sábado, 13 de janeiro de 2024


13 DE JANEIRO DE 2024
CARPINEJAR

A polenta dos cachorros

Meus cachorros da infância somente comiam polenta. Nos anos 1970 e 1980, não havia a tradição da nutrição especial, dos biscoitos coloridos e do acervo gastronômico das pet shops. Perdoe a minha família pela alimentação prejudicial, decorrente dos diferentes hábitos de uma época. Jamais repetiríamos tal descalabro hoje.

É paradoxal pensar que, por um lado, os mascotes eram humanizados na alimentação - comiam o que comíamos -, mas, por outro, não moravam dentro de casa - dormiam no pátio, soltos, e tomavam banho no tanque da lavanderia.

Eles pertenciam a um mundo mais rural. Não tinham permissão de se deitar no sofá ou na cama. Nem nos preocupávamos em levá-los para fazer xixi. No inverno, recebiam restos de cobertores e panos para se defenderem do frio. No verão, aproveitavam os tapetes secando ao sol.

Cachorro se caracterizava pela independência. Era meio lobo, meio de rua. Ele se virava sozinho, controlava o movimento no portão, protegia o lar das ameaças de invasão. Cuidava mais do que recebia cuidado.

Minha mãe suava na cozinha de madrugada para preparar o angu amarelo. Fazia um panelaço de albergue, de rifa escolar. Sua colher de pau não descansava por um minuto. Naquela hora, não atendia ninguém, desprezava telefone, campainha, pedido de divórcio. A polenta não podia parar, senão endurecia.

Os corredores cheiravam a polenta. Os lençóis estendidos no varal cheiravam a polenta. Os vizinhos cheiravam a polenta. Minha infância foi uma espécie de puxadinho de cantina devido à alimentação canina. Os dois cockers viviam confinados a um mesmo cardápio, a se embuchar eternamente com o prato italiano. Seus latidos já tinham sotaque.

A mãe realizava a tarefa a cada 15 dias. Congelava marmitas e ia dando um pouco por dia. A polenta caía inteira, quadrada do pote para as gamelas. Os cachorros não festejavam o almoço e a janta, sequer abanavam o rabo. Aproximavam-se da refeição com resignação. Deveriam estar enfarados do odor, do sabor e da falta de originalidade.

Nossos cachorros sonhavam com bifes, com picanha, com o osso da costela. Até que adotamos um vira-lata com manchas amarelas. Ele apareceu em nossa porta pedindo comida, tonto, perdido, triste e sarnento. Logo pensamos que ele seria o antídoto para acabar com o menu monotemático, a virada de mesa, o vento da mudança, a alegria, e o batizamos de Polenta.

Explicamos para a mãe que o Polenta não poderia comer polenta. Seria uma crise na sua personalidade. Imagine o brado materno servindo a comidinha: "olha a polenta!". E o Polenta viria faceiro, achando que ela o chamava.

Nossa alegação surtiu efeito. Foi assim, com muito empenho, que meus irmãos e eu convencemos a mãe a acabar com a tortura que lotava o congelador, maltratava o estômago e a pelagem dos animais e enjoava a tripulação.

Reunimos nossas economias, quebramos os porquinhos e rateamos um saco gigante de ração. Comemoramos a modernização com uma fotografia festiva: os cockers lambendo com gosto o rosto do Polenta, seu salvador.

CARPINEJAR

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Postagem em destaque

12 de Agosto de 2026 CARPINEJAR Os efeitos colaterais das canetas nos restaurantes Desde maio, já circula no Brasil uma caneta emagrecedora ...

Postagens mais visitadas