sábado, 15 de novembro de 2025


INFORME ESPECIAL
Rodrigo Lopes

Direto de Belém

Obras de revitalização do Dilúvio estimadas para 2028

A prefeitura de Porto Alegre concluiu os estudos e a modelagem da operação para recuperar o Arroio Dilúvio e revitalizar a Avenida Ipiranga, uma das obras mais desafiadoras que a cidade terá pela frente. O secretário do Meio Ambiente, Infraestrutura e Urbanismo, Germano Bremm, diz que tudo será detalhado na audiência pública prevista para 28 de janeiro.

Os estudos estimam um custo total de R$ 1,6 bilhão. A previsão de arrecadação, ao longo de 20 anos, por meio de uma Operação Urbana Consorciada (OUC), um instrumento urbanístico que viabiliza parcerias público-privadas, é de R$ 3 bilhões.

Na COP30, em Belém, a prefeitura busca recursos do Fundo Clima, junto ao BNDES, para financiar a primeira fase da construção, a chamada Etapa Zero, com orçamento de R$ 202 milhões e duração estimada em cinco anos após a contratação dos projetos executivos e aprovação da Câmara de Vereadores.

A prefeitura prevê a revitalização do Dilúvio em quatro áreas, a começar pela foz do Guaíba até a Avenida João Pessoa, que receberá R$ 92,2 milhões, com foco em rede verde e azul, macrodrenagem e saneamento, rede de mobilidade, urbanização de assentamentos e aterramento de fiação aérea. As outras áreas são da João Pessoa até a Barão do Amazonas, depois até a Cristiano Fischer e, na sequência, até a Antônio de Carvalho.

Nesta sexta-feira, a coluna convidou o prefeito Sebastião Melo e Bremm para visitar o Parque Linear da Doca, um antigo canal em Belém, que recebeu investimento do governo do Pará de R$ 310 milhões para revitalização. O local se tornou um dos principais espaços de lazer e convivência na COP 30, integrando áreas verdes, equipamentos públicos e soluções ambientais ao cotidiano da cidade. O parque recebeu obras de drenagem e despoluição do canal, paisagismo com plantio de cerca de 200 árvores de grande porte, construção de passarelas e mirantes, quiosques de alimentação, academia ao ar livre, ciclovia e pavimentação de 2,4 quilômetros de avenida.

"Sonho de muitos anos"

No caso do Dilúvio, a situação é bem mais complexa. São 10 quilômetros de extensão. Durante a visita, Bremm estimou que as obras da primeira fase da revitalização da Ipiranga poderiam começar em 2028.

- Vamos desenvolver os anteprojetos ainda em 2026, para, em 2027, já com financiamento do Fundo Clima, contratarmos projeto e execução. Para, em 2028, a gente ter obra no trecho mais próximo à orla do Guaíba - afirmou.

Melo, que prometeu a revitalização do Dilúvio ainda no primeiro mandato, gostou do que viu.

- É uma boa experiência urbana. Há dois anos, abrimos uma licitação, várias empresas se habilitaram, escolhemos uma, e ela, agora, apresenta a modelagem. É preciso audiência pública, depois teremos uma lei para mandar para a Câmara. Tomamos a decisão de que vamos, nessa primeira fase, buscar dinheiro do BNDES, do Fundo Clima. Depois, essa obra continua. É um sonho de muitos e muitos anos, e eu quero transformar esse sonho em realidade - disse. _

O que deu certo e o que deu errado na primeira semana

A coluna está aqui em Belém desde 4 de novembro. Acompanhamos a Cúpula dos Líderes, que antecedeu a conferência propriamente dita, e a primeira semana de negociações na COP30.

Fazemos, aqui, um balanço do que funcionou e o que não deu certo até agora. _

2| Diferentemente das COPs de Dubai e Baku, a área da conferência é mais compacta, facilitando acesso a salas e pavilhões de países e entre a Blue Zone e a Green Zone.

3| A Estação das Docas e o Porto Futuro são os melhores lugares de Belém. São tudo o que Porto Alegre desejaria ter em seu antigo cais: ambiente limpo, seguro, boa comida e bebida e ar condicionado.

4| A simpatia dos moradores é sensacional, compensa qualquer perrengue.

5| A Green Zone é a expressão do Brasil e de seu povo - nunca, em uma COP, os povos originários estiveram tão presentes. É o espaço mais democrático, plural e diverso.

INFORME ESPECIAL

sábado, 8 de novembro de 2025



08 de Novembro de 2025 
ENGAJAMENTO -Camila Bengo

ENGAJAMENTO

Influência das redes sociais impulsiona buscas na feira.  Pela primeira vez, a Feira do Livro de Porto Alegre, que ocorre até o dia 16 na Praça da Alfândega, conta com um time de influenciadores digitais. O objetivo é atrair e engajar o público. E, de acordo com livreiros, o trabalho tem reflexo no aumento na procura por livros e nas vendas

A Feira do Livro de Porto Alegre sempre foi um espaço de conexão - com os livros, com os autores, com a própria cidade. Na 71ª edição do evento, que ocorre até o dia 16 de novembro, essa conexão é também digital, atravessada por fatores como as comunidades literárias das redes sociais e a atuação de influenciadores especializados em literatura, cujo impacto pode ser medido diretamente nas bancas.

Há mais de 20 anos trabalhando na Feira do Livro de Porto Alegre, Andrea Braga, líder de banca na AJR Distribuidora, lembra que os efeitos práticos do fenômeno digital começaram a ser percebidos nos últimos cinco anos e vêm crescendo.

A livreira cita o BookTok, como é chamada a comunidade literária nativa do TikTok, como um importante canhão de vendas. É lá que os criadores de conteúdo publicam resenhas e compartilham indicações de títulos, que passam a ser procurados pelos seguidores - inclusive, nas bancas da Praça da Alfândega.

O efeito é praticamente imediato. Quando um livro começa a bombar no TikTok, o pessoal vem atrás. Tudo o que viraliza na rede social é muito procurado pelo público, principalmente os mais jovens. E é interessante que, quando eles descobrem que temos um determinado livro que está viralizado, indicam a banca para os amigos, e isso vai se retroalimentando - diz.

Entre os nomes mais procurados, Andrea cita as escritoras Colleen Hoover, Ali Hazelwood e Freida McFadden, além de Scott Cawthon e Kira Breed-Wrisley, responsáveis pela franquia Five Nights at Freddy?s, conhecida como FNAF. Segundo ela, a banca procura incluir em seu catálogo o que vem sendo difundido nas redes sociais.

Estamos sempre de olho no que está bombando. Muitos desses autores estão em editoras grandes, com as quais já costumamos trabalhar, mas se algum título mais independente viraliza, também tentamos incorporar. Nosso objetivo é oferecer aquilo que está sendo buscado, sem deixar de lado os títulos mais tradicionais - explica.

Clássicos

Livreira da banca Magia da Leitura, Janaine Peter diz que a influência digital atua também na revigoração da literatura nacional, uma vez que obras clássicas estão voltando a fazer sucesso a partir das indicações nas redes sociais.

Como exemplos, ela cita Memórias Póstumas de Brás Cubas e Dom Casmurro, de Machado de Assis; Vidas Secas, de Graciliano Ramos; Incidente em Antares, de Erico Veríssimo; e A Bolsa Amarela, de Lygia Bojunga.

- É muito interessante ver livros que estavam adormecidos voltarem a circular. Cada vez mais as editoras estão investindo em edições mais trabalhadas para os clássicos, com ilustrações e capas diferenciadas, o que também influencia muito na decisão de compra - avalia.

Para a livreira, o trabalho dos influenciadores literários impacta de maneira substancial o movimento na Feira do Livro.

- Muitos adolescentes estão vindo ao evento por causa desse novo momento da literatura. É um público que, há alguns anos, não se fazia tão presente. Algumas pessoas dizem que o livro está morrendo, mas eu acho que ele está ressurgindo - reflete. _

Aposta em criadores de conteúdo é novidade

Do outro lado da cadeia, a influenciadora literária Bia Assad, do perfil @leituramista, celebra que o trabalho dos criadores de conteúdo traga resultados para a Feira do Livro.

- Eu recebo mensagens de pessoas dizendo que compraram um livro porque viram um vídeo meu. A internet ajuda a começar a conversa, mas a presença na Feira finaliza - afirma.

Carioca que se mudou para o RS, Bia faz parte do time de influenciadores oficiais da Feira do Livro. É uma novidade desta edição, que tem valorizado a força das redes sociais e dos criadores de conteúdo.

Júlia Barros, jornalista responsável pela comunicação digital da 71ª Feira do Livro, explica que a parceria com os influenciadores começou a ser planejada muito antes da montagem das bancas.

Com o intuito de tornar o evento literário ainda mais conectado ao novo momento da literatura, a organização convidou criadores de conteúdo a atuarem na divulgação.

- A ideia era consolidar um time de pessoas que incentivam a literatura e poderiam trazer mais público para a Feira do Livro. Quando o seguidor vê que o influenciador está participando, ele também sente vontade de participar. Isso repercute no engajamento das redes sociais e na visitação em si - explica Júlia.

Os conteúdos produzidos através da parceria estão sendo publicados nas redes sociais da Feira do Livro, com o objetivo de atrair e engajar o público.

A relação da Feira do Livro com o universo da influência literária não se restringe ao digital. Há oito anos, a programação abriga o Encontro Influenciadores Literários e Leitores, organizado pelas criadoras de conteúdo Tamirez Santos, do @resenhandosonhos, e Joi Cardoso, do @estantediagonal.

A edição deste ano, que ocorreu no último final de semana, reuniu 300 pessoas, lotando o Teatro Petrobras Carlos Urbim.

- Isso mostra como os influenciadores levam público para os eventos literários. O nosso trabalho agrega esse valor e impacta também as vendas, porque muitas pessoas compram somente os livros que indicamos - explica. 

>

08 de Novembro de 2025
EUGÊNIO ESBER

O ator, a prisão, a peça (2)

Pouco mais de um ano atrás, a PF prendeu Renato Duque, o ex-diretor de Serviços da Petrobras que estava foragido depois de ter sido condenado em definitivo a cumprir 39 anos de prisão por corrupção, associação criminosa e lavagem de dinheiro. Como vários executivos da Petrobras, Duque havia caído nas malhas da Operação Lava-Jato por ser personagem importante no esquema de propinas pagas por empreiteiras que tinham contratos com a gigante do petróleo entre 2003 e 2012. Duque admitiu com resignação os crimes que cometeu. Ele não tinha saída mesmo, naquele Brasil que demonstrava ao mundo ser um país com autoridades que ainda tinham vergonha na cara. Devolveu aos cofres públicos o equivalente a mais de 20 milhões de euros que possuía em contas no Exterior - uma fortuna, sim, mas menos chocante que a dinheirama duas vezes maior devolvida por Pedro Barusco, um simples gerente da estatal.

Como registrei à época em ZH (O ator, a prisão, a peça, 21/8/2024), os brasileiros assistiram em horário nobre da televisão a um vídeo da confissão que Renato Duque fez, com serenidade, à Justiça Federal brasileira.

- Eu queria deixar claro, meritíssimo, que eu cometi ilegalidades. Quero pagar pelas ilegalidades, mas quero pagar pelas ilegalidades que "eu" cometi. (...) Se for fazer uma comparação com o teatro, eu sou um ator; (...) tenho um papel de destaque nesta peça, mas eu não fui e não sou nem o diretor e nem o protagonista dessa história.

Duque relatou que em 2012, em 2013 e em 2014 teve três encontros com Lula, que lhe fez perguntas e recomendações sobre contratos com a construtora de navios SBM e sobre o projeto de sondas. Duque se disse surpreso com o nível de informação do então ex-presidente sobre esses assuntos. "Nestas três vezes", narrou Duque, "ficou muito claro pra mim que ele tinha pleno conhecimento de tudo... e detinha o comando".

A defesa de Duque pediu anulação do processo baseada na tese farsesca do "conluio" entre juiz e Ministério Público na Lava-Jato, e o caso foi parar na segunda turma do STF. Diante de tão grotesca roubalheira, nem mesmo o ministro Dias Toffoli, que se especializou em descondenar os corruptos flagrados pela Lava-Jato, aceitou a alegação da defesa. Mas Gilmar Mendes resolveu livrar Duque, e agora eis que Toffoli, chamado ao "VAR", embarcou na mesma decisão. Fosse numa partida de futebol, das arquibancadas ouviríamos um uníssono "Marmelada"!

Faltam os votos de três ministros, ainda. Sugiro que assistam aos vídeos da confissão de Renato Duque. E comecem a retirar o Judiciário brasileiro do descrédito absoluto.

É pedir muito?

EUGÊNIO ESBER 


08 de Novembro de 2025
ANDRESSA XAVIER

A conta não fecha

Aos 10 anos meu palpite é que as crianças sonhem com profissões que provavelmente não vão seguir mais tarde. Os milhares de jogadores de futebol entram no funil e acabam virando administradores, jornalistas, empresários, advogados, vendedores. As meninas ainda brincam de boneca. Ao longo do tempo vamos ficando chatos mesmo, deixando os desejos de lado, fazendo o que precisa ser feito, como os adultos fazem quando entram no ciclo de uma vida corrida.

A minha certeza é que quem tem 10 anos não pode estar casado ou vivendo como tal. Há, segundo dados do Censo divulgados nessa semana, 34 mil crianças e adolescentes entre 10 e 14 anos no Brasil que vivem no que o IBGE chamou de união conjugal. Usarei o nome correto. Um adulto que vive com alguém entre 10 e 14 anos está cometendo um crime. A legislação brasileira proíbe casamento antes dos 16 anos em qualquer circunstância. Criança não é esposa, não é mãe, não é dona de casa. Uso todas essas palavras como substantivo feminino porque, de novo, estamos falando de meninas, que são as que sofrem em realidades como a dessas 34 mil. Muitos dirão que são exceção, e são, diante dos números continentais do Brasil. Mas são milhares de vidas que não deveriam ser ignoradas.

Nessa mesma semana, a Câmara aprovou, em Brasília, o projeto que recua em um direito que as meninas já têm, que é o aborto seguro. A lei hoje permite aborto em três situações: gravidez decorrente de estupro, risco de vida para a gestante e quando o feto é anencéfalo. Normalmente crianças se enquadram nas duas primeiras. Ainda assim, agora a ordem é dificultar o procedimento. Veja bem, atualmente meninas que engravidaram nesses casos podem, mas não são obrigadas a abortar, mas têm esse direito se as famílias entenderem assim. As mudanças serão levadas ao Senado.

Sei o quanto o tema aborto divide as opiniões a partir de ideologias e religião, e isso é absolutamente legítimo, mas vamos pensar juntos? Imagine uma menina de 10 anos, abusada e grávida, correndo risco de vida. Se não pode pelas vias oficiais, é bem provável que a família procure uma clínica clandestina. Estamos falando de segurança de crianças e de saúde pública.

Proponho um pouco mais de reflexão. Por que discutimos tanto aborto se poderíamos combater os abusos a crianças? Anualmente mais de 11 mil meninas de até 14 anos têm bebês no país. São 30 por dia. A violência na maioria das vezes vem de dentro de casa, onde elas deveriam estar protegidas. Todas essas são vítimas de estupro de vulnerável, pois assim é considerado o ato sexual com crianças. Não existe consentimento de quem tem menos de 14 anos. O Congresso poderia começar a pensar mais em formas de coibir e punir de forma exemplar quem abusa de uma parte da população que precisa ser cuidada. _

ANDRESSA XAVIER

O falso dilema sobre as facções

Ainda estamos a um ano de saber quem será o próximo presidente da República, mas o tema que vai sobressair na campanha já está bem delineado. Pesquisa após pesquisa, a saúde deixou o topo das preocupações do brasileiro e foi substituída por segurança. Não surpreende, porque a epidemia do crime se expandiu industrialmente, fixou territórios próprios e agora se infiltra no tecido econômico e institucional do Brasil.

Com o gongo da segurança soando na campanha eleitoral, a luta livre ideológica mandou cada contendor para seu corner. De um lado, a esquerda e o discurso de que o crime organizado se combate com inteligência e asfixia financeira. De outro, a direita, que apregoa a força bruta para devolver a paz aos brasileiros. É um falso duelo que só serve ao discurso político. Pela dimensão e características do crime organizado, não se trata de inteligência OU força, mas de inteligência E força, quando necessária.

No caso de facções como o PCC, convertido em corporação empresarial criminosa, é imprescindível que se fechem as torneiras do fluxo financeiro ilícito. Portanto, é urgente mesmo o Banco Central apertar as fintechs, a Receita Federal vigiar os Pix suspeitos e acabar de uma vez com a farra dos devedores contumazes, empresas que abrem e fecham com foco na sonegação e lavam a bijuja do crime. Ou seja, liquidar com os PCCs da vida exige um tanto de força, mas muita inteligência e instrumentos legais que estanquem o dinheiro sujo.

No caso de facções como o Comando Vermelho, que se adonam de territórios urbanos para transformá-los em entrepostos da droga e extorquir moradores, é preciso, sim, inteligência, mas não há como desalojá-las sem uma força armada capaz de enfrentar um exército criminoso municiado com fuzis, drones e granadas. Áreas como os complexos do Alemão e da Penha, no Rio, já não fazem mais parte do Estado brasileiro. Estão sob jugo de uma organização que estabeleceu fronteiras, bloqueadas por barricadas que só podem ser transpostas por quem é autorizado pela autoridade do pedaço.

Esses territórios têm leis próprias, com pena de morte para delatores, devedores e quem comete crimes não autorizados, e forças bélicas com milhares de fuzis. Há muito, a solução para situações do gênero passou a exigir também ações militares, com inevitáveis confrontos que devem restabelecer a soberania do Brasil, com a consequente ocupação de tais áreas e a liberação da população civil.

Como em todo conflito armado, não há cenas bonitas, mas é preciso obedecer às leis da guerra: oferecer rendição primeiro e, quando feitos prisioneiros, não torturá-los ou executá-los. Se, em vez de rendição, houver resistência, sai vitorioso o que tiver melhor estratégia e mais poder de fogo. Espera-se que ainda sejam as forças da lei. _

MARCELO RECH 


08 de Novembro de 2025
OPINIÃO RBS

OPINIÃO RBS

Opinião RBS

Entre a desconfiança e a esperança

A COP30, em Belém (PA), começa oficialmente na segunda-feira sob um ceticismo que é apenas fruto dos resultados das conferências do clima anteriores. O histórico mostra governos concordando com a urgência de cortar as emissões de gases causadores do efeito estufa para frear o aquecimento do planeta, mas tergiversando quando são instados a implementar as ações necessárias como uma busca efetiva para diminuir a dependência de combustíveis fósseis. Os países ricos, provocados a financiar a transição energética nos emergentes, igualmente escapam de assumir esse compromisso.

O grande desafio da COP30, portanto, é fazer com que as nações que ao menos compreendem a gravidade da situação e se dizem dispostas a fazer a sua parte passem das palavras à execução. O desfecho do evento realizado no coração da Amazônia dirá se haverá outra frustração ou se será possível acordar um mapa do caminho para enfrentar de fato os temas mais inquietantes.

O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente alertou, no início do mês, que é improvável alcançar a meta de limitar o aquecimento global a 1,5°C até o final do século, definida pelo Acordo de Paris, 10 anos atrás. O planeta, febril, se encaminha para um aumento da temperatura de até 2,5°C na comparação com a era pré-industrial. Os resultados podem ser catastróficos, como bem sabem os gaúchos, que ainda tentam se reerguer da enchente destruidora de maio do ano passado e veem estiagens recorrentes espalhar prejuízos.

Para superar a desconfiança e semear esperança, a COP30 precisaria ser finalizada com planos críveis formados por etapas bem definidas, prazos e metas. É preciso respostas sobre como viabilizar a diminuição paulatina do uso de combustíveis fósseis, como zerar o desmatamento das florestas tropicais, como estruturar mecanismos para nações em desenvolvimento financiarem a sua transição energética e como acelerar a adaptação para um clima que já mudou e, indica a ciência, tende a ficar mais hostil.

É pouco plausível, por exemplo, alcançar o financiamento de US$ 1,3 trilhão por ano até 2035 que seria necessário para amparar as nações emergentes, conforme proposta das presidências da COP29, no Azerbaijão, e da COP30. Chegar a essa quantia monumental se torna mais improvável diante da postura dos EUA, país mais rico do mundo, que sob Donald Trump se afasta de qualquer compromisso climático. 

O próprio Brasil, que tenta ser um líder no tema, é pródigo em contradições. Prega a necessidade de o mundo se afastar dos combustíveis fósseis, mas renova as apostas na exploração do petróleo. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirma que a matriz suja financiará a energia verde. Esse é um exemplo da dificuldade de harmonizar o discurso idealista com a vida real, diante de uma economia ainda muito dependente do petróleo. Parece ser promissor, por outro lado, o Fundo Florestas Tropicais para Sempre, lançado pelo Brasil na quinta-feira, durante a cúpula de líderes, evento pré-COP.

Não são poucos ou banais os impasses que a COP30 precisa solucionar. Vencê-los dependerá, em primeiro lugar, da disposição dos países de estabelecer um ambiente de colaboração para agir em conjunto contra a crise climática. 


08 de Novembro de 2025
INFORME ESPECIAL - Rodrigo Lopes

RS protagonista da transição energética na COP30

Criada pelo governo do Estado para divulgar e alavancar o mercado gaúcho, a Invest-RS pretende apresentar o Rio Grande do Sul na COP-30 como protagonista na transição energética e na atração de investimentos voltados à sustentabilidade. Representantes da agência participarão de vários painéis em Belém, a partir de segunda-feira. O principal, na quarta-feira, será o lançamento do chamado Book de Oportunidades e Investimentos em Transição Energética. A publicação apresenta, de forma prática e estratégica, os principais projetos e potenciais de negócios no setor no RS.

Passado o momento da maior tragédia climática do Estado, a enchente de 2024, a Invest-RS tem buscado mostrar o Rio Grande do Sul como um ambiente competitivo, inovador e preparado para receber novos empreendimentos. Com esse propósito, um escritório da agência foi inaugurado em junho em São Paulo, na região da Faria Lima.

Em Belém, a ideia é estimular investimentos sustentáveis, que posicionem o Estado como referência nacional em descarbonização e inovação. A agência terá reuniões com a Confederação Nacional da Indústria (CNI), a AYA Earth Partners, o Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE) e a Portos RS. _

Blue Zone e Green Zone

A COP30 é dividida em duas principais e tradicionais áreas: a Blue Zone (Zona Azul) e a Green Zone (Zona Verde).

A Blue Zone é conhecida como o centro diplomático da conferência e considerada o principal ambiente do evento, por ser onde são definidos os rumos da política climática internacional. Nela, circulam as principais autoridades e ocorrem as negociações oficiais, as sessões plenárias da Cúpula dos Líderes, reuniões multilaterais e os eventos de maior relevância.

Administrada pela UNFCCC (órgão da ONU responsável pela organização da COP), a Zona Azul tem acesso restrito a delegações oficiais, chefes de Estado e de governo e demais autoridades credenciadas. O local conta com salas de reunião, escritórios reservados, espaço de imprensa, pavilhões temáticos e ambientes diplomáticos.

Já a Green Zone é um espaço aberto ao público em geral, voltado para a sociedade civil, empresas, instituições e organizações não governamentais (ONGs). Seu objetivo é aproximar a população em geral do debate climático. Lá são realizadas palestras, feiras, shows, exposições, eventos culturais e outras atividades. Empresas privadas também apresentam seus cases e projetos voltados para o meio ambiente. _

Precisa ser efetivo

Ao sair da área restrita às delegações, na sexta-feira, na Cúpula dos Líderes, o ministro Wellington Dias, do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome, conversou com a coluna sobre esses primeiros dias de eventos em Belém: _

Pergunta e resposta - Teremos uma COP30 resolutiva?

É um momento de decisões dramáticas para a humanidade. Temos de fazer uma escolha. O RS, por tudo que viveu, claramente, sofre os efeitos das mudanças do clima. Não é só no sul do Brasil, ela acontece na Amazônia. Lembro os incêndios no Centro-Oeste, enchentes, secas no Nordeste. Mas não é só no Brasil, é no mundo. A decisão, a declaração de Belém, precisa não só avançar nos termos, mas também nas condições de efetividade. Na prática, de modo simples: de onde vem o dinheiro para fazer todo o plano acontecer. É sobre isso. No Rio Grande do Sul, há o problema do excesso de chuva e da estiagem. Eu acompanho como ministro, já foram três ciclos de seca, com oito ciclos de enchentes, ciclones. Repito: há prejuízos não apenas sociais e econômicos, mas às vidas. Temos de tomar aqui uma decisão intergeracional.

Florestas de algodão

Durante um dos painéis na COP30, na semana que vem, a empresa apresentará o projeto inovador de "florestas de algodão", com manejo integrado: algodão, alimentos e árvores nativas. O sistema agroflorestal captura mais de 18 toneladas de carbono por hectare por ano. Para efeitos de comparação, um cultivo convencional emite cerca de 4,5 toneladas por hectare/ano. Ou seja, há diferença positiva relevante. _

Obras serão concluídas até segunda, diz governador

- Estou muito feliz de ver a satisfação das pessoas poderem conhecer a Amazônia e poderem viver essa experiência incrível - afirmou.

Perguntado se tudo ficará pronto a tempo do início da COP30, na segunda, uma vez que ainda há muitos locais da estrutura da conferência em obras, ele afirmou:

No âmbito da cidade, está tudo pronto. Todas as obras que foram planejadas, foram realizadas, executadas e entregues. A cidade está pronta para o evento, para receber todos aqueles que estarão nos visitando. No âmbito das estruturas modulares, o governo federal aponta que estarão todos concluídos até a segunda-feira. 

INFORME ESPECIAL

quinta-feira, 6 de novembro de 2025


 06 de Novembro de 2025
CARPINEJAR

Todo brasileiro é um pouco parente um do outro.

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou, na terça-feira, a segunda edição do levantamento de nomes mais frequentes no Brasil, com a novidade da inclusão do sobrenome.

Silva tem o reinado definitivo dos registros, mostrando-se presente na identificação de 16,76% da população. São 34 milhões de pessoas com o sobrenome em comum, dividindo os galhos da árvore genealógica. Na cidade de Belém de Maria, por exemplo, em Pernambuco, com 11 mil habitantes, 63,9% dos moradores são Silva. Só se lê Silva na lista de chamada da escola.

Minha esposa é Silva por parte de pai. Conheço bem a confusão que a sua difusão costuma provocar. Sei o quanto ela recebeu ligações a respeito de uma Beatriz Silva com pagamento atrasado que não era ela. Ou o quanto penou com a sua criatividade para cadastrar um e-mail que não tivesse sido usado. Ou o quanto abusou de underlines e números para entrar nas redes sociais.

Santos é o segundo colocado no ranking, com 21,4 milhões de pessoas (10,5% da população). Em terceiro, vem Oliveira. Em quarto, Souza. Em quinto, Pereira. Em sexto, Ferreira. Não é de se estranhar. Somos um país absolutamente religioso, devoto de Nossa Senhora. Sempre haverá uma Maria na família. Minha mãe é Maria, as irmãs do meu pai são Maria.

Trata-se do batismo mais recorrente, alcançando cerca de 12,3 milhões de pessoas em 2022 - o que representa 6,1% do total. Como se toda a população do Rio Grande do Sul fosse formada por Marias.

O mesmo acontece com José, numa carpintaria bíblica que segue fazendo seus sucessores: quase 5,2 milhões de habitantes (ou 2,5%). Os dois já lideravam o censo anterior, relativo a 2010, retomando, num engajamento carismático retrô, o pico da década de 1960. Não saímos do presépio.

Para evitar sósias, ser uma Clorina ou um Abelin é uma vantagem, um privilégio da singularidade.

Qualquer um pode pesquisar na plataforma e descobrir seus duplos pelo Brasil. Eu tenho 165 mil xarás pelo território nacional, o equivalente ao contingente populacional de Teresópolis (RJ). Fabrício se encontra na 198ª posição em popularidade. Não existe ameaça de epidemia. Estou num posto cômodo no ranking: nem tão célebre, nem tão anônimo. O que mais me agrada é a média de idade do meu nome: 28 anos. Vou pegá-la emprestada para mim.

Já o Nejar paterno apresenta 86 ocorrências. É possível reunir o meu povo inteiro num miniauditório. Corresponde a 10% do Carpi materno, que conta com 877 ocorrências e exige um teatro. Melhor ainda é inventar um sobrenome - como o meu, Carpinejar. Tenho certeza de que só há eu no mundo. Por enquanto. Talvez a gente viva pelo desejo de ver nosso nome em destaque. É a primeira coisa que aprendemos na classe: como escrevê-lo.

É o motivo da batalha inicial na gestação, da guerra sem fim dos pais por nossa causa: qual será o nome dele? Terá a cara de quem? É uma briga que levamos vida afora, defendendo a grafia em hotéis e a pronúncia em telefonemas e conversas. Não queremos que ninguém erre. Ficamos chateados, como se o lapso fosse um abominável descaso.

O nome é a nossa fé, a nossa solidão. Por mais que seja similar ao de alguém, a maneira de lidar com ele é única. 

CARPINEJAR

06 de Novembro de 2025
OPINIÃO - Opinião RBS

A angústia de estar na fila do SUS

O ano de 2025 foi mais uma vez pródigo em anúncios do poder público de programas, investimentos e mutirões para reduzir as filas de espera por atendimento pelo Sistema Único de Saúde (SUS). A despeito das promessas, os números mostram que as ações propagandeadas não surtiram efeito. Dados obtidos via Lei de Acesso à Informação pelo repórter Giovani Grizotti indicam que hoje, no Estado, existem 667 mil pedidos de consulta pendentes. Ao final de 2024, eram 670 mil. Uma redução ínfima, ainda mais levando-se em consideração os compromissos assumidos por governo federal, Piratini e prefeituras. As especialidades mais procuradas são oftalmologia e ortopedia.

Os relatos colhidos por Grizotti dos gaúchos de carne e osso por trás das estatísticas frias são dolorosos. Um aposentado aguarda desde 2021 consulta com um especialista em ouvidos. Teme ficar surdo antes de ser atendido. Outro caso é o de um cidadão que há sete anos espera para ser recebido por um médico especializado em tratamento bariátrico. Uma dona de casa sofre há dois anos sem ser chamada para o acompanhamento do filho com transtorno do espectro autista. Um paciente que precisa tratar a próstata e fez a biópsia há dois anos reclama de ainda não ter conseguido um médico para mostrar o exame.

As situações são de maior ou menor gravidade, mas em todas elas o fator tempo é essencial para o problema ser resolvido ou amenizado. No mínimo, há perda de qualidade de vida pelo desrespeito a um direito assegurado pela Constituição. Nas circunstâncias que envolvem doenças como o câncer, a demora pode ser a chance desperdiçada de cura. Outra reportagem de Grizotti sobre o tema, publicada em janeiro, apontou que 2,4 mil pessoas que estavam na fila da agonia do SUS perderam a vida antes de chegar a um consultório. Ainda que não se possa fazer a relação direta da morosidade com a morte em todos os casos, é um número impactante por revelar esperas em vão.

Em janeiro, a prefeitura de Porto Alegre informou que a prioridade do município era reduzir as filas. A Secretaria Estadual da Saúde (SES) dizia adotar medidas com o mesmo objetivo. O Ministério da Saúde alegou trabalhar continuamente para diminuir os represamentos. Menos de um ano depois, o quadro é praticamente o mesmo. Para não dizer que nada avançou, no mês passado a Capital noticiou ter zerado filas para exames de ressonância magnética, oncologia mamária, radioterapia e mamografia.

Mas os grandes números do RS teimam em mostrar uma situação dramática. Deve-se acompanhar os anúncios mais recentes para verificar se haverá algum avanço significativo. Em maio, o governo federal apresentou o programa Agora Tem Especialistas. Além das instituições públicas, usará estabelecimentos privados e filantrópicos. A SES sustenta que, até o final do ano, pretende reduzir em pelo menos 70% as maiores filas de espera, como ortopedia de joelho e oftalmologia geral adulto, por meio do programa SUS Gaúcho, lançado em setembro. Para as centenas de milhares de rio-grandenses sem condições de pagar um plano de saúde ou um atendimento particular e que seguem aguardando um chamado, a esperança é, desta vez, as promessas serem cumpridas. _

Opinião do leitor  

"Lâmpadas amarelas"

Prezado Carpinejar, seu texto sobre a nostalgia das lâmpadas amarelas (ZH, 31/10) foi absolutamente primoroso. A delicadeza e a sensibilidade com que abordou um elemento tão simples, mas tão carregado de significado em nossos lares brasileiros, tocaram profundamente. Foi emocionante ler algo que trouxe à tona, de forma tão genuína, memórias afetivas de tempos passados. _

Roberts Osório Lourenço - Gerente de negócios - Santa Maria - Distribuição de comida

Em que pese haver debate público no projeto da distribuição de comida para pessoas carentes, proposto pela vereadora Comandante Nádia, na Câmara Municipal de Porto Alegre, poucos leram esse projeto. Não conhecem o seu teor, mas criticam erroneamente, movidos pelas redes sociais. Por ser projeto de lei, pode ter emendas propostas pelos vereadores e, portanto, melhorar o seu conteúdo. Isso se chama democracia. 

Rafaela Silva de Souza - Biomédica - Porto Alegre Asfaltamento parcial

Sugiro à prefeitura da Capital que considere asfaltar uma faixa de rolamento central (três metros de largura, ou pouco mais) nas poucas vias que ligam a Rua Dona Laura com a Rua Cabral, no bairro Rio Branco. Deixando as laterais com o revestimento atual, de paralelepípedos, para o estacionamento e a absorção da água da chuva. 

Aldo Sudbrack da Gama - Advogado - Porto Alegre - PEC da Segurança

Entendo a preocupação dos governadores de oposição - como consta no editorial de ZH de 4/11, "Combate a facções requer debate maduro" - em relação a dúvidas sobre a PEC da Segurança do governo federal, que tramita desde abril. Essa centralização sugerida pela PEC diminuiria o poder das policias estaduais (Civil, Militar e Penal), eis o ponto, sinalizando sub-repticiamente com um centralismo bolivariano para o país. É esse o temor dos governadores - legítimo, sublinhemos. Ademais, o Rio de Janeiro acabou de mostrar que o Estado pode agir com inteligência e eficiência operando com as forças locais. 

Badger Vicari - Jornalista - Francisco Beltrão (PR)

OPINIÃO

 
06 de Novembro de 2025
GPS DA ECONOMIA - Marta Sfredo

Aliados improváveis do Brasil contra o tarifaço

No dia seguinte ao que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva evidenciou a falta de avanço na negociação do tarifaço de 50%, o Brasil ganhou improváveis aliados. A Suprema Corte americana iniciou a apreciação do recurso contra decisões de instâncias inferiores que consideraram ilegal a política de Donald Trump.

Os republicanos dominam, com integrantes indicados pelo atual presidente (três) e antecessores, mas isso não garante vitória das tarifas. Até Trump, o partido era contra esse tipo de nacionalismo econômico. E ainda que a decisão seja favorável à Casa Branca, a exposição do tema exige mais flexibilidade do governo americano.

Ainda mais improvável, a eleição de um candidato muçulmano e socialista à prefeitura de Nova York, Zohran Mamdani, abala a percepção de apoio monolítico a Trump nos EUA. O candidato republicano fez apenas 7,1% dos votos. Trump apoiou o segundo colocado, Andrew Cuomo - democrata que, derrotado nas prévias, concorreu como independente -, mas o sinal amarelou até porque o presidente fez questão de nacionalizar a disputa.

Até Trump vê efeito shutdown em derrota

Democratas venceram as eleições para o governo de Nova Jersey e Virgínia, também com ajuda do ex- presidente Barack Obama, que deixou a discrição de lado e passou a fazer comícios com fortes críticas ao sucessor. Em público, Trump pode dizer que faltou seu nome na cédula. Nos bastidores, todos sabem como resultados como esses provocam ondas de reavaliação em qualquer governo. Isso não significa que agora a alíquota adicional de 40% para o Brasil esteja com os dias contados. Até a negociação com a China, que deixa um relativamente pacato país sul-americano com tarifa maior do que a do grande inimigo asiático, pode ajudar a tirar o ranço da conversa.

Além disso, o shutdown (paralisação de serviços federais) acaba de se tornar o mais longo da história americana. Houve tentativa de culpar os democratas, mas o próprio Trump reconheceu que a interrupção de serviços e pagamentos levou à derrota dos republicanos. _

A bolsa teve forte alta ontem, de 1,7%, saltando do patamar de 150 mil para 153 mil pontos em um só dia, com a oitava quebra de recorde nominal seguida, mais animada do que as americanas. O dólar caiu 0,7%, para R$ 5,361.

Investimento de R$ 100 milhões exigido por enchente

Empresa de São Paulo especializada em armazenagem, distribuição e transporte de produtos alimentícios sob temperatura controlada, a Friozem começa a operar em Sapucaia do Sul na próxima quarta-feira. Sua unidade ficava em Esteio, mas ficou um mês parada depois da enchente de maio de 2024.

A mudança de local é resultado de investimento de R$ 100 milhões com o Ecoparque Lourenço & Souza, polo logístico da Região Metropolitana.

- Foi a pior tragédia na vida de muitos, e também para a Friozem, que em 47 anos nunca tinha passado por nada parecido. Gerou enorme prejuízo, mas nos motivou a investir em uma estrutura mais moderna, eficiente e segura - diz o diretor-presidente, Fábio Galesi Fonseca. _

CEEE diz estar dentro do limite de horas sem luz

Quatro anos e meio depois da privatização, a CEEE Equatorial comunicou ontem que enfim está dentro do limite de horas sem luz previsto em seu contrato de concessão. A companhia que atende parte da Região Metropolitana, sul e litoral do Estado, foi privatizada em março de 2021.

Em comunicado ao mercado, a CEEE informa ter "superado" o indicador chamado DEC (duração equivalente de interrupção por unidade consumidora). Conforme a empresa, em setembro alcançou DEC de 11,03 horas frente ao limite de 11,08 horas. Isso significa que, em média, seus clientes ficaram 11,03 horas no mês sem energia elétrica.

A Equatorial não menciona outro indicador contratual importante, o FEC, que indica o número médio de cortes no abastecimento. Em tese, se as distribuidoras de energia descumprem de forma repetida os limites, podem perder a concessão. _

Copom sonega sinais de início de corte no juro

As atenções sobre a reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) se concentravam no comunicado, porque não havia expectativa de mexida no juro básico. A bolsa de valores no Brasil subiu 1,7% enquanto as bolsas de Nova York tiveram altas moderadas, ao redor de 0,5%, o que foi atribuído à expectativa de sinalização para o início do esperado ciclo de baixa.

No entanto, o Copom não entregou esse sinal, mantendo a informação de "manutenção do nível corrente da taxa de juros por período bastante prolongado". A expectativa era de que o "bastante" ficasse pelo caminho, o que não ocorreu. A leitura é de que o primeiro corte possa não ocorrer em janeiro.

Nem outro trecho de comunicados anteriores muito duros foi deixado de lado, e o BC avisou, outra vez, que "não hesitará em retomar o ciclo de ajuste caso julgue apropriado". Não mudou sequer a citação da inflação projetada para o primeiro trimestre de 2027, de 3,4%. Nem sinal, mesmo tênue, foi entregue. _

BC recua em projeto de real digital

O Banco Central (BC) decidiu desligar a plataforma usada nas fases iniciais de implantação desse moeda que prometia simplificar operações de pagamento mais volumosas. Isso significa que o Drex morreu antes de nascer? Não necessariamente, mas é certo que, se retornar, será em um futuro indeterminado.

Há duas principais justificativas para o desligamento do sistema: custava caro e enfrentava problemas para garantir a privacidade das operações. Conforme o economista André Perfeito, testes de implementação como os feitos servem mesmo para verificar se há problemas e tentar buscar soluções:

O BC foi correto e zeloso. O Drex não morreu, apenas tomará outra ou outras formas.

Para o economista, a alternativa que ganha força é a de stablecoins, moedas digitais privadas que têm paridade com o real físico - havia dúvidas se o Drex poderia ter essa característica.

- Esse parece ser o futuro depois que Trump encerrou a iniciativa de moeda digital do Fed (Federal Reserve, o BC dos EUA) em favor de stablecoins de dólares - avalia Perfeito. 

GPS DA ECONOMIA

Duplicação do HPS depende dos parlamentares

Está nas mãos dos deputados e senadores gaúchos garantir os recursos para viabilizar a obra de ampliação do Hospital de Pronto Socorro de Porto Alegre, que prevê mais do que dobrar o número atual de leitos. O projeto foi incluído na lista de 11 rubricas habilitadas a receber emendas da bancada gaúcha, decididas após votação do grupo na noite de terça-feira.

Este formato representa uma alteração no método de destinação das emendas. Até então, o grupo já deixava a reunião com a definição de quanto iria para cada projeto e, adicionalmente, os deputados indicavam as emendas individuais a que cada um tem direito.

Agora, uma votação feita entre os parlamentares definiu as prioridades, a partir de mais de cem pautas pleiteadas à bancada. Cada parlamentar poderá dividir a sua parte e distribuí-la entre qualquer uma das 11 rubricas. Para o orçamento de 2026, a bancada do Rio Grande do Sul terá direito a um total de R$ 415,76 milhões - pouco mais de R$ 12 milhões para cada um dos 31 deputados e três senadores.

Desta forma, a ampliação do HPS pode tanto receber o valor total solicitado de R$ 140 milhões, como não receber nada. Há uma expectativa de que os membros da bancada informem, até amanhã, quanto irão destinar em cada uma das rubricas.

O projeto para o hospital, referência em trauma e queimaduras para todo o Estado, prevê a construção de um novo anexo com 11 mil metros quadrados e pelo menos oito andares, ampliando em 110 o número de leitos disponíveis - hoje são 95. Também já há uma área pronta para receber o novo prédio, na Rua José Bonifácio, adquirida no governo de José Fortunati.

Com a ampliação, o HPS terá uma ala específica para exames de imagem - incluindo a primeira ressonância magnética do hospital -, salas cirúrgicas e unidades de internação, aliviando a superlotação crônica. A ideia é que a obra comece em 2026.

Em busca de apoio, o diretor de Relações Institucionais da Saúde, Paulo Guimarães, percorreu gabinetes no final de outubro, junto da diretora-geral do HPS, Tatiana Breyer. O prefeito Sebastião Melo reuniu-se recentemente com parlamentares para pedir apoio. _

Os deputados Adão Pretto (PT) e Luciana Genro (PSOL) foram ameaçados de morte ontem. Um e-mail com discursos de ódio e intimidações foi encaminhado para os dois. Eles notificaram a Assembleia e registraram ocorrência.

Criatec devolve vida à Escola Maria Thereza da Silveira

Sobrevivente de uma série de investidas do mercado imobiliário, por seu terreno altamente valorizado, a antiga Escola Estadual Maria Thereza da Silveira voltará a ter vida. Primeiro, com cursos rápidos e apresentações culturais. Depois, em 2027, como Escola Técnica em Audiovisual e Economia Criativa, doravante chamada de Criatec.

Na apresentação do projeto, ao lado do secretário da Cultura, Eduardo Loureiro, a secretária da Educação, Raquel Teixeira, destacou os fundamentos que embasaram a decisão do governo Eduardo Leite de preservar a Maria Thereza como escola, em vez de vender o terreno para uma construtora, como se pretendia no passado.

O planejamento anunciado pela secretária, na presença de representantes de diferentes áreas, garante que não se voltará a falar em venda do terreno para uma construtora? Não. O futuro do Criatec vai depender de mobilização da sociedade e da visão de quem se eleger governador em 2026.

Raquel destacou a necessidade de preparar profissionais para ocuparem as vagas geradas pela economia criativa.

Serão inicialmente três cursos técnicos de um ano e meio cada um para jovens interessados em trabalhar com áudio, vídeo e produção cultural.

- A economia criativa é um dos vetores mais dinâmicos do desenvolvimento socioeconômico contemporâneo, sendo responsável por mais de R$ 8,3 bilhões do PIB do RS em 2020 - destacou a secretária.

Em Porto Alegre, 24,7% dos postos de trabalho gerados em 2022 (os dados atuais não estão disponíveis) estão vinculados à economia criativa. No total, foram 125.631 vagas no setor. _

Fetag teme que feira deixe o Largo Glênio Peres

Cassação revertida

O Tribunal Regional Eleitoral (TRE-RS) reverteu a decisão que havia cassado os diplomas do prefeito de Rio Pardo, Rogério Monteiro (MDB), e do vice, Alceu Seehaber (PSDB).

A chapa havia sido cassada em janeiro, após o Ministério Público acusar que Monteiro, enquanto candidato a reeleição, "efetivou rescisões contratuais como forma de punição" de servidores que não o apoiaram na campanha.

Os desembargadores, no entanto, entenderam que a irregularidade não ficou comprovada. _

O TRE também decidiu, por unanimidade, manter a sentença de primeira instância que absolveu o prefeito de Passo Fundo, Pedro Almeida (PSD), em uma ação ajuizada pela coligação PDT/PT, que pedia a cassação do mandato por abuso de poder político.

POLÍTICA E PODER

sábado, 1 de novembro de 2025


01 de Novembro de 2025
CARPINEJAR

O que não serve mais

Para alguns nostálgicos, a casa da praia é a vida paralela dos objetos, especialmente em balneários menores, naquele imóvel conquistado com muito esforço e economia. Mesmo com a popularização do consumo, mesmo com a facilidade tecnológica, há pessoas que ainda fazem questão de conservar a simplicidade artesanal dos velhos tempos, numa postura vintage.

Tudo o que sobra, ou tem menos valor onde você mora, é levado para o litoral, numa arqueologia íntima. Você cai um patamar da sua faixa de poder aquisitivo de propósito. Desatualiza o seu Imposto de Renda. Esparrama a sua herança.

O sofá de segunda mão, manchado ou gasto, está lá. Os beliches estão lá. O liquidificador que mais espreme do que gira está lá. A televisão pequena está lá.

A louça da cozinha preserva o resto dos seus conjuntos: pratos que ficaram órfãos, copos de requeijão, talheres de cabos soltos. No armário, constam relíquias de pano: camisetas com propaganda política, maiôs e sungas desbotados, chinelo deformado com a tira arrebentada, bonés de empresas que já fecharam.

A pacata biblioteca lembra um sebo: revistas velhas de moda, fofoca ou turismo; guias de telefone; folhetins Sabrina, Julia e Bianca; palavras cruzadas iniciadas e nunca terminadas. É possível localizar um CD player ou até um videocassete na estante.

As gavetas guardam velas, fósforos e baralho de cartas. No armarinho do banheiro, destacam-se pomadas extintas, termômetro de mercúrio embrulhado em algodão e bronzeadores empedrados.

É como assistir, num passe de mágica, à sua rotina 20 anos antes. Aquele endereço é um túnel do tempo. É sua versão atrasada em duas décadas. Foi o jeito para mobiliar o espaço, remanejando bugigangas e eletrodomésticos que não combinavam com a sua nova decoração.

Em vez de jogar fora, joga para dentro do seu bunker praiano. Você realiza doações para si próprio. Os donativos são direcionados para uma estranha autocaridade.

Não deixa de ser um momento de fascinantes reencontros com o seu eu mais despojado. Há um susto saudoso. Você recorda o que um dia foi essencial depois de muito esquecer. É como esbarrar na rua com um namorado ou namorada da adolescência, demorando para reconhecer a paixão antiga.

Revê o ventilador barulhento, com a grade torta. Revê os lençóis do casamento. Revê a luminária do escritório desmontado. Regressa à pré-história de seus pertences, tornando-se retrô por necessidade.

Passa a usar aquilo que julgava ultrapassado: aerossol e incenso Boa Noite para matar mosquitos, espanador de pó, rodo de chuveiro. Volta, inclusive, a regar o jardim com mangueira, e a torneira mantém os elásticos coloridos das bexiguinhas.

Retoma a manufatura de outrora, o suor doméstico anterior aos êxitos profissionais. Varre sem robozinho ou aspirador de pó. Lava a louça sem máquina e enruga os dedos de frio na pia. Estende as roupas no varal sem secadora.

E jamais reclama do trabalho fabril, dá um desconto à existência operária pelo luxo de estar perto do mar. Não troca por nada o privilégio de sestear na rede com o marulhar das ondas. 

CARPINEJAR

Escritora, poeta e patrona da 71ª Feira do Livro de Porto Alegre  - "Hoje, há uma infantilização da sociedade. Tudo é ?não pode?"

Uma das maiores escritoras contemporâneas do Brasil, Martha Medeiros é a patrona da 71ª Feira do Livro de Porto Alegre. Em entrevista a ZH, a porto-alegrense de 64 anos relembra a relação com o evento e analisa o cenário atual da literatura no país.

Isabella Sander  -  Como é a experiência de ser a patrona da Feira do Livro? Demorou para vir o convite?

Sempre imaginei que fosse acontecer um dia. Todo mundo diz que demorou, mas foi no momento exato, porque é um ano muito especial para mim: completo 40 anos desde o lançamento do meu primeiro livro. Houve época em que a Feira elegia 10 candidatos e depois escolhia um. Cheguei a participar dessa seleção, mas não gostei, parecia competição entre colegas. Achei que não combinava com o espírito da feira. E, naquela época, estava muito envolvida com filhos e não teria como me dedicar da forma que um patrono precisa. Agora é outro momento. Tenho uma carreira mais sólida e me sinto mais preparada e merecedora. Então, veio na hora certa.

És a nona mulher a ocupar o papel de patrona da Feira do Livro. Ainda é difícil uma mulher chegar a esse posto?

Acho que isso está mudando. Não adianta chorar pelo atraso, porque claramente as coisas estão se transformando. Tenho a impressão de que, daqui para a frente, virão muitas outras mulheres, até porque há muitas escritoras excelentes, talentosas, representativas da literatura. O mercado editorial deve muito às mulheres. Há muita produção feminina hoje no país inteiro. É o momento de a mulher colocar sua voz depois de tanto de literatura feita por homens falando sobre mulheres. Isso mudou. Claro que ainda é preciso equalizar, mas não vou ficar lamentando o passado. Isso tem a ver com a velha estrutura patriarcal, mas está mudando.

Falaste que, quando foste convidada antes, estavas envolvida com a maternidade. E agora estás também nessa função de cuidadora.

É outro tipo de maternidade. Meus pais não são meus filhos, claro, mas o papel é esse de cuidado. Isso me surpreendeu, porque sempre imaginei que, depois dos 60, com as filhas criadas, seria a hora de botar a mochila nas costas e viajar. Eu adoro liberdade, adoro viajar. De repente vem esse susto, que nem deveria ser um susto, porque é natural que os pais envelheçam. Mas a gente entra na vida de roldão e acha que está tudo certo. Aí precisa puxar o freio de mão e voltar para dentro de casa, cuidar dos outros. Tem um lado bom nisso, de união familiar, mas é complicado, porque também estamos envelhecendo. Também estou envelhecendo e não tenho mais tantos anos de energia total. Então, a gente vai negociando com a própria vida. Este, para mim, foi um ano de dedicação total à família e ao trabalho. Isso também sou eu.

Qual foi a tua relação com a Feira do Livro ao longo da vida?

A Feira era o meu parque de diversões. Estudava no Bom Conselho, na Ramiro Barcelos, e lembro de sair a pé pela Independência até o Centro para ir à Feira. Economizava a mesada para comprar um livro escolhido com muito cuidado. Sempre foi um momento mágico, porque já gostava de ler e escrever. Era um evento que aguardava o ano inteiro. Depois, quando comecei a publicar poesia, virei autora da Feira. Lembro da minha primeira sessão de autógrafos, em que caiu um temporal e quase ninguém apareceu. De repente, surge o Ruy Carlos Ostermann, que pediu meu autógrafo. Fiquei emocionada, porque ele era uma figura admirada, e eu, uma jovem desconhecida. Foi um gesto generoso e, por isso, hoje quero fazer o caminho inverso: estimular quem está começando.

Quem te ajudou no início?

A Tânia Carvalho foi a primeira pessoa que me chamou para um programa de entrevistas, em 1985. Eu gaguejei do começo ao fim, mas nunca esqueci. Ela é uma grande jornalista, e me dar aquele espaço foi importante. O Luciano Alabarse também foi fundamental: ele deu um livro meu de presente para o Caio Fernando Abreu, que depois me procurou e escreveu a orelha de um livro meu. Era uma época sem internet, tudo acontecia no boca a boca. Um lia, indicava para outro, e assim eu fui crescendo devagar, com o olhar generoso de quem já era mais experiente.

Temos visto censura a obras literárias. O que pensas disso?

De fato, há uma onda de censura, especialmente de livros infantis, sob o pretexto de proteger. É absurdo. A história de O Avesso da Pele, do Jeferson Tenório, por exemplo, foi um absurdo. Escrevi uma crônica sobre isso. É reflexo da ascensão da extrema-direita. O mundo está mudando rápido, muita gente está ganhando voz: mulheres, negros, pessoas LGBTQIA+. Antes, esses grupos ficavam em guetos. Agora estamos tentando incluir todo mundo, e isso é necessário, não é benevolência. É reparação. Mas há quem não suporte perder privilégios e reaja tentando manter o próprio posto. Daí vêm as tentativas de censura, de regressão. É uma reação careta a um momento mais democrático.

Vivemos uma época careta?

Sim, muito. E é curioso, porque já tivemos momentos mais libertários. O que se via na TV, como TV Pirata, Armação Ilimitada, tinha mais liberdade. Claro que havia piadas erradas, o que felizmente está mudando, mas nada era perseguido. Hoje, há infantilização da sociedade. Tudo é "não pode". Criança não pode ver isso, não pode ouvir aquilo. Cresci ouvindo o que meus pais ouviam: Beatles, Janis Joplin, e lendo os livros que havia em casa. Agora parece que se trata todo mundo como criança.

Mas há também patrulhas vindas da esquerda, não?

Existe patrulha, sim. Às vezes é chata, mas necessária. Claro que me policio, às vezes digo algo numa conversa e penso: "Não poderia dizer numa entrevista". Mas é assim que o mundo muda. É incômodo, mas precisamos nos habituar a não usar certos termos.

Alguns pesquisadores têm discutido a ideia de que estamos priorizando o conteúdo em detrimento da forma na literatura. O que pensas disso?

Acho pretensioso alguém determinar o que é ou não é literatura.

 O que é literatura para ti?

Escreveu e publicou, é literatura. Pode ser boa ou ruim. Literatura é intenção por escrito que pode ser bem ou malsucedida. O que define se deu certo ou não é a conexão com o leitor. Não existe literatura sem leitor. Se ninguém ler Grande Sertão: Veredas, não existiu. Literatura é o que conecta, o que provoca alguma reação, seja de encantamento ou de rejeição. Essa história de que Itamar Vieira Junior ou Elena Ferrante não seriam literatura é absurda. É apenas tentativa de polemizar. 



01 de Novembro de 2025
MARCELO RECH

As histórias de todos

Sou um leitor atento de obituários. Não, não tenho curiosidade mórbida, que provavelmente é até abaixo da média normal das pessoas. Minha relação com os obituários não tem a ver com a morte, mas - e é bom recordar isso nestes dias de Finados - com o reconhecimento à vida daqueles que se foram e, sobretudo, pela crença de que pessoas comuns sempre terão trajetórias e histórias únicas que merecem ser compartilhadas.

Um obituário é uma notícia. Por vezes, sobretudo quando informa o passamento de alguém de quem não se ouvia falar há tempos, pode até ser a mais marcante de uma edição. Mas essa não é uma notícia qualquer. Quando os obituários de ZH foram criados, há umas três décadas, advogou-se que a tarefa de redigi-los seria considerada um rito de passagem. O obituarista deve demonstrar uma combinação de obsessão com precisão absoluta e uma sensibilidade adicional para lidar com familiares e amigos enlutados. Quem escreve obituários com estas duas virtudes está, portanto, preparado para missões jornalísticas de larga envergadura.

Um obituário bem escrito segue padrões mínimos. Deve trazer a idade, local de nascimento, falar de eventuais mudanças de cidade, vida profissional, parentes próximos, incluir descrições sobre sua personalidade e, se a família concordar, a causa da morte, como parte da informação sobre aquela pessoa. Em personalidades públicas, passagens negativas não devem ser omitidas, mas o obituário não é uma peça crítica: é, antes de mais nada, uma homenagem ao retratado e um legado para a família, os amigos e a sociedade. No Rio Grande do Sul, previsivelmente, muitas vezes ficamos sabendo pelo obituário da fama de um churrasqueiro familiar e sua paixão futebolística.

Nenhum outro jornal elevou o obituário à condição de jornalismo de ponta como The New York Times. Há um bom número de livros que os compila e disseca seu estilo. Um deles é A Última Palavra, que reúne uma coletânea da seção, uma das mais lidas e prestigiadas do diário. "A história de pessoas comuns que levaram vidas incomuns", resume sua apresentação. No principal jornal dos EUA, o obituário ascendeu à categoria de arte jornalística exatamente porque extrai em textos memoráveis a riqueza da vida de pessoas como um vendedor de cachorro-quente que fez ponto por décadas numa esquina de Nova York.

Cada obituário é, no fundo, uma pequena biografia à espera de ampliação. Quando leio que alguém dedicou a vida à família, algo aparentemente tão banal, imagino a extraordinária vivência dessa pessoa e as histórias por serem contadas de alegrias, tristezas, frustrações e pequenas e grandes conquistas. São elas que fazem a vida de todos nós, afinal. 

MARCELO RECH

Postagem em destaque

Domingo – Dia das Mães Está friozinho aqui na Capital dos pampas e eu estou ouvindo agora, essa canção tão cheia de ternura nesse domingo ...

Postagens mais visitadas