sábado, 31 de outubro de 2026

31 de Outubro de 2026
REPORTAGEM

Lula 4: entre o fôlego da reeleição e o desafio do Congresso

Rumo a seu quarto mandato, petista busca alinhamento com presidentes da Câmara e do Senado para enfrentar direita fortalecida no pleito. Propostas ligadas a benefícios diretos à população tendem a reunir consenso com mais facilidade

A exemplo do que aconteceu entre 2023 e 2026, o presidente reeleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT) deve enfrentar no quarto mandato um Congresso com base aliada fragilizada, principalmente no Senado, onde a direita bolsonarista saiu fortalecida da eleição.

A virada histórica no segundo turno robusteceu Lula e os presidentes da Câmara, Hugo Motta (Republicanos- PB), e do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), que deverão ter o apoio do Palácio do Planalto para se reeleger aos comandos das Casas. É uma estratégia que busca manter o controle da agenda legislativa nas mãos de lideranças próximas ao governo, mesmo que as relações entre Lula, Alcolumbre e Motta sejam marcadas por altos e baixos.

A decisão de Flávio Bolsonaro (PL) de deixar o Brasil rumo aos Estados Unidos após ser derrotado na eleição presidencial, com a atabalhoada publicação de uma carta em tom golpista, também abre uma incerteza sobre quem irá liderar a oposição no país. Nos bastidores, a avaliação é de que a fuga de Flávio amplia o racha e a desarticulação na direita, fatores que contribuem para uma largada favorável ao governo Lula 4.

A composição do Congresso aponta para um cenário em que Lula deve ter dificuldade para aprovar projetos de lei polêmicos e pautas identificadas com a esquerda. Segundo o cientista político Daniel de Neque, está se esfarelando a lógica em que o chefe do Executivo formava ampla base a partir do loteamento dos ministérios. Na atual conjuntura, centenas de parlamentares preferem ficar no Congresso distribuindo emendas e fazendo suas próprias agendas, em vez de assumir os compromissos e lidar com as cobranças que envolvem a titularidade de um ministério.

- O presidencialismo de coalizão tem perdido força, principalmente com as emendas parlamentares impositivas - afirma.

Para o cientista político e professor do Insper Fernando Schüler, a "atração exercida pelos cargos no governo é relativamente menor" e Lula tende a manter a estrutura central do governo nas mãos do PT:

- O Congresso hoje tem muito mais autonomia. Os instrumentos de barganha do Executivo ficaram mais fracos com a execução impositiva das emendas.

Apoio do centrão

Considerando os partidos que o apoiaram na eleição, Lula terá 124 deputados federais e 16 senadores. Será fundamental buscar o apoio de partes das bancadas do centrão, em siglas como PSD, MDB, Republicanos e Avante e na federação União Brasil/PP. O oposicionista PL será o maior partido da Câmara, com 121 deputados, e do Senado, com 28 assentos.

Um levantamento feito por Daniel de Neque por espectro político aponta que a direita pode ter 50 dos 81 senadores e 278 dos 513 deputados federais. Os números demonstram que o conservadorismo estará em maior número do que a centro-esquerda e o lulismo no Congresso.

Por outro lado, Schüler ressalta que falta coesão nas legendas. O União Brasil, por exemplo, é apontado frequentemente como um partido identificado com a direita, mas tinha ministérios no governo Lula 3.

- O que existe no Congresso são dois partidos de oposição, o PL e o Novo. Eles são minoritários, têm 131 votos (na Câmara). O Brasil não é um país em que as demarcações ideológicas definem o jogo político. Não vejo impeditivo para que Lula forme uma base relativamente estável no Congresso - comenta Schüler.

Demandas de fora

De Neque tem visão mais pessimista e avalia que o presidente irá enfrentar dificuldades na relação com os parlamentares no quarto mandato. Caso isso se confirme, o governo ainda deve conseguir avançar em propostas populares e apoiadas pela sociedade, de fora para dentro do Congresso, como aconteceu na aprovação do fim da escala de trabalho 6x1, na isenção do Imposto de Renda para quem recebe salário de até R$ 5 mil e no perdão de dívidas e ampliação do limite anual de faturamento dos microempreendedores individuais (MEIs):

- É difícil lembrar de uma pauta que o governo Lula tenha aprovado recentemente e que não seja de apelo popular. O governo tem trabalhado com demandas que vêm de fora.

Já agendas reformistas precisam, conforme Schüler, de bases aliadas fortes para mexer com interesses e direitos na Previdência, no mercado de trabalho e na máquina pública, por exemplo, o que impõe maior dificuldade.

- O governo Lula é de corte distributivista e populista. Para aprovar medidas que são chamadas de "bondades", não precisa de maioria. A oposição vota junto - comenta Schüler.

Uma iniciativa que tende a contar com apoio popular é a adoção da tarifa zero no transporte coletivo aos finais de semana e feriados, promessa da reta final de campanha. Lula já enviou ao Congresso proposta de emenda à Constituição (PEC) prevendo utilizar pelo menos 26,8% dos recursos das emendas parlamentares impositivas para custear a gratuidade nos ônibus nos finais de semana.

Teste para a estratégia

Conforme dados do governo federal, a lei orçamentária de 2027 tem a previsão de gasto de R$ 44,8 bilhões com emendas de execução obrigatória. Pela PEC, cerca de R$ 12 bilhões seriam destinados para bancar a tarifa zero. Será um teste para a estratégia do governo Lula, que tentará usar uma pauta popular para carimbar uma fatia das emendas dos deputados federais e senadores.

Existem avaliações de que, para além das matérias de apelo popular, Lula governará fazendo uso de medidas provisórias (MPs), que entram em vigor no ato da publicação. Depois, elas têm prazo de até 120 dias para serem aprovadas pelo Congresso e virarem leis. No caso de MPs populares, o presidente deixaria o eventual desgaste de derrubar as políticas na conta dos parlamentares. _ Carlos Rollsing

carlos.rollsing@zerohora.com.br

Vácuo na oposição reduz a tensão sobre o Supremo

No Senado, a bancada bolsonarista estará reforçada e poderá se articular para barrar indicações de Lula para o Supremo Tribunal Federal (STF), a Procuradoria-Geral da República (PGR) e outros cargos que passam pelo crivo da Casa. A vaga do ministro aposentado Luís Roberto Barroso segue aberta, depois de o Senado ter rejeitado em abril de 2026 a indicação de Jorge Messias.

A histórica derrota aconteceu no momento em que o Palácio do Planalto havia se distanciado de Alcolumbre. Na reta final das eleições, a reaproximação foi costurada e o cacique do Senado colocou em votação o fim da escala 6x1. As avaliações são de que Lula buscará conservar as relações com os presidentes das Casas legislativas.

Aposentadorias

No próximo mandato do petista, mais três ministros do Supremo devem deixar a Corte por alcançarem os 75 anos, quando acontece a aposentadoria compulsória: Luiz Fux, em abril de 2028, Cármen Lúcia, em abril de 2029, e Gilmar Mendes, em dezembro de 2030.

Na interpretação do cientista político Fernando Schüler, o resultado do segundo turno reforçou o "sistema de poder" representado por Lula, parte dos ministros do STF e os presidentes da Câmara e do Senado.

A avaliação dele é de que se enfraqueceram as hipóteses de impeachment defendidas pelas bases bolsonarista e de direita conservadora. Esse cenário é reforçado pelo vácuo temporário na liderança da direita após a fuga de Flávio Bolsonaro.

- Esse sistema de poder foi vitorioso na eleição, está intacto e reforçado. No curto prazo, a dinâmica de poder é favorável à estrutura que ganhou. No médio prazo, isso pode mudar. A política é dinâmica e talvez surja uma nova liderança em torno do Tarcísio de Freitas (governador reeleito de São Paulo) - diz Schüler. _

Incerteza fiscal mantém a pressão sobre dólar e bolsa

Anderson Aires

anderson.aires@zerohora.com.br

Após passar por um choque de expectativas no pós-eleição, que provocou a maior alta diária do câmbio em 27 anos e uma parada temporária da bolsa, o mercado financeiro fechou a primeira semana pós-segundo turno ainda com sinais de ressaca. Depois de oscilações na semana, o dólar encerrou a sexta-feira cotado a R$ 5,444, anotando alta de 0,76% ante o pregão da segunda-feira - o primeiro após o resultado que confirmou Luiz Inácio Lula da Silva por mais quatro anos como presidente da República. Já o Ibovespa, principal índice da B3, ficou em 167.921 pontos, amargando queda de 4,92% ante o início da semana. Na comparação com a sexta-feira passada, a instabilidade fica ainda maior (veja no infográfico).

Além da instabilidade provocada pelo resultado eleitoral, o mercado atravessa um período de espera por informações mais claras sobre os próximos passos do governo nas áreas econômica e fiscal. Alguns ruídos externos, como a expectativa sobre os juros nos EUA, também ajudam a aumentar as pressões.

Professor da Escola de Administração da UFRGS e doutor e mestre em Finanças, Guilherme Ribeiro afirma que ainda há forte desconfiança no mercado em relação à credibilidade do arcabouço fiscal. Como a gestão atual tem um histórico de ruídos na condução do arcabouço e na utilização de gastos por fora do limite, os agentes econômicos mantêm cautela, avalia o docente:

- As notícias foram muito negativas nesta semana, e o Lula ainda não veio a público. Ele disse que vai fazer algum pronunciamento semana que vem, e o mercado tem receio de que esse anúncio não seja sobre a questão fiscal. Então, a tendência é de nervosismo e realmente uma bolsa um pouco depreciada.

João Daronco, head do time de ações da Suno Research, destaca que o recuo do Ibovespa e a movimentação do dólar são esperados devido ao encerramento do "trade eleitoral", quando os ativos passaram a refletir novamente as expectativas em relação ao governo Lula, o que foi acompanhado pela saída de recursos das posições em ativos brasileiros e pela reprecificação dos juros futuros:

- Com a "volta à normalidade", que era o cenário de Lula, a gente tem uma volta ao mercado do que era antes desse cenário eleitoral.

O especialista complementa que esse quadro de incertezas sobre os rumos da política fiscal e econômica do governo é agravado pelas discussões sobre a reforma tributária em um contexto de aumento de falências corporativas, além de possíveis "impactos altistas" na inflação causados pelo fenômeno El Niño. Isso tudo ajuda a pressionar câmbio e bolsa.

Especialistas avaliam que cenário de incerteza, aversão ao risco e volatilidade tendem a seguir, mas sem sobressaltos como o da segunda-feira. Uma possível reversão, com valorização do real frente ao dólar e recuperação do Ibovespa, depende de sinais do governo sobre pontos como formação da equipe econômica e próximos passos da política fiscal.

Outro ponto que pode provocar uma recuperação é a tão aguardada escolha do próximo ministro da Fazenda. Os principais nomes especulados são o vice-presidente, Geraldo Alckmin, e o governador reeleito do Piauí, Rafael Fonteles. 

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