sábado, 27 de julho de 2019


27 DE JULHO DE 2019
MARTHA MEDEIROS

Um projeto de passado


Em 1970, eu tinha nove anos e a certeza de que vivia no melhor país do mundo: não havia violência, fome, desemprego, só paz e amor. Um general assumiu a presidência e dali por diante eu cantarolava pela casa uma música que dizia "Ninguém segura a juventude do Brasil". Nos adesivos dos carros, lia-se "Brasil, ame-o ou deixe-o". Se alguém não gostava daquele paraíso, tinha mesmo que sumir, pô, que ousadia se queixar de uma nação próspera e pacífica. Ganhamos a Copa do México, ninguém perdia um capítulo de Irmãos Coragem e eu rezava todas as noites, agradecida a Deus pela sorte de ser brasileira - aliás, o que Ele também era.

Em 1980, eu tinha 19. Fazia a faculdade de Comunicação e namorava um colega que não parecia em nada com um galã de novela. Assistia aos filmes do Godard, tinha Simone de Beauvoir na mesa de cabeceira e cantarolava Beatles e Rolling Stones. Colecionava uma revista chamada Pop e ainda estava impactada pela peça Trate-me Leão, do grupo Asdrúbal Trouxe o Trombone. Pela TV, acompanhava a volta de exilados políticos (Gabeira, Brizola, Betinho), entendendo finalmente que aquele país da minha infância era um paraíso de fachada - não havia liberdade. Seguravam a juventude do Brasil, sim, com tortura e desaparecimentos súbitos. Já não rezava.

No curto espaço de 10 anos, deixei para trás a alienação e entrei na vida adulta, bem menos cor-de-rosa, porém mais verdadeira e interessante. E a partir de então, fui moldando minha mentalidade à medida que o mundo mudava, e como mudou. Se antes mulheres eram obrigadas a trocar de sobrenome ao casar, logo passaram a praticar livremente sua sexualidade e a ganhar seu próprio dinheiro. Depois da ditadura, vieram eleições diretas. Viajar ficou mais fácil. 

O cinema brasileiro se fortaleceu, escolas promoviam Feiras do Livro, veio a TV por assinatura e seus múltiplos canais. As alterações climáticas provocaram consciência ambiental, a internet revolucionou a forma de se trabalhar e se relacionar, o preconceito contra homossexuais diminuiu. O politicamente correto, mesmo chato, ajudou a civilizar as relações. Passamos a ter acesso ilimitado à informação, evoluções na ciência e na medicina, mais proteção aos animais, inúmeros movimentos pró-aceitação das diferenças. O mundo avançou, mesmo aos trancos, mesmo ainda com muita violência, mesmo ainda com desigualdade. Avançou porque todos nós - cidadãos, instituições, nações - temos um projeto de futuro.

Ninguém em sã consciência investe num projeto de passado. Não é natural, não é racional, não é inteligente. Portanto, que sigamos abrindo portas e janelas, arejando nossas cabeças, saudando o novo, aprimorando o que ainda não está bom, amadurecendo nossas escolhas - crescendo, enfim. Com alegria, liberdade e confiança. Enfrentemos as dificuldades inerentes a toda caminhada, em vez de apoiar um retrocesso piegas, simplório e mal-intencionado, que só visa nos iludir com um mundo que não existe mais.

MARTHA MEDEIROS

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Postagem em destaque

12 de Agosto de 2026 CARPINEJAR Os efeitos colaterais das canetas nos restaurantes Desde maio, já circula no Brasil uma caneta emagrecedora ...

Postagens mais visitadas