sábado, 17 de setembro de 2022


17 DE SETEMBRO DE 2022
MARTHA MEDEIROS

Em defesa da família

Virou promessa de palanque conservador: "em defesa da família!". De todas, eu espero, mesmo que insistam em falar de família no singular, como se só existisse uma. A Jussara, por exemplo, cria dois filhos sozinha. O mais velho dá uma olhada no menorzinho quando ela precisa ficar no trabalho até mais tarde. Ela é empregada doméstica. Que bom que o governo se preocupa com ela.

O Rodrigo se casou com o Lucio e eles adotaram duas crianças. Mas o Lucio morreu de covid antes que as vacinas começassem a ser distribuídas. Hoje o Rodrigo cria os bebês com a ajuda da irmã, mas não é fácil. Ainda bem que o governo está em defesa dele, combatendo o preconceito.

A Tatiana fez 40 anos e não se casou, mas queria muito ser mãe. Fez uma inseminação e veio a Bia, que hoje tem quatro anos e é a melhor filha que se poderia desejar, as duas se divertem, se completam e Tatiana está se saindo uma perfeita mãe solo. Imagino o orgulho que o governo sente dela.

Quando a bela e submissa Nadine estava grávida de seis meses, Guto, que era o provedor da casa, morreu. Nadine deu à luz uma menina linda e doentinha. Os medicamentos foram ficando cada vez mais caros, os parentes sumiram e ela passou a aceitar a ajuda de um senhor, em troca de pequenos favores. O governo estará aqui para o que você precisar, Nadine.

Os gêmeos Carla e Claudio tinham 14 anos quando os pais se separaram. A mãe voltou para o Interior, enquanto o pai foi procurar trabalho no norte do país. Cada um levou um filho. Ainda bem que o WhatsApp ameniza a distância dos irmãos e que os políticos zelam por todos.

O filho da Gisela não teve uma infância fácil. O pai não aceitava que ele fosse mais sensível do que os outros garotos do bairro. Quando soube que ele se identificava como menina e iria trocar de nome, deu uma surra no coitado, mas não adiantou nada. Hoje a Gisela tem uma filha em vez de filho, e o ogro se mandou. Fico tranquila em saber que o governo se sensibiliza e ajuda a conscientizar as famílias sobre as pessoas trans.

Helena e Ricardo têm um filho gay e uma filha especial, ambos adotados. Sonia e Vivi moram juntas e não pretendem ter filhos. Juarez e Monica também não, mas estão pensando em ter mais um cão - já têm dois. Julio mora com os pais até hoje, mesmo tendo 47 anos. Renato, Rosa e Milton se amam e se mudaram para um sítio. Regina e Valter nunca oficializaram a união. Sergio mora em São Paulo e Virginia no Rio, desde que se casaram, há 12 anos. Marina foi trabalhar na Espanha e deixou os dois filhos com Marcos, mas visita-os sempre que pode. Que alívio que o governo está em defesa de todas essas famílias. Agora só falta citá-las no plural.

MARTHA MEDEIROS

17 DE SETEMBRO DE 2022
CLAUDIA TAJES

Dignidade é para quem tem

O colunista semanal é aquele que, quase como regra, deve encontrar um tema atemporal, que resista à passagem dos dias e dos acontecimentos para não chegar à data de sua publicação com uma coluna demodê. O diabo é que alguns casos ficam na cabeça e, quando a gente vê, já estão na ponta dos dedos, virando texto.

Isso embora tudo de mais interessante e inteligente já tenha sido dito sobre o assunto.

Sim, me refiro à senhora das marmitas. A que pararia de receber comida por votar em um candidato diferente daquele do rotundo empresário que, até então, fazia a - digamos - caridade. História que deve acontecer seguido com as pessoas mais humildes, essa da troca de voto por alguma coisa, trabalho, um canto, remédio, comida. Direitos que deveriam ser de todos, independentemente de qualquer condição.

De tudo o que li e ouvi sobre esse triste caso, o que mais me tocou foi dito por Reinaldo Azevedo, jornalista que não se identifica com a esquerda e, muito menos, com a barbárie. Pausa para dizer que, junto com Pantanal, o programa do Reinaldo, que acompanho no YouTube, é meu segundo vício. Bem, tenho outros, mas esses dois são diários.

Reinaldo citou a filósofa alemã de origem judia Hannah Arendt, cuja foto está na estante lotada de livros que fica às costas dele, no escritório onde o programa é gravado. Estante mesmo, não o tapume fake que serve de cenário para alguns.

É de Arendt o conceito de "banalidade do mal" que, muito superficialmente, designa a multidão que apenas segue a onda, sem fazer grandes julgamentos morais. Mais ou menos o que a sábia filosofia popular brasileira conceituou como "gado".

Essa falta de julgamento moral significa que, na vida real, o mal não é propriedade de supervilões ou de psicopatas do crime, como se vê na ficção. O sujeito que é um bom pai, um marido carinhoso, um filho respeitoso, um tio engraçado, pode ser mau na forma como trata quem não faz parte de suas relações mais próximas. O porteiro do prédio, o garçom, a moça da limpeza, a senhora que precisa de uma marmita.

Talvez o empresário que fez aquela presepada seja um sujeito bonachão, até bom em suas relações mais próximas. Talvez seja um ser humano lamentável apenas com quem não conhece. O que faz dele um ser humano lamentável em todos os aspectos, na minha modesta opinião.

Ah: embora empresário, o sujeito embolsou o auxílio emergencial até novembro do ano passado. E não demorou a gravar um novo vídeo se dizendo arrependido por ter gravado o primeiro vídeo - não por seu ato deplorável.

Sobre a mulher, que mora com três filhos e os cachorros que resgata em uma peça que ergueu com as próprias mãos, que lição de dignidade deu ao bem-alimentado ser que a humilhou. Disse que não pensa em processá-lo, o sujeito já está pagando com a exposição e as consequências de sua atitude.

E pensar que foi ele mesmo quem postou o malfadado vídeo que virou sua vida de cabeça para baixo. Como diz Hannah Arendt, há quem apenas faça, sem grandes preocupações com o que é certo ou errado, com o que é ou não moral.

A falta de empatia e compaixão de uns e outros está aí para comprovar.

CLAUDIA TAJES

17 DE SETEMBRO DE 2022
RELACIONAMENTO

Do desejo à vingança CONVERSAR É FUNDAMENTAL

Terapeutas explicam por que o "sexo de reconciliação" é considerado tão excitante

Então, não custa ressaltar: só porque vocês transaram não significa que o conflito foi resolvido, alertam as psicólogas. - Achar que está tudo bem é uma falsa ilusão de entendimento. O diálogo é imprescindível para o bom funcionamento de um relacionamento. Nesse caso, o sexo veio a serviço de desviar atenção, terminando com a discussão. É só uma transferência temporária, porque vai voltar. Tudo que não resolvemos, volta - diz a psicóloga e terapeuta sexual Laura Meyer.

Por isso, é claro, não é recomendado que se provoque uma briga para conseguir esse tipo de excitação.

- Em casais com relacionamentos disfuncionais, se esse tipo de solução se repete com frequência, pode gerar culpa, insatisfação, mágoas, ressentimentos. Com isso, a relação vai se desgastando até chegar ao ponto de terminar - acrescenta Laura.

Na literatura, em letras de músicas e no cinema não raro é enfatizada a ideia de que amor e raiva andam lado a lado. A psicóloga especialista em terapia sexual Jamile Peixoto Pereira questiona se, na vida real, esta combinação se sustenta, principalmente, após alguns anos de convivência.

- Pode ser que, em determinadas situações, possa apimentar a relação, mas não pode se tornar um hábito. É preciso entender o que aquela necessidade de reconciliar para transar está querendo sinalizar, o que está por trás. Pode ser uma pista de que a relação precisa ampliar o repertório, ajustar a comunicação e aprender a curtir o sexo como um processo, uma construção erótica, uma química que precisa de constantes investimento, dedicação e atenção - conclui.

Famoso por ser intenso e vibrante, o sexo de reconciliação (aquele que põe fim ou ao menos dá uma trégua a um conflito) costuma excitar quem busca emoção na relação a dois. Mas, afinal, por que a intimidade após uma briga traz tantas sensações contraditórias? E, com o passar do tempo, este hábito pode ser prejudicial?

Para a psicóloga e terapeuta sexual Laura Meyer, este tipo de relação traz à tona as lembranças do início do relacionamento.

- Gera muito prazer pelo alívio em restabelecer a relação, reforçando o vínculo do casal, pois é o medo de perder a pessoa que desencadeia esse processo. Muitas vezes, serve para interromper a briga ou porque a sensação de raiva provoca excitação sexual - avalia.

Neste contexto, é comum o sexo acontecer em um "misto de amor e ódio", explica a terapeuta, e aí pode ser mais violento.

- Podemos pensar em vingança, uma atitude sádica da parte de quem está com raiva e masoquista do outro, que aceita. É um exemplo do que pode acontecer. Nem todo sexo de reconciliação tem o mesmo motivo. A origem não é a mesma para todos - ressalta.

Também há situções em que ele marca a volta do casal depois de um período de separação.

- Nesse caso, costuma ser mais intenso, porque eles estavam com saudade um do outro, ficaram muito tempo sem transar. Procuram então compensar, dando o seu melhor - afirma Laura.

O sexo deve ser consequência de uma conexão íntima, um resultado do equilíbrio entre expressão de desejos, construção de erotismo, sensações de prazer e diálogo, que permita comunicar ao outro fantasias, vontades e satisfações, defende a psicóloga especialista em terapia sexual Jamile Peixoto Pereira. Por isso, a prática de transar após uma briga não pode ser um hábito.

- O sexo de reconciliação entra como uma resposta a algum nível de conflito, em que se aposta que uma certa "química" sexual intensa poderia dar conta de solucionar. Como prática em si, pode até excitar alguns casais e, momentaneamente, aumentar a energia sexual. A questão é a manutenção desta prática como um processo de habituação, em que para a excitação seja fundamental um conflito. Assim, sempre se fará necessária a criação de uma discussão, uma briga ou um rompimento para que o tesão possa ascender e o sexo acontecer - alerta a especialista. 

*PRODUÇÃO: LUÍSA TESSUTO

17 DE SETEMBRO DE 2022
LEANDRO KARNAL

Mudei o nome. Poderia parecer ofensivo. O homem nos esperava no aeroporto. Era o motorista designado para um grande evento no Sul do País. Idade? Não erraria muito quem lhe atribuísse algo na casa dos 75 anos. Formal ao extremo, indicativo de uma data de nascimento mais próxima do Estado Novo.

A idade, com frequência, costuma vir acompanhada de um uso generoso de "senhor" e "com licença". Eventualmente, como no caso do nosso motorista, um declínio acentuado da capacidade auditiva. Desafio maior: o uso de recursos modernos de localização de um endereço.

O escritor Umberto Eco, com sentido um pouco diferente, trouxe a metáfora de duas tribos: os "apocalípticos" e os "integrados". A tecnologia deixa pessoas de mais idade confusas. Seriam os "apocalípticos" aqueles que não se adaptam aos aplicativos e que sentem com inquietação um universo no qual ir à padaria implica um programa para localizar endereços (e um cartão de aproximação para o pagamento)?

Nosso motorista era um não integrado. Lembro-me de outro senhor, há alguns anos, que fazia rascunhos do e-mail, à caneta, e depois passava para o computador.

Até hoje há quem não domine a nova etiqueta que obriga a mandar uma mensagem prévia para perguntar se pode ligar. Os mais velhos ligam à queima-roupa, causando sustos nas pessoas mais jovens. Um celular tocar sem algo anterior no WhatsApp é crime de lesa-pátria para os que possuem mais colágeno. Aliás, nas mãos de um adolescente, o aparelho celular faz tudo, menos ligar.

Volto ao seu Antenor (que a cara leitora e o dileto leitor já sabem ser nome fictício). Ele colocou o endereço no aplicativo e aceitou o primeiro trajeto. Acontece que a rua celebra um nome famoso da história e repete-se em diversas cidades. São sutilezas da modernidade.

Com sorte, chegaremos à idade do seu Antenor. Os aparelhos já são um desafio para quase todos nós. Então, com certo ar de "vendetta" histórica, seremos, a cada ano, mais próximos do seu Antenor. A tecnologia é uma máquina de exclusão etária, exige um afeto e dedicação que parecem diminuir à proporção do fim do colágeno. Nós, mais velhos, vamos perdendo o desejo de mudar de aparelhos e de procedimentos.

Seu Antenor é o futuro de todos. Tenho de pensar nisso para ter mais esperança com as pessoas que lutam com o Waze... São apenas a vanguarda do que nos aguarda, com alguma sorte.

LEANDRO KARNAL

17 DE SETEMBRO DE 2022
EUGÊNIO ESBER

O FISCO E A GALINHA

O ministro Paulo Guedes, que exibe um dos mais notáveis desempenhos entre ministros da Economia de um mundo colapsado pela pandemia e por uma guerra no Leste Europeu, afirmou em evento com empresários e executivos do setor automotivo uma diretriz que merece a reflexão de todos. Sustentou ele, na verdade reiterou, a disposição de simplesmente eliminar da vida brasileira o Imposto Sobre Produtos Industrializados, o IPI - tributo que em sua opinião deveria se chamar ICPI, ou "Imposto Contra Produtos Industrializados". 

Para ilustrar o que vê como um absurdo a conspirar contra os esforços de reindustrialização do país, Paulo Guedes fez uma frase curta e autoexplicativa. "A empresa nem começou a produzir ainda e já está devendo." Devendo impostos, quis dizer.

A manifestação do ministro me transportou ao início da década passada. Em um seminário da revista Amanhã para premiar as 500 maiores empresas do Sul, ouviu-se o então presidente do Conselho de Administração da Gerdau, Jorge Gerdau Johannpeter, descrever as peripécias do empreendedor para ir em frente enquanto escuta, em seus calcanhares, o rosnar do fisco babando de volúpia e impaciência. "É um sistema antidesenvolvimento: se você vai construir uma fábrica, já paga impostos desde a aquisição dos equipamentos, o que não faz sentido nos países desenvolvidos, onde o empreendedor é incentivado a usar força máxima dos seus recursos para o investimento que vai fazer", compara Johannpeter.

É claro que a extinção do IPI não terá, por si, o mágico efeito de promover um boom industrial, e terá de vir acompanhada por medidas que o próprio ministro vem defendendo, como a mudança na matriz de transporte em favor de hidrovias e ferrovias, já em curso, e a criação de condições para uma oferta abundante, e sobretudo barata, de energia. Até mesmo no campo tributário, a importância do IPI é relativizada por experts como o advogado Milton Terra Machado, que é enfático em sugerir que há tributos mais relevantes para aliviar o fardo fiscal que pesa sobre os ombros de quem tenta produzir, caso da Cofins, por exemplo. 

Mas é alentador ver que desde 2019 Guedes e seus assessores colocam em prática um esforço contínuo para reduzir ou mesmo zerar o IPI e outros impostos federais em milhares de itens. E, mais auspicioso ainda, é a constatação de que aliviar a carga de tributos sobre empresas e sobre famílias vem resultando em aumento de arrecadação, pelo efeito virtuoso sobre os níveis de consumo e investimento - vale dizer, sobre a própria pulsação da economia em geral.

Enfim, e com todas as ressalvas que a cautela impõe, parece estar se demonstrando a validade dos estudos do norte-americano Arthur Laffer, que indicam a possibilidade de um governo arrecadar mais quando modera o seu apetite fiscal e engorda, em vez de matar, a galinha dos ovos de ouro.

EUGÊNIO ESBER

17 DE SETEMBRO DE 2022
BRUNA LOMBARDI

A ORIGEM DO MAL

Toda filosofia, dramaturgia e literatura sempre se perguntaram de onde vem o mal. Como começa, se infiltra e insinua no coração de uma pessoa, de uma família, sociedade ou país? Por que existe e consegue corromper? De onde vem seu poder? Por que Lúcifer, o anjo mais poderoso, um dia se transformou no demônio?

Toda criança quer saber por que o mal existe. Crescemos, somos adultos, amadurecemos e continuamos nos perguntando a mesma coisa: por que o mal existe?

Em quase em todas as parábolas da Antiguidade, a batalha do Bem contra o Mal cria mitos, santos e heróis. É a base de todas as religiões e de todas as histórias. E continuamos crianças perplexas diante do mistério. Estarrecidas diante do horror, mesmo quando o acúmulo das notícias torna o horror uma rotina.

Talvez a principal chave para compreender tamanha distorção seja o conceito do Livre Arbítrio, um paradoxo dentro de cada ser humano. O Livre Arbítrio, considerado um presente de Deus, nos coloca diante de um dilema: O Destino e a Escolha. Tudo já está escrito ou podemos mudar?

Cada passo apresenta uma encruzilhada e exige uma escolha, uma decisão. Traz responsabilidade e medo de errar. Em cada acontecimento, existe uma cilada, sabemos que viver é muito perigoso.

Todos nós, sem exceção, temos a liberdade para escolher entre o bem e o mal. O poder de decidir entre certo e errado é nosso, o que nos torna responsáveis pelo mal que escolhemos. Por isso tememos tanto a tal liberdade que desejamos.

Se tudo fosse apenas parte do plano de Deus, sem a nossa colaboração, seria mais fácil.

A responsabilidade seria do Criador. Obedecemos um poder maior e nos tornamos vítimas do que nos acontece. Mas nosso destino não é determinado apenas por uma força além do nosso controle. Tá certo que não controlamos as circunstâncias em que nascemos, nem muitas ao longo das nossas vidas, mas temos a liberdade para escolher como respondemos a essas circunstâncias.

O anjo Lúcifer, por exemplo, que era o mais brilhante, fez sua escolha. Seja como Lúcifer, Belial ou o rei Nabucodonosor da Babilônia, Satanás toma muitas formas. O mal existe e tem infinitos representantes no nosso planeta.

O mal distorce valores e corrompe a humanidade desde o princípio dos tempos. Somos cercados de crime hediondos. Assassinatos, violências, abusos contra mulheres e crianças. Contra povos e raças, contra animais e contra a natureza. Destruiremos um planeta, que poderia ser o paraíso, porque é fácil destruir. É preciso um poder muito maior para criar e construir.

Quando criança, aprendi a diferenciar o bem do mal. Muitos anos mais tarde, achei essa divisão dual simplista demais. Seres humanos são mais complexos do que isso. Pessoas têm suas contradições, ninguém é só uma coisa ou outra, cada um tem suas nuances, traz suas razões dentro dessa sociedade doente e distorcida.

Mesmo assim, existe uma diferença clara entre barbárie e civilização, entre ignorância e humanização, e o bem é um processo evolutivo. Resta a pergunta: para onde caminha a humanidade?

BRUNA LOMBARDI

17 DE SETEMBRO DE 2022
J.J. CAMARGO

SLOW FOOD

Umas das primeiras coisas que se aprende na Itália é o quanto esse povo respeita a cultura que faz da refeição uma oportunidade única de congraçamento.

Na primeira visita, com mais coisas pra ver do que tempo para desperdiçar, é comum que se busque para almoçar ou jantar um lugar agradável, limpo e, muito importante, rápido. Uma atitude típica de quem acha que comer é só o jeito de matar a fome. E isso definitivamente não combina com a secular cultura italiana. Tudo deve ser entendido como um ritual, com sequência estabelecida por décadas de tradição e intervalos de espera entre um prato e outro.

No início dos anos 1980, estreamos na Itália e, impressionados com a abundância dos pratos, servimo-nos de uma massa maravilhosa. Estranhamos que só depois dela viesse a salada com verdes e vinagre, ao fim da qual, completamente fartos, pedimos a conta.

Este pedido, que seria interpretado como normal em outros lugares, desencadeou uma reação de indignação em cadeia, em que as esposas (mogli) que atendiam as mesas avisaram aos maridos (mariti) cozinheiros, em um tom de voz agressivo, que eles podiam interromper os pratos de fundo, porque nós não tínhamos gostado da comida. Por pouco não fomos expulsos daquele simpático restaurante com toalha e guardanapos muito brancos, onde ficou claro que a quebra do ritual é um sinal grosseiro de desapreço pelos proprietários.

O racional dessa sequência é dar tempo para a conversação, o que faz da mesa uma espécie de altar de aproximação e fraternidade. E se tudo for regado a um bom vinho, estabelece-se a condição perfeita para o emprego da palavra, não apenas dita, mas muito mais importante, ouvida. A família ou os amigos reunidos encontram neste ambiente o cenário perfeito para compartilhamento das suas alegrias, deboches, risos e, eventualmente, de tristezas e desencantos. Esses sentimentos que definem a vida como uma condição que alternadamente pede que acolhamos ou sejamos acolhidos.

Por conta dessa festejada tradição, a Itália relutou muito em receber a primeira loja fast-food do McDonald?s. O intento de alocá-la logo na Piazza di Spagna, o coração de Roma, mereceu críticas ainda mais ferozes.

Como todos concordam que atentar contra uma cultura enraizada, seja social, política ou religiosa, é sempre uma desinteligência (Salman Rushdie que o diga), entende-se porque a iniciativa de Carlo Petrini, um jornalista italiano que é Embaixador da Boa Vontade da FAO no seu país, foi tão festejada quando criou o movimento internacional do slow food, com várias ações contra o fast food, e logo encontrou tantos adeptos, que se estendeu a Paris e outros grandes centros europeus.

"A comida era, e ainda é, um aspecto essencial das festividades, do convívio, das tradições piemontesas, como cantar e dançar, e assim, crescendo, fui tomando consciência desse aspecto cultural, social, histórico da comida, que começava a ser ameaçado por uma falsa ideia de modernidade", declarou Petrini.

E convenhamos, a cena frequente em restaurantes históricos, em que o noivo ajoelhado pede a sua amada em casamento, requer um ar de solenidade que definitivamente não combina com o grotesco da mordida num Big Mac e o ketchup escorrendo entre os dedos.

A solenidade que envolve uma refeição pode ser uma cortina de delicadeza, protegendo-nos daquelas grosserias do cotidiano apressado que não conseguimos evitar.

J.J. CAMARGO

17 DE SETEMBRO DE 2022
CARPINEJAR

Os efeitos do Acampamento Farroupilha numa mineira

Minha esposa mineira teve três choques culturais ao morar no Rio Grande do Sul: o frio, que achou muito mais severo do que acreditava, a ponto de dormir com bolsas de água quente; o verão, que ela considerou pior do que o inverno, sem trégua na sombra e úmido o suficiente para desmaiar as lagartixas nas paredes; e a fumaceira aos domingos, com as chaminés formando nuvens de churrasco no céu da Capital.

Tanto que ela definia o domingo já na cama, pelo cheiro afrodisíaco de assado. Não precisava consultar o calendário. Então, imagine o que ela pensou do Acampamento Farroupilha, que completa 40 anos e vai até terça-feira. O tema deste ano é Etnias do Gaúcho: Rio Grande, Terra de Muitas Terras.

Enlouqueceu de estranheza quando atravessamos o pórtico de madeira do Parque Maurício Sirotsky Sobrinho (Harmonia).

Para ela, era como um elo perdido, um set cinematográfico de O Tempo e o Vento, de Erico Verissimo. Só faltava encontrar o Tarcísio Meira para uma selfie. Beatriz não sabia para onde olhar. Eu a percebi completamente  desbaratinada, assustada com os cavalos passando e as tropas de gaúchos pilchados a caráter.

Todo turista vira uma criança perguntadeira no acampamento. - O que é aquela pira? - Chama Crioula. Representa a nossa coragem. Vem do interior do Estado, pelo litoral, trazida numa procissão de cavaleiros.

- Tocha Olímpica? - Quase isso. Nosso esporte é comer bem. - O povo está andando com faca na cintura? - Sim, amor. Mas não tem perigo nenhum. É para o churrasco. A cada final de semana, são consumidos 60 mil quilos de carne.

- O que são essas casinhas? - Piquetes levantados para a festa, são 230 pelo parque inteiro.

- As pessoas dormem nos piquetes? - Tem gente que abandona a sua casa para passar catorze dias vivendo aqui. É um Woodstock gaudério, com shows regionalistas à noite.

- Tipo noite do pijama para adultos? - Só que é o dia da bombacha. - Tipo festa junina? - Não diria dessa forma, ninguém tem chapéu de palha e roupas esfarrapadas.

- O 20 de Setembro comemora o final da Revolução Farroupilha?

- Não, amor, o início. Nós perdemos a guerra separatista contra o governo imperial, e apenas nos interessa lembrar o começo. É como uma história de amor: ninguém quer se lembrar do final, unicamente do princípio feliz.

- O que são esses cantadores? - Trovadores, pajadores, recitam versos de improviso. Nosso maior nome foi Jayme Caetano Braun, que chegou a traduzir a Bíblia para o nosso dialeto.

- Como assim? - Desse jeito: "A maior das gauchadas/ Que há na Sagrada Escritura,/ Falo como criatura,/ Mas penso que não me engano!/ É aquela, em que o Soberano,/ Na sua pressa divina,/ Resolveu fazer a china/ Da costela do Paisano!".

- São repentistas? - Semelhantes, porém nossas rimas são mais quebradas e nosso ritmo mais discursivo, declamado.

Filamos picanha de um CTG, comendo as lascas com a mão, sem nenhum pratinho, depois esquecemos que estávamos com os dedos sujos e nossos rostos ficaram engordurados de carinhos involuntários. Dançamos chula e eu errei mais os passos do que ela, que já cirandava o vestido como uma prenda veterana.

Talvez tenha sido a experiência mais estranha e fascinante do nosso casamento, até porque jamais precisei explicar o que para mim parecia natural. Enxerguei, pela primeira vez, os nossos festejos com os olhos emprestados de Beatriz. Não quero devolvê-los. São olhos mais bonitos do que os meus. Olhos cheios de novidade

CARPINEJAR

17 DE SETEMBRO DE 2022
FLÁVIO TAVARES

VIOLÊNCIA E VIOLENTOS

A cada dia, a violência nos cerca como um intruso noturno entrando à luz do sol em nossas vidas. O crime se torna parte do cotidiano, gradativamente, e deixamos até de perceber a violência. Ou nos acostumamos a ela.

Não me refiro apenas aos vis assassinatos, como os feminicídios (que crescem sem parar), mas ao estilo de vida em si. Quase tudo na sociedade atual nos conduz à violência. A falsa música do "tum-tum-tum" (com batidas em vez de harmonia) é ponto de partida para que aceitemos o ruído violento.

Nas crianças, os jogos eletrônicos (que dizemos games, em inglês) são uma competição em que vence quem "mata" mais. Eliminar o outro significa vencer, abrindo portas a matar de verdade na vida adulta.

Mata-se para roubar o celular ou o carro. Dispara-se numa discussão no trânsito. Aumentam os casos de feminicídio, em que o aparente amor de ontem se transforma em ódio mortal. A essa distorção somam-se as mortes por diferenças políticas, frequentes a partir de 2018. Neste 2022, houve no país 26 assassinatos por diferenças políticas, mais do que a soma em todas as campanhas desde a redemocratização.

Como já lembrei aqui, não há pena de morte no Brasil, mas a polícia se arvora do direito de matar. O recente caso de São Gabriel é um exemplo claro desse absurdo no qual a Brigada Militar, de limpa tradição, parece imitar o horror do Rio e de São Paulo.

Dias atrás, em campanha pela reeleição no interior paulista, o presidente Bolsonaro afirmou "ser necessário" armar a população como ato de "legítima defesa", especialmente na zona rural. Esqueceu-se de que superamos a mania, comum ainda no século 20, em que o revólver fazia parte da indumentária masculina?

De parte dos governantes, há ainda a violência de cortar verbas para a saúde ou a educação. Agora, em trágica decisão, o presidente Bolsonaro cortou cerca de 60% das verbas do Programa Farmácia Popular, mas preservou os bilhões do orçamento secreto que os parlamentares do centrão destinam a inúteis obras demagógicas.

Nada, porém, supera a violência do narcotráfico. De um lado, a droga é destrutiva e afeta corpo e mente. De outro, as diferentes gangues do narcotráfico se matam entre si, numa guerra pelo controle de área.

Jornalista e escritor - FLÁVIO TAVARES

17 DE SETEMBRO DE 2022
OPINIÃO DA RBS

UM RESPIRO PELA ARTE

Foram tempos de dor e angústia pela pandemia. São tempos de ânimos exacerbados pela divisão política e a eleição que se avizinha. Em meio a dias tensos, nada melhor do que uma oportunidade para descomprimir, como a agora proporcionada pela 13ª edição da Bienal do Mercosul, aberta à visitação do público na sexta-feira. A mostra, que oferece um respiro pela arte, vai até o dia 20 de novembro, na Capital.

A megaexposição, assim como outros eventos, volta a ser presencial. No caso da bienal, presente a cada dois anos no calendário dos mais importantes acontecimentos do Rio Grande do Sul desde 1997, a última no formato tradicional ocorreu em 2018. Esse retorno não deixa de ser um apelo a mais para que a população, não só de Porto Alegre, mas de outros municípios do Estado, seja incentivada a conhecer, contemplar e, especialmente, interagir com as obras, uma das grandes características deste ano. O acervo, geograficamente disperso na cidade, poderá ser apreciado em 10 locais no Centro Histórico e nas zonas sul e norte da Capital.

É um roteiro cultural que, sem dúvida, merece ser apreciado sem pressa e deve encantar não apenas os amantes da arte mas o público em geral, aberto a novas experiências e conhecimentos. A entrada gratuita em todos os locais é mais um atrativo a convidar à visitação, sem esquecer que a Bienal do Mercosul também terá a sua presença notada em um circuito com intervenções urbanas espalhadas pela cidade em ruas, praças e prédios.

O vasto cardápio para se deleitar reúne obras assinadas por uma centena de artistas, de mais de duas dezenas de países. Nomes consagrados se unem a novos e desconhecidos talentos, abrindo espaço a uma nova geração selecionada a partir de uma chamada que financiou 19 projetos que estarão expostos no Instituto Caldeira.

O fio condutor da 13ª Bienal do Mercosul é o tema "Trauma, Sonho e Fuga". Significa que, apesar de o evento ser uma oportunidade de desafogo, inevitavelmente está embebido pelas sensações do período duro e de abalos atravessado pelo mundo nos dias mais críticos da pandemia. "Uma bienal é sempre um reflexo do seu tempo", pontuou em entrevista a Zero Hora o curador-geral da mostra, Marcello Dantas, que no seu currículo tem feitos como a concepção do Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo.

Mas retratar o passado recente e o presente não exclui apontar esperanças e caminhos para dias melhores. A técnica, a inspiração, as diferentes formas de manifestação, os materiais diversos, as novas tecnologias e os sentidos que podem ser explorados são os meios de expressar emoções e a infinita criatividade humana a serviço da construção do futuro. Dois mil e vinte e dois é o ano da retomada plena dos eventos, e agora é a vez de a arte ser a moldura dos reencontros. 

OPINIÃO DA RBS

17 DE SETEMBRO DE 2022
MARCELO RECH

A rainha e eu

Se você sofria de enjoo na infância, vai entender. Você tomava aquele ônibus abafado e, depois de alguns minutos chacoalhando, começava o embrulho no estômago. Você suava frio, ficava pálido e sentia aquela náusea aumentando, aumentando, aumentando, até que toda a felicidade do mundo se resumiria a uma parada e ao ar fresco no rosto.

Quem enjoa, guarda de memória os momentos que delimitam o vexame de pôr o café da manhã para fora e a redenção da pobre alma por uma parada salvadora ou sua danação porque ela chegou tarde demais. Uma delas, em 1968, no Rio de Janeiro, produziu minha inglória estreia nos círculos diplomáticos.

Aos oito anos de idade, morava ao sopé do Morro da Urca e voltava de ônibus com minha mãe de Copacabana - para quem conhece o Rio, uma viagem de menos de 20 minutos, suficientes para me deixar verde por aquele jeito tão carioca de pilotar coletivos. Na altura da Avenida Pasteur, Dona Ilse identificou o fiasco iminente e descemos de supetão diante do portão de entrada do Iate Clube. Uma pequena multidão, algo como umas 50 pessoas, se aglomerava ali, à espera de que a rainha Elizabeth II, hospedada em seu iate Brittania, saísse para algum compromisso.

Entusiasmada pela perspectiva de ver a rainha, minha mãe me colocou junto ao cordão de isolamento, em busca de ar. Não adiantou. Quando aquela pobre criança pôs-se a despejar sua refeição na calçada, abriu-se um vácuo na multidão ao mesmo tempo que um Aero Willys cruzava o portão. "A rainha, a rainha!", me sacudia minha mãe. Tudo o que pude fazer foi levantar o queixo babado, os olhos esbugalhados que vislumbraram o relampejo de uma luva branca acenando e, imagino, se cruzaram por microssegundo com os de Sua Majestade. Disgusting. Nunca mais esqueci a passagem da rainha pelo Brasil. Espero que ela tenha esquecido, pelo menos desse episódio.

Quem enjoa, organiza sua vida pela perspectiva do enjoo. Foi assim comigo, o que não me impediu de enfrentar por quatro vezes o Estreito de Drake, o mais tormentoso do mundo, sacolejando no navio antártico Barão de Teffé entre a Terra do Fogo e a Península Antártica. A gente sobrevive, embora com alguns vexames, como na vez em que, com o fotógrafo Silvio D?Ávila, fui cobrir uma manobra da Marinha ao largo da costa gaúcha. Decolamos ao amanhecer de Rio Grande em um helicóptero de combate e voamos cerca de 130 quilômetros oceano adentro em meio a uma tempestade.

Assim que pousamos numa fragata, impecavelmente limpa para receber os jornalistas, fomos levados a percorrer o navio, que praticamente não tem aberturas. O mar revolto, a perda do horizonte, o estômago vazio. Chega. Não quero estragar ainda mais seu café da manhã. Ainda bem que os homens do mar são compreensivos com os que enjoam.

MARCELO RECH

17 DE SETEMBRO DE 2022
J.R.GUZZO

O caso dos "empresários golpistas"

De todas as agressões às leis brasileiras, à Constituição Federal e à estabilidade jurídica que o ministro Alexandre de Moraes faz praticamente todos os dias, provavelmente nenhuma pode se comparar à essa ofensiva policial contra "empresários golpistas" que se tornou o fetiche mais recente da nossa Suprema Corte de Justiça. Não existe até agora, depois de todo o colossal barulho levantado pela "investigação", um miligrama de qualquer coisa que se pareça com uma prova. 

Houve, como se sabe, a invasão de escritórios e de residências, bloqueios de contas, quebras de sigilo bancário e de comunicações, censura na internet e o resto do repertório repressivo de um STF que se transformou em delegacia de polícia. Mas a situação continua exatamente a mesma que era quando essa aberração começou - tudo o que os "investigados" fizeram foi falar de política entre si num grupo de WhatsApp. 

Desceram a lenha no STF, alguns disseram que gostariam de um golpe de Estado e todos falaram bem do presidente Bolsonaro; houve quem se manifestasse unicamente clicando as figurinhas que servem como comentário nesse tipo de conversa escrita pelo celular. É isso - um nada absoluto. Mas o inquérito continua a plena força, como se os envolvidos tivessem cometido crimes de lesa-pátria em série. Transformou-se, a essa altura, em perseguição política pura e simples.

A operação contra os empresários foi lançada com base numa notícia de jornal que chegou ao conhecimento de Moraes. Ele leu, achou que era um horror e por conta unicamente disso soltou a polícia em cima dos "suspeitos". Nunca se viu nada parecido na história da Justiça brasileira.

Os investigados, além disso, não poderiam legalmente estar tendo a sua conduta apreciada pelo STF; a lei diz, expressamente, que só pessoas com direito a foro especial podem ser julgadas no Supremo, e nenhum dos perseguidos tem esse tipo de foro. Naturalmente, todos os pedidos dos advogados das vítimas, solicitando o cumprimento das leis que garantem seus direitos, são recusados por Moraes - como ele recusa os pedidos do MP. 

Na demência mais agressiva da história toda, é o próprio Moraes, e ninguém mais, quem julga as decisões que ele mesmo toma. Não existe isso em nenhum país sério do mundo. O inquérito dos "empresários golpistas" nada mais é do que perseguição pessoal a um empresário em particular, que o STF e o ministro Moraes transformaram em seu inimigo - não gostam dele, nem do que diz, nem do que faz, nem do tamanho do seu negócio, nem das roupas que veste. O resto é encenação.

J.R. GUZZO

segunda-feira, 12 de setembro de 2022


10 DE SETEMBRO DE 2022
MARTHA MEDEIROS

Ausência amorosa

Duas pessoas que amo somaram pontos no ranking dos meus afetos, não por estarem ao meu lado, mas por não estarem. Às vezes, o maior presente que você pode dar a alguém é a sua ausência, e entendo se você discordar. Vem aí uma confissão atípica.

Sou uma mulher que não se atrapalha com a solidão - gosto de ficar sozinha. Minha parceria comigo funciona, o que não impede que eu valorize os momentos com amigos e familiares. Aliás, é justamente por isso que os amo tanto: eles são meu ponto dentro da curva, me fazem sentir "normal". Sei lá por que, é considerado anormal a pessoa se contentar com a própria companhia, algum problema a criatura deve ter.

Devo ter. Gosto de flanar pelas ruas, ir ao cinema, assistir a séries, sem me sentir incompleta por não haver alguém ao lado. Não por acaso, elegi a literatura como profissão: não há como exercê-la em equipe. Sou uma loba solitária e debato sobre isso com meu terapeuta uma vez por semana - nos outros dias, me trato por escrito, no abandono do meu escritório, onde estou agora, sozinha e ao mesmo tempo com você, que me lê.

Entrando no assunto: durante a pandemia, não viajei. Surgiu agora a ocasião e a urgência de pegar um avião e sobrevoar o oceano. Não era o melhor momento para meu namorado, mas, se eu insistisse, ele embarcaria comigo. Não insisti e ele não me impôs nenhuma DR. Conhece a mulher que tem. Sabe que depois de um longo período em que ficamos isolados do mundo, voltados um para o outro, eu precisava matar saudades de mim. Parece simples e é simples, mas o apreço à simplicidade é uma mentira que as pessoas contam. No fundo, adoram um drama, acreditam que as discussões dão mais consistência à vida. Geralmente são jovens, têm tempo para desperdiçar. Não é o meu caso. Sem drama, estou embarcando apenas com minha mochila.

Mais difícil foi contar para uma amiga que mora a quatro horas de trem da cidade onde encerrarei meu rápido tour. Como explicar que o grande encontro marcado era comigo mesma? Se eu não a visse há um longo tempo, seria diferente, mas estivemos juntas poucos meses atrás. Mandei o WhatsApp, contei da viagem. E ela foi de uma classe que, mesmo que eu esperasse, me surpreendeu: "Te conheço, não precisa fazer cerimônia comigo: se precisares de companhia, me chama, mas sei que não vais precisar". Amizade de mais de 40 anos. A preciosidade que é.

Culpa? Óbvio que irá acondicionada em um nicho da bolsa. Sou católica, apostólica, romana. Candidata à crucificação. Mas não consigo abdicar dos meus desejos. Não mais. A maturidade veio definitivamente em meu auxílio, tanto a minha, quanto a maturidade de quem convive comigo. Você tem medo de envelhecer? Não tenha. É quando o amor se revela em plenitude, dispensando os clichês.

MARTHA MEDEIROS

10 DE SETEMBRO DE 2022
LEANDRO KARNAL

Se o seu Ensino Médio foi bom (e a lembrança dele persiste), o nome do nobre francês Laplace está na memória. Há mais de dois séculos, o pensador estava absorvido por um desafio em plena era napoleônica. Se eu dominasse todas as massas, forças, resistências, direções e densidades dos materiais, eu conseguiria um universo previsível? Nada mais típico do século 19 do que tentar matematizar o cosmos. O positivismo e o marxismo possuem essa ansiedade em comum: a leitura científica e exata de tudo é capaz, inclusive, de prever o futuro.

O desejo é aceitável e justo. Um bom jogador de xadrez tenta estabelecer e antecipar respostas no tabuleiro. Quantas mais ele conseguir antever, maior será seu sucesso no jogo. Uma vida "à Laplace" seria mais eficaz?

A dúvida está no questionamento de Ivan Ilitch, a personagem de Tolstoi. Ele fez tudo certo, mediu todos os passos e, mesmo assim, ficou diante do acaso infeliz no fim da sua vida. O desafio do acaso ou, para usar termo mais atual, do randômico é um obstáculo aos adeptos de Laplace e, inclusive, aos algoritmos. Como eu digo algumas vezes, um avião, quando cai, leva à morte quem controlou ou não o colesterol ruim.

De um lado, o espírito do aristocrata francês antevendo e gozando as delícias de um mundo de laboratório com balanças de precisão e "condições normais de temperatura e pressão"; de outro lado, o mundo real...

No ano de 1812, quando Laplace pensava isso, Napoleão estava à frente de um imenso exército para punir a Rússia. Sabemos do destino gelado do plano do Corso. Um gênio estratégico, o general Bonaparte, avançando em passo militar firme. Ao fundo, uma música kitsch contemporânea: "que será, será...". Previsibilidade versus fatalismo, ciência contra o aleatório: eis o diálogo universal e permanente.

Um engenheiro estuda resistência de materiais. A fadiga do concreto é avaliada. Os dados objetivos e matemáticos servem para comprovar a ciência: bem orientada, a racionalidade diminui muito o acidente contra a, digamos, "pretensão" científica, o chamado efeito borboleta. Cada variável nova, mesmo que infinitesimal e mínima, detona consequências imprevisíveis. Se assim não fosse, a medicina seria uma ciência exata; criar filhos poderia tornar-se uma equação estável com variáveis controláveis. O corpo humano tem interações imprevisíveis infinitas. O corpo dos filhos é ainda mais instável. As reações emotivas de alguns adolescentes não poderiam ser contidas por uma matriz de uma rede de supercomputadores do MIT. Temos de aceitar o caos como parte da existência. Desde 1961, fala-se no "efeito borboleta". Criarei um termo novo a partir do belo coletivo do inseto delicado: "efeito panapaná".

Antes se falava que uma borboleta batia suas asas, e um tufão se formava do outro lado do mundo. Hoje, um panapaná se agita e provoca muitas alterações, inclusive sobre outros insetos que passam a se agitar na reação em cadeia do caos.

Arrisco-me com exemplo político em tempos minados. Vamos lá. O presidente Lula terminou seu segundo mandato com popularidade muito alta. O público consagrava seu governo nas pesquisas de opinião. Fez sua sucessora. Dilma não apresentou o mesmo índice. Quando foi afastada do poder, no meio do segundo mandato, arrastou parte do prestígio do Partido dos Trabalhadores. A eleição de Bolsonaro no oposto do espectro político parecia sepultar a estrela do PT. Houve um momento em que a maior cidade governada por esse partido foi Rio Branco, no Acre.

A instabilidade do panapaná sempre ocorre. Livre da cadeia e inocentado de muitos processos, Lula voltou ao páreo na disputa pela benevolência do eleitorado. A popularidade de Bolsonaro oscilou bastante, o mesmo ocorrendo com a de Lula. Houve borboletas e mariposas adejando em gabinetes de ódio.

O que buscam tantos insetos de direita e de esquerda? Buscariam o centrão? Temos de pensar que uma borboleta almejar o cargo de presidente deveria ser submetida a uma investigação psiquiátrica. A família da borboleta será investigada e surgirão fatos obscuros. Se não existirem, serão criados. O salário não é bom. O poder é limitado por contrapesos e verbas consignadas. As borboletas donas de banco possuem mais poder que a arquiborboleta do jardim do Planalto. O palácio borboletal não é o mais confortável do mundo. O prestígio vem acompanhado de muito desgaste. Há quem já tenha dito não poder mais tomar um caldo de cana, algo básico para as borboletas comuns.

Laplace não estudou as borboletas. Elas são imprevisíveis e, talvez, irracionais. Geralmente temos raiva delas. Talvez devêssemos ter mais compaixão. Podem ser apenas mariposas, morrendo ao se baterem contra a luz que nunca atingirão. Alguém tem esperança de entender essa busca? São insetos estranhos os políticos, mas seríamos flores dóceis a servir-lhes de alimento? O exame psiquiátrico deveria ser para candidatos ou também para eleitores?

LEANDRO KARNAL

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