sábado, 3 de abril de 2021


03 DE ABRIL DE 2021
DAVID COIMBRA

Queria um cachorro

Um dia vou ter um cachorro. Não que nunca tenha tido um. Tive. Chamava-se Banzé, como o cachorro dos sobrinhos do Donald, o Huguinho, o Zezinho e o Luisinho.

Eu gostava daqueles três patinhos. Resolviam os problemas consultando o Manual do Escoteiro. Quando a Disney lançou um manual que era para ser igual ao deles, capa amarela, mais de 300 páginas, vendi jornal e garrafa até juntar dinheiro para comprar um. Assim formei a coleção completa dos manuais da Disney. O do Tio Patinhas, sobre, digamos, economia. O do Peninha, sobre jornalismo. O do Mickey, sobre detetives. O do Zé Carioca, sobre futebol.

Esse do Zé Carioca foi lançado pouco antes da Copa de 1974, eu já tinha 12 anos e conhecia todas as escalações dos times do Brasil, até a da Portuguesa de Desportos, na qual jogava o Eneas, com a camisa 8. Naquele ano, o Brasil montou uma Seleção que meteria sete em qualquer uma que pudesse ser feita hoje. No gol, Leão, famoso pelo seu gênio e por ter "as pernas mais bonitas do Brasil" (eu não concordava, preferia as da Sandra Bréa); na zaga, Luizão Pereira, o Chevrolet; na lateral esquerda, Marinho Chagas, o Vanusa; no meio, Paulo César, o Caju; na frente, Jairzinho, o Furacão; e, para arrematar, o melhor de todos, Rivellino, o Patada Atômica. Time com epíteto sempre joga mais.

Mas havia também a Holanda de Cruyff, o Holandês Voador, e a Alemanha de Franz Beckenbauer, o Kaiser, o homem que não sabia qual era a cor da grama, porque nunca olhava para baixo quando jogava.

Portanto, o Brasil perdeu a Copa, para minha frustração.

Naquela época, eu não tinha mais cachorro. Não tive nenhum outro, depois do Banzé. Ele faleceu de forma trágica: desprendeu-se dos meus braços e, por algum motivo, resolveu atravessar a rua. O que teria chamado a atenção de Banzé? A provocação de algum gato vadio ou a sinuosidade de alguma gatinha? Não sei. Sei que ele tentou atravessar a rua, que até era bem calma, mas justamente naquele momento vinha um carro, que acertou o pequeno Banzé em cheio. Ele deu dois suspiros e depois morreu.

Provavelmente por isso não quis mais cachorro. Tive um galo, o Alfredo, que foi assassinado e servido no almoço de domingo (não comi!). Tive duas tartarugas, mas elas não eram muito animadas. Tive pintassilgos, caturritas e canarinhos, mas hoje não manteria preso um passarinho - tenho pena. Passarinho na gaiola é coisa antiga. O Rivellino era dono de um viveiro de passarinhos, aliás.

Ah, tive uma codorna, que me seguia por toda a casa. A Matilde. Amava a Matilde, mas ela também foi assassinada, por um vizinho maligno que não gostava de seus gritos e lhe acertou uma pedrada.

Ainda penso em Matilde. Mas agora queria um cachorro.

Um cachorro grande, um pastor-alemão parecido com o Rin-Tin-Tin. Eu o chamaria de Kaiser. Não como o Guilherme II; como Beckenbauer e a cerveja. Ele estaria sempre comigo, com sua lealdade canina. Vejo-me sentado numa poltrona confortável de frente para o mar. Na mesinha ao lado há um prato de torpedinhos de siri e uma taça de algum tinto honesto. Com uma mão, seguro o livro que leio, com a outra, afago a cabeça do velho Kaiser. O mar rumoreja a 50 metros de distância e o calor de um raio de sol que entra pela varanda me dá preguiça. Começo a sentir um sono envolvente. Não me dou o trabalho de fechar o livro, deixo que caia aberto no meu colo. Vou fechando os olhos. Posso dormir tranquilo, meu amigo está vigiando. Sim, ele estará sempre comigo, o bom e velho Kaiser.

Esta coluna foi publicada originalmente na edição de 14 e 15 de maio de 2016

DAVID COIMBRA

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Postagem em destaque

12 de Agosto de 2026 CARPINEJAR Os efeitos colaterais das canetas nos restaurantes Desde maio, já circula no Brasil uma caneta emagrecedora ...

Postagens mais visitadas