sábado, 22 de fevereiro de 2020


22 DE FEVEREIRO DE 2020
FLÁVIO TAVARES

NOVOS REBELDES

Temos tantos governantes, que às vezes não sabemos a quem atribuir o que nos falta. Ao prefeito, ao governador ou ao presidente e aos que, junto a ele, nos mandam lá de Brasília? Numa República federativa, um governante complementa o outro e tudo deveria desembocar na harmonia em função da população. Desde a posse de Bolsonaro, porém, tudo mudou. A cada dia, o presidente se atrapalha na mania de governar pelo "tuíter" ou à saída do Palácio da Alvorada. Se fosse "chef" de cozinha, confundiria caviar com feijão, ambos pretos e com bolinhas...

O país profundo sumiu das preocupações. Bolsonaro especializou-se em medidas fáceis. Proibiu o radar nas estradas e abriu portas a acidentes e mortes. Nega os dados do Instituto de Pesquisas Espaciais sobre meio ambiente. Ou, ao abordar a violência, encara coisas sérias na contramão do razoável. Agora, chamou de "herói" o ex-policial Adriano da Nóbrega, chefão de uma das "milícias" que, no Rio de Janeiro, compõem um Estado paralelo que governa pelo terror e a chantagem, além de investigado pelo assassinato da vereadora Marielle Franco, tempos atrás.

Imprensa, rádio e TV já detalharam a promíscua relação política de Adriano com um dos filhos do presidente, que (como deputado) lhe concedeu as mais altas condecorações do Estado do Rio. O "miliciano" e matador de aluguel foi morto dias atrás, pela polícia da Bahia e o presidente da República tachou o governador baiano de "bandido da polícia do PT".

Foi a gota d?água a transbordar o copo. Num manifesto, 20 governadores de diferentes partidos pediram que Bolsonaro "observe os limites institucionais" e exigiram "equilíbrio, sensatez e diálogo no interesse do povo". O governador Eduardo Leite foi um dos assinantes, junto aos governadores de São Paulo, Rio e Distrito Federal.

É a segunda rebelião contra o presidente. Em maio de 2019, governantes de 13 Estados, mais o do Distrito Federal, repudiaram o decreto de Bolsonaro facilitando o porte de armas e venda de munição, por incentivar a violência. O decreto foi, depois, suspenso pelo Senado.

Semanas atrás, num gesto publicitário para calar os protestos da Europa pelo descaso ambiental do governo, Bolsonaro subordinou o Conselho da Amazônia ao vice-presidente, mas dele excluiu os governadores da própria região, até então membros plenos.

Os governadores não se rebelam a esmo, nem por diferenças partidárias. Foram levados ao protesto pelo papel subalterno a que foram relegados desde que o sentido igualitário da união federativa foi substituído (no Planalto) pela visão do mando único.

É absurdo pretender que o "tuíter" substitua o diálogo. Toda ideia sem contrapartida ou debate é imposição que destrói a sociedade e nos faz párias.

Jornalista e escritor - FLÁVIO TAVARES

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Postagem em destaque

12 de Agosto de 2026 CARPINEJAR Os efeitos colaterais das canetas nos restaurantes Desde maio, já circula no Brasil uma caneta emagrecedora ...

Postagens mais visitadas