sábado, 27 de janeiro de 2024


27 DE JANEIRO DE 2024
DIÁRIOS DO PODER

Chega a ser constrangedor o amadorismo da Abin sob Bolsonaro

O site da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) descreve as atribuições do órgão: "assegurar que o Executivo Federal tenha acesso a conhecimentos relativos à segurança do Estado e da sociedade como os que envolvem defesa externa, relações exteriores, segurança interna, desenvolvimento socioeconômico e desenvolvimento científico-tecnológico".

Como se vê, não consta desse rol de atividades servir a interesses particulares de quem ocupa, por delegação do voto dos brasileiros, o poder transitório.

Não obstante, a se confirmar as investigações da Polícia Federal (PF), a agência de inteligência brasileira, que tinha como diretor-geral Alexandre Ramagem, hoje deputado pelo PL, transformou-se em um braço ampliado do presidente Jair Bolsonaro e de sua família para produzir relatórios sobre adversários reais ou imaginários do Planalto: ministros do Supremo Tribunal Federal, o então presidente da Câmara, entre outros.

Não chega a surpreender, em uma gestão que tinha como característica mimetizar o público e o privado, que também esse fundamental organismo de Estado tenha sido aparelhado para fins particulares: dos móveis do Palácio do Alvorada ao escândalo das joias, o patrimonialismo, praga brasileira histórica que não obedece matiz político, floresceu nos anos Bolsonaro.

Em sua sina de encontrar traidores, o então presidente chegou a dar sinais do desejo de transformar os órgãos de inteligência em seus informantes particulares. Em reunião ministerial, em abril de 2020, por exemplo, ficou famosa sua queixa segundo a qual a PF e as Forças Armadas não lhe abasteciam, a contento, com informações. Ele poupou a Abin que, segundo o presidente, lhe "dava algumas informações". À época, a agência estava subordinada ao Gabinete de Segurança Institucional (GSI), do general Augusto Heleno, outro obcecado por identificar e neutralizar detratores.

A Abin deve estar a serviço do Estado brasileiro e de sua população. Não contra a sociedade ou a favor de interesses particulares - e muito menos a serviço do inquilino do Planalto para caçar seus desafetos.

As barbeiragens da agência tem componentes risíveis, típicos de filmes de espionagem de péssima categoria, que constrangem o que deveria ser o órgão ao qual cabe evitar possíveis ameaças ao Estado brasileiro. O flagrante do drone pilotado por um diretor da Abin para espionar o então governador do Ceará, Camilo Santana, explica - e muito - porque a PF usou o termo "inteligência" entre aspas no relatório do caso ao explicitar as operações da agência. É de um amadorismo impressionante.

RODRIGO LOPES

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Postagem em destaque

15 de Agosto de 2026 EUGÊNIO ESBER Aconteceu em Santa Rosa "Sem pressa, foi cada um pro seu lado pensando numa mulher, ou num time....

Postagens mais visitadas