sábado, 23 de março de 2019



23 DE MARÇO DE 2019
JJ CAMARGO

NÃO ESCOLHA O DIA, ABRACE

O que acontece quando a relação do filho com o pai passa a ser a imagem invertida no espelho do que foi o convívio até então

- Estou aqui porque a junta militar, formada pelos meus três filhos, numa ditadura sem tréguas, determinou que eu viesse consultar consigo. E marcaram a consulta, antes de me comunicarem da decisão, e que era hoje para que não houvesse tempo pra discutir o decreto deles. Ou seja, me tornei um pau mandado.

Assim o Edmundo iniciou a consulta. Não havia mágoa no comentário, feito com alguma ameaça de sorriso. Apenas submissão, este ingrediente que tende a aumentar na medida em que, mais ou menos sutilmente, por conta do envelhecimento, somos considerados cada vez mais dependentes, e nem reclamamos por que, afinal, somos.

Na história da civilização, esta troca natural de comando é relativamente recente, mas se tornará cada vez mais frequente depois que a morte passou a ser prorrogada por tempo inimaginável, se compararmos com os padrões do início do século passado. Assim, o antigo herói imbatível que ocupou o imaginário da prole durante três, quatro décadas, mas que morria antes de conhecer a decrepitude, passou a viver mais, e com isso deparou com as limitações físicas da idade e descobriu que as mudanças bruscas de posição podem provocar tontura, que as articulações têm prazo de validade, e que a bexiga tem uma ousadia insuspeitada e pode inclusive tomar iniciativas constrangedoras, sem consultar a matriz.

E então, chega o momento que Carpinejar definiu com sua habitual genialidade: o filho se torna pai do próprio pai. A partir deste ponto, a relação do filho com o seu velho passa a ser a imagem invertida no espelho do que foi o convívio até então, e se descobre, com clareza cristalina, que o afeto na família é um sentimento regido pela lei implacável da reciprocidade. Tudo porque, não havendo como se encantar com o que está, temos de cultuar a memória do que foi. E esta relação com o retrovisor do nosso afeto, é que estabelecerá os termos do convívio até o fim do futuro.

Tão variado é o carinho nas relações com os filhos, e tão surpreendentes as lembranças arquivadas com amor e saudade, ou com ressentimento e mágoa, que não há nada mais imprevisível, para o médico que passou a fazer parte do cotidiano daquela família, do que a reação diante da notícia boa que manda soltar o riso, ou do anúncio de sofrimento e perda, que devia apertar o peito e doer a garganta.

Os lúcidos até o final ainda têm uma última chance de batalhar pelo resgate do amor omitido ou do perdão negligenciado, mas os que perderam contato com a realidade se tornam joguetes do afeto dos filhos. Os que adoram seus velhos, porque foram muito amados, cuidarão com desvelo dos seus queridos porque precisam retribuir o que receberam, e têm a pressa de quem sabe que não há tempo a perder, porque o amanhã perdeu a garantia. Entre esses, está o Carlos Edu Bernardes, que postou uma mensagem comovente: "Meu pai tem Alzheimer, e todo dia me pergunta que dia é hoje. Eu digo sempre que é o Dia dos Pais, e lhe tasco mais um abraço!".

J.J. CAMARGO

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Postagem em destaque

12 de Agosto de 2026 CARPINEJAR Os efeitos colaterais das canetas nos restaurantes Desde maio, já circula no Brasil uma caneta emagrecedora ...

Postagens mais visitadas