
31 de Outubro de 2026
COM A PALAVRA
Entrevista exclusiva
Com a Palavra - Jair Soares - Ex-governador do Rio Grande do Sul
"Ninguém deve chegar aos cargos mais altos tocando de ouvido"
A série Memórias do Piratini resgata a história política do Rio Grande do Sul a partir das decisões tomadas na sede do governo estadual por ex-ocupantes do palácio. Nesta edição, o ex-governador Jair Soares, que acumula mais de sete décadas de vida pública, relembra os bastidores da transição democrática, a acirrada campanha de 1982, o legado de sua gestão na saúde e a convivência republicana com adversários históricos.
Ele aborda os aprendizados desde a infância no bairro Glória, na Capital, e as origens no esporte até a ascensão técnica na administração pública, passando pelos desafios de estruturar uma campanha vitoriosa em meio ao redemoinho da redemocratização nacional. A entrevista faz parte da série Memórias do Piratini, publicada no YouTube de GZH.
Governador, o senhor começou muito cedo na vida pública e passou por diversas funções antes de chegar ao Palácio Piratini. Como a sua infância, a vivência na Glória e a experiência no futebol moldaram o político que o senhor se tornou?
A política veio de berço, mas muito disso nasceu na vivência cotidiana e na disciplina rigorosa que aprendi em casa, no convívio com meus irmãos e pais, e no esporte. Joguei futebol profissionalmente e aprendi cedo o valor inestimável do trabalho em equipe. No colégio, por incentivo de uma professora, já liderava o Grêmio Esportivo Tuiuti aos seis ou sete anos de idade. Na vida adulta, fiz questão de subir cada degrau da administração pública, desde o almoxarifado de obras públicas até secretarias de Estado e o Ministério da Previdência. Sempre defendi que ninguém deve chegar aos cargos mais altos tocando de ouvido; é preciso preparo técnico sólido, equipe qualificada e conhecimento profundo da máquina pública.
O senhor assumiu o governo do Estado em 1982, em plena redemocratização e sob forte polarização política. Como foi estruturar aquela campanha e vencer adversários como Pedro Simon, Alceu Collares e Olívio Dutra?
Foi uma eleição extremamente disputada, acirrada e definida margem a margem até o último momento. Meus adversários eram figuras fortíssimas, com imenso apelo popular e trajetórias consolidadas. O senador Pedro Simon, por exemplo, vinha de duas décadas como principal líder da oposição. Sabendo da grandiosidade do desafio, profissionalizei a minha campanha. Criei uma estrutura organizada, estudei estratégias modernas de comunicação e visitei todos os municípios do Estado com disciplina rígida, baseada no contato direto com a população. A vitória histórica coroou um trabalho prévio muito forte que eu já havia realizado ao longo dos anos na vida pública, especialmente nos meus oito anos à frente da Secretaria de Saúde e Meio Ambiente.
Antes de comandar o RS, o senhor teve papel de destaque na Saúde, onde o Estado erradicou a varíola e expandiu o atendimento de forma inédita. De que maneira essa entrega técnica cacifou seu nome para a disputa ao governo?
A saúde pública estava totalmente desacreditada e carente de estrutura quando assumi a pasta estadual. Fizemos um diagnóstico institucional rigoroso e construímos quase mil postos de saúde em parceria direta com os municípios, equipando cada um deles adequadamente. Além disso, criamos o laboratório farmacêutico do Estado para produzir medicamentos essenciais e montamos um sistema pioneiro de multivacinação em larga escala.
Combatemos doenças graves e incapacitantes, como a paralisia infantil e o sarampo, chamando a atenção positiva da Organização Mundial da Saúde. Esse trabalho revolucionário deu enorme capilaridade em todo o Rio Grande do Sul e garantiu o respeito absoluto dos servidores públicos, provando na prática que a gestão técnica entregava resultados concretos à população.
O senhor vinha de uma trajetória ligada a governos do período militar e assumiu o Estado em meio aos intensos anseios populares por liberdade. Sofreu algum tipo de resistência, restrição ou preconceito da sociedade por causa dessa origem?
Me cuidei muito e trabalhei intensamente para que isso não acontecesse, pautando toda a minha gestão pela transparência absoluta, pelo total respeito às instituições democráticas e pelo foco incansável nas demandas reais da população. O meu sólido lastro técnico, aliado ao reconhecimento público do trabalho realizado na Saúde e na Previdência Social, falou muito mais alto junto aos gaúchos. Além disso, a minha relação institucional e pessoal com lideranças da oposição sempre foi pautada pelo mais estrito respeito republicano.
Com o próprio Pedro Simon, mesmo disputando eleições duras e polarizadas, mantivemos uma convivência de altíssimo nível, sempre pautada pelo diálogo civilizado e pela defesa intransigente dos interesses maiores do Rio Grande do Sul.
Uma das marcas fortes da sua trajetória foi o enfrentamento corajoso de problemas complexos, como a poluição ambiental. Como o senhor lidou com episódios emblemáticos de grande repercussão pública, a exemplo do caso da Borregaard?
A questão ambiental da Borregaard representava um problema gravíssimo que afetava a qualidade do ar de Porto Alegre e gerava intensa e justa pressão da opinião pública e da imprensa. Nós nos antecipamos com embasamento estritamente técnico e científico, criando estações modernas de monitoramento da qualidade do ar e firmando convênios estratégicos com organismos internacionais de referência.
Assumimos a responsabilidade fiscalizadora com firmeza inegociável e concedemos prazos claros e rigorosos para a devida adequação ambiental da empresa. Esse episódio emblemático demonstrou de forma inequívoca que a administração pública precisa ter coragem para aplicar a lei com rigor e defender o interesse coletivo, doa a quem doer.
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