sábado, 31 de outubro de 2026

31 de Outubro de 2026
COM A PALAVRA

Entrevista exclusiva

Com a Palavra - Jair Soares - Ex-governador do Rio Grande do Sul

"Ninguém deve chegar aos cargos mais altos tocando de ouvido"

A série Memórias do Piratini resgata a história política do Rio Grande do Sul a partir das decisões tomadas na sede do governo estadual por ex-ocupantes do palácio. Nesta edição, o ex-governador Jair Soares, que acumula mais de sete décadas de vida pública, relembra os bastidores da transição democrática, a acirrada campanha de 1982, o legado de sua gestão na saúde e a convivência republicana com adversários históricos. 

Ele aborda os aprendizados desde a infância no bairro Glória, na Capital, e as origens no esporte até a ascensão técnica na administração pública, passando pelos desafios de estruturar uma campanha vitoriosa em meio ao redemoinho da redemocratização nacional. A entrevista faz parte da série Memórias do Piratini, publicada no YouTube de GZH.

Governador, o senhor começou muito cedo na vida pública e passou por diversas funções antes de chegar ao Palácio Piratini. Como a sua infância, a vivência na Glória e a experiência no futebol moldaram o político que o senhor se tornou?

A política veio de berço, mas muito disso nasceu na vivência cotidiana e na disciplina rigorosa que aprendi em casa, no convívio com meus irmãos e pais, e no esporte. Joguei futebol profissionalmente e aprendi cedo o valor inestimável do trabalho em equipe. No colégio, por incentivo de uma professora, já liderava o Grêmio Esportivo Tuiuti aos seis ou sete anos de idade. Na vida adulta, fiz questão de subir cada degrau da administração pública, desde o almoxarifado de obras públicas até secretarias de Estado e o Ministério da Previdência. Sempre defendi que ninguém deve chegar aos cargos mais altos tocando de ouvido; é preciso preparo técnico sólido, equipe qualificada e conhecimento profundo da máquina pública.

O senhor assumiu o governo do Estado em 1982, em plena redemocratização e sob forte polarização política. Como foi estruturar aquela campanha e vencer adversários como Pedro Simon, Alceu Collares e Olívio Dutra?

Foi uma eleição extremamente disputada, acirrada e definida margem a margem até o último momento. Meus adversários eram figuras fortíssimas, com imenso apelo popular e trajetórias consolidadas. O senador Pedro Simon, por exemplo, vinha de duas décadas como principal líder da oposição. Sabendo da grandiosidade do desafio, profissionalizei a minha campanha. Criei uma estrutura organizada, estudei estratégias modernas de comunicação e visitei todos os municípios do Estado com disciplina rígida, baseada no contato direto com a população. A vitória histórica coroou um trabalho prévio muito forte que eu já havia realizado ao longo dos anos na vida pública, especialmente nos meus oito anos à frente da Secretaria de Saúde e Meio Ambiente.

Antes de comandar o RS, o senhor teve papel de destaque na Saúde, onde o Estado erradicou a varíola e expandiu o atendimento de forma inédita. De que maneira essa entrega técnica cacifou seu nome para a disputa ao governo?

A saúde pública estava totalmente desacreditada e carente de estrutura quando assumi a pasta estadual. Fizemos um diagnóstico institucional rigoroso e construímos quase mil postos de saúde em parceria direta com os municípios, equipando cada um deles adequadamente. Além disso, criamos o laboratório farmacêutico do Estado para produzir medicamentos essenciais e montamos um sistema pioneiro de multivacinação em larga escala. 

Combatemos doenças graves e incapacitantes, como a paralisia infantil e o sarampo, chamando a atenção positiva da Organização Mundial da Saúde. Esse trabalho revolucionário deu enorme capilaridade em todo o Rio Grande do Sul e garantiu o respeito absoluto dos servidores públicos, provando na prática que a gestão técnica entregava resultados concretos à população.

O senhor vinha de uma trajetória ligada a governos do período militar e assumiu o Estado em meio aos intensos anseios populares por liberdade. Sofreu algum tipo de resistência, restrição ou preconceito da sociedade por causa dessa origem?

Me cuidei muito e trabalhei intensamente para que isso não acontecesse, pautando toda a minha gestão pela transparência absoluta, pelo total respeito às instituições democráticas e pelo foco incansável nas demandas reais da população. O meu sólido lastro técnico, aliado ao reconhecimento público do trabalho realizado na Saúde e na Previdência Social, falou muito mais alto junto aos gaúchos. Além disso, a minha relação institucional e pessoal com lideranças da oposição sempre foi pautada pelo mais estrito respeito republicano. 

Com o próprio Pedro Simon, mesmo disputando eleições duras e polarizadas, mantivemos uma convivência de altíssimo nível, sempre pautada pelo diálogo civilizado e pela defesa intransigente dos interesses maiores do Rio Grande do Sul.

Uma das marcas fortes da sua trajetória foi o enfrentamento corajoso de problemas complexos, como a poluição ambiental. Como o senhor lidou com episódios emblemáticos de grande repercussão pública, a exemplo do caso da Borregaard?

A questão ambiental da Borregaard representava um problema gravíssimo que afetava a qualidade do ar de Porto Alegre e gerava intensa e justa pressão da opinião pública e da imprensa. Nós nos antecipamos com embasamento estritamente técnico e científico, criando estações modernas de monitoramento da qualidade do ar e firmando convênios estratégicos com organismos internacionais de referência. 

Assumimos a responsabilidade fiscalizadora com firmeza inegociável e concedemos prazos claros e rigorosos para a devida adequação ambiental da empresa. Esse episódio emblemático demonstrou de forma inequívoca que a administração pública precisa ter coragem para aplicar a lei com rigor e defender o interesse coletivo, doa a quem doer. 



31 de Outubro de 2026
OPINIÃO RBS

A crise reputacional do Supremo Tribunal Federal (STF) tornou a Corte pauta central da eleição no primeiro turno. Não haveria como ser diferente, diante da indignação da sociedade brasileira não apenas com as relações nebulosas de ministros com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, mas com a recorrência de condutas que configuram conflito de interesses, a politização do tribunal, a autoproteção e o abuso de decisões monocráticas. Recuperar a confiança na cúpula do Judiciário é essencial para a sobrevivência do próprio Estado democrático de direito.

Embora o STF tenha sido tema ausente no segundo turno, episódios do último domingo demonstram que se mantém intacta a necessidade de examinar os excessos de ministros, e de alertar para que não caiam no esquecimento fatos que pedem investigação formal. A exigência de abertura de um inquérito para esclarecer o vínculo do ministro Alexandre de Moraes com Vorcaro, por exemplo, continua. A toga não pode tornar ninguém acima da lei.

Decisões no mínimo desastradas dos ministros Cristiano Zanin e Moraes contribuíram para tumultuar a eleição e alimentar a turbulência política. Zanin foi imprudente ao determinar que as seções eleitorais de todo o país permanecessem abertas até as 19h de domingo. Moraes foi ao menos açodado, se é que não agiu por estratégia de sobrevivência na Corte, ao determinar a apreensão do passaporte do senador Flávio Bolsonaro (PL) logo após a definição do pleito. Decisões como essa precisam ter lastro em atos reais do investigado, não em suposições. Antes do primeiro turno, uma série de deliberações monocráticas de membros do STF e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) chegou a inviabilizar o debate programado pela Rede Globo.

O desconforto da população com o STF se refletiu no resultado do primeiro turno. O PL, partido mais vocal na defesa do afastamento de ministros, elegeu 19 senadores e, a partir de 2027, terá 28 dos 81 membros da Casa. Estima-se que, na próxima legislatura, a bancada pró-impeachment tenha ao menos 49 nomes. É do Senado a atribuição constitucional de destituir ministros do Supremo por crime de responsabilidade.

Sobre Moraes, convém lembrar que a vexaminosa sessão de 15 de setembro deste ano, destinada a deliberar sobre a abertura de uma investigação contra o ministro, foi encerrada com um pedido de vista do colega Flávio Dino. Assim, o caso volta a ser analisado até meados de dezembro. Os ministros Dias Toffoli e Kassio Nunes Marques são outros com explicações a dar e um inquérito seria o caminho adequado. A discussão sobre um código de conduta para a Corte também precisa avançar.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, antes de ser reeleito, defendeu uma reforma do Judiciário. É imperioso aperfeiçoar o processo de indicação de ministros, para evitar nomes escolhidos apenas pela expectativa de fidelidade absoluta ao padrinho e ao seu grupo político. Mas volta a ser cogitada uma nova tentativa para emplacar o advogado-geral da União, Jorge Messias. Se Lula for adiante com a ideia, prestará um desserviço à instituição que deveria ter membros leais apenas à Constituição. 

OPINIÃO RBS



31 de Outubro de 2026
POLÍTICA E PODER - Rosane de Oliveira

Tarcísio compartilha post de Michelle e sinaliza com aliança

Cada movimento do governador de São Paulo, Tarcísio Gomes de Freitas (Republicanos), precisa ser interpretado à luz de uma das cláusulas pétreas do jogo político: não existe vazio de poder. Ao admitir que poderá ser candidato em 2030, Tarcísio está dizendo aos enlutados da eleição de domingo que está fardado para concorrer e isso não desrespeita o senador Flávio Bolsonaro, que ainda está curando as feridas da derrota.

Não desrespeita porque Flávio deixou o espaço vazio ao fugir para Miami e, na primeira manifestação (depois editada), se declarar o "verdadeiro presidente eleito do Brasil". Tarcísio tratou de ocupar esse espaço antes que outro nome da direita o faça. E procurou mostrar que respeita as regras do jogo democrático, reconhece a vitória do presidente Lula e é preciso agir com maturidade.

O governador de São Paulo estava articulando a candidatura neste ano, quando Jair Bolsonaro resolveu lançar o filho. Mesmo contando com o apoio do PIB e do mercado financeiro, Tarcísio se recolheu, em respeito a Bolsonaro, de quem se considerava devedor. Focou na reeleição e ganhou no primeiro turno com folga. Dedicou-se à campanha de Flávio no segundo turno e quitou a dívida de gratidão.

Ele e os líderes dos principais partidos de centro-direita sabem que não existe líder em modo remoto. Mesmo que use as ferramentas de internet para se comunicar, a liderança é atividade presencial.

E mostrou isso na sexta-feira, ao compartilhar um post da senadora eleita Michelle Bolsonaro (PL-DF), publicado nos stories do Instagram. Nele, Michelle responde indiretamente aos bolsonaristas que acusam Tarcísio de traição por dizer que poderá ser candidato e indica que mantém sua posição histórica de apoio ao governador de São Paulo.

"Notícias falsas"

Michelle diz que ela e Bolsonaro têm conversado sobre a eleição, que seu "galego" é muito grato a todos os que se empenharam pela candidatura de Flávio e se entristece "quando vê notícias falsas, atribuindo a ele manifestações mentirosas, que pregam a divisão, apontam injustamente supostos culpados e afirmam exatamente o contrário do que ele verdadeiramente sente por pessoas como Damares, Tarcísio, Nikolas, Silas Malafaia e outros que estão sendo atacados: muito respeito, carinho e gratidão". _

Guilherme Pasin deve ser indicado como conselheiro do TCE na vaga de Marco Peixoto, que completa 75 anos em agosto de 2030.

Líder do governo e chefe da Casa Civil de Zucco atuarão para acalmar aliados

Anunciado como futuro líder do governo de Luciano Zucco na Assembleia, o deputado Guilherme Pasin (PP) vai procurar os presidentes dos partidos aliados na próxima semana para explicar a lógica da indicação dos secretários. Com ele estará o futuro chefe da Casa Civil, Leandro Sonne.

Aos dois caberá a tarefa de fazer a articulação com a Assembleia e com os partidos que apoiaram o governador eleito ou entrarão para a base do governo, caso do MDB e do PSD.

- Na campanha, Zucco disse que iria buscar os melhores para governar e está fazendo isso - disse Pasin à coluna.

O deputado e o chefe da Casa Civil mostrarão aos aliados que eles serão beneficiados pelos avanços que o governo conquistar com secretários tecnicamente preparados. E que não devem se preocupar com o espaço restrito no primeiro escalão, porque terão cargos no segundo e terceiro escalões. _

Tarso Genro recebe título de Doutor Honoris Causa

Em celebração aos seus 20 anos, a Universidade Federal do Pampa (Unipampa) homenageou um dos responsáveis pela sua criação com sua mais alta distinção. O ex-governador Tarso Genro recebeu na quinta-feira o título de Doutor Honoris Causa da instituição, em reconhecimento pela articulação à frente do Ministério da Educação, que comandou entre 2004 e 2005, para implantar a universidade.

Em seu pronunciamento, Tarso lembrou das mobilizações das comunidades regionais que reforçaram o interesse da sociedade e impulsionaram a criação da Universidade Federal do Pampa.

O ex-governador mencionou ainda a atuação de figuras como Luiz Fernando Mainardi, Estilac Xavier e Paulo Pimenta na interlocução com o MEC para destravar a demanda. _

Centrão prepara entrada no governo Lula

A coisa mais certa que se tem antes de uma eleição é que, seja quem for o vencedor, o centrão estará no governo. Os principais partidos que formam o centrão evitaram lançar candidato próprio ou apoiar formalmente um dos concorrentes. Preferiram gastar o dinheiro do fundo eleitoral na campanha de candidatos a deputado federal ou lançar candidatos sem grandes chances.

Com o presidente Lula reeleito, a aproximação já começou. Aliás, teve início antes da eleição, com o esforço dos presidentes da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB) e do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP) pela aprovação do fim da escala 6x1, uma das principais pautas de Lula. O que os dois querem? O apoio dos aliados do governo para continuarem no comando do Congresso.

Lula vai oferecer ministérios, estatais e cargos à mancheia porque precisa de votos para aprovar projetos na Câmara e no Senado. _

Programa RS Seguro inspira governador de São Paulo

Depois de ler uma entrevista do governador de São Paulo, Tarcísio Gomes de Freitas, elogiando o programa RS Seguro, Eduardo Leite mandou mensagem agradecendo pela referência e recebeu um convite para conversar. Na sexta-feira os dois se encontraram no Palácio dos Bandeirantes e conversaram sobre cooperação na segurança pública e sobre o cenário político.

Na entrevista ao Estadão, Tarcísio disse o seguinte:

- Pretendo adotar uma iniciativa semelhante à de Eduardo Leite no Rio Grande do Sul, que considero uma boa prática e que funcionou bem por lá. Vamos reproduzi-la aqui em São Paulo.

Diante do reconhecimento do governador de São Paulo, espera-se que seu amigo Luciano Zucco mantenha o programa no Estado e valorize o trabalho do delegado Antônio Carlos Padilha, secretário-executivo do programa. _

POLÍTICA E PODER

31 de Outubro de 2026
REPORTAGEM

Lula 4: entre o fôlego da reeleição e o desafio do Congresso

Rumo a seu quarto mandato, petista busca alinhamento com presidentes da Câmara e do Senado para enfrentar direita fortalecida no pleito. Propostas ligadas a benefícios diretos à população tendem a reunir consenso com mais facilidade

A exemplo do que aconteceu entre 2023 e 2026, o presidente reeleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT) deve enfrentar no quarto mandato um Congresso com base aliada fragilizada, principalmente no Senado, onde a direita bolsonarista saiu fortalecida da eleição.

A virada histórica no segundo turno robusteceu Lula e os presidentes da Câmara, Hugo Motta (Republicanos- PB), e do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), que deverão ter o apoio do Palácio do Planalto para se reeleger aos comandos das Casas. É uma estratégia que busca manter o controle da agenda legislativa nas mãos de lideranças próximas ao governo, mesmo que as relações entre Lula, Alcolumbre e Motta sejam marcadas por altos e baixos.

A decisão de Flávio Bolsonaro (PL) de deixar o Brasil rumo aos Estados Unidos após ser derrotado na eleição presidencial, com a atabalhoada publicação de uma carta em tom golpista, também abre uma incerteza sobre quem irá liderar a oposição no país. Nos bastidores, a avaliação é de que a fuga de Flávio amplia o racha e a desarticulação na direita, fatores que contribuem para uma largada favorável ao governo Lula 4.

A composição do Congresso aponta para um cenário em que Lula deve ter dificuldade para aprovar projetos de lei polêmicos e pautas identificadas com a esquerda. Segundo o cientista político Daniel de Neque, está se esfarelando a lógica em que o chefe do Executivo formava ampla base a partir do loteamento dos ministérios. Na atual conjuntura, centenas de parlamentares preferem ficar no Congresso distribuindo emendas e fazendo suas próprias agendas, em vez de assumir os compromissos e lidar com as cobranças que envolvem a titularidade de um ministério.

- O presidencialismo de coalizão tem perdido força, principalmente com as emendas parlamentares impositivas - afirma.

Para o cientista político e professor do Insper Fernando Schüler, a "atração exercida pelos cargos no governo é relativamente menor" e Lula tende a manter a estrutura central do governo nas mãos do PT:

- O Congresso hoje tem muito mais autonomia. Os instrumentos de barganha do Executivo ficaram mais fracos com a execução impositiva das emendas.

Apoio do centrão

Considerando os partidos que o apoiaram na eleição, Lula terá 124 deputados federais e 16 senadores. Será fundamental buscar o apoio de partes das bancadas do centrão, em siglas como PSD, MDB, Republicanos e Avante e na federação União Brasil/PP. O oposicionista PL será o maior partido da Câmara, com 121 deputados, e do Senado, com 28 assentos.

Um levantamento feito por Daniel de Neque por espectro político aponta que a direita pode ter 50 dos 81 senadores e 278 dos 513 deputados federais. Os números demonstram que o conservadorismo estará em maior número do que a centro-esquerda e o lulismo no Congresso.

Por outro lado, Schüler ressalta que falta coesão nas legendas. O União Brasil, por exemplo, é apontado frequentemente como um partido identificado com a direita, mas tinha ministérios no governo Lula 3.

- O que existe no Congresso são dois partidos de oposição, o PL e o Novo. Eles são minoritários, têm 131 votos (na Câmara). O Brasil não é um país em que as demarcações ideológicas definem o jogo político. Não vejo impeditivo para que Lula forme uma base relativamente estável no Congresso - comenta Schüler.

Demandas de fora

De Neque tem visão mais pessimista e avalia que o presidente irá enfrentar dificuldades na relação com os parlamentares no quarto mandato. Caso isso se confirme, o governo ainda deve conseguir avançar em propostas populares e apoiadas pela sociedade, de fora para dentro do Congresso, como aconteceu na aprovação do fim da escala de trabalho 6x1, na isenção do Imposto de Renda para quem recebe salário de até R$ 5 mil e no perdão de dívidas e ampliação do limite anual de faturamento dos microempreendedores individuais (MEIs):

- É difícil lembrar de uma pauta que o governo Lula tenha aprovado recentemente e que não seja de apelo popular. O governo tem trabalhado com demandas que vêm de fora.

Já agendas reformistas precisam, conforme Schüler, de bases aliadas fortes para mexer com interesses e direitos na Previdência, no mercado de trabalho e na máquina pública, por exemplo, o que impõe maior dificuldade.

- O governo Lula é de corte distributivista e populista. Para aprovar medidas que são chamadas de "bondades", não precisa de maioria. A oposição vota junto - comenta Schüler.

Uma iniciativa que tende a contar com apoio popular é a adoção da tarifa zero no transporte coletivo aos finais de semana e feriados, promessa da reta final de campanha. Lula já enviou ao Congresso proposta de emenda à Constituição (PEC) prevendo utilizar pelo menos 26,8% dos recursos das emendas parlamentares impositivas para custear a gratuidade nos ônibus nos finais de semana.

Teste para a estratégia

Conforme dados do governo federal, a lei orçamentária de 2027 tem a previsão de gasto de R$ 44,8 bilhões com emendas de execução obrigatória. Pela PEC, cerca de R$ 12 bilhões seriam destinados para bancar a tarifa zero. Será um teste para a estratégia do governo Lula, que tentará usar uma pauta popular para carimbar uma fatia das emendas dos deputados federais e senadores.

Existem avaliações de que, para além das matérias de apelo popular, Lula governará fazendo uso de medidas provisórias (MPs), que entram em vigor no ato da publicação. Depois, elas têm prazo de até 120 dias para serem aprovadas pelo Congresso e virarem leis. No caso de MPs populares, o presidente deixaria o eventual desgaste de derrubar as políticas na conta dos parlamentares. _ Carlos Rollsing

carlos.rollsing@zerohora.com.br

Vácuo na oposição reduz a tensão sobre o Supremo

No Senado, a bancada bolsonarista estará reforçada e poderá se articular para barrar indicações de Lula para o Supremo Tribunal Federal (STF), a Procuradoria-Geral da República (PGR) e outros cargos que passam pelo crivo da Casa. A vaga do ministro aposentado Luís Roberto Barroso segue aberta, depois de o Senado ter rejeitado em abril de 2026 a indicação de Jorge Messias.

A histórica derrota aconteceu no momento em que o Palácio do Planalto havia se distanciado de Alcolumbre. Na reta final das eleições, a reaproximação foi costurada e o cacique do Senado colocou em votação o fim da escala 6x1. As avaliações são de que Lula buscará conservar as relações com os presidentes das Casas legislativas.

Aposentadorias

No próximo mandato do petista, mais três ministros do Supremo devem deixar a Corte por alcançarem os 75 anos, quando acontece a aposentadoria compulsória: Luiz Fux, em abril de 2028, Cármen Lúcia, em abril de 2029, e Gilmar Mendes, em dezembro de 2030.

Na interpretação do cientista político Fernando Schüler, o resultado do segundo turno reforçou o "sistema de poder" representado por Lula, parte dos ministros do STF e os presidentes da Câmara e do Senado.

A avaliação dele é de que se enfraqueceram as hipóteses de impeachment defendidas pelas bases bolsonarista e de direita conservadora. Esse cenário é reforçado pelo vácuo temporário na liderança da direita após a fuga de Flávio Bolsonaro.

- Esse sistema de poder foi vitorioso na eleição, está intacto e reforçado. No curto prazo, a dinâmica de poder é favorável à estrutura que ganhou. No médio prazo, isso pode mudar. A política é dinâmica e talvez surja uma nova liderança em torno do Tarcísio de Freitas (governador reeleito de São Paulo) - diz Schüler. _

Incerteza fiscal mantém a pressão sobre dólar e bolsa

Anderson Aires

anderson.aires@zerohora.com.br

Após passar por um choque de expectativas no pós-eleição, que provocou a maior alta diária do câmbio em 27 anos e uma parada temporária da bolsa, o mercado financeiro fechou a primeira semana pós-segundo turno ainda com sinais de ressaca. Depois de oscilações na semana, o dólar encerrou a sexta-feira cotado a R$ 5,444, anotando alta de 0,76% ante o pregão da segunda-feira - o primeiro após o resultado que confirmou Luiz Inácio Lula da Silva por mais quatro anos como presidente da República. Já o Ibovespa, principal índice da B3, ficou em 167.921 pontos, amargando queda de 4,92% ante o início da semana. Na comparação com a sexta-feira passada, a instabilidade fica ainda maior (veja no infográfico).

Além da instabilidade provocada pelo resultado eleitoral, o mercado atravessa um período de espera por informações mais claras sobre os próximos passos do governo nas áreas econômica e fiscal. Alguns ruídos externos, como a expectativa sobre os juros nos EUA, também ajudam a aumentar as pressões.

Professor da Escola de Administração da UFRGS e doutor e mestre em Finanças, Guilherme Ribeiro afirma que ainda há forte desconfiança no mercado em relação à credibilidade do arcabouço fiscal. Como a gestão atual tem um histórico de ruídos na condução do arcabouço e na utilização de gastos por fora do limite, os agentes econômicos mantêm cautela, avalia o docente:

- As notícias foram muito negativas nesta semana, e o Lula ainda não veio a público. Ele disse que vai fazer algum pronunciamento semana que vem, e o mercado tem receio de que esse anúncio não seja sobre a questão fiscal. Então, a tendência é de nervosismo e realmente uma bolsa um pouco depreciada.

João Daronco, head do time de ações da Suno Research, destaca que o recuo do Ibovespa e a movimentação do dólar são esperados devido ao encerramento do "trade eleitoral", quando os ativos passaram a refletir novamente as expectativas em relação ao governo Lula, o que foi acompanhado pela saída de recursos das posições em ativos brasileiros e pela reprecificação dos juros futuros:

- Com a "volta à normalidade", que era o cenário de Lula, a gente tem uma volta ao mercado do que era antes desse cenário eleitoral.

O especialista complementa que esse quadro de incertezas sobre os rumos da política fiscal e econômica do governo é agravado pelas discussões sobre a reforma tributária em um contexto de aumento de falências corporativas, além de possíveis "impactos altistas" na inflação causados pelo fenômeno El Niño. Isso tudo ajuda a pressionar câmbio e bolsa.

Especialistas avaliam que cenário de incerteza, aversão ao risco e volatilidade tendem a seguir, mas sem sobressaltos como o da segunda-feira. Uma possível reversão, com valorização do real frente ao dólar e recuperação do Ibovespa, depende de sinais do governo sobre pontos como formação da equipe econômica e próximos passos da política fiscal.

Outro ponto que pode provocar uma recuperação é a tão aguardada escolha do próximo ministro da Fazenda. Os principais nomes especulados são o vice-presidente, Geraldo Alckmin, e o governador reeleito do Piauí, Rafael Fonteles. 

31 de Outubro de 2026
INFORME ESPECIAL - Rodrigo Lopes

A eleição que pode limitar o poder de Trump

Donald Trump não estará na cédula na terça-feira. Mas sua figura estará no centro das eleições de meio de mandato, as chamadas midterms. Os americanos irão às urnas para decidir se mantêm a maioria do Partido Republicano nas duas Casas do Congresso ou se entregam aos democratas o poder de limitar a atuação do presidente.

As pesquisas apontam cenário desfavorável para Trump, especialmente na Câmara dos Representantes. A dúvida é o tamanho de uma eventual derrota: restrita à Câmara ou ampliada ao Senado, onde o caminho para uma maioria democrata é mais difícil.

Aos números: na terça-feira, estarão em disputa todas as 435 cadeiras da Câmara e 35 do Senado, sendo 33 eleições regulares e duas especiais. Com a Câmara completa, são necessárias 218 cadeiras para garantir a maioria. Portanto, os democratas precisam conquistar pelo menos quatro assentos a mais do que ocupam hoje para alcançar esse número. Para assumir também o controle do Senado, os democratas precisam de um ganho líquido de quatro cadeiras, chegando a 51 dos cem assentos.

O retrospecto joga contra Trump. Historicamente, o partido do presidente costuma perder cadeiras nas eleições de meio de mandato, realizadas a cada dois anos entre as disputas presidenciais. Nas últimas 20 midterms, em apenas duas ocasiões o partido no poder conseguiu ampliar sua bancada na Câmara: em 1998, com Bill Clinton, e em 2002, com George W. Bush. No primeiro mandato de Trump, em 2018, os republicanos perderam 41 cadeiras na Câmara, embora tenham ampliado sua bancada no Senado.

O governo também enfrenta uma popularidade muito baixa. Segundo a média de pesquisas da CNN divulgada em 27 de outubro, apenas 34% dos americanos aprovam Trump, enquanto 64% desaprovam sua gestão. Na mesma média, os democratas lideram a preferência nacional para a Câmara por 52% a 43%.

Como o eleitor costuma votar de olho no bolso, o desgaste econômico é um problema importante para o governo. A economia, que ajudou Trump a vencer em 2024, agora representa um obstáculo político. Ele voltou à Casa Branca prometendo controlar a inflação, reduzir preços e recuperar o poder de compra.

As pesquisas indicam que muitos americanos não percebem essa melhora. Segundo levantamento da Associated Press em parceria com o instituto Norc, apenas 17% aprovam sua atuação no combate ao custo de vida; 26% aprovam sua gestão econômica; e 65% responsabilizam suas políticas pela persistência dos preços elevados. Até entre os próprios republicanos, há insatisfação: cerca de seis em cada 10 desaprovam sua atuação em relação ao custo de vida.

E é aí que algo menos comum nas disputas eleitorais americanas ganha importância: a política externa, que raramente decide uma eleição legislativa, tornou-se também um assunto doméstico.

A guerra contra o Irã e a política tarifária de Trump fizeram as decisões internacionais desembarcarem no orçamento das famílias. O impacto aparece nos preços dos combustíveis, pressionados pelo conflito, e nos custos de produtos atingidos pelas tarifas comerciais.

Precedente

Há um precedente histórico. Em 2006, George W. Bush enfrentou eleições de meio de mandato marcadas pela impopularidade da Guerra do Iraque. Os republicanos perderam o controle das duas Casas do Congresso.

Se os democratas conquistarem a Câmara, poderão abrir investigações, convocar audiências, controlar a pauta legislativa e exercer maior pressão sobre o Executivo, inclusive nas negociações orçamentárias. Se conquistarem também o Senado, passarão a controlar a tramitação das indicações presidenciais, incluindo integrantes do governo e juízes federais. O controle das duas Casas ampliaria a capacidade de fiscalização e de bloqueio à agenda legislativa de Trump, embora não eliminasse seus poderes executivos.

Há, ainda, a possibilidade de um novo processo de impeachment. A Câmara pode aprovar a acusação por maioria simples. Já a condenação e a destituição dependem do voto de dois terços dos senadores presentes - 67, caso todos os cem participem da votação.

Trump conhece bem esse caminho: enfrentou dois processos de impeachment em seu primeiro mandato, e foi absolvido pelo Senado nas duas ocasiões. Nenhum deles resultou em sua destituição, mas ambos produziram desgastes que contribuíram para sua derrota em 2020 para Joe Biden. _

Papa já votou

O papa Leão XIV votou nas midterms, as eleições de meio de mandato dos Estados Unidos. Robert Prevost, como cidadão americano, tem o direito à participação no pleito eleitoral. A informação foi divulgada pelo Vaticano na sexta-feira.

Conforme comunicado da Santa Sé, o papa Leão XIV "exerceu seu direito de voto como cidadão dos Estados Unidos sempre que teve oportunidade" e a ação está "em consonância com esta prática consolidada de participação cívica". O Pontífice enviou o seu voto pelo correio para Chicago, sua cidade natal.

Segundo a CNN Internacional, Leão XIV seria o primeiro papa a votar em uma eleição democrática. _

Presidente do STF receberá título de Doutor Honoris Causa

O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Edson Fachin, receberá, na próxima semana, o título de Doutor Honoris Causa da Unisinos. A honraria será entregue na próxima sexta-feira, no campus da universidade em Porto Alegre.

Segundo a instituição, a outorga integra a programação comemorativa dos 60 anos do curso de graduação em Direito e dos 30 anos do Programa de Pós-Graduação em Direito (PPGDireito) da universidade.

A agenda comemorativa inclui ainda atividades voltadas aos temas de direitos digitais e inteligência artificial, com a participação de palestrantes internacionais e pesquisadores.

Jurista, acadêmico e magistrado brasileiro, atual presidente do STF e do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), Edson Fachin é natural de Rondinha, no norte do Estado. _

Caças em treinamento de ataque

Quem estava pela região central de Porto Alegre na última quinta-feira percebeu uma cena inusitada: o rasante de cerca de 12 caças da Força Aérea Brasileira (FAB) sobre a Capital.

De acordo com a FAB, eram aeronaves de caça F-5M realizando um treinamento de ataque ao solo. As missões partiram de Santa Maria e foram executadas no Estande de Aviação de Saicã, em Cacequi. Os voos táticos envolveram o Primeiro Grupo de Aviação de Caça, sediado na Base Aérea de Santa Cruz (RJ), e o Esquadrão Pampa, sediado na Base Aérea de Canoas.

A tendência é de que, ao sobrevoarem Porto Alegre, os caças estivessem em rota de regresso para a base canoense. _

Cirurgia cardíaca robótica

O Hospital Moinhos de Vento realizou, nesta semana, a primeira cirurgia cardíaca robótica intracardíaca do RS. O paciente, o morador de Lajeado Eduardo Menegazzi, de 48 anos, foi submetido a uma plastia da válvula mitral - procedimento que reconstrói a estrutura para corrigir a insuficiência que provocava o refluxo de sangue no coração.

Diferente da cirurgia convencional, que exige a abertura do osso esterno, no peito, a técnica robótica introduz os instrumentos por meio de pequenas incisões no tórax. O robô não atua de forma autônoma: o cirurgião comanda os braços articulados a partir de um console.

A intervenção foi coordenada pelos cirurgiões cardiovasculares Eduardo Saadi e Rodrigo Saadi. A preparação envolveu a direção do hospital, o chefe do serviço de cirurgia e robótica, André Berger, e as equipes de anestesia, perfusão, ecocardiografia e enfermagem. _

sábado, 24 de outubro de 2026



24 de Outubro de 2026
CARPINEJAR

A guitarra silenciada

Eu confessei, nesta coluna, que não me dou bem com encomendas. O trauma é justificado. Com a minha filha, cometi uma gafe irreparável.

Aos 17 anos, Mariana se mudou de Brasília para Porto Alegre e me confiou uma missão: trazer sua guitarra. Eu iria palestrar na capital federal.

Falei, claro, que contasse comigo. Mesmo sabendo que minha estada seria apertada, de um dia para o outro. Mesmo sabendo que eu não retornaria diretamente para Porto Alegre, ainda faria uma apresentação em Maceió.

Desprovido de experiência com um instrumento, sequer tinha noção se deveria despachar ou não - minha vida de artista no microfone se resume à palavra. Eu jurei que se tratava de uma chance de ganhar alguns pontos na paternidade, no meio da contestação da adolescência. Substituiria o débil discurso pela veemência do gesto.

Para não errar, eu me programei para recuperar o seu tesouro antes do evento. Assim não correria riscos de deixar para a última hora e arcar com imprevistos. Levei a guitarra para o hotel. Ela dormiu ao meu lado. Transportei a guitarra a bordo. Cuidava para que ninguém a danificasse em seu estojo. Eu a embalava nos braços.

Carregava a minha filha novamente no colo - era essa a minha sensação. Nunca me preocupei tanto com um objeto, para não estragá-lo, para não perdê-lo de vista.

Eu me tornei um guardião implacável. Ao extremo de almoçar e jantar no quarto. Ao extremo de conversar com a Fender Stratocaster como se fosse meu cupido: que entoasse depois para Mariana, com suas cordas, com suas canções, o amor que sinto por ela. Que me ajudasse a ser um pai mais próximo, afinado e presente.

Fiquei antissocial na viagem. Só desejava ir para casa e entregar a incumbência sã e salva. Na verdade, ansiava receber um abraço e um beijo de recompensa, talvez um "eu te amo" que a gratidão arranca do mais fundo da palpitação.

Quando pousei em Porto Alegre, finalmente relaxei. Nada mais me tiraria os méritos. Eu me dirigi até o carro. Abri o porta-malas, coloquei minha bagagem e parti para o lar, para rever minha filha com o sacerdócio do resgate cumprido.

Eu ria sozinho, eu cantava as músicas do rádio, eu vibrava com o sucesso da operação. Ao desembarcar na garagem, acabei tomado de um pânico: cadê a guitarra? Minhas malas se encontravam ali, mas a guitarra não.

Tonteei de nervoso. Numa velocidade impressionante de raciocínio, rebobinei os pormenores da minha chegada, quadro a quadro.

Já passaram mais de quinze anos e não sei explicar o que aconteceu. Eu observei Mariana me esperando na janela. Sem comentar coisa alguma, entrei no veículo, engatei a ré e voei de volta para o aeroporto.

Havia esquecido a guitarra no alambrado do estacionamento, perto de uma lixeira. Não a pus no bagageiro. Simplesmente permaneceu de pé, encostada na grade. Não estava mais lá. Alguém pegou. Alguém acreditou num estranho descarte. Nem posso chamar de furto.

Meu coração é que foi roubado. Mariana me perdoou, eu jamais. _

CARPINEJAR

24 de Outubro de 2026
MARCELO RECH

A segunda-feira é decisiva

É manhã de segunda-feira, 26 de outubro de 2026. O vencedor da eleição de domingo entrou pela noite em comemorações. Por isso, o presidente que tomará posse em 5 de janeiro acordou mais tarde, mas já não terá um segundo de descanso. A campanha foi tão disputada, e tão repleta de promessas mirabolantes, que o vencedor será cobrado, questionado e contestado a partir desta segunda-feira.

Sua primeira missão é mais complexa ainda do que arrumar dinheiro para fazer valer a promessalhada de palanque. Sua tarefa prioritária é juntar os cacos da nação. O fosso entre as duas metades - a esquerda e a direita - apenas se aprofundou nos últimos anos. As torcidas de Lula e dos Bolsonaro veem os apoiadores do outro lado como iludidos, na melhor das hipóteses, ou degradados morais, no mais das vezes. Nestes termos, não há entendimento possível se o presidente e suas forças políticas não absorverem as motivações alheias para detestá-los com tanto ardor.

O racha do país em blocos antagônicos vai bem além do problema político. Ele separa famílias, destrói amizades e apaga consensos mínimos em torno de agendas primárias, como a convivência em harmonia e o fato de que a nação deveria estar acima de questões eleitorais transformadas em batalhas de vida ou morte. Se não houver racionalidade, o futuro é sombrio. Seja quem for o vencedor, a partir de 6 de janeiro o governo tem tudo para dar errado do ponto de vista econômico, porque os dois candidatos prometeram o céu enquanto flertavam com o inferno fiscal. Quando essa conta não fecha, impopularidade, frustração popular e crises sociais são apostas certeiras.

Lá fora, embora as campanhas se mantivessem à margem do que ocorre no Exterior, a situação não ajuda. O mundo desenvolvido está atolado em dívidas, o extremismo avança, protestos violentos explodem em razão do desalento dos jovens e as guerras ameaçam se conectar para desembocar em conflito de alcance internacional. O Brasil pode tirar proveito da instabilidade ou ser tragado por ela. Depende de como o vencedor se portar.

Ele precisa agir rápido para desmontar rancores e lidar com os previsíveis desencantos. Terá de construir pontes e não alijar os adversários em um desterro moral sem saída. Para esfriar o ânimo bélico, ajudaria refrescar a memória do país dividido que o inimigo de hoje muitas vezes é o aliado de amanhã, como demonstram as forças que se uniram em torno de Lula e Flávio neste segundo turno. O discurso da vitória, ainda no domingo, será um prenúncio, mas é pelo comportamento do vencedor a partir desta segunda-feira que saberemos o que nos espera ali na frente. 

MARCELO RECH

OPINIÃO RBS

O vencedor e o vencido

O eleitor volta às urnas neste domingo para decidir pela continuidade na Presidência da República, com Luiz Inácio Lula da Silva (PT), ou pela alternância de poder, com Flávio Bolsonaro (PL). Por ser uma escolha que selará o destino do país pelos próximos quatro anos, espera-se que cada voto neste segundo turno resulte de uma profunda ponderação sobre os candidatos, suas propostas conhecidas, contradições e os projetos políticos que representam.

Flávio e Lula personificam duas visões inconciliáveis de país. Tamanhas diferenças, que se expressam em igual medida no tecido social brasileiro, ajudaram a criar o ambiente de uma campanha eleitoral que será lembrada como uma das mais rasteiras e rasas desde a redemocratização. Não apenas pela postura das candidaturas, mas pelo contexto da disputa, em meio ao escândalo do Banco Master e à crise moral do Supremo Tribunal Federal (STF). 

Propostas inverossímeis, abuso do populismo, profusão de acusações para elevar a rejeição do adversário, escassez de debates, uso da desinformação, contestações a ministros do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), arroubos censórios na Corte e suspeitas de interferência de big techs ajudaram a tumultuar e a degradar a qualidade da corrida ao Planalto. De positivo, até aqui, deve-se registrar a ausência de teorias conspiratórias sobre as urnas eletrônicas, que outra vez, no primeiro turno, tiveram desempenho modelar.

Os principais desafios do país, como a situação das finanças públicas, não foram discutidos de forma honesta. Se o festival de bondades prometidas à população for cumprido, o país seguirá com juros sufocantes para as famílias e para as empresas e a inflação permanecerá pressionada. Mas o choque de realidade está próximo. As áreas em que a população mais necessita do poder público, como saúde, educação e segurança, tampouco mereceram a atenção necessária dos candidatos.

Neste domingo, serão conhecidos o vencedor e o vencido. Ambos terão responsabilidades.

O acirramento dos ânimos na reta final da campanha aponta, infelizmente, para a manutenção da divisão profunda da sociedade. Diante desse cenário, seria extremamente salutar se, de certa forma contrariando as expectativas, existissem dos dois lados acenos ao apaziguamento. Ao vitorioso, cabe também saber vencer. No sentido de ter uma postura de incentivo à convivência civilizada entre os cidadãos que pensam diferente, de afirmar que governará para todos e de dar garantias de respeito à Constituição, aos valores democráticos e aos princípios da harmonia e da independência entre os poderes. Dar o exemplo confere maior força à liderança.

Do derrotado, aguarda-se uma postura de grandeza e de aceitação do resultado. Em 2023, o ex-presidente Jair Bolsonaro não passou a faixa a Lula. Há duas eleições presidenciais o perdedor não faz a tradicional ligação telefônica para o vencedor, para reconhecer o desfecho do pleito e cumprimentá-lo. Espera-se que esses gestos da liturgia republicana voltem a ser prática no país.

Os solavancos da democracia brasileira e os momentos tensos desta campanha e dos últimos anos, de qualquer forma, não sobrepujam o principal: haverá a certeza de que o veredito das urnas, seja qual for, será a materialização da vontade soberana da maioria dos eleitores.  


JUSTIÇA ELEITORAL

Ministro decide que canal pró-Lula só pode ser suspenso com aval do plenário

Decisão de Floriano de Azevedo Marques, do TSE, impede o próprio presidente da Corte, Nunes Marques, de tirar o grupo Exército do Lula do ar. Medida chega junto de outras questões envolvendo as campanhas na internet, entre elas, a moderação das big techs sobre conteúdo eleitoral

O ministro Floriano de Azevedo Marques, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), barrou a suspensão do canal Exército do Lula, operado pelo deputado federal André Janones (REDE- MG) no WhatsApp. Na decisão monocrática, tomada na sexta-feira, ele proíbe a Meta, dona da plataforma digital, de retirar o canal do ar mesmo se houver determinação judicial de outras ações que tramitam na Corte.

Também estabeleceu multa de R$ 50 mil diários à companhia em caso de descumprimento. O magistrado ainda impede que qualquer outro membro do TSE, inclusive o presidente, ministro Kassio Nunes Marques, tome decisão em sentido oposto até o fim do mandado de segurança.

A medida atende a pedido da campanha de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e, na prática, anula os efeitos de processos abertos por seu adversário, Flávio Bolsonaro (PL), para derrubar o canal. O petista entrou com mandado de segurança contra a iniciativa. A chapa de oposição sustenta que Janones praticaria uso abusivo da ferramenta para difundir informações falsas e passar "missões" a apoiadores do presidente, o que violaria a legislação eleitoral.

Na sexta-feira, Kassio Nunes Marques havia atendido ao pedido feito pela campanha de Flávio e determinou um pente-fino nas publicações do canal, que tem quase cerca de 10 milhões de inscritos. Já Azevedo Marques argumentou na decisão que a intenção de Flávio seria suspender as atividades do canal, embora o pedido não seja expresso na petição em que solicitou o pente-fino.

Para Azevedo Marques, o presidente do TSE não pode determinar a eventual suspensão do canal ao analisar administrativamente se o acordo de integridade do processo eleitoral está sendo cumprido. "Não há espaço interpretativo para que a atuação administrativa de fiscalização do plano de conformidade resulte em sanções diretas a candidatos, partidos e coligação e muito menos a pessoas naturais não participantes do pleito", escreveu.

Reunião com a Meta

Mais cedo, em nota, o TSE negou ter ordenado a retirada do ar de canais no aplicativo de mensagens. O texto foi divulgado após Janones ter alertado sobre a possível suspensão iminente do canal Exército do Lula.

O deputado enviou um vídeo pelo canal alertando ter informações de que o mesmo poderia ser retirado do ar pelo TSE após a Corte receber da Meta um relatório esmiuçando a atividade do Exército do Lula. A suspeita veio à tona após Nunes Marques ter dado 24 horas para a Meta apresentar um relatório técnico sobre o funcionamento do canal.

A nota foi divulgada após a cúpula do TSE ter se reunido, pela manhã, com representantes da Meta, dona também do Facebook e do Instagram, e de redes sociais como TikTok e Kwai. Na reunião, Nunes Marques pediu que as plataformas garantam o tratamento isonômico para as candidaturas. O TSE também requereu que as plataformas reforcem suas equipes na reta final da campanha e assegurem o cumprimento da legislação eleitoral. _

Pedidos mútuos de cassação

As duas campanhas encaminharam ao corregedor-geral da Justiça Eleitoral, Ricardo Villas Bôas Cueva, pedidos de cassação do registro de candidatura dos respectivos oponentes. A de Lula cita suspeitas no caso do filme Dark Horse, obra biográfica do ex-presidente Jair Bolsonaro. A de Flávio acusa o petista de uso eleitoral da Rádio Nacional.

A campanha de Lula pede a cassação da candidatura do PL por financiamento eleitoral ilícito, com base em informações da investigação sobre o filme. Alega que um aporte de US$ 12 milhões feito pelo dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, levanta suspeita sobre uso de recursos ilícitos na campanha eleitoral do oponente.

Já a defesa de Flávio acusa Lula de uso eleitoral da Rádio Nacional e pede que sejam coletadas gravações do programa Alô Alô Brasil, apresentado por Agostinho Luiz Teixeira. O documento lista série de ocasiões em que Teixeira teria replicado na rádio pública discurso similar ao da campanha de Lula. 


Por que o mundo olha para a eleição do Brasil

Maior país da América Latina, sétimo mais populoso do mundo e a décima economia do planeta, o Brasil, que irá às urnas, é observado com lupa pela chamada comunidade internacional. Na mão do eleito, seja Flávio Bolsonaro (PL) ou Lula (PT), estará o poder de desenhar uma política externa que irá impactar as relações políticas e comerciais para lados diferentes.

O Brasil é campo de batalha ideológica e geopolítica. A eventual eleição de Flávio será vista como uma vitória de forças anti-establishment (chamada de direita populista ou extrema direita a depender dos analistas), representada por Donald Trump, nos EUA, com aliados como Benjamin Netanyahu, em Israel, e partidos como Vox, na Espanha, Alternativa para a Alemanha (AfD), da Alemanha, Reunião Nacional, da França, e o Fidesz, da Hungria. São líderes que desqualificam as instituições multilaterais, como a ONU, a OMS e os acordos climáticos.

A eventual reeleição de Lula significará, aos olhos do mundo, a continuidade de uma política externa alinhada aos princípios do sistema multilateral.

Essas diferenças de pontos de vista se manifestam, na prática, em agendas também diversas na forma de abordar conflitos, disputas e questões geopolíticas. 

Principais tópicos

A coluna reúne os pontos que podem sofrer impactos a depender de quem for eleito neste domingo

EUA x China

O Brasil está no centro de uma disputa entre as duas potências que concorrem pela hegemonia da nova ordem global. A China é o maior parceiro comercial brasileiro. Os EUA são o segundo, mas o principal investidor estrangeiro no país. Por isso, o Brasil precisa preservar boas relações com as duas potências, mesmo diante da rivalidade entre Washington e Pequim.

Lula defende uma política externa de diversificação das alianças, com fortalecimento dos Brics e das relações com a China, sem romper com Washington.

Flávio propõe maior alinhamento político com os Estados Unidos de Donald Trump, especialmente em segurança e comércio, mas também reconhece a necessidade de preservar a relação econômica com os chineses.

O problema é que os interesses de Washington e Pequim estão em conflito. Aproximar-se politicamente de um lado pode provocar dificuldades com o outro. Manter a autonomia é desafio tanto para Flávio quanto para Lula.

América Latina

Os vizinhos estão de olho porque quem vencer vai manter um contrapeso de esquerda ou ampliar a maioria de governos de direita. Se a esquerda mantiver a presidência, o Brasil segue como principal governo de esquerda do continente, ao lado do Uruguai de Yamandú Orsi. Se passar para a direita, o Brasil se juntará a Argentina, Chile, Paraguai, Bolívia, Peru, Equador e Colômbia em uma configuração regional amplamente comandada pela direita. Para Donald Trump, que vê a América Latina como zona de influência, a eleição é fundamental. Uma vitória de Flávio favorece sua agenda, reduzindo a ação da China e da Rússia na América Latina. A vitória de Lula oferece uma resistência.

Relações com o Mercosul

O bloco econômico do Cone Sul sempre foi refém do desalinhamento ideológico entre os presidentes de cada país. A eleição vai influenciar a maneira como o Brasil abre sua economia e negocia acordos comerciais. Um exemplo é o acordo entre Mercosul e União Europeia, cuja parte comercial começou a ser aplicada provisoriamente em 1º de maio de 2026. O próximo governo terá papel importante na implementação das regras e no aproveitamento das oportunidades de exportação. Lula defende o fortalecimento do Mercosul como plataforma de negociação internacional. Flávio propõe maior flexibilidade para o Brasil estabelecer acordos comerciais, inclusive bilaterais.

Mudanças climáticas

O Brasil abriga a maior parte da Floresta Amazônica, fundamental para a biodiversidade e regulação do clima. Também é uma potência agrícola e energética. Isso faz com que decisões sobre desmatamento, combustíveis fósseis, agricultura e transição energética repercutam no mundo. Lula colocou a agenda climática entre as prioridades de sua política externa. Flávio Bolsonaro enfatiza o aproveitamento econômico dos recursos naturais, do agronegócio e critica exigências ambientais consideradas excessivas. O mundo se pergunta se o Brasil continuará exercendo protagonismo nas negociações e como conciliará conservação ambiental e desenvolvimento.

O Brasil na ordem mundial

O Brasil é integrante dos Brics, do G20 e de outras organizações multilaterais. Sua relevância também decorre da capacidade de dialogar com líderes que estão em lados opostos. Lula procura ampliar a influência dos países emergentes, defendendo reformas na governança internacional e o fortalecimento das instituições multilaterais. Flávio Bolsonaro questiona a atual orientação política dos Brics e prefere dar mais ênfase a relações bilaterais, sobretudo com EUA, Israel e Argentina. Com Lula, o Brasil continuará atuando como interlocutor entre diferentes blocos. Com Flávio, haverá preferência por alinhamentos com posições adotadas pelos EUA.

Melhor nível de debate

Graças às regras, o debate da TV Globo, na noite de sexta-feira, obrigou os candidatos Flávio Bolsonaro (PL) e Lula (PT) a versarem sobre propostas e os constrangeu a não fazer ataques e se reduzirem à linguagem de 5ª série. O show de horrores visto na Band, no domingo, foi, senão evitado, diminuído em muito. Houve propostas desta vez.

Na apresentação do mediador, o jornalista César Tralli, Flávio foi mais "imagético", postando-se sorrindo tão logo seu nome foi anunciado. Lula estava de cabeça baixa. Em um debate televisivo, tudo importa, principalmente a imagem. Ao contrário do debate da Band, Flávio usou gravata, o que demonstra solenidade. Lula optou por não vestir o acessório, a fim de passar uma imagem próxima do "cidadão comum".

Mas voltemos ao formato: as regras da Globo impediam que o adversário aparecesse atrás do rival no momento de fala do segundo. Foi fundamental. Não só porque isso tira a concentração de quem está falando. A tática usada por Flávio na Band prejudicou, principalmente, quem assistia, Sua Excelência, o Eleitor, quem realmente deveria ser o foco de quem almeja governar o Brasil.

Lula estava mais focado do que no debate anterior, mas a idade pesa e houve problemas de dicção. Flávio estava mais imagético e preocupado com sua postura. Mas foi capacitista ao dizer "nove dedos", logo no primeiro bloco. Quando foi sorteada a Região Sul, o senador errou feio ao fazer referência "a Sarandi", o bairro porto-alegrense, um dos mais atingidos pela enchente de 2024, como se fosse uma cidade. Demonstrou não conhecer Porto Alegre. 

No mais, tentou passar a imagem de que um eventual governo com alinhamento direto com o governador eleito Luciano Zucco seria favorável ao Estado. Lula demonstrou conhecer mais o Brasil, surfou nos detalhes.

Lamentável que ambiente e sustentabilidade tenham aparecido pouco quando o Norte foi sorteado. Flávio ignorou. Lula puxou o assunto tardiamente. O formato e as regras da Globo salvaram o debate e os brasileiros da repetição do circo de horrores de uma semana atrás. _

Pantera Cor-de-Rosa nos protestos em Paris é IA

Desde o início das manifestações em Paris, uma série de imagens circula pela internet. Algumas, em especial, mostram supostamente uma pessoa fantasiada de Pantera Cor-de-Rosa participando dos protestos, vandalizando espaços públicos e até sendo presa.

Contudo, trata-se de imagens geradas por inteligência artificial.

A coluna utilizou três sistemas de identificação para checar se os arquivos de imagem foram criados ou alterados por inteligência artificial.

Segundo as três plataformas, a imagem da Pantera Cor-de- Rosa sendo presa por dois policiais foi gerada por IA. Uma delas identificou até que a peça foi criada pela OpenAI. Já os outros dois sistemas mostraram que a foto contava com índices superiores a 99% de chances de serem geradas pela tecnologia.

A cena do jato de água das forças de segurança também foi confirmada como IA, com índices de 86% e 95% de probabilidade de inteligência artificial. 

INFORME ESPECIAL 

sábado, 17 de outubro de 2026


17 de Outubro de 2026
CARPINEJAR

Viver é se despedir

A partir de vídeo de Nanda Costa. 

Da mamadeira. Do bico. Do colo. Do berço. Do engatinhar. Do apoio nos corredores. Do travesseirinho. Do paninho. Das festas temáticas de aniversário. Dos balões. Dos livros com desenhos. Dos lápis coloridos. Dos presentes com papel infantil. Dos brinquedos. Da merendeira. Do uniforme da creche. Da toalha com capuz.

 Do banquinho para alcançar a pia. Das rodinhas da bicicleta. Do copo de requeijão com personagem. Do beijo de boa-noite antes de apagar a luz. Do dente de leite embrulhado num guardanapo. Do riso banguela. Da autorização com assinatura para a excursão. Do boletim amassado. Da bainha da calça desfeita. Da mão para atravessar a rua.

Do melhor amigo que se transferiu de escola. Da professora que não dava para repetir. Das lições na lousa. Dos materiais escolares. Dos cadernos pautados. Das espirais. Dos amores platônicos. Do nervosismo das provas-surpresa. Do telefone decorado dos responsáveis. Do recreio. Do sinal que mandava retornar para a sala. 

Da carteira com rabiscos e corações. Dos bilhetes escondidos. Da turma que prometeu nunca se separar. Das dedicatórias na camiseta no último dia de aula. Do portão de tantas idas e vindas. Das férias longas que produziam saudade de estudar. Do quarto dividido com os irmãos. Da mesada. Da carona. Do dinheiro contado para o cinema. Das viagens com a mochila nas costas. Dos doces dos avós. Da casa cheia.

Dos cartazes na parede e dos adesivos nas janelas. Do aparelho ortodôntico. Das espinhas. Da transformação do timbre. Dos pais esperando acordados no sofá. Da autoescola. Do cursinho pré-vestibular. Do nome na lista dos aprovados. 

Do trote com farinha no cabelo. Do troco destinado para o xerox. Dos calhamaços emprestados. Da carteirinha de estudante. Do passe no ônibus. Da foto de beca. Do currículo sem experiência. Do crachá pendurado no pescoço. Da roupa lavada no antigo lar. Das visitas demoradas. Do bairro da infância. 

Do colchão no chão. Da geladeira com dois ovos e uma garrafa de água. Do emprego que parecia para sempre. Da primeira vez que você morou com alguém. Do cobertor puxado no meio da madrugada. Da ilusão de romance eterno. Das caixas de mudança. Da marca da aliança no dedo. Do lado da cama vazio. Da volta por cima. Dos garçons que conheciam seu pedido. Das noites inteiras de sono até o meio-dia. Dos bares da sexta-feira. Do tempo de sobra.

Do teste de gravidez. Da mamadeira dele. Do bico dele. Do colo dele. Do berço. Do engatinhar. Do apoio nos corredores. Do travesseirinho. Do paninho. Das festas temáticas de aniversário. Dos balões. Dos livros com desenhos. Dos lápis coloridos. Dos presentes com papel infantil. Dos brinquedos. Da merendeira. 

Do uniforme da creche. Da toalha com capuz. Do banquinho para alcançar a pia. Das rodinhas da bicicleta. Do copo de requeijão com personagem. Do beijo de boa-noite que agora é você quem dá antes de apagar a luz. Do dente de leite embrulhado num guardanapo. Do riso banguela. Da autorização que agora é você quem assina para a excursão. Do boletim amassado. Da bainha da calça desfeita. Da mão solta na hora de atravessar a rua. _

CARPINEJAR

"O teu conhecimento a inteligência artificial nunca vai ter"

Antes de ser uma aclamada escritora, Martha Batalha, 53 anos, era repórter dos principais jornais do Rio de Janeiro. Seu romance de estreia, A Vida Invisível de Eurídice Gusmão (2016), foi adaptado para o cinema em 2019, rendendo prêmio da mostra Un Certain Regard do Festival de Cannes. Autora de outros livros, ela mora em Santa Mônica, na Califórnia, e atua como cronista de O Globo desde 2020. 

Dessa experiência surgiu O Algoritmo Sou Eu, que reúne 58 crônicas sobre temas como feminismo, maternidade, imigração, tecnologia, cotidiano familiar, cultura e política. Na obra, Martha faz um trato com o leitor, garantindo que, enquanto escrever, nenhuma linha de suas crônicas será gerada por inteligência artificial.

Carlos Redel

Como foi o processo de selecionar as 58 crônicas que foram parar no livro? Por que estas foram as escolhidas?

Acho que o principal critério foi escolher crônicas que permanecessem. Procurei ter crônicas que pudessem ser lidas hoje e daqui a 10 anos, que não envelhecessem. Mesmo que falassem de algo pontual - por exemplo, tem umas que falam da pandemia -, que fossem crônicas que pudessem ser lidas como referência a uma época, mas que não parecessem datadas. Penso muito nisso, evito os temas que estão na moda.

O que torna uma crônica interessante no seu ponto de vista?

Gosto muito de falar que crônica é voz. Quando você pensa em voz, você pensa em música, e quando alguém canta ou toca um instrumento, você sabe quando afina e desafina. A crônica é a mesma coisa: você tem que encontrar uma sintonia para poder contar essa história. A crônica vem de você estar aberta para o mundo, estar sempre procurando, tentando descobrir algo a mais. Imagina que você tem a sua visão de frente, mas tem outras coisas que estão acontecendo pelo lado também. 

Então, a crônica está, às vezes, pelo lado. Por exemplo, fui com meu marido a um restaurante romântico, com aquelas comidas todas elaboradinhas e ele não estava conseguindo enxergar o cardápio. Então, pediu meus óculos para ver. Comemos e fomos para casa. Esse é um fato. Só que a crônica tratou sobre a primeira vez que ele pegou meus óculos de vista cansada para ver o menu. E eu entendi que a gente estava envelhecendo juntos.

No material de divulgação de O Algoritmo Sou Eu, consta que você, como cronista, é herdeira de nomes como Luis Fernando Verissimo e Martha Medeiros. Como você enxerga o trabalho destes dois gênios gaúchos e como é ser comparada a eles?

Eu e todos os cronistas sempre tentamos fazer a nossa voz, o nosso texto, em cima do que a gente leu. Eu leio o Verissimo, o Rubem Braga, a Martha e falo: "Quem é agora a Martha Batalha? Qual é a voz que a Martha tem a partir dessas pessoas?". O que eu aprendi com a Martha é essa coisa da lucidez, tem muito afeto também nos textos dela. É uma mistura bastante interessante. 

Algo que aprendi com o Verissimo é que ele falava assim: "Cada crônica tem que ter pelo menos uma piada. Se você tem uma piada na crônica, você já fez o seu trabalho". Não é uma escolha muito consciente, mas quando estou escrevendo, sempre percebo que solto uma pitada de humor. E isso cria um mecanismo de aproximação com o leitor, porque ele está lendo e, em algum momento, vai ter aquela dose de dopamina e vai continuar lendo para ter outra. É uma mistura de consciência e intuição também. Você tem que saber quando você solta, o que você solta.

No primeiro texto do livro, você explica como nascem as crônicas e diz que uma escrita sua jamais vai ter uma linha sequer feita por inteligência artificial. Enquanto isso, a gente vê cada vez mais materiais feitos por IA. Como você enxerga o futuro para autores e qual o papel da criatividade humana?

Acho que é muito importante para nós, escritores, que a gente permaneça fiel ao que sabemos fazer, ao nosso ofício, e que é realmente feito de horas e mais horas em frente ao computador. Às vezes, ficamos todo esse tempo sem saber o que escrever, mas esperando que alguma coisa vá nascer de algum lugar e que, quando nascer, vai ser muito humano. 

A diferença da inteligência artificial para uma pessoa é o seguinte: a IA pensa em termos de probabilidades, é matemática. Os humanos pensam em termos de possibilidades: a gente tem esperança, tem criatividade, tem um passado que vai se associar cada vez de uma forma diferente para você poder criar um texto. O teu conhecimento a inteligência artificial nunca vai ter. Não posso dizer o que vai acontecer, mas tenho muita certeza de que a inteligência artificial nunca vai conseguir fazer um texto bem trabalhado como é um texto de um bom profissional da escrita, porque ela não é feita com um material humano para isso. 

Porque não é só o português perfeito, não são só as associações perfeitas, a lógica perfeita. Tem muitas outras pequenas particularidades do texto que são muito humanas e isso não pode ser reproduzido.

Você fala que os fracassos também são importantes para essa construção de bagagem que leva para os textos. Como você transforma frustrações em combustível?

O escritor tem que estar acostumado a fracassar porque é parte muito grande da nossa rotina. Às vezes, a gente está escrevendo um romance e joga capítulos fora. A gente tem que ter essa resiliência. Acho que a grande sabedoria é poder aprender com os seus erros, olhar um texto que escreveu e falar: "Isso aqui não está bom, eu vou jogar isso fora". É uma bênção você olhar uma coisa que não é boa que você escreveu e saber que não é bom e não se intimidar por isso, mas construir a partir daquele erro, a partir daquele fracasso e continuar tentando.

A Vida Invisível de Eurídice Gusmão está completando uma década. Como você avalia a trajetória do livro?

Me sinto muito feliz. Ele ainda é muito lido e acho que é uma grande dádiva para um escritor fazer um livro que permaneça e que tenha mexido na vida de tantas pessoas. Ainda recebo cartas de pessoas dizendo que se emocionaram com o livro, que se identificam. Então, é muito bonito. O A Vida Invisível começou quando não existia ainda todo esse movimento de vozes feministas e femininas na literatura brasileira. Era uma coisa que estava começando ali, foi um dos primeiros livros dessa nova leva.

Uma década depois do lançamento do livro e mais de 70 anos da história que ele retrata, como você enxerga essa a questão do machismo presente no dia a dia, que transforma, muitas vezes, histórias de mulheres extraordinárias em invisíveis?

Acho que existe, ainda hoje, uma escala de violências contra a mulher dependendo de onde você nasce, do seu status, da sua cor, da sua condição social, da sua condição financeira. Existem mulheres que estão batalhando para ter o mesmo salário que os homens. Existem meninas que, se tiverem sorte, não vão engravidar com 14 anos. Existem mulheres que estão começando a ter voz agora, reivindicando os seus direitos e estão sendo mortas. Então, ainda tem muito para se mudar. São várias lutas dentro de uma escala que atinge mulheres de modos diferentes. 

 

Postagem em destaque

30/10/2026 - 13h19min Martha Medeiros Mãe é uma casa cheia, inclusive no sentido metafórico Conexão se mantém através de conversas silencios...

Postagens mais visitadas