sábado, 14 de janeiro de 2023


14 DE JANEIRO DE 2023
+ ECONOMIA

O que faltou no pacote multibilionário de Haddad

Embora o valor das medidas fiscais tenha superado as expectativas e recebido boas avaliações no mercado, a luz do dia seguinte expõe também o que faltou no pacote de R$ 242,7 bilhões.

A mais importante é algum sinal do novo arcabouço fiscal que o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, prometeu enviar ao Congresso até abril. É verdade que também assumiu o compromisso de discutir as regras com economistas "de todas as escolas", o que significa que vai ouvir os mais e os menos fiscalistas.

Até onde se sabe, já existe um esboço entregue à equipe pelo comitê temático de Economia da transição, que contou com a contribuição dos dois criadores do Plano Real, André Lara Resende e Pérsio Arida. Em vez do teto de gastos, haveria uma meta de despesas, inspirada no regime para a inflação, que diferenciaria entre o gasto com custeio e o aplicado em investimentos.

Outra ausência notável no conjunto é a revisão dos cortes feitos ao longo do ano passado no Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), que beneficiou tanto a produção de bens essenciais, quanto outros de impacto questionável, como jet ski e whey protein. Na época, a decisão foi creditada ao "excesso de arrecadação", com renúncia fiscal estimada em R$ 10 bilhões.

Havia planos de incluir a volta da cobrança cheia de IPI, mas a pressão de setores industriais segurou a medida, também atribuída a um sinal de "reindustrialização do Brasil", discurso caro ao atual governo.

O conjunto da obra surpreendeu vários críticos de Haddad pela ambição e desidratou o discurso de que o atual governo se parecia com o primeiro mandato de Dilma, caracterizado por muitos economistas como o lema "gasto é vida".

Em entrevista ao colega Fábio Schaffner, o consultor político Thomas Traumann, ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social no governo Dilma, afirmou que "no fundo, Haddad é um fiscalista. Quem o acompanhou como prefeito de São Paulo, sabe. Ele terá mais problemas com o PT do que com os opositores". Haddad terá de equilibrar a fama.

MARTA SFREDO

sábado, 7 de janeiro de 2023


TEATRO DE RUA

Está nas raízes do teatro de rua transformar o espaço público em um grande palco e fazer desta arte uma produção cultural acessível a todos. E a Oigalê Cooperativa de Artistas Teatrais vem há 23 anos fazendo valer essa missão. O grupo dá início, neste domingo, ao 7º Corredor Cultural de Teatro de Rua, circuito que percorrerá seis cidades do país ao longo de janeiro.

Porto Alegre será o primeiro município a receber a encenação de Deus e o Diabo na Terra da Miséria, uma produção que já pode ser entendida como um clássico do grupo. Sendo ao ar livre, o espetáculo é gratuito, e será apresentado às 11h, no Brique da Redenção.

A montagem se trata de uma livre adaptação do Capítulo 21 do livro Dom Segundo Sobra, obra do escritor Ricardo Güiraldes. Na trama, que traz para a cena referências à cultura gaudéria, os artistas narram, de forma fictícia, como a fome e a miséria se espalharam pelo mundo.

Formado como uma cooperativa de artistas, o Oigalê liga a prática teatral com um constante trabalho de investigação artística. Nesta edição do Corredor Cultural, eles ainda irão passar pelas cidades de Canoas, Florianópolis, Curitiba, São Paulo e Rio de Janeiro. A programação segue até o dia 30 de janeiro. No site oficial do grupo, oigale.com.br, é possível conferir todos os detalhes de cada apresentação.


07 DE JANEIRO DE 2023
MÚSICA

"Eu me enxergo fazendo muita música ainda"

Depois de completar duas décadas de carreira em 2022, Thiaguinho dá início a 2023 com novos motivos para comemorar: o cantor realiza este ano mais uma temporada da turnê Tardezinha, que vai rodar o país de abril a dezembro com ingressos já quase esgotados. Também estão agendadas duas apresentações no Exterior, uma em Lisboa, Portugal, e outra em Miami, Estados Unidos. Há seis anos, o projeto revisita clássicos eternizados nas vozes de pagodeiros.

No sábado, ele desembarca em Xangri-Lá, no litoral norte do Estado, para animar o público do Maori Beach Club (serviço de ingressos na página 6). Confira a entrevista em que fala de planos para a carreira. Qual mudança você destaca do primeiro show da Tardezinha para a nova temporada?

Nosso desejo sempre foi preservar a energia original, com atualizações necessárias, principalmente no repertório. Quem conferir vai perceber que o resultado é do jeito que todo mundo gosta, mas em versão 2.0.

O que Delirante (novo single do artista) tem para grudar na cabeça do público? Olha, o efeito Delirante é instantâneo: dá vontade de bater palma no ritmo, dançar em roda com os amigos. Fora a letra, que narra a energia contagiante que a gente quer transmitir com a Tardezinha. É uma música de festa, de comunhão.

Você se preocupa em fazer com que o seu trabalho converse com outros estilos musicais?

Sou do pensamento de que a linguagem do pagode é universal. É um som que chama todo mundo para roda. Por isso que para mim é sempre muito gratificante promover encontros de ritmos e estilos na música. No meu álbum comemorativo de 20 anos de carreira, o Meu Nome É Thiago André, canto versões minhas de clássicos do jazz, do pop, da MPB.

Pensando em uma carreira internacional, o seu som seria facilmente assimilado pelos estrangeiros?

O samba e o pagode carregam vários elementos da música negra americana, como o R&B, além de beber muito também dos ritmos da diáspora africana. É um som que conversa com muito do que é feito em vários lugares do mundo, que apela para públicos que vão além do brasileiro. Outros shows que já fiz no Exterior são evidência disso.

Como você se enxerga daqui a 20 anos?

Daqui a 20 anos? Me enxergo fazendo muita música ainda, celebrando 40 anos de carreira com o público, ainda viajando o Brasil com o meu som. Num ritmo menos frenético, talvez? (risos) Não tenho certeza, só sei que o desejo é de seguir fazendo o que amo, que é música.

ALEXANDRE RODRIGUES


07 DE JANEIRO DE 2023
CINEMA

TORTURA E TÉDIO

"Terrifier 2" já arrecadou quase 50 vezes seu custo de US$ 250 mil

Por responsabilidade jornalística, não poderia ignorar um dos fenômenos de 2022: Terrifier 2. Nas bilheterias, o filme de terror escrito e dirigido por Damien Leone arrecadou quase 50 vezes o seu custo: orçado em US$ 250 mil, já faturou mais de US$ 12,15 milhões ao redor do mundo. Nas redes sociais, apareceu em uma porção de notícias, fotos ou memes, tudo por conta do que as cenas de violência estreladas pelo Palhaço Art provocaram nas plateias dos Estados Unidos: há relatos - verídicos ou marqueteiros - de pessoas que vomitaram, desmaiaram e até foram parar no hospital.

"Os espectadores que são fracos do coração, propensos a tonturas ou têm estômagos fracos são aconselhados a ter extrema cautela", avisou o produtor Steve Barton em sua conta do Twitter.

Também recomendo extrema cautela aos espectadores que são impacientes com filmes ruins, propensos a abandonar a sala de cinema fulos da vida pelo dinheiro jogado fora. Sendo bem sincero, não consegui ver Terrifier 2 até o fim. A mistura de tortura e tédio foi demais para mim.

A franquia criada por Damien Leone investe no filão que ressignifica uma figura alegre do imaginário infantil: o dos palhaços assassinos. Na ficção, existem exemplos clássicos, como o Coringa, arqui- inimigo do Batman, e Pennywise, surgido no livro It: A Coisa, de Stephen King. Infelizmente, também há casos da vida real, o que reforça o poder de assombração desses personagens - John Wayne Gacy (1942-1994) estuprou, torturou e matou pelo menos 33 rapazes com idades de 14 a 21 anos, entre 1972 e 1978. Em Terrifier, Leone, com ironia ou pretensão, dá status de arte a esses tipos, batizando seu protagonista de Art.

Mulheres

Terrifier 2 se passa um ano depois do primeiro filme, lançado em 2016. Em uma interpretação muda do ator David Howard Thornton, mas bastante eloquente nas expressões do rosto, nos gestos e no movimento corporal, o Palhaço Art acorda no necrotério após o massacre promovido na noite de Halloween anterior. Na primeiríssima cena, ele já comete um assassinato de forma brutal.

Parece que o filme vai ser uma sangueira só ao longo de suas duas horas e 19 minutos. Ledo engano.

Muito da duração excessiva de Terrifier 2 deve-se às arrastadas e desinteressantes cenas envolvendo a jovem Sienna (Lauren LaVera) e seu irmão caçula, Jonathan (Elliot Fullam), que se tornam a obsessão de Art. Sienna, obviamente, encarna um arquétipo deste subgênero do terror, o slasher: ela é a final girl, como a Laurie Strode da franquia Halloween, a garota que enfrenta o psicopata assassino e que provavelmente sobrevive para contar sua história - a não ser que Damien Leone seja ainda mais sádico (se ele fosse um diretor francês como Pascal Laugier, não apostaria todas as fichas na salvação da personagem).

O protagonismo feminino é um artifício para tentar contrabalançar o peso de outra marca dos slashers: a misoginia. Mulheres - não raro "estúpidas" a ponto de ficarem dando trela ao vilão em vez de chamarem a polícia - são as vítimas preferidas de Art. Com os homens, o palhaço é rápido, quase poupando-os do sofrimento antes da morte. Com elas, demora-se nas mutilações e amputações, joga e espalha ácido na carne exposta. Durante todo esse suplício, a pobre coitada segue viva, gritando de dor, chorando, implorando.

Foi mais ou menos por aí que parei de ver o filme. Faço minhas as palavras do crítico Owen Gleiberman, na revista Variety: Terrifier 2 não usa a crueldade para gerar algum tipo de empatia (como, por exemplo, podemos sentir por Marion Crane na célebre cena do chuveiro em Psicose). Pelo contrário: "Estimula o espectador a ver suas vítimas da maneira como os nazistas viam as deles: como cobaias para um experimento doloroso".

TICIANO OSÓRIO


07 DE JANEIRO DE 2023
CARPINEJAR

Mala pesada, sem alça e sem rodinhas

Quem não tem medo de ser chato torna-se chato. Talvez a prepotência seja o caminho mais rápido até a chatice. Ao se considerar imune ao perigo, é mordido pela mosca azul. Chato é aquele que não se dá conta do seu exagero. Monopoliza a atenção, não oferece espaço para mais ninguém falar. O chato é a overdose da presença.

O chato não sabe se despedir, não sabe o momento de se retirar, não sabe o instante de se calar. Ameaça um "tchau" e retoma o "oi", recomeçando a saudação. Você viverá uma saideira de pé, infinita. Ele é o último a abandonar uma festa, a visita que não vai embora, que não respeita o cansaço e o sono alheios, que dá palestras ao telefone. Não percebe que as pessoas têm outros compromissos.

Todo chato conversa segurando o ombro ou o braço do interlocutor e fica beliscando para criar suspense ou pontuar a emoção de suas histórias.

Você não desfrutará de liberdade para se desvencilhar de seu cerceamento, encontrando-se preso a uma cotoveleira eletrônica. Ele também se destaca p ela compulsão de ser engraçado, de ser simpático, inventando piadas desprovidas de graça e rindo alto de cada uma delas. Acredita que tudo o que diz é importante e inadiável. Ele é, simultaneamente, o orador e o próprio público.

É aquele que jura que não está incomodando e arranja um pretexto para emendar assuntos. Apresenta incontinência verbal, apocalíptica, como se o mundo fosse acabar no próximo minuto. Não pode esquecer nada. Leva lista de supermercado para o bate-papo mais banal.

O chato jamais sofre de pressa. Não confere o relógio. Ou seja, acompanhará você para qualquer lado que esteja indo. Ele é um carrapato, sua escolta nas horas impróprias. Tanto faz se avisar que seguirá pela direita ou esquerda, para o lado oposto, ele é carente como cachorro de rodoviária. Não há como despistá-lo, porque ele não tem nenhum lugar agendado. Não apresenta um destino predeterminado - vem vagando sem rumo.

Chatice é tempo ocioso. Você logo se transforma no seu paradeiro, no seu alvo - vai querer almoçar com você, tomar café com você, passear com você, sair às compras com você.

Ele não guarda nem um pouquinho de timidez, de cautela, de pudor. Seu lema é "vou junto". Confunde a indiscrição com solicitude. Pensará que está fazendo um favor não o deixando sozinho.

O chato é perigoso e demorado, porque não tem consciência de que é chato. Não arca com culpa.

A chatice é um excesso, um sol a princípio simpático que se transforma em insolação. Pode até ser um excesso de virtude. Quem é preocupado demais com você vira chato. Quem é atento demais com você vira chato. Quem é romântico demais, a ponto de ser grudento, vira chato.

O chato sempre antecipa algo que era para ser segredo. É ele que vai revelar ao aniversariante a festa surpresa. Tudo é literal para o chato: você comenta, de modo educado, para ele passar em sua casa qualquer dia desses. E não é que ele entende que se trata de uma urgência e aparece na mesma tarde?

Vou parar por aqui antes de me sentir chato.

CARPINEJAR

07 DE JANEIRO DE 2023
ARTIGO

MÉRITO E RECONHECIMENTO: ATÉ QUANDO?

A falsa dicotomia entre público e privado, muitas vezes explorada para ganhos individualizados ou setorizados, sempre foi causa de atraso no desenvolvimento de qualquer nação. Assim, reputo como importante quando organizações da iniciativa privada fixam seus olhares sobre o setor público e nele reconhecem importância. Isso oportuniza conscientização e ressignificação de conceitos e ideias.

Exemplo disso é o Ranking de Competitividade dos Estados, concebido pelo Centro de Liderança Pública (CLP) e que foi lembrado pelo ex-governador Ranolfo Vieira Júnior em seu discurso de despedida. O CLP tem entre seus integrantes Tendências Consultoria, Fundação Lemann, Aegea e Bank of America. O ranking tem potencial para operar como um sistema de incentivo a boas práticas da gestão pública.

Sua metodologia de cálculo foi baseada em amplo estudo da literatura especializada que definiu indicadores fundamentais para a promoção da competitividade e da melhoria da gestão pública dos Estados, distribuídos em 10 pilares temáticos. O RS aparece em sexto lugar na edição de 2022 do ranking. No entanto, quando se decompõe cada pilar, verifica-se que no tópico da eficiência da máquina pública estamos em terceiro lugar. Entre os indicadores deste pilar, o Judiciário aparece diretamente em três deles: produtividade dos magistrados e servidores (o RS é o primeiro do país, conforme dados do Conselho Nacional de Justiça), eficiência do Judiciário (o RS é o quarto do país) e custo Judiciário/PIB (o RS é o de menor custo do país, ao lado do Paraná).

Infelizmente, esses resultados, fruto de um trabalho comprometido da magistratura gaúcha, que é reconhecido a partir do Mampituba, aqui no Estado não têm encontrado eco mediante ações práticas de valorização dessa categoria. Exemplo disso foi a não apreciação na Assembleia Legislativa dos PLs 218/13 (que revê o reescalonamento dos subsídios entre as entrâncias da magistratura) e 21/16 (que prevê a mesma automaticidade do reajuste dos subsídios adotada para os deputados), que se espera sejam aprovados neste ano. 


07 DE JANEIRO DE 2023
FLÁVIO TAVARES

APÓS O PESADELO

Depois da tempestade vem a bonança, reza o velho refrão. A regra, porém, não se encaixa no cotidiano do início do novo ano e do novo governo federal.

Os temores sobre distúrbios em Brasília na posse de Lula e Alckmin não se confirmaram, ainda que as tais "redes sociais" bolsonaristas insistam no absurdo de que tudo o que a TV mostrou ao país foi uma "farsa".

O pesadelo dos quatro anos de confusão do anterior governo, entretanto, não terminou com a viagem de Bolsonaro a Orlando, nos EUA, para lá divertir-se com as invenções de Walt Disney. De fato, ele fugiu para não passar a faixa presidencial a quem o derrotou na eleição. A alternativa, porém, significou muito mais. Nem a cadelinha levada pela primeira-dama (num gesto ridículo) manchou a cena em que o cacique Raoni subiu a rampa ao lado de Lula e uma catadora de lixo, negra, nele colocou a faixa, símbolo do poder.

Os discursos lidos por Lula foram uma crítica aos problemas gerados nos quatro anos anteriores e um compromisso de solucioná-los. Erradicar a pobreza e a fome, por um lado, e, por outro, defender o meio ambiente e conter o perigo das mudanças climáticas são compromissos a não esquecer jamais. Ao nomear Marina Silva como ministra do Meio Ambiente, Lula mostrou que quis acertar.

A revogação das facilidades dadas por Bolsonaro ao porte de armas e compra de munição completa o quadro de otimismo e revela a opção da sociedade para viver em paz, longe da sanha do ódio.

Surge uma dúvida, porém: poderá Lula governar com 37 ministros, sendo que o primeiro escalão não cabe sequer na Esplanada dos Ministérios, em Brasília?

Aumentar o número de ministros pode não ser a forma de melhor governar, mas só uma tentativa de obter maioria no Congresso. De fato, assim ressurge (ou continua) a carcomida politicalha da partidocracia brasileira.

O pesadelo dos quatro anos anteriores terá sido apenas uma pausa no sonho?

A crise do clima segue como pesadelo maior da humanidade. A seca atual é a cicatriz visível do horror gerado por nosso desdém pela vida no planeta.

Além disso, desperdiçamos água e o racionamento ameaça o Rio Grande inteiro. No estuário do Guaíba, acumulam-se bancos de areia e captar água torna-se difícil. Mas seguimos lavando carros com água potável?

Jornalista e escritor - FLÁVIO TAVARES

07 DE JANEIRO DE 2023
OPINIÃO DA RBS

O MILAGRE DO TRIGO

Mesmo com o encarecimento inesperado do preço dos fertilizantes devido à guerra entre Rússia e Ucrânia, o Rio Grande do Sul alcançou um recorde histórico na produção de trigo em 2022, com a safra de inverno estimada pela Emater em mais de 4,97 milhões de toneladas de grãos. Foi também a maior entre os Estados produtores no país, superando o então líder, Paraná, que teve problemas com excesso de umidade. Os resultados exatos da colheita e da produtividade ainda estão sendo apurados junto aos produtores gaúchos, mas já se sabe que a área cultivada alcançou 1,45 milhão de hectares, a maior em 42 anos.

O milagre do trigo não vem do céu, ainda que o clima realmente tenha favorecido a cultura. Vem de um conjunto de fatores que começa pela ampliação da área cultivada, passa pelo planejamento inteligente e inclui muita tecnologia, com melhorias genéticas que efetivamente aumentaram a qualidade dos grãos. Tudo isso, evidentemente, promovido pelo trabalho incansável dos produtores rio-grandenses, com a assessoria técnica da Emater e a atenção do governo do Estado e das entidades ligadas ao setor rural. Um exemplo desse mutirão foi o programa Duas Safras, lançado em abril numa realização conjunta de Farsul, Senar-RS, Embrapa, ABPA, Fecoagro/RS, Asgav e Federarroz, com apoio do governador, de parlamentares e lideranças do agronegócio. O milagre, portanto, também se chama trabalho coletivo.

O Estado tem motivos para celebrar a boa safra, mas precisa manter o olhar no futuro. Como bem alertou o presidente da Comissão de Trigo da Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul), Hamilton Jardim, em recente entrevista a este jornal, há um novo horizonte de oportunidades que precisa ser aproveitado. Na sua visão, a valorização do cereal ampliou as opções do trigo para panificação, fabricação de ração, exportação e também para a produção de etanol. E a próxima safra deverá ter custo menor do que a atual. São perspectivas promissoras para uma expansão ainda maior do cultivo do trigo no território gaúcho.

A escassez de alimentos no mundo continua sendo uma oportunidade para o Brasil assumir protagonismo ainda maior no suprimento da demanda por grãos. O cultivo do trigo está orientado para esse propósito, como ficou definido na conclusão do último Fórum Nacional do Trigo, realizado no Distrito Federal, em junho do ano passado. Para isso, o país precisa aliar tecnologia, produtividade e sustentabilidade ambiental - fatores que os produtores rurais gaúchos vêm perseguindo com denodo e consciência.

Ainda há muito o que fazer. Mas a colheita recorde do último ano pode - e deve - servir de modelo para outras culturas que não alcançaram resultados satisfatórios e que ainda dependem mais das condições climáticas do que dessa visão ousada e científica dos produtores de trigo no Rio Grande do Sul. Como diz poeticamente o cantor Milton Nascimento na sua canção emblemática O Cio da Terra, será sempre um trabalho sublime este de "debulhar o trigo, recolher cada bago do trigo, forjar no trigo o milagre do pão - e se fartar de pão".


07 DE JANEIRO DE 2023
CONSELHO EDITORIAL

O SAUDÁVEL DESCONFORTO

Passada a posse, com o começo do ano e do novo governo, o Brasil entra em nova fase. No jornalismo independente, segue tudo igual: para quem tem compromisso com a busca da verdade e com a produção de conteúdo de qualidade, mudam os governos, não o papel de fiscalizar quem está no poder, denunciar malfeitos, cobrar promessas de campanha e exigir, em nome da sociedade, que autoridades cumpram bem sua função. Isso pode causar desconforto nos partidários da direita, se é a direita quem está no governo, ou nos da esquerda, se o governo é de esquerda.

Sabemos que o momento da alternância no poder faz subir o grau de desconforto. Digamos que você tenha votado no Bolsonaro. Lula, eleito, aparecerá mais no noticiário. Isso pode ser desconfortável para você, porque ele agora é presidente e não foi sua escolha. Agora, vamos que você tenha votado em Lula. 

Ao se iniciar o mandato, se acentua o papel da imprensa de fiscalizar seu governo. Ao ver na mídia qualquer crítica ou questionamento, o eleitor de Lula achará que a imprensa está jogando contra. Aliás, já começamos a receber críticas da esquerda em relação à cobertura do governo que se inicia. Isso é natural e acontece a todos os veículos de comunicação que praticam jornalismo profissional.

Nosso papel não é acusar por acusar, ou criticar por criticar. A tarefa está em, sem torcer para A ou B, fazer jornalismo responsável, plural e equilibrado, apurando e checando fatos, mostrando diferentes visões e fazendo o papel de watchdog, ou cão de guarda, como dizem os americanos.

Mesmo que não se concorde com a linha do governo - ou a linha política de um amigo, parente ou colega -, o pluralismo de ideias enriquece o ser humano (e o jornalismo), desde que haja respeito no diálogo. Aos veículos de comunicação cabe mostrar todos os matizes de visões, sempre buscando dar ainda mais espaço para todas as vozes e diversificando fontes. Aquilo que difere de nossas convicções pode ser desconfortável, mas, sendo ético e com propósito positivo, é saudável.

No Conselho Editorial, os temas acima perpassam quase todas as reuniões, com o objetivo de, em momentos como este, estarmos ainda mais atentos a nossa função, buscando qualificar nossas redações e tornar mais responsável nossa atividade. Se isso lhe causar algum desconforto, pode significar duas coisas: você está em saudável contato com ideias diferentes, e nós, em mais um governo, estamos fazendo jornalismo independente. 


07 DE JANEIRO DE 2023
+ ECONOMIA

Após vaivém, bolsa e dólar fecham semana na calma

A primeira semana do novo governo terminou com recuo de 0,71% na bolsa e baixa de 0,83% no dólar. No acumulado, até parece que os dias foram tranquilos, mas embutiram muito sobe e desce.

Esse comportamento contrasta com o da campanha, marcado por calmaria. O mercado se comportou como se o resultado da eleição fosse indiferente. Candidatos conhecidos, cenário externo mais conturbado e expectativa de que ninguém fizesse "bobagem" na economia formaram um período eleitoral muito diferente da primeira eleição de Luiz Inácio Lula da Silva, que levou à maior cotação do dólar em relação ao real até hoje, considerada a inflação.

O dia seguinte à posse foi de forte reação na bolsa em geral - em particular em ações de estatais - e no dólar. No mandato anterior, isso ocorreu várias vezes. O então ocupante do Planalto reclamou que o mercado ficava "irritadinho por qualquer coisa". E apesar do estresse até agora, o câmbio ainda não chegou perto do recorde dos quatro anos anteriores, de R$ 5,901.

Outra observação é que o mercado não reage a indicadores sociais e ambientais, como fome, desemprego ou desmatamento. Nesse caso, é verdade - ao menos até agora. Embora estejam "na moda", as práticas ESG (governança corporativa, social e ambiental) não provocam oscilações. O mesmo ocorre com situações constrangedoras sem impacto econômico direto, como ter pessoas próximas à Presidência relacionados a milícias, no governo A ou no governo B.

Então, o mercado é só especulação? Existe, de fato, muita operação de bolsa, câmbio e até em juros futuros comandada por especuladores, aos quais importa apenas ganhar muito dinheiro, até mesmo quando a situação econômica piora: existem mecanismos que permitem lucrar com queda na bolsa e alta no dólar - as faces mais visíveis.

Mas essa não é a regra. Empresas usam a venda de ações para financiar seu crescimento e a geração de empregos. Quando a bolsa cai, as condições para fazer esse tipo de movimento ficam mais difíceis. Compõem o mercado, ainda, muitos gestores de investimentos que precisam apresentar resultados a fundos de aposentadoria que buscam a chamada "renda variável" para complementar renda.

MARTA SFREDO

07 DE JANEIRO DE 2023
PRIMEIRA ENTREVISTA

"Muitas pessoas se enxergam na gente"

O médico pediatra Thalis Bolzan, que namora o governador do RS, Eduardo Leite, concedeu sua primeira entrevista nesta sexta-feira, para o programa Timeline, da Rádio Gaúcha. Durante a conversa, falou sobre o início de sua relação e relatou que, nesta época, sofreu preconceito pela primeira vez em sua vida.

O primeiro episódio foi durante a pandemia, quando visitava Leite e ocorriam manifestações em frente ao Palácio Piratini. De dentro, Thalis escutava.

- Ouvi coisas que nunca tinha ouvido na minha vida, questionando quem é o Eduardo para falar em família, que ele não é capaz de dar uma primeira-dama (ao Estado), que não é capaz de ter filhos. Foi logo no começo, então, era tudo muito novo para mim, e foi o primeiro sentimento que eu tive de alguém que realmente sofre o preconceito na pele - recorda o médico, complementando que esse tipo de ato precisa ser denunciado e punido.

Na posse, Leite fez história ao declarar seu amor pelo namorado. O governador disse que a eleição de 2022 foi a primeira vez em que se apresentou "sem precisar deixar de falar algo pessoal" e que entende que é preciso "ir na direção correta, do ponto de vista civilizatório".

- Se nós acreditamos efetivamente no amor, como acreditamos, ele não pode ser seletivo, mas sim a cada uma das pessoas, como o próprio Deus ensinou. E, por isso, é com muita alegria que estou aqui ao lado do Thalis, o meu amor. O Rio Grande do Sul não tem uma primeira-dama, mas tem alguém que é de verdade, podem acreditar - afirmou Leite na posse.

O médico de 31 anos conta que a declaração foi uma surpresa que lhe deixou sem reação:

- Eu via o pai dele, que estava perto de mim, e dizia "mas que cena mais linda", e chorava e não conseguia se controlar. E eu tentava me controlar, não sabia para onde olhar, o que fazer, as pessoas todas se levantando para aplaudir. Mas foi um gesto de muita coragem, que saiu do fundo da alma dele.

Família

Thalis destacou que Leite sempre desejava falar abertamente sobre sua orientação sexual e que a entrevista ao jornalista Pedro Bial, em julho de 2021, quando falou sobre ser gay, motivou o médico a também revelar sua sexualidade para o pai.

- Minha mãe já sabia e sempre me apoiou, mas o meu pai, não. Três dias antes de a entrevista ir ao ar, o Eduardo falou: "Prepara". Apoiei ele, ele tem consciência, eu tenho consciência, do quanto isso é representativo para tantas pessoas. Acho que muitas pessoas se enxergam na gente. Fiquei assustado no começo, a gente nunca se sente preparado. Aí, minha mãe avisou meu pai. Ela falou que eu era gay e, ao mesmo tempo, que namorava o governador do Rio Grande do Sul - relatou o médico.

A reação do pai, Carlinhos, foi chorar durante uma semana, segundo o pediatra. O tempo, contudo, tratou de o tranquilizar:

- Hoje, tenho certeza de que ele sabe que o meu caráter e tudo o que me ensinou, nada disso muda.


07 DE JANEIRO DE 2023
INFORME ESPECIAL

Histórias inspiradoras

No ano que passou, este espaço ganhou um novo propósito aos finais de semana: mostrar gente com histórias inspiradoras. Foram 40 perfis, de pessoas das mais diferentes áreas, gêneros, crenças e posições políticas, com algo legal para contar.

Por aqui passaram empresários, artistas, educadores, cientistas, religiosos. Teve estilista, chef de cozinha, sommelière de chá, perfumista, cabeleireira, jardineiro, barista, gaiteiro, cuteleiro, poeta e mais um monte de convidados especiais. Como diz Caetano, "gente é para brilhar".

Nesta edição, relembramos as histórias mais populares entre os leitores da coluna em GZH. Em 2023 tem mais.

Empresário mecenas

Certo dia, o cardiologista Rubem Kunz, um homem de sorriso franco e boa conversa, resolveu que faria o próprio vinho em Taquara, a 80 quilômetros de Porto Alegre. Deu tão certo que sua bebida acabou conquistando restaurantes estrelados Brasil afora. O médico aposta em uma produção autoral, artesanal e única.

JULIANA BUBLITZ

sábado, 31 de dezembro de 2022


Feliz 2023 – saúde, sorte, sucesso

Por Tito Guarniere | 31 de dezembro de 2022

Que lhes posso desejar para 2023? Só coisas boas – saúde, sucesso, sorte, nessa ordem e só na letra “s” do dicionário.

O principal é a saúde. Pergunte ao homem mais rico do mundo, quando fica doente, o que ele mais deseja, e na ponta da língua está a palavra mágica : saúde! Ou mudando um pouco , perguntem se ele daria metade da fortuna em troca de ficar 10 anos mais jovem. Como em nenhum negócio espetacular dos tantos que fez ao longo da vida, ele responderá de pronto, sem pensar ou vacilar : sim, mil vezes sim.

Vi uma foto que me comoveu, Pelé e a filha Kelly no leito de hospital , em São Paulo. O craque, a celebridade, o gênio, o rei, certamente vivendo o ocaso de uma existência gloriosa, as batidas do coração lentas e descompassadas, talvez desse todo o seu reino de glória para se movimentar, sentar de conta própria, respirar normalmente. 

Mas mesmo o rei estava ali se rendendo à lei da vida, que é a mesma lei do fim e do passamento. Em momento fugaz de lucidez, ele talvez esteja implorando por um pouco de força, de luz – de saúde. Nessa hora não há rei, nem riqueza ou genialidade: o mundo fica igual e ninguém escapa à dor e ao sofrimento.

Então, saúde é o que interessa, como dizia o bordão da tevê. Saúde para caminhar lentamente na alameda olhando ao redor e pensando na vida, respirar o ar puro do campo, olhar as estrelas na noite clara, tomar no colo a criança e embalar-lhe o sono inocente. Saúde, caro(a) leitor(a) é o que lhe desejo mais do que tudo, e aos seus, no ano que está para começar.

Torço pelo seu sucesso no estudo, no trabalho, no seu projeto de vida. O sucesso é demorado e difícil – uma trajetória de altos e baixos, uma longa aventura cheia de percalços. O sucesso, que depende acima de tudo do nosso esforço pessoal – muito mais suor e vontade do que de talento e habilidade.

O sucesso, que não é garantido nem mesmo para quem se esfalfa no trabalho. Como nada é perfeito, nem sempre o empenho, o interesse, o esforço e o foco redundam na vida bem sucedida. Mas sem a energia, o esforço pessoal, a perseverança, dificilmente você conhecerá o êxito, a realização plena, o reconhecimento e a admiração (e às vezes a inveja ) de todos. Então, mãos à obra e quem sabe, com um pouco de sorte, o sucesso lhe abrirá um largo sorriso.

A sorte, ah sorte. É preciso muito sorte para desfrutar de certos privilégios (tipo viajar de classe executiva a Paris, Londres, Nova York duas ou três vezes por ano, morar na mansão e no bairro seguro, passar o final de semana na casa de campo ou da praia, trocar de carro todo ano e coisas assim) – sorte de vir ao mundo com talentos especiais (atores e atrizes de cinema, atletas de ponta, cantores e cantoras pop), nascer em berço de ouro, ganhar na loteria, casar com milionário ou mulher rica. O ruim é que estamos exaustos de saber que essas coisas só existem para uns poucos afortunados. Mas se a sorte nos contemplar em 2023, seja bem-vinda!

Bem, meus caros, de toda forma são os votos que formulo para você e os seus em 2023: saúde, sorte, sucesso.


CARTA DA EDITORA

PROTEÇÃO PARA OS FIOS

Durante a temporada de praia e piscina, o que nosso cabelo mais precisa é de uma boa rotina de cuidados e hidratação. Lavar bem os fios para remover o cloro e deixá-los prontos para receber um bom tratamento é o ponto de partida ideal. Além de hábitos básicos, como evitar o uso de secadores, outra sugestão é sempre preferir os condicionadores e máscaras com fórmulas nutritivas e hidratantes.

A visita ao salão para uma hidratação intensa também é parada obrigatória. Seja para recuperar a saúde dos fios ou para prepará-los para a próxima exposição, o tratamento profissional garante cabelos sedosos e iluminados o ano inteiro.

Para te ajudar nisso, nossa dica imperdível são os serviços do salão Beauty Line, do Donna Beauty Pompéia, que tem oportunidades especiais para quem deseja adicionar as hidratações à rotina.

VISITE-NOS: Espaço Unisinos - Av. Dr. Nilo Peçanha, 1.500.

Divas Olímpicas - O Calendário Solidário da Maturidade-RS, do Coletivo Divas da Alegria, chega à sua terceira edição em 2023 com uma homenagem ao universo dos esportes. A ideia é incentivar a prática de atividades físicas para um envelhecimento mais saudável. Além disso, a produção faz referência às mulheres que fizeram história em diferentes modalidades. Estrelam o calendário, denominado Divas Olímpicas, gaúchas entre 60 e 94 anos, com figurinos que remetem a uniformes marcantes, como uma releitura do vestido usado por Maria Esther Bueno em Wimbledon (foto à dir.), em 1962, e uma representação da ginástica rítmica (foto à esq.), entre outras. Para mais informações, acesse divasdaalegria.com.br.

Tendências à mostra - As principais novidades da moda do próximo inverno para o setor têxtil serão apresentadas entre os dias 24 e 27 de janeiro, na Fenin Fashion Gramado. Mais de 500 marcas de todo o Brasil estarão reunidas no Serra Park (Rua Viação Férrea, 100, bairro Três Pinheiros), com vestuário feminino, masculino e infantil para a temporada fria, além de acessórios e lingerie. O evento é um dos mais relevantes da América Latina no segmento e, para 2023, teve sua dimensão ampliada em 30%, com estimativa de público de 15 mil visitantes. Saiba mais em fenin.com.br.

CARTA DA EDITORA

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