sábado, 11 de julho de 2020



11 DE JULHO DE 2020
J.J. CAMARGO

CONSOLAR NÃO É PARA PRINCIPIANTES

O solidário na dor fala pouco, abraça muito, se comunica com o coração e tudo soa verdadeiro
Como consolar exige uma interação afetiva e temporal de sentimentos, e a empatia, que sempre foi escassa, nos últimos tempos encolheu, tudo passou a contribuir para fazer do consolo, como gesto humanitário, um grande desafio de sensibilidade.

Essa dificuldade faz com que rituais, como por exemplo o velório, que só se justifica pelo exercício do consolo e da solidariedade, se transforme, na maior parte do tempo, em suplício para quem tem que ouvir e desespero para quem se dispôs a falar, e antes de terminar a frase já percebe que o discurso não encaixou.

Grande parte do problema decorre da independência de sentimentos. O solidário na dor fala pouco, abraça muito, se comunica com o coração e tudo soa verdadeiro. Quem está apenas cumprindo a agenda da formalidade, não consegue parar de falar, e como, de fato, não tem o que dizer, se socorre do instrumento mais pobre da linguagem oral: a frase feita. Esta é a maior tortura para o consolado e uma angústia para o consolador, que sempre termina a arenga com a sensação de alívio pelo fim da provação.

A frase mais ouvida, "Tenha força!", não faz o menor sentido, porque estar muito triste não tem nada a ver com sentir-se fraco.

Alguns, percebendo que a tristeza é o problema, resolvem distrair o sofredor, contando histórias divertidas, presumivelmente vividas com o morto, e se sentem estimulados a acrescentar graça e proeza ao relato, porque a única testemunha possível não volta para confirmar. Nem a cara de desconfiança do filho, como a dizer "se isso tivesse ocorrido, eu saberia", consegue frear o falastrão, determinado a demonstrar, com ares de homenagem, que "um tipo com esta esperteza e coragem não enterramos todos os dias".

Um grupo especial é representado pelos mortos idosos, em que há uma tendência irrefreável de usar como consolo o argumento de que "afinal ele teve uma vida longa e feliz". Impossível saber quem deu início a este coronavírus da idiotice. Sem querer ofender o vírus, a referência é por conta da rapidez comparável da propagação.

Sempre que se ouvir esta frase num velório, pode ter certeza de que este consolador merecia um crachá que prevenisse o interlocutor da perda de tempo, anunciando: não tenho nada a ver com o seu sofrimento! Essa racionalização em velório de velhos só tem sentido para quem está afetivamente descomprometido, a ponto de considerar, inconscientemente, que tendo vivido mais do que a média, e não pretendendo tripudiar os mortos precoces, uma iniciativa bem razoável, reservada ao velhinho, é morrer!

Ignoram, os rígidos de afeto, que não se mede o significado da perda de alguém pelo que ele fez na sua vida, mas pela falta que fará na dos seus amados.

Mas essa percepção é uma exclusividade de quem amou e perdeu. Menos mal que enquanto os que amam com os olhos podem esquecer, os que amam com o coração, não.

J.J. CAMARGO

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Postagem em destaque

12 de Agosto de 2026 CARPINEJAR Os efeitos colaterais das canetas nos restaurantes Desde maio, já circula no Brasil uma caneta emagrecedora ...

Postagens mais visitadas