quarta-feira, 8 de julho de 2026

08 de Julho de 2026
OPINIÃO DA RBS

A responsabilidade dos vencidos

A saúde das democracias depende em grande medida da postura dos derrotados nos processos eleitorais. Quando vencidos se negam a reconhecer resultados amplamente chancelados também por observadores internacionais, estimula-se a desconfiança de parte da sociedade nas suas instituições. As divisões sociais se aprofundam e a disputa política se radicaliza.

Não faltam exemplos recentes no continente americano a demonstrar os efeitos nocivos da irresignação com o veredito soberano das urnas, que agora atingem a Colômbia e o Peru. Em 2020, alegando fraudes inexistentes, Donald Trump não aceitou a derrota para Joe Biden. A recalcitrância do republicano em reconhecer que perdeu e as insistentes afirmações sem evidência plausível de irregularidades na eleição tiveram como corolário a invasão do Capitólio, em 6 de janeiro de 2021. No Brasil, o ex-presidente Jair Bolsonaro cumpriu roteiro parecido. O desfecho, semelhante ao dos EUA, foi a intentona de 8 de janeiro de 2023. A diferença é que Bolsonaro acabou condenado por tentativa de golpe de Estado.

Após a insurgência contra a vontade dos eleitores surgir à direita, agora é a vez da esquerda abraçar uma postura antidemocrática na Colômbia e no Peru. O presidente colombiano, Gustavo Petro, se recusa a reconhecer a vitória do candidato da ultradireita, Abelardo de la Espriella. Permanece afirmando que apresentará provas de fraudes e vem convocando manifestações contra o resultado. 

O governista derrotado, o senador de esquerda Iván Cepeda, prega "desobediência civil". A transição de poder foi paralisada. Isso enquanto observadores internacionais, como os da União Europeia, atestam que o segundo turno, no dia 21 de junho, transcorreu "transparente e bem organizado". O Centro Carter, organização independente reconhecida no acompanhamento de votações ao redor do mundo, da mesma forma certificou a regularidade do pleito vencido por Espriella com margem inferior a 1 ponto percentual.

No Peru, onde a diferença foi ainda menor, o deputado de esquerda Roberto Sánchez convocou e liderou protestos contra o resultado. De forma dúbia, disse na segunda-feira aceitar o anúncio do Júri Nacional de Eleições (JNE) que confirmou a vitória da direitista Keiko Fujimori, mas manteve as acusações de irregularidades, sem apresentar evidências. Novamente, observadores internacionais, como os da Organização dos Estados Americanos (OEA), chancelaram a lisura do processo. É prenúncio de mais instabilidade no Peru, que teve nove presidentes nos últimos 10 anos.

Cumpre ressaltar que eleições de fachada e sem o escrutínio internacional, que ocorrem em autocracias, onde o líder ou o grupo no poder esmaga a oposição, não se enquadram nesses casos em que a contestação é um sintoma ruim. Um exemplo é o último pleito na Venezuela, em 2024, quando a autoproclamada vitória de Nicolás Maduro não foi reconhecida sequer pelo governo Lula, que agora parabenizou os opostos ideológicos Abelardo de la Espriella e Keiko Fujimori.

Em democracias hígidas, os derrotados aceitam o resultado, lambem as feridas, se reorganizam, fazem oposição firme, mas responsável, e esperam a eleição seguinte. Negar a legitimidade da vitória do oponente é trilhar o caminho perigoso da relativização das regras do jogo no qual a vontade popular é soberana. 

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