sábado, 4 de julho de 2020



04 DE JULHO DE 2020
DRAUZIO VARELLA

Teste de longevidade

Estudo quer avaliar impacto de medicamento na prevenção ou no retardo de doenças em que a idade é o principal fator de risco
Em 2003, o National Institute on Aging (NIA), dos Estados Unidos, inaugurou um programa de experimentos em animais com o objetivo de avaliar a possibilidade de retardar o envelhecimento. Entre os tratamentos que não demonstraram eficácia, ficaram o óleo de peixe, os extratos do chá verde e da curcumina e o resveratrol, presente no vinho tinto.

Nos camundongos, cinco compostos mostraram efeitos positivos: ácido acetilsalicílico, 17-alfaestradiol (forma de estrogênio), acarbose (usada contra o diabetes), ácido nordi-hidroguaiarético (retirado de uma planta) e rapamicina (usada como imunodepressora nos transplantes de órgãos). A maior atividade foi encontrada na rapamicina, que não apenas aumentou a duração da vida dos animais, como o tempo que levaram para desenvolver complicações de saúde.

O grupo de Nir Barzilai, que conduz um inquérito com mulheres e homens centenários no Albert Einstein College of Medicine, em Nova York, escolheu avaliar a atividade da metformina. A droga não estava entre aquelas com resultados mais contundentes em animais, mas tem histórico promissor na experiência clínica, custo baixo e efeitos colaterais bem conhecidos, já que é empregada no controle do diabetes desde os anos 1960.

A intenção é testá-la em 3 mil pessoas entre 65 e 79 anos de idade, que serão acompanhadas durante cinco anos. A metade delas receberá metformina, enquanto a outra tomará comprimidos idênticos, porém inertes (placebo).

As dificuldades com esse tipo de avaliação são enormes. A maior delas consiste em encontrar marcadores confiáveis para estimar a longevidade, sem aguardar décadas até a morte de participantes em números estatisticamente significativos.

Barzilai e seus colegas propuseram uma estratégia nova ao FDA, a agência americana que fiscaliza medicamentos e alimentos: verificar se a administração continuada de metformina é capaz de retardar o aparecimento de enfermidades, cujas incidências aumentam dramaticamente com a passagem dos anos e encurtam a duração da vida, como é o caso de hipertensão, diabetes, doença cardiovascular, câncer, Alzheimer e outras.

Há indícios de que a metformina seja dotada dessa capacidade protetora. Em 1998, um relato do United Kingdom Prospective Diabetes Study Group concluiu que, além de reduzir em 32% a incidência das complicações do diabetes (incluindo morte), ela diminuiu os riscos de ataques cardíacos e derrames cerebrais. Em outro estudo, conduzido pelo Diabetes Prevention Program, ocorreram efeitos similares: queda de 31% na probabilidade de diabetes em pessoas de meia-idade em situação de risco para desenvolver a doença.

Diversos inquéritos epidemiológicos sugerem que a administração continuada de metformina faz cair o risco de câncer e de morte e preserva as funções cognitivas por mais tempo. Pesquisadores britânicos relataram, em 2014, que a análise retrospectiva de 78 mil adultos na faixa dos 60 anos de idade revelou que aqueles tratados com a droga viveram, em média, mais tempo do que uma população comparável de pessoas saudáveis.

Esses trabalhos, todavia, não constituem prova definitiva de que a metformina consiga adiar o aparecimento de enfermidades em que o principal fator de risco é o número de anos vividos. Nenhum deles identificou os mecanismos pelos quais o medicamento teria essa propriedade, embora saibamos que, além de controlar as taxas de açúcar no sangue, ele interfere com diversas reações moleculares envolvidas no crescimento celular, nas inflamações e no metabolismo. Jay Olshansky, da Universidade de Illinois, estima que, se houver retardo no envelhecimento, ainda que modesto, a expectativa de vida dos participantes poderá aumentar em média 2,2 anos.

O mérito desse estudo é propor, pela primeira vez, a avaliação do impacto de um medicamento na longevidade, por meio da prevenção ou do retardo na instalação de doenças em que a idade é o principal fator de risco. Um dia nascemos, noutro morremos, no intervalo ficamos mais velhos a cada dia vivido. Envelhecer não é sinônimo de adoecer.

Médico, cientista e escritor | drauziovarella.com.br - DRAUZIO VARELLA

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Postagem em destaque

12 de Agosto de 2026 CARPINEJAR Os efeitos colaterais das canetas nos restaurantes Desde maio, já circula no Brasil uma caneta emagrecedora ...

Postagens mais visitadas