sábado, 28 de março de 2020



28 DE MARÇO DE 2020
LEANDRO KARNAL

O VENTRE DO VERBO

Domingo da anunciação: faltam nove meses para o Natal. Para muitos cristãos, hoje é a data em que o Arcanjo Gabriel apareceu a uma jovem em Nazaré e trouxe uma ideia revolucionária: ela seria mãe por força do Espírito Santo. A adolescente terminaria o dia carregando o aguardado Messias prometido pelas escrituras.

Pela tradição, era fim da tarde, por volta das 18h. Os textos das escrituras apresentam detalhes distintos. O Evangelho de Mateus apenas se ocupa das dúvidas de José. Sua noiva engravidara. Como proceder? Os avisos dos anjos se voltam a ele e suas angústias. José é orientado dormindo.

Sonha que tudo estava de acordo com os planos de Deus. O Jesus do Evangelho de Marcos, o mais antigo de todos, já surge com 30 anos. Nada sabemos da infância por ele. O último Evangelho na ordem e no tempo, João, começa narrando a origem de tudo em prólogo teológico. Lá, o Verbo sempre existiu e se fez carne, referência indireta ao dia de hoje. Porém, ao entrar na narrativa da vida do filho de Maria, já o encontramos como ser poderoso. 

Lucas, meu preferido, dedica-se a detalhes sublimes. Sem o terceiro evangelista, a narrativa da infância e do Natal seria empobrecida. Lucas, padroeiro de médicos e de pintores, fala da saudação do Arcanjo em frase repetida milhares de vezes entre católicos: Ave, cheia de graça. Ele conta que a jovem conceberá um menino. Mais: o enviado informa que a prima Isabel, que fora chamada de estéril, está grávida de seis meses. A novidade familiar vem por mensageiro celeste.

A Maria de Lucas é quase silenciosa, ainda que disponível. Seu espanto é mais técnico do que teológico: como ela poderá trazer ao mundo o Emanuel se é virgem? A parte central é o sim: livre-arbítrio de uma jovem diante do mistério que a excede. São Jerônimo traduz o sim por fiat, latim para "faça-se". O que antecede a anuência da jovem judia é valorizado como humildade pelos cristãos e submissão pelos islâmicos: "Eis aqui a serva do Senhor". Para quem não sabe, o texto sagrado muçulmano descreve Maria e a anunciação também. No Corão, ela está associada a Zacarias, pai do profeta João Batista, que serve no Templo de Jerusalém. 

Ela é piedosa e se prostra para o Todo-Poderoso. A tradição oral árabe diz que todos que nascem são tocados por Satanás e choram, com exceção de Jesus, o filho de Maria. Em todo o livro sagrado islâmico, Maria é a única mulher que recebe nome próprio. Outras mulheres recebem atenção, porém ganham títulos e não nomes próprios. A tradição diz que o Profeta purificou a Caaba de todos os falsos ídolos que ali eram adorados, mas ordenou que se conservassem as imagens de Jesus e de Maria no local sagrado. O último concílio católico, o Vaticano II, elogia o respeito dos islâmicos a Maria.

Judia religiosa, cristã exemplar e islâmica submetida de coração aos desígnios do Altíssimo: eis o poder da figura de Maria. Anterior a polarizações teológicas, ela é exemplo de atitude para muita gente. Seu comportamento é exemplar e modelo de fé. Assim como Abraão aceita a promessa e sai da casa do pai sem titubear, Maria não entende, entretanto se entrega a um plano que muda toda a sua vida. A fé é entrega e aceitação, ainda que livre. Abraão vai, Maria diz sim, ambos geram fatos importantes para o futuro. Abraão é pai de três religiões. Maria é mãe de Jesus nas duas maiores fés do mundo. Ambos recebem a mensagem e a aceitam.

Abraão ouve o próprio Deus, Maria recebe um mensageiro (sentido grego da palavra "anjo"). Em hebraico, a solenidade de Deus faz Abraão mudar de vida sem sequer uma palavra, como mudo ficará quando o Todo-Poderoso exigir a vida do seu filho Isaac. Em grego, um mensageiro abaixo da grandiosidade de Deus permite que a jovem ainda faça uma pergunta antes do sim. No futuro, o silencioso e obediente Abraão negociará longamente com o Criador sobre as cidades de Sodoma e Gomorra. A autora da única pergunta, Maria, nunca mais demonstrará dúvida técnica. Abraão aprendeu a dialogar e Maria aceitou a entrega total e as dores que Simeão anunciou que atravessariam seu coração.

Nossa Senhora torna-se a Maria do silêncio, sem dúvida, aquela que guarda e medita as palavras "no seu coração", porém, cresce como a Maria da ação. Soube, pelo anjo, da prima grávida e idosa Corre para auxiliá-la. É também ela que fala a Jesus quando o reencontra no Templo, aos 12 anos.

Considerando a família patriarcal da Palestina do século 1º, tomar a iniciativa na frente do pai não foi pouco para uma jovem mulher. É ela que pede a interferência no primeiro milagre, as bodas de Caná. É ela que acompanha o filho até a cruz, quando os homens, com exceção do quase adolescente João, tinham debandado com medo. É ela que está com os discípulos na festa de Pentecostes, nascimento formal da Igreja. Mulher do silêncio, do sim, da meditação; porém, sempre a mulher da ação corajosa.

A face feminina da salvação é fascinante. José, tão importante no início de Mateus, submerge na escuridão narrativa seguinte. Maria cresce até os Atos dos Apóstolos e, metaforicamente, no próprio Apocalipse, 27º e último livro do Novo Testamento. É a mulher vestida de sol, ostentando uma coroa de 12 estrelas e com a lua debaixo dos seus pés. A tradição católica identifica a mulher do Apocalipse com Maria. A humilde serva do Senhor do Evangelho de Lucas vira a gloriosa dama coroada do livro da Revelação. O feminino de Maria será sempre um terno mistério para as pessoas de fé. Como ela, é preciso ter esperança.

LEANDRO KARNAL

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Postagem em destaque

12 de Agosto de 2026 CARPINEJAR Os efeitos colaterais das canetas nos restaurantes Desde maio, já circula no Brasil uma caneta emagrecedora ...

Postagens mais visitadas