mais inteligível,

pairava certa graça no viver.

Hoje quem é que pode?

CLÁUDIO MORENO

17 DE AGOSTO DE 2023
+ ECONOMIA

"Cidade holandesa" dá passo em Feliz

Com investimento aproximado de R$ 12 milhões, o Grupo Zaandam começa a construir sua nova fábrica de biscoitos típicos holandeses em Feliz no primeiro semestre de 2024. A primeira funciona no complexo Cidade Zaandam em Nova Petrópolis, e deverá ser desativada após a abertura da unidade de Feliz. É o primeiro passo do complexo de gastronomia e entretenimento que os investidores planejam, antecipado pela coluna.

A estimativa é gerar 80 novos empregos diretos com a operação. A partir de um terreno cedido pela prefeitura, o empreendimento ocupará área de mil m2, podendo chegar a 3 milhões de stroopwafels por mês. E há previsão de duplicação, se as vendas permitirem.

O Grupo Zandaam abriu seu primeiro complexo gastronômico em 2020, em Nova Petrópolis, com a empresária Maria Aurea Delarosa Schroeder, a Xaxa, à frente do negócio.

- A geografia do município é muito semelhante à da Holanda, inspirando os canais de águas, diques e toda recriação de nosso país de origem no Brasil, onde será construído um parque temático - reforça o CEO do grupo, Rafael Nevinski.

foi a queda da bolsa de valores ontem, a 12ª seguida em agosto, que não teve um dia sequer de alta. A sequência de baixas é a maior da história da B3, atribuída à crise imobiliária na China e à valorização de títulos nos EUA.

Politizar o apagão não faz a luz voltar a se acender

Sem saber sequer se as linhas afetadas pelo apagão da última terça-feira eram da empresa, o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, colocou a Eletrobras na berlinda. A privatização da gigante elétrica foi criticada até por defensores da desestatização, por embutir compromissos que representam aumento de despesa pública, por embutir a construção de gasodutos e usinas térmicas. Pode ser questionada pelo governo federal nos devidos fóruns, mas daí a afirmar, como fez o ministro, de que "fez mal ao sistema" - ao menos até agora - carece de sustentação.

No dia seguinte, a agenda ficou mais clara com o parecer favorável do procurador-geral da República, Augusto Aras, à ação direta de inconstitucionalidade movida pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, questionando a perda de poder de voto da União após a privatização da empresa. É até questionável, de fato: a União manteve 43% das ações ordinárias, mas teve poder de voto reduzido a menos de 10%.

Contribuiu para a entrada da Eletrobras na novela do apagão o fato de a empresa ter feito, ainda na segunda-feira, uma mudança repentina de gestão. Wilson Ferreira Jr. renunciou ao cargo de CEO e foi substituído por Ivan Monteiro, até então presidente do conselho de administração.

No mercado, a troca é atribuída ao descontentamento do conselho, dominado por representantes de acionistas privados, com a gestão. Silveira viu uma "mudança abrupta, sem sinergia com a política pública".

Também pela avaliação do mercado, embora o governo federal não tenha interferido na mudança de comando da Eletrobras, foi favorecido pelo resultado.

Monteiro presidiu a Petrobras na gestão de Michel Temer, mas chegou à estatal depois de longa carreira no Banco do Brasil levado por um indicado de Dilma Rousseff, Aldemir Bendine. Ou seja, é visto como mais propenso ao diálogo com o governo Lula do que seu antecessor.

Além de misturar subesta­ções, Silveira acionou Polícia Federal e Agência Brasileira de Inteligência (Abin) para investigar as causas. Politizar o apagão não faz a luz voltar a se acender, nem na prática, nem metaforicamente. É verdade que a série de atos de vandalismo e/ou sabotagem em torres de transmissão no início do ano abriu caminho para suspeitas. Mas não foi fornecido sequer um indício de sabotagem, a não ser o horário do incidente - por volta de 8h30min, quando não costuma haver concentração de consumo.

Até o horário de fechamento desta coluna, a especulação mais forte entre especialistas em energia sobre a causa do apagão era um desbalanço na entrada de geração eólica no sistema. Foi preciso que o ministro da Casa Civil, Rui Costa, entrasse no circuito afirmando que a hipótese mais provável para a interrupção de energia é "falha técnica".

MARTA SFREDO

17 DE AGOSTO DE 2023
FOLHA DE PAGAMENTO

Desoneração prevê alívio de R$ 518 milhões a prefeituras

Projeto que deve ser votado na próxima semana em comissão da Câmara beneficia municípios e 17 setores econômicos

Concebida para estimular a geração de empregos, a desoneração da folha de pagamento inclui dispositivo inédito que pode gerar economia de R$ 518 milhões para 485 municípios gaúchos. A medida permite às prefeituras pagar menos impostos sobre os salários dos servidores e está em tramitação na Câmara, com pedido de urgência para ser apreciada em plenário. O governo analisa com cautela a iniciativa, já que a renúncia fiscal de R$ 9 bilhões prevista no texto original chega a R$ 20 bilhões com a inclusão das prefeituras.

O objetivo central da desoneração é diminuir a tributação sobre 17 setores considerados grandes empregadores: indústria, serviços, transportes e construção (veja abaixo). O benefício permite às empresas pagarem alíquotas de 1% a 4,5% sobre a receita bruta, em vez de 20% sobre os salários.

Essa redução entrou em vigor em 2011 e vem sendo renovada pelo Congresso. Como a vigência atual expira em 31 de dezembro, o projeto expande o benefício até o final de 2027.

Durante a tramitação no Senado, o relator, Angelo Coronel (PSD-BA), estendeu a desoneração a todos os municípios com menos de 156.216 habitantes. Ao incluir no texto nada menos do que 96,5% das prefeituras do país, o senador criou rombo de R$ 11 bilhões no caixa da União.

Votação

O projeto foi aprovado no Senado e está na Comissão de Desenvolvimento Econômico da Câmara, com previsão de votação na próxima quarta-feira, dia 23. Relatora da matéria no colegiado, a deputada gaúcha Any Ortiz (Cidadania) acatou na íntegra o texto de Coronel para evitar que atuais alterações atrasem a aprovação.

Segundo ela, os setores beneficiados geraram 620 mil empregos em 2022, resultando em R$ 13,2 bilhões em receitas das contribuições patronal e dos trabalhadores:

- As empresas precisam de previsibilidade para fazer seu planejamento. São setores que geram 9 milhões de empregos. Se a desoneração não for prorrogada, vamos deixar de abrir novas vagas e ainda colocar em risco muitos dos atuais postos de trabalho - sustenta, lembrando que em 2021 a desoneração só foi sancionada às 23h45min de 31 de dezembro, faltando 15 minutos para o prazo fatal.

Pela tramitação normal, o projeto ainda precisa passar por mais duas comissões (a de Finanças e Tributação e a de Constituição e Justiça). Todavia, requerimento assinado por líderes partidários pede que o texto passe a tramitar em regime de urgência. Dessa forma, seria levado direto a plenário. O atalho depende do presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL).

FÁBIO SCHAFFNER

17 DE AGOSTO DE 2023
TULIO MILMAN

O fim e o começo

Esperei a tristeza se organizar para escrever. A tristeza não desaparece. Vai ganhando formas mais definidas e sólidas. Minha avó viveu 103 anos. Isso, por si só, deve ser motivo para celebrar. Mas os sentimentos são fluidos. Abraçam-se e se misturam, embora a gente tente explicá-los como se vivessem em caixinhas separadas.

Há duas semanas, a oma (vó, em alemão) Lilly adormeceu. E não acordou mais. Visitei-a poucos dias antes, já no hospital. Não foi a primeira vez em que me despedi dela. No começo do mês, quando teve uma pequena melhora um dia depois do nosso encontro, comentei com minhas filhas e com minha esposa: "Não me despeço mais". Pensávamos que ela voltaria, mais uma vez, para casa, onde viveu até a derradeira e breve internação.

Nessa última visita, tive a certeza de que a oma me reconheceu. Quando me aproximei da cama, ela tentou falar. Emitiu um som incompreensível. No fundo, foi uma coisa boa. Nossa conversa de mais de cinco décadas não teve um fim.

A oma nasceu na Alemanha. Fugiu do nazismo para o Brasil, onde conheceu o meu avô, o opa Erwin. Nunca deixaram de se sentir alemães. Depois da guerra, viajavam para a Europa uma vez por ano e lá reencontravam seus amigos e suas raízes.

O velório estava cheio. Como acontece nos enterros, também nos judaicos, coube ao líder religioso falar. O rabino Guershon Kwasniewski conhecia bem a oma. A Sibra, sinagoga na qual ele atua, foi fundada por judeus alemães, todos refugiados de guerra. Entre esses imigrantes, estavam meus avós. Enquanto o Guershon lembrava as histórias da oma, mulher determinada, forte e afetiva, me vi dando gargalhadas ao lado do caixão. Eu e muitos dos que estavam ali. Foi um dos discursos mais verdadeiros e lindos que já ouvi em uma situação dessas, quando as palavras tendem a se tornar protocolares e frias.

Alguém ao meu lado, não lembro quem, me olhou meio assustado. Tipo: "Pode dar risada em velório?". Entendi a preocupação e cochichei: "Pode rir, a oma iria gostar". Quando a terra cobriu o caixão, o sol já começava a se pôr. Saímos do cemitério para prosseguir com as nossas vidas. Ao entrar no carro, me lembrei do trecho da música A Metamorfose das Borboletas, que a Maya, minha filha de um ano e 10 meses, adora: "Na natureza, as histórias são assim: voltam pro começo, quando chegam no fim".

Bem antes de morrer, a oma repassou a algumas seletas integrantes da família os segredos da sua inigualável torta de maçã.

TULIO MILMAN

segunda-feira, 14 de agosto de 2023


14 DE AGOSTO DE 2023
ARTIGOS

VISÕES DE UMA EMPRESA DE FUTURO

No turbilhão de novidades e tendências do mundo corporativo, duas vieram para ficar: a preocupação com as práticas sustentáveis e a necessidade de convivermos e enxergarmos oportunidades na inteligência artificial (IA). O empreendedor que chega ao mercado não pode abdicar de estruturar um negócio que leve em conta os impactos sociais, ambientais e de governança de sua atividade, e tampouco dar às costas ao mar de inovações - e, por que não, dos desafios - trazidas pela IA.

A notícia mais quente fica por conta dos avanços de pesquisas que dão às máquinas a capacidade de pensar e aprender como seres humanos. Ferramentas como o ChatGPT, que começam a se popularizar entre usuários de smartphones e também empresas de grande porte, estão tornando obsoletas algumas atividades repetitivas e automáticas que até o momento ainda requeriam o intelecto humano.

Por um lado, a IA acelera o fim de alguns serviços e limita o empreendedor que começa a desenhar o modelo de negócio de sua startup. A inovação, agora, precisa dar um passo além de ser "apenas" disruptiva: deve, também, superar a ameaça de que em poucas semanas um robô autodidata a torne obsoleta. Mas onde há risco, também há oportunidades.

Utilizar a inteligência artificial em seu favor pode ser o grande acerto do novo empreendedor. Contar com o auxílio do aprendizado rápido e em altíssima escala destes softwares multiplica oportunidades de aplicações e funcionalidades dos negócios digitais.

A IA, quando bem manuseada, promete melhorias significativas em áreas como a medicina, a educação e as comunicações. As empresas que souberem gerenciá-las e usá-las como alavanca de inovação têm tudo para se descolar da concorrência. Afinal, é uma tecnologia crucial para determinar o futuro da humanidade - para o bem ou para o mal.

E aqui vem a conexão com a sustentabilidade. Utilizar IA ou qualquer outra tecnologia com responsabilidade requer combiná-la com as práticas de ESG. Não basta que uma empresa seja inovadora: ela precisa fazer o bem para a comunidade na qual está inserida, pensar no meio ambiente e ser transparente e ética. O consumidor exige e exigirá cada vez mais que tecnologia e a sustentabilidade andem lado a lado.

Ailson Oliveira Presidente do Núcleo de Empresas Juniores de Porto Alegre e da região leste do RS


Taylor Swift para leigos

"Turnê de Taylor Swift está impulsionando a economia, diz Banco Central dos EUA", "Taylor Swift é a primeira mulher a ter quatro álbuns no Top 10 da Billboard", "Taylor Swift presenteia caminhoneiros de sua turnê com US$ 100 mil cada", "Fãs de Taylor Swift geram atividade sísmica equivalente a um terremoto", "Milhares de fãs acompanham shows do lado de fora dos estádios", "Como a turnê de Taylor Swift conquistou o mundo". Se ninguém chamou sua atenção para alguma dessas manchetes nas últimas semanas, é provável que não exista uma "swiftie" em sua vida.

A colossal tribo de fãs de Taylor Swift é majoritariamente feminina, jovem e entusiasmada. Algumas swifties ainda precisam da companhia dos pais para ir a shows. Outras são mulheres feitas e cresceram ouvindo a cantora de 33 anos desde a adolescência - seu primeiro disco é de 2006. São elas as principais responsáveis pelos números estratosféricos associados à turnê que chega ao Brasil em novembro, com entradas para os quatro shows esgotadas em questão de minutos. Nos Estados Unidos, foram vendidos mais de 2 milhões de ingressos. Em um único dia.

Quem é incapaz de citar o título de uma música sequer da artista que o New York Times definiu como "um rolo compressor comercial e cultural" deve estar se perguntando o que que a baiana tem. Para começar, Taylor Swift é inteligente e ousada na maneira como conduz sua carreira. Toma decisões artísticas e investe sua energia (e dinheiro) segundo parâmetros que ela mesma define. Depois de levar uma rasteira do executivo de uma gravadora anos atrás, decidiu regravar seus seis primeiros álbuns e voltar a ser dona da própria música. Contando com a fidelidade dos fãs, roubou de volta sua audiência nas plataformas de streaming e concebeu a atual turnê como uma grandiosa celebração das diferentes fases de sua carreira. Grandiosa em todos os sentidos: o show tem mais de três horas de duração.

Mas o excepcional tino para negócios explica apenas metade da missa. Além de pop star com vocação para lotar estádios, Taylor Swift tem um notável talento para escrever letras intimistas desde um ponto de vista muito específico: o das garotas nativas digitais que aprenderam a conduzir sua vida amorosa na era do Me Too e das redes sociais e se interessam pela perspectiva feminina em relação a todos os assuntos - na vida como na arte.

Conectada com a sensibilidade das fãs, Taylor Swift tornou-se uma das principais vozes de sua geração. Você pode não gostar dela, mas sua filha gosta.

CLÁUDIA LAITANO 

14 DE AGOSTO DE 2023
CHAMOU ATENÇÃO

Aqui jaz um terminal aéreo

Resquícios do antigo prédio do Aeródromo São João, um dos primeiros aeroportos do Rio Grande do Sul, construído em 1938 pela companhia aérea Varig, estão sendo totalmente demolidos. A construção fica próxima ao Aeroporto Internacional Salgado Filho, no bairro São João, na zona norte da Capital, e faz parte da área concedida à empresa Fraport.

Ao longo das décadas, o antigo aeródromo sofreu alterações - o edifício demolido não estava preservado como fora erguido em 1938. A construção não foi tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico (Iphae-RS), segundo a Secretaria Estadual de Cultura.

ZH esteve no local na tarde de sábado e averiguou a demolição do prédio. Retroescavadeiras e funcionários trabalhavam em meio aos escombros.

A Fraport confirmou que está fazendo a demolição do prédio e afirmou que o edifício estava em condições inadequadas de segurança e com risco de queda. A empresa não especificou o que havia atualmente no prédio, nem confirmou os planos para a área e se pretende preservar a história do local.

A área do antigo aeródromo fica próxima ao Boulevard Laçador e, mais recentemente, abrigava o hangar da companhia portuguesa TAP. Conforme reportagem histórica do colunista de ZH Ricardo Chaves, o pequeno aeroporto recebeu, em 1949, 548 aeronaves e mais de 4,2 mil passageiros.

Uma década depois, o movimento passou de dois aviões diários e 10 passageiros para 9.222 aeronaves e quase 139 mil viajantes. Na época, chegou a ser o terceiro aeroporto mais movimentado do Brasil.

O prédio destruído guarda a história da aviação brasileira, afirma Oscar Bürgel, presidente da Associação Varig Vive, formada por ex-funcionários que buscam preservar a memória da antiga companhia aérea.

- O aeródromo São João foi o primeiro aeroporto do Rio Grande do Sul e um dos primeiros do Brasil. A Varig começou a voar com um hidroavião, chamado de bote voador, no Rio Jacuí. Três anos depois, começaram a pousar em solo. Esse prédio representa o começo da história da aviação. Foi ali que os aviões deixaram de pousar na água para pousar em terra - afirma Bürgel.

"Tal edificação faz parte do contrato de concessão. O edifício estava quase caindo, portanto, a demolição está sendo realizada", diz parte da nota enviada pela Fraport.

MARCEL HARTMANN

11/08/2023 - 10h06min
Martha Medeiros

Viver 10 minutos de cada vez é lição para chegar aos cem anos

Fórmula é de um idoso que tem problemas no coração, no pulmão e um câncer em metástase. Aceito o destino com humildade, mas que a noite demore, só preciso de mais 10 minutos

Gilmar Fraga / Agencia RBS

Lição para chegar aos cem anos: viva 10 minutos de cada vez. Quem me passou a fórmula foi um senhor de quase 90 anos, que tem problemas no coração, no pulmão e um câncer em metástase. 

Ignorando os maus prognósticos, ele conta que tem um compromisso sério a cumprir nos próximos 10 minutos: quer escutar de novo Yumeji´s Theme, de Shigeru Umebayashi, trilha sonora do filme Amor à Flor da Pele, que eu também acho a coisa mais linda do mundo, tanto a música quanto o filme. Aquele violino. Aquele andamento melancólico. Vale a pena viver mais 10 minutos para fechar os olhos e ser tocado por tanta beleza.

E então abrir os olhos de novo, porque ainda é cedo para descansar para sempre. Os próximos 10 minutos serão para ver, através da janela, aquela nuvem esquisita se movimentando, parece um peixe. Não, não, agora parece um lírio. Mudou. Agora parece um chapéu. Quem nunca se divertiu, quem nunca riu olhando para o céu?

Quem aguenta viver nessa bolha de falsa perfeição?Quem aguenta viver nessa bolha de falsa perfeição? Pobres, remediados e ricos, cada qual em sua condição, sobrevivem também da sutil presença da belezaPobres, remediados e ricos, cada qual em sua condição, sobrevivem também da sutil presença da beleza

Morrer agora? Não posso. Ganhei de presente um vinho do meu melhor amigo. Ele trouxe de Portugal. Da região do Douro. Eu não sou louco de deixar a garrafa deitada no fundo do armário da cozinha. Contrariando meu médico, vou tomar um cálice. Só um. E continuar sendo louco pela vida, que isso eu sou mesmo. Me dê mais 10 minutos, porque ainda não decorei aquele poema do Affonso Romano de Sant'Ana que diz que certas coisas não se podem deixar para depois.

Aliás, preciso fazer a barba. Não tenho um encontro amoroso esta tarde, não irei a nenhuma festa de aniversário e nem meu filho me buscará para ir ao estádio, mas todas as manhãs eu me encontro comigo diante do espelho e me desejo bom dia. Dez minutos serão suficientes para eu abrir os botões da camisa e expor o meu velho peito ao sol, que bate no sofá em que me sento, exausto.

Não posso ir, não insista. Preciso de mais 10 minutos. É o tempo de encontrar as fotografias amareladas da minha infância, quando meu pai era vivo, minha mãe era moça e meus irmãos e eu tínhamos todos os sonhos dentro dos olhos. As fotos estão em alguma caixa embaixo da cama. Demoro muito para agachar e mais ainda para me levantar, mas elas estão ali. E eu estou aqui ainda.

E então vou comer aquele doce de marzipan que sempre foi meu preferido, desde que eu tinha 30 anos e muita pressa, nem sei de quê. Por que tanto a gente se afoba? Só preciso de 10 minutos agora, para eu assistir minha cena preferida de O Poderoso Chefão, e então fazer a digestão de tudo o que me emociona.

Aceito o destino com humildade, mas que a noite demore, só preciso de mais 10 minutos de Cecília Meirelles, e então mais 10 minutos para um banho quente, e mais 10 para ligar para minha neta, só mais 10 minutos.


12/08/2023 - 09h00min
Claudia Tajes

Viva o pai que entrou de cabeça na vida dos filhos

A cadeira do papai era uma atração dos lares brasileiros no tempo em que o homem reinava nos seus domínios

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Viva o pai que entrou de cabeça na vida dos filhos

Ela ficava no ponto mais nobre da sala, com vista privilegiada para a televisão e ao lado de uma mesinha para apoiar copos e petiscos. Reclinava, balançava, tinha apoio para a cabeça, banqueta para os pés e, no mais das vezes, as crianças não deveriam chegar perto – mas claro que chegavam para reclinar, balançar e, volta e meia, estragar o mecanismo da coisa. Ela, a cadeira do papai, era uma atração dos lares brasileiros no tempo em que o homem reinava nos seus domínios.

Na minha casa, infelizmente, não havia uma cadeira dessas. Consultado a respeito, meu pai sequer considerou a hipótese de ter um trono para chamar de seu. A verdade é que ele pouco ficava na frente da televisão, ouvinte que era dos noticiários e jogos do Grêmio no rádio. 

Aqui, um aparte tricolor: tomara que o PaiNato dê um presente para os pais gremistas neste domingo, já está na hora. Voltando ao tema da coluna, meus irmãos e eu sonhávamos com o dia em que o pai ganharia uma cadeira do papai, presente que seria desprezado por ele e, portanto, devidamente aproveitado por nós. Até uma escala com os horários de uso de cada um já estava pronta. Mas claro que ela nunca saiu do papel.

Já o meu avô tinha uma poltrona preferida e reservada. Depois do almoço, antes de voltar ao trabalho, era nela que o vô cochilava ouvindo as notícias no radião da sala. A poltrona dele tinha um guardanapo de crochê no encosto e o assento de couro já um tanto gasto pelos anos de uso, com certeza desde antes dos boletins extraordinários sobre a morte de Getúlio Vargas. Era uma poltrona proibida para os netos, a única que jamais veria farelos de bolacha ou algum doce derramado. E a gente mantinha distância mesmo. O respeito era bonito e conservava os dentes, como se dizia naquela época.

Hoje, em alguns anúncios de lojas de móveis, as cadeiras do papai ainda resistem, agora tecnológicas e caras. Agora elas fazem massagens, têm sistema de aquecimento, painel eletrônico e entrada USB. Um dos anúncios diz que o papai senta ali, liga a TV e esquece de tudo. Já pensou o perigo? O pai nunca mais é visto, a família dá queixa do desaparecimento e, um belo dia, alguém entra na sala e vê que ele está sentado na cadeira do papai há meses, esquecido de tudo. Não parece um bom argumento de vendas.

Não sei de nenhuma casa de agora com cadeira reservada para o pai no melhor lugar da sala. Pai que, ao menos é o que se espera, há muito deixou de ser o sujeito alheio à problemática da família, preservado dos pequenos perrengues pela esposa submissa, espécie de Supremo Tribunal Doméstico só acionado nos casos mais graves. A autoridade para quem a mãe guardava o maior bife e que já chegava trocando o canal da novela por outro chatíssimo, com programas sobre a reprodução das trutas ou um jogo aleatório de algum esporte mais ainda.

Bem melhor é ver o pai na cozinha, fazendo um almoço com a receita que ele mesmo inventou. No quarto, cantando para fazer o bebê parar de chorar, enquanto a mulher descansa um pouquinho. No banheiro, escovando os dentes dos pequenos. Na sala, fazendo o tema de casa com a filha. No colégio, participando da entrega das notas. Na praça, balançando três ao mesmo tempo sob um sol de lascar. No cinema, vendo a Barbie. Na vida, enfim, sendo muito mais que o pai decorativo que sentava em uma cadeira e ficava lá, imóvel, quase um objeto da sala.

Depois que o pai saiu da cadeira cativa para entrar na história da família, o Dia dos Pais ganhou muito mais motivos para ser comemorado. Muitos vivas para ele.

05/08/2023 - 09h00min
Claudia Tajes

Pobre da cidade que ainda acha que trocar o verde por um estacionamento é progresso

Com o andar da carruagem, narrativa passou a ser tudo com o que não se concorda O som das árvores do Harmonia sendo arrancadas pelas máquinas doía no coração

Theo Tajes / Divulgação

Pobre do Parque Maurício Sirotsky Sobrinho, conhecido como Harmonia, todo pelado de suas árvores. As fotos em que o verde deu lugar às cicatrizes da terra escavada parecem saídas de algum álbum do passado. Pobre da cidade que ainda acha, em pleno 2023, que trocar o verde por um estacionamento é progresso.

Como disse alguém, o som das árvores do Harmonia sendo arrancadas pelas máquinas doía no coração. Cento e três delas já se foram, algumas com a desculpa de que estavam mortas ou definhando. A obra que está exterminando a natureza do parque condenou, no total, 432 árvores. Pelo menos a Justiça interrompeu a matança para pedir explicações, laudos, fundamentos. Antes que seja preciso trocar o nome do parque para Desarmonia.

Com a suspensão das obras, como ficam os shows no Parque Maurício Sirotsky Sobrinho?Com a suspensão das obras, como ficam os shows no Parque Maurício Sirotsky Sobrinho? Entidades pedem que artistas não participem do Festival Turá em razão de obras no Parque Harmonia

Nessas todas, não faltou quem dissesse que o arvorecídio era apenas uma questão de narrativa. Hoje é assim, não existem mais problemas, absurdos, descalabros, crimes: existe narrativa.  Pensar que narrativa era uma palavra tão bonita, descrita — aqui, às pressas — como história, conto, série de acontecimentos que se encadeiam para compor um relato de ficção ou não. Com o andar da carruagem, narrativa passou a ser tudo com o que não se concorda. Ela diz que ele era violento. Ele alega que — apesar dos hematomas — tudo não passa de narrativa.

Ele diz que estava sendo assediado moralmente pelo chefe, que argumentou ser essa uma narrativa do funcionário para prejudicar a empresa. O político diz que as acusações contra ele são uma narrativa covarde, e que vai provar sua inocência. Ainda que cada vez se enrole mais.

O motorista do Uber, confrontado com dados pró-vacina e pró-urna eletrônica, não deixa por menos: isso daí é narrativa.

A descoberta recente da palavra Narrativa para qualquer coisa conseguiu acabar com toda a beleza dela. Ah, a inigualável narrativa do meu autor preferido. Melhor dizer agora: ah, o inigualável elóquio do meu autor preferido. A inigualável urdidura. O inigualável trololó. Cada um que ache a palavra certa para elogiar o entrecho do seu autor preferido.

Para quem está botando as árvores abaixo no parque Harmonia, a narrativa da preservação não pode impedir a construção de um polo turístico. Narrativa? É mais barato culpar os outros que fazer um projeto que privilegie a natureza. Aguardemos as cenas dos próximos capítulos para ver em que vai dar isso. Para um leigo palpiteiro, parece compatível erguer um polo turístico sem transformar a área em um deserto. Talvez seja mais caro, talvez esteja aí o X da questão.

Ou o N da narrativa.


ARQUITETURA DO SONO

Somos animais que hibernam. Ao contrário dos ursos que passam meses adormecidos, nós o fazemos todos os dias. Como um fenômeno de tanta importância na fisiologia humana foi ignorado durante tantos anos?

Numa entrevista à Nature, o neurologista Mark Wu, da Universidade Johns Hopkins, estudioso dos transtornos do sono e dos mecanismos genéticos que o regulam, considera que o mundo científico passou tanto tempo sem se preocupar com o sono por considerá-lo um fenômeno semelhante à morte.

O interesse só foi despertado depois do aparecimento do eletroencefalograma (EEG). Em 1929, o psiquiatra alemão Hans Berger mostrou a existência de ondas elétricas que transitavam pelo cérebro durante o sono.

Hoje, sabemos que o sono ocorre em duas fases principais: REM (Rapid Eyes Movement) e não-REM. E que a não-REM compreende três estágios N1, N2 e N3, caracterizados por ondas elétricas de padrão específico. Ao conjunto formado por essas três fases somadas à fase REM damos o nome de ciclo do sono. Numa noite bem dormida, ocorrem quatro a seis ciclos completos.

Na vigília, o EEG mostra uma mistura de ondas cerebrais de alta frequência que não seguem um padrão coordenado. Quando o sono entra na fase N1, as frequências caem para adquirir as características do sono leve: são as ondas teta. O estágio N1 é curto, dura de um a 10 minutos.

Na segunda fase, N2, a frequência cardíaca e a respiratória diminuem, a temperatura corpórea cai e a musculatura relaxa. As ondas cerebrais oscilam entre as de baixa frequência e episódios curtos de atividade neural mais intensa. No primeiro ciclo completo do sono, a fase N2 típica dura 10 a 25 minutos. Nos ciclos seguintes, ela se torna progressivamente mais longa. No total, as fases N2 ocupam 50% da duração do sono noturno.

O estágio N3 é caracterizado por ondas lentas de amplitude alta, denominadas ondas delta. Sua duração é de 20 a 40 minutos por ciclo. No total, os ciclos de N3 ocupam cerca de 25% do sono noturno.

As ondas lentas exercem papel importante na restauração dos níveis de energia, no reparo e crescimento dos tecidos, na eliminação de metabólitos indesejáveis, na estimulação do sistema imunológico, no aprendizado e na consolidação de memórias.

A atividade dos neurônios atinge o pico quando o sono entra na fase REM, caracterizada por ondas de frequências mistas (como na vigília): são as ondas beta. A semelhança com a vigília é a razão pela qual o cérebro vive o sonho como se fosse realidade. Esse estágio ocupa os demais 25% do total do ciclo.

À medida que as horas passam, os períodos de ondas de baixa frequência encurtam e os de sono REM se alongam. A fase REM é fundamental para a preservação de funções cognitivas, como o controle das emoções, a memória e a criatividade na resolução de problemas.

A qualidade do sono pode ser quantificada pelo número, duração e alternância de cada fase, pelo tempo necessário para a instalação do sono e o pelo número de despertares noturnos. Estimulantes como cigarro, cafeína e álcool alteram a arquitetura descrita. O álcool, por exemplo, facilita o início, mas modifica a duração das fases do sono.

Um adulto precisa dormir em média sete a oito horas. Enquanto alguns se consideram descansados depois de quatro a cinco horas, outros necessitam de 10 horas. Aqueles que trabalham à noite, os que deitam para dormir durante o dia, os que enfrentam "jet lags", os que consomem estimulantes, os estressados e, especialmente, os que ficam até tarde na frente das telas azuladas de computadores e celulares rompem a arquitetura dos ciclos do sono. E, também, do que chamamos de ciclo circadiano, responsável pelo controle da sucessão de reações metabólicas que se repetem a cada 24 horas.

Noites bem dormidas são essenciais para a qualidade da saúde. Infelizmente, nas últimas décadas o número de horas de sono tem diminuído na maioria dos países. Um estudo publicado em 2017, que envolveu cerca de 690 mil crianças, em 20 países, mostrou que a duração média do sono diminuiu mais de uma hora, no período de 1905 a 2008.

Hoje, um em cada três norte-americanos dorme menos de seis horas por noite. Desde 1960, a duração do sono dos adultos tem caído na Alemanha, Rússia, Finlândia, Japão, Bélgica e Áustria.

Com a globalização e a informática à nossa disposição, ficará cada vez mais difícil inverter essa tendência.

DRAUZIO VARELLA 


12 DE AGOSTO DE 2023
MONJA COEN

HÁ GOSTO

Há gosto para tudo. Há também desgosto por tudo. E entre o gosto e o desgosto, há, do verbo haver, de ter, existir. Há quem goste de muita agitação, música, festas, seguidores. Há quem goste do silêncio, da quietude, sem procurar fama ou lucro.

Há gosto para ficar simplesmente sentada, olhando a parede branca, em silêncio, respirando. Centenas de milhares de conexões neurais se estabelecendo, acendendo e apagando. Quem vê de fora pode não entender. Pessoas estranhas... Seriam doentes? Estariam perturbadas?

Há muito tempo, um importante oficial do governo foi visitar um templo Zen, na China ou no Japão. O abade conduzia o oficial pelos largos corredores e grandes salões. Havia mais de mil monges residindo no local. Quando passaram pela sala de meditação, havia mais de 500 monásticos sentados de face para a parede.

Plataformas elevadas e um grande silêncio. Surpreso e maravilhado, o oficial perguntou ao abade se todos eles estavam em estados superiores de consciência, emitindo bem aventurança a todos os seres. O abade sorriu: "Um pensa na comida, outro, no sono. Um deles se lembra de uma desavença e outro quer passear".

"Mas, para que serve, então, ficar assim sentados?" "Para entender a mente. Sentar apenas por sentar." Zazen não é processo de santidade, de desligamento com a realidade da vida diária. É oportunidade de observar em profundidade a realidade. 

Há um texto antigo que relata três tipos de personalidades resultantes do treinamento, da prática de Zazen: a pessoa do nível mais elevado não se interessa em saber como Budas surgem no mundo presente, nem se preocupa com a grande verdade que nem Budas podem transmitir. Essa pessoa não quer doutrinar outras. Nunca vê o mundo do ponto de vista dualista. Apenas come quando com fome e dorme quando cansado.

O segundo tipo abandona tudo, corta todas as amarras mundanas. Durante todos os dias e todas as horas, está sempre praticando e meditando sobre a verdade. Muito além das considerações sobre morte-vida, ir-vir-ficar. Sem dualidades, seu pensamento é iluminado. Sabedoria sempre brilhando.

O terceiro aspecto é do Zazen comum, que considera tudo sobre vários ângulos antes de se libertar do carma bom ou perverso. A mente se expressa naturalmente, sem desilusões, sem perturbações. Pensamentos mundanos podem surgir, mas a mente permanece imperturbável. Cada aspecto tem sua característica, mas não há superior ou inferior.

Zazen, sentar-se em Zen, em silêncio, de face a uma parede é superior a construir templos e imagens sagradas. Apenas sentar-se e se libertar do nascer morrer é acessar a própria natureza desperta. Naturalmente pode ir e vir, ficar ou sair, sentar ou deitar. Capaz de ver, ouvir, compreender e conhecer as manifestações naturais do ser verdadeiro. Sem argumentar sobre conhecimento ou ignorância. O texto, de Mestre Keizan Jokin Daiosho Zenji, cofundador da Ordem Soto Shu, do século 14, termina assim: "Apenas faça Zazen com todo seu ser. Nunca se esqueça. Nunca o perca". Assim como foi escrito no passado, repito aqui a você. Sente-se, silencie, vá além do eu e do outro.

Mãos em prece

MONJA COEN

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