sábado, 21 de maio de 2022



21 DE MAIO DE 2022
LEANDRO KARNAL

O termo remete à falsidade. Pensamos no hipócrita como alguém que diz uma coisa e sente outra. Pode ser a pessoa diferente do que prega. Um fariseu, um dissimulado, uma pessoa de duas caras: eis a primeira aproximação do hipócrita. Outra boa aproximação é acompanhar discursos de alguns políticos.

Trato do termo em outro caminho. Somos obrigados a elaborar e cumprir regras pela vida em sociedade. A tendência da norma é funcionar para o interesse coletivo. Claro, aqui e ali, o dispositivo fica autônomo e cumpri-lo passa a ser o objeto em si, independentemente do que o gerou e seus objetivos.

Explico-me. Durante a pandemia, as companhias aéreas tiveram de seguir novas diretivas. Eram boas medidas de segurança: quando o avião pousava, todos deveríamos aguardar em grupos para desembarcar. Terminava o lufa-lufa tradicional e forçava-se, com motivos sanitários corretos, um modelo mais lento e mais seguro para sair da aeronave. A regra é muito boa. Problemas: a) estávamos encostados uns nos outros dentro do avião. Ao meu lado, duas pessoas desconhecidas que roçaram no meu braço por uma, duas ou três horas. Passamos a descer de cinco e cinco fileiras e ficamos de pé junto a pessoas de cinco fileiras (cada uma, em média, com seis lugares, logo, 30 pessoas). Seria mais seguro estar apertado de pé com 30 pessoas? Ainda mais grave: muita vez vamos do avião para um ônibus. Depois de termos descido com ordem e metodicamente, civilizados e obedientes, voltamos a aglomerar um ao lado do outro, apertado, dezenas de pessoas. Qual a utilidade da regra de descida? Alimentar nossa hipocrisia, suprir a cena pública, destacar a teatralidade sanitária social. É importante o isolamento social? Fundamental! Seria bom que não aglomerássemos? Sem dúvida! O que ocorre ao chegar difere de tudo que desejávamos.

Não se pode tirar a máscara durante o voo! Sabemos ser medida adequada, bem concebida e defensável ao extremo. A não ser... que estejamos bebendo água. Minha vizinha de assento hidratou-se por 50 minutos, de Congonhas ao Santos Dumont. Bebericava em quantidades homeopáticas cada precioso gole e, assim, não precisou de máscara durante todo o trajeto. Uma estratégia? Uma sede imensa? Alguém que lutava contra a desidratação ou que tinha angústia com o uso da máscara. Nunca saberei, todavia, coloco na conta da hipocrisia. Se ela estivesse sem o copo na mão, poderia ser alvo de todas as críticas e até forçada a desembarcar se o avião estivesse no solo. O copo vira um habeas corpus, uma suspensão da pena e da moralidade sanitária.

Vivemos da cena pública. A cozinheira toca centenas de vezes nos alimentos ao prepará-los. Quando chegam até a mesa, usam-se luvas, garfos, colheres e outras coisas para simbolizar o caráter asséptico e imaculado ali, na minha frente. Equivale a um atestado de pureza depois de uma vida pouco recomendável. Precisamos ver o cuidado de higiene. Não é necessário que ele tenha existido há 15 minutos. Nossa demanda por hipocrisia existe.

O objetivo desta crônica não é a denúncia. Poucas coisas são tão hipócritas como a denúncia. O objetivo é entender a teatralidade da nossa exigência, as regras sem sentido que implantamos e a necessidade que cada um de nós, a começar por mim, estabelece para aceitar que as coisas funcionem.

Há um filme histórico que se passa em 1610, por exemplo. Eis que, sobre a mesa, o observador arguto nota um relógio e identifica um grave erro: um ponteiro de minutos. Faltavam ainda mais de 50 anos para que surgisse o ponteiro de minutos! Filme anacrônico! Erro! Absurdo! O observador indica o dislate, publica nas redes, denuncia e escreve aos produtores. Todo o fato de que estamos gravando em um estúdio com luzes elétricas e câmeras digitais e que as falas são produzidas em um computador e apresentadas por pessoas do século 21 é irrelevante. Preciso que não exista o ponteiro de minutos para eu acreditar. De alguma forma, é nossa hipocrisia teatral. Importa o que está na regra, na minha frente no restaurante ou diante das câmeras. Hipocrisia exige a cena pública e ignora o resto. Hipócritas são atores no sentido negativo do termo.

Com exceção de você, querida leitora, e também de você, estimado leitor, o mundo é dominado por hipócritas. Continuamos nos horrorizando pelas mentiras contadas e, pista importante, reações intensas revelam muito sobre nossos medos e sombras.

Confesso, para encerrar, antiga inveja. Tive um colega professor que recusava convites inconvenientes com histórias tão comoventes que a pessoa o dispensava com lágrimas nos olhos. Eu, incapaz de inventar algo, lá estava no batizado que durava horas e com muitas pessoas. A cada olhada no relógio quase imóvel, tinha um pouco de desejo de ter o dom do meu colega, um pouco de raiva de mim ou de quem tinha me convidado para aquele sofrimento interminável. Tenho inveja do hipócrita bem resolvido que, geralmente, é conhecido como muito educado. Até a hipocrisia comporta esperança, afinal, ela já foi definida como a homenagem do vício à virtude.

LEANDRO KARNAL

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Postagem em destaque

12 de Agosto de 2026 CARPINEJAR Os efeitos colaterais das canetas nos restaurantes Desde maio, já circula no Brasil uma caneta emagrecedora ...

Postagens mais visitadas