quarta-feira, 8 de julho de 2026

 

08 de Julho de 2026
MÁRIO CORSO

Qual o pior vício?

Meu avô gostava de repetir uma pergunta que ele mesmo respondia. Qual seria o pior vício, o cigarro, a bebida ou o jogo? Era o jogo, pois, segundo ele, quem joga, também fuma e bebe.

Lembrei da advertência do meu avô ao ler sobre mais um suicídio vinculado a dívidas com bets. Desde que os jogos on-line chegaram ao Brasil, estão ligados a um variado cardápio de desgraças.

Os jogos a que meu avô se referia eram jogos de carta dentro de clubes, ou no fundo de algum bar. Não era difícil encontrar o jogo, mas não era tão fácil como agora. Basta abrir o celular, a qualquer hora do dia, e começar a falir.

Por que o jogo vicia? Do ponto de vista neurológico é simples, a tensão entre ganhar ou perder libera dopamina. Erroneamente ligada apenas ao prazer, a dopamina traz a sensação de que está ocorrendo algo muito importante, decisivo, é preciso estar alerta. É um neurotransmissor que sublinha, que dá intensidade ao que está sendo vivido. Essa explicação pouco ajuda, todos temos esse modo de funcionamento. Por que uns viciam e outros não é a grande pergunta.

Qualquer vício é indício de uma vida vazia e sem propósito. Quem tem lastro afetivo, vínculos fortes não se deixa destruir por ele. O vício leva quem busca um atalho para se sentir atado à vida.

Existe outra pergunta: deveríamos proteger as pessoas delas mesmas? É o que fazemos quando proibimos as drogas e a publicidade de produtos viciantes. A propaganda de cigarros foi abolida em 2011. A propaganda de bebidas é proibida acima de 13% de teor alcoólico. Fica liberada a de cerveja mas com restrições: não pode estar associada a êxitos esportivos, profissionais e sexuais.

Sabemos que o jogo vicia tanto quanto o cigarro e o álcool. Então, por que permitimos que anúncios de bets patrocinem campeonatos, estampem uniformes e invadam as redes sociais com a promessa de dinheiro fácil?

Meu avô não conheceu os algoritmos, mas intuiu a armadilha: o jogo é o vício que abre a porta para outras compulsões. Hoje, com um cassino no bolso e a solidão como plateia, a aposta não é mais só financeira, é existencial. E quando a vida perde o valor, o próximo lance pode ser o último. _

MÁRIO CORSO

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