sábado, 21 de setembro de 2019



21 DE SETEMBRO DE 2019
LYA LUFT

O mar de todos os encantos

Minha fascinação pelo mar quase nasceu comigo, muito escrevi sobre ele, muito o representei em minhas telas tão amadoras.

Aos quatro meses de idade, fui levada a Torres pela primeira vez. Uma longuíssima viagem desde nossa  cidadezinha, parte sobre as traiçoeiras areias a partir de Tramandaí. Lembro, quando já menina, do pai perguntando a outros motoristas, ou a pescadores, como estava a areia: muito mole, perigosa, podia atolar o carro – corriam histórias de carros levados pelo mar, e recordo ainda um ou dois tetos de carros emergindo das ondas naquele trajeto.

Torres era esperada o ano inteiro, para aquele mês, ou dois, de férias encantadas. Minhas primeiras lembranças de mar, areia, pedras, vêm de quando eu tinha uns dois anos e pouco. A gente nos primeiros tempos ficava só na Prainha: a Praia Grande, quase deserta, era “para os homens”, diziam as mulheres, meu pai e alguns outros caminhavam até o Mampituba para nadar, grande aventura. Aos poucos, as famílias foram se animando também, eu (“que guria preguiçosa, já nasceu cansada”, diziam), em uma daquelas carretinhas puxadas por cabritos.

Mas o bom mesmo estava na Prainha, com aquelas pedras baixas e as águas rasas, ondinhas quebrando num cochicho, poças de água nos buracos das pedras, onde a gente podia pegar peixinhos minúsculos, siris diminutos, e mais de uma vez – estranho, misterioso e vagamente repulsivo – colocar o dedo em uma anêmona, que, coisa viva, sugava um pouco – saíamos correndo, aos gritos, que nojo, que nojo.

À medida que fui crescendo, as subidas ao Morro do Farol, nos fins de tarde, muitas vezes só com minha avó  paterna. Havia uma trilha precária, lá em cima o velho farol de ferro, e os restos de um cemitério de lápides arruinadas com inscrições em alemão, uma ou outra meio aberta. Minha avó na subida me fazia colher uns liriozinhos cor-de-rosa para botar na sepultura de uma menina. “Morreu com a tua idade”, dizia a avó, lendo as datas da inscrição quase apagada.

Depois sentávamos num banco também precário, e ficávamos escutando o mar: as vozes dos afogados, das sereias; o maravilhoso e sinistro moravam ali, perto da ilha onde uivavam lobos de verdade, com pelo encharcado de espuma.

Quando cresci, não havia nada mais fascinante do que ficar ali no alto, o morro já mais cuidado (que pena), com estradinha boa e vários bancos, ou nas pedras da Prainha mesmo, já no começo da Grande, escutando, imaginando, sonhando. Espiando as primeiras casas na encosta, e o Chalé no pé do morro, habitado por fantasmas e sustos. Adormecer e acordar com aquele som de vozes, chamados e cantos (sereias, claro), era o encanto absoluto.

Mais tarde ainda, crianças correndo na areia, fazendo castelos incríveis, jogando bola, nadando no rio... e certa vez, quando passeávamos na praia de noite, um dos meninos exclamou, apontando o dedinho: “Mãe, mãe, olha ali um navio enorme, todoiluminado”.

Era a Senhora Lua, emergindo das águas – dádiva inesquecível.

LYA LUFT

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Postagem em destaque

12 de Agosto de 2026 CARPINEJAR Os efeitos colaterais das canetas nos restaurantes Desde maio, já circula no Brasil uma caneta emagrecedora ...

Postagens mais visitadas