sábado, 4 de junho de 2022


04 DE JUNHO DE 2022
MARCELO RECH

Só perdedores

Cem dias depois da invasão da Ucrânia, tem-se uma configuração rara: esta é uma guerra de impacto global em que as três partes em confronto estão perdendo, enquanto as que assistem ao conflito de longe também saem chamuscadas. O saldo até agora.

Ucrânia - Com 4 milhões de refugiados, milhares de mortos e US$ 1 trilhão em perdas, a jovem nação sofre uma das maiores violências desde o fim da Segunda Guerra. Ainda assim, surpreendeu com o fervor de sua resistência e apresentou ao mundo Volodimir Zelensky, um estadista que até então era ridicularizado por só ter experiência como ator. No curto prazo, terá de lutar contra ocupação de pelo menos 20% de seu território ou cederá parte dele para chegar a um armistício, como a Finlândia invadida pela Rússia em 1939. No longo prazo, a Ucrânia será mais ocidentalizada e próxima da Otan do que nunca.

Rússia - Jogou fora três décadas de assimilação pelas democracias e integração à economia ocidental devido aos delírios de seu líder autocrático. Os objetivos de Putin naufragaram: teve de abdicar da tomada total da Ucrânia, transformou seu inimigo Zelensky em herói, empurrou a Finlândia e a Suécia para uma Otan ressuscitada e viu exaurir seu arsenal convencional, enfraquecendo a capacidade militar da Rússia. Ocupará o Donbass e o sul da Ucrânia a um preço moral e econômico que será pago por gerações de russos.

EUA/Europa - Derrotados na frente econômica, na qual a inflação se associa à recessão. O bloco democrático ocidental não teve sucesso até agora em bloquear o ímpeto bélico de Putin. Com as sanções, disseminaram-se a inflação e o desemprego na Rússia, reforçando o discurso do Kremlin de "ameaça do Ocidente contra o povo russo". Para asfixiar o esforço militar de Moscou, as sanções teriam de ir ainda mais fundo e realmente desplugar a Rússia da economia mundial, o que faria disparar de novo o custo da energia, realimentando a inflação e a crise em um Ocidente já às voltas com a conta da pandemia.

China - Vislumbra em uma Rússia desidratada pelo Ocidente um vasto mercado a ser preenchido pelas empresas chinesas, mas antes o Kremlin teria de concordar em cair nos longos braços de Pequim, o que é uma temeridade, dado a história de mútuas desconfianças das duas potências. No curto prazo, a reação de EUA/Europa à invasão da Ucrânia é um freio aos impulsos chineses sobre Taiwan. No longo prazo, a China confirma sua vocação de parceira pouco confiável para o Ocidente.

Resto do mundo - Sofre as consequências da guerra a cada vez que se abastece um veículo, mas o pior ainda está por vir: a crise de alimentos motivada pelas sanções à Rússia e pela paralisia das exportações ucranianas. O Brasil e a Argentina têm uma janela de oportunidade para ocupar o vazio e garantir alimentos para o mundo, mas não parecem estar se preparando para tanto.

MARCELO RECH

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Postagem em destaque

12 de Agosto de 2026 CARPINEJAR Os efeitos colaterais das canetas nos restaurantes Desde maio, já circula no Brasil uma caneta emagrecedora ...

Postagens mais visitadas