sábado, 4 de julho de 2026

04 de Julho de 2026
EUGÊNIO ESBER

Michelle antes, Jair depois

No dia em que Michelle Bolsonaro irrompeu nas telas brasileiras para expor suas desavenças com o enteado Flávio Bolsonaro, pensei, entre tantas hipóteses razoavelmente plausíveis, que estava nascendo uma persona política de fisionomia própria - e ambições muito próprias, também. Se me enganei ou não, o tempo dirá. Mas um erro, desde já, assumo ter cometido em minha primeira e imediata avaliação, a mesma, aliás, de muitos observadores da cena política. 

Não foi a primeira aparição disruptiva de Michelle. "A posse. Lembra da posse?", alertou-me a Maira. Eu não lembrava. Mas não foi preciso muito esforço para concluir que a enigmática personalidade da ex-primeira-dama se delineou aos olhos do público, pela primeira vez, em 1º de janeiro de 2019.

Assim como a cuidadosa preparação do vídeo-bomba de 24 de junho de 2026, Michelle de Paula Firmo Reinaldo Bolsonaro construiu e esculpiu, no seu íntimo, um plano que a faria tornar-se notícia no Brasil e no mundo: discursar na posse do marido, Jair Messias Bolsonaro, feito inédito na história do Brasil.

Mais do que uma quebra de protocolo, a primeira-dama protagonizou outro ineditismo: discursou em Libras, a linguagem brasileira de sinais, para homenagear pessoas com deficiência e, particularmente, a comunidade surda, na qual se inclui um tio dela. Postado atrás dela, com expressão séria, Jair acompanhava a leitura do texto de Michelle pela auxiliar Adriana Ramos. Ao final, a pedido do público, Jair e Michelle se beijaram.

A imprensa brasileira e internacional deixou de lado o viés de antipatia ao capitão que derrotara o petismo e adoçou a cobertura da posse com menções à suavidade e à empatia da jovem de 37 anos incompletos nascida em Ceilândia, Distrito Federal.

Depois de tudo, Michelle deu entrevista em que contestou insinuações de "marketing" em sua iniciativa. Contou, porém, que planejou o ato em segredo - inclusive do marido - durante 10 dias. Só comunicou Jair de seu plano duas horas antes da posse. "Olha, eu vou discursar, mas você fica tranquilo que deve ser menos de quatro minutos."

Faltando apenas meia hora para o início da cerimônia, marido e mulher combinaram como seria. A primeira-dama falaria antes do presidente.

E assim foi feito, como nunca antes no Brasil ou no mundo.

Posteriormente, frente às câmeras da TV Record, Michelle relataria, descontraída, e com certa euforia, o nervosismo do cerimonial na véspera da posse.

- Foi um momento cômico, porque uma pessoa do alto escalão ficou extremamente em pânico. "A senhora vai discursar... O presidente já sabe?" Falei: "Não". E ele: "Como assim ?o presidente não sabe??". Eu falei: "Qual o problema?". _

EUGÊNIO ESBER

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