sábado, 18 de junho de 2022


18 DE JUNHO DE 2022
CARPINEJAR

Dança das cadeiras

Para qualquer um dos quatro filhos que visita a minha mãe e vai dormir em sua casa, há irretocável e repetida cena no quarto: uma toalha e um sabonete em cima da cama.

São as suas boas-vindas, sua assinatura da delicadeza. A toalha branca é dobrada num formato de cisne que só ela ainda sabe fazer na família. O origami de pano vem comprovar que ela se preparou para nos receber e nos aguarda muito antes de chegarmos.

Meus irmãos e eu nos sentimos desejados, como uma gravidez renovada a cada contato materno. Ela demonstra que nutre expectativa de nossa presença, que se dedica a vésperas com pequenos e inesquecíveis caprichos.

Mesmo com seus 83 anos, a mãe não renuncia ao que assimilou, durante a infância, das regras e da etiqueta de acolhimento no hotel de seu pai, o italiano naturalizado brasileiro Leonida Carpi, em Guaporé (RS).

Carpi recebia para o almoço trabalhadores e estudantes que vinham da Capital para o Interior no final de semana. Ônibus paravam no pomar da pousada, com a esperança de uma comida caseira feita na hora, preparada pela minha avó Elisa Margarida. Ela tinha o tino dos temperos, colhidos em sua horta, não errava o sal das panelas, lágrimas dos molhos, sendo capaz de comover os mais exigentes e experientes paladares e surpreender os próprios parentes já acostumados com as suas delícias.

Numa manhã gelada de junho, os passageiros que estavam indo para Carazinho desceram para a refeição do meio-dia, menos um, menos um estudante que ficou do lado da janela matando o tempo.

Carpi estranhou a imobilidade de vigília da figura introvertida e arredia, de sobrancelhas grossas. Foi lá conversar e tirar a limpo a origem do jejum. - Por que não vem? Já almoçou?

O aluno, que voltava para a sua família depois da semana de aulas na Escola Técnica de Agricultura (ETA), de Viamão, explicou que não tinha dinheiro, gastara o que restava na passagem.

Carpi esbravejou: - Desde quando isso é motivo? Nenhum estudante passa fome em Guaporé!

Pegou o jovem pelo braço e o levou para a cabeceira da mesa coletiva, colocou a sua frente um prato cheio de macarronada com molho caseiro de tomate e bifes na chapa. De penetra, ele se tornou o centro da gentileza do refeitório, servido com requintes de convidado de honra.

- Bom proveito, é por conta da cidade.

Aquele rapaz viria a ser, alguns anos depois, o governador do Estado: Leonel de Moura Brizola, responsável por alimentação em turno integral nas escolas, muito além das módicas merendas de manhã. A inspiração para grandes projetos sempre parte da própria necessidade.

Essa história real ilustra o quanto a honestidade não pode ser passiva, pois corresponde a dar atenção sem se prender à aparência. Os olhos são guiados pelos ouvidos, não o contrário.

Devemos tratar todos sempre com respeito e igualdade. Nunca subestimar ninguém. Jamais esnobar uma presença, por mais discreta e silenciosa que seja. Jamais permitir que alguém seja invisível ao nosso lado, não importa quem é e de onde surgiu, não importa a função ou o cargo que exerce. Porque, se em algum momento você se achar melhor do que o outro, você que será invisível.

A vida é uma dança das cadeiras. Num dia, sentado; noutro, de pé. Aprenda o ritmo da cordialidade.

CARPINEJAR

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Postagem em destaque

12 de Agosto de 2026 CARPINEJAR Os efeitos colaterais das canetas nos restaurantes Desde maio, já circula no Brasil uma caneta emagrecedora ...

Postagens mais visitadas