sábado, 9 de novembro de 2019


09 DE NOVEMBRO DE 2019
OPINIÃO DA RBS

O TOM DE LULA



Beneficiado pela decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de derrubar a autorização para prisão após a condenação em segunda instância, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva saiu da cadeia menos de 24 horas depois, no final da tarde de sexta-feira, deixando no país a dúvida sobre com que espírito vai desfrutar a liberdade. Ainda na cadeia, graças à condescendência do sistema prisional, o petista concedeu inúmeras entrevistas e mostrava-se falante, repetindo a ladainha de que foi encarcerado por motivos políticos, e não pelo resultado de um minucioso processo investigativo e judicial conduzido pela Operação Lava-Jato.

Solto, certamente o ex-presidente continua- rá eloquente, mas agora com o potencial de aprofundar ainda mais a polarização que machuca o Brasil. Para os radicais da direita, a volta de Lula ao cenário pode funcionar como a senha para que alardeiem de forma mais estridente os perigos de uma suposta ameaça vermelha. Neste momento, parece que muito mais do que a esquerda, ainda fragmentada e personalista, é o outro lado do espectro ideológico que se alimenta da figura controversa de Lula.

Grande parte do que o Brasil vai viver daqui para a frente dependerá do tom imprimido por Lula nos próximos dias, que certamente será repetido por seus seguidores. Se mantiver a toada radical, dará um grande impulso à intolerância e ao extremismo, que continuarão sendo protagonistas de um quadro de degradação das relações sociais no Brasil. A primeira amostra, ainda na sexta-feira, logo após sair da prisão, não foi das melhores. Os ataques à Lava-Jato e as provocações ao presidente Jair Bolsonaro indicam uma postura beligerante.

Precisa ainda ser analisada a questão de fundo. A posição do STF na quinta- feira, que beneficiou Lula, foi a reversão da interpretação da mais alta corte do país sobre o tema da prisão após a condenação em segunda instância, apenas três anos depois de firmar entendimento diferente. Há convicção generalizada de que o Supremo cedeu ao casuísmo, levando à soltura de Lula, condenado por corrupção e lavagem de dinheiro. A decisão produzirá consequências que vão muito além da possibilidade imediata de milhares de criminosos sentenciados voltarem às ruas.

É cristalino que a deliberação do Supremo, com placar apertado de 6 a 5, vai amparar essencialmente os condenados que têm amplas reservas financeiras para pagar os melhores advogados do Brasil e levar os seus recursos para a última instância. Contam com a possibi- lidade de protelação inerente ao cipoal do sistema recursal brasileiro e, quem sabe, até com a prescrição dos casos, para livrar seus clientes da cadeia. Neste grupo, claro, estão incluídos empreiteiros, doleiros e políticos denunciados pela Lava-Jato. O veredito do STF, portanto, tem infelizmente o condão de reavivar a percepção de que o Brasil é o país onde impera a impunidade.

OPINIÃO DA RBS

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Postagem em destaque

12 de Agosto de 2026 CARPINEJAR Os efeitos colaterais das canetas nos restaurantes Desde maio, já circula no Brasil uma caneta emagrecedora ...

Postagens mais visitadas