sábado, 17 de agosto de 2024


17 de Agosto de 2024
J.J. CAMARGO

Vô, você sempre foi ruim ou piorou quando ficou velhinho?

A questão não é a suposta decrepitude do avô, que riu muito da pergunta, mas do quanto aquele esboço de cérebro, promissor, mas imaturo, isolado no mundo abstrato, possa estar sacrificando a sua inata inteligência emocional.

A neurociência tem revelado que o cérebro não é um órgão estático como se imaginava algumas décadas atrás. Pelo contrário, é um órgão dinâmico, sujeito às transformações decorrentes de estímulos, os mais variados. Toda a estimulação acelera o desenvolvimento de novas conexões (sinapses), o que explica o desenvolvimento exponencial de novas habilidades em crianças e adolescentes, que estão crescendo na fascinante era da tecnologia digital. 

Da mesma maneira, a tendência irrefreável à competição remete-os na busca de novos rivais, trazidos para a tela do computador com a presteza com que, no passado, se desafiava um vizinho de porta, mesmo que ele viva do outro lado do mundo e fale um idioma desconhecido.

A discussão que se impõe nesse momento de encantamento com a inteligência artificial (IA) é do quanto ela pode contribuir para moldar o funcionamento do cérebro em desenvolvimento, tornando-o adequado ao convívio social.

Isso devia ser, se ainda não é, uma preocupação contemporânea intransferível, se considerarmos que todas as pesquisas de identificação dos pré-requisitos da felicidade sugerem que ela é uma quase exclusividade das pessoas que mantenham boas relações pessoais, familiares ou comunitárias. É obrigatório que pensemos, friamente, sobre o quanto a identificação com a atividade robotizada da inteligência artificial contribuirá para a produção de modelos humanos aptos à felicidade. Parece temerária, para o futuro, a figura do adolescente recluso, exímio digitador, mas incapaz de redigir um texto simples que exprima emoção, ou de sustentar uma relação afetiva comum, dessas de carne e osso.

O novo sempre é fascinante, mas certamente não será o adolescente imaturo, envolvido no processo de perseguição a uma ideia sedutora, o árbitro mais adequado para estabelecer limites do que é saudável.

Não se trata de negar o que é óbvio: a IA veio para ficar, e nossa sobrevivência funcional dependerá da capacidade de adaptação de cada um, utilizando-a como uma parceira preciosa, mas sem a ameaça de substituição. Nos consultórios médicos, por exemplo, cada vez mais seremos três elementos interdependentes: um ser em sofrimento, um banco de dados inexcedível e silencioso e um especialista em sentimentos humanos. Competência profissional a partir deste estágio dependerá dessa interação.

Para que não pareça uma implicância negacionista, quando se consulta o ChatGPT, ele, prudentemente, adverte: "a IA pode ter dificuldade em entender nuances e contextos complexos, como ironia, sarcasmo ou emoções humanas profundas"; "embora a IA possa gerar conteúdo criativo, como textos, imagens e músicas, a originalidade e a profundidade das ideias muitas vezes não se igualam à criatividade humana"; "a IA pode analisar dados e fornecer recomendações, mas não possui o julgamento moral que os humanos têm, podendo falhar em situações que exigem empatia ou valores éticos".

Não podemos ser negligentes e oferecer às gerações futuras uma chance de felicidade menor do que a nossa geração pode desfrutar e que, se não alcançou, não foi por falta da fraternidade amorosa gerada pelo nosso cérebro original. Esse que, aparentemente atordoado pela complexidade dos sentimentos humanos, ainda não se sentiu capacitado a repassá-los aos inflexíveis algoritmos da máquina. Mas, com certeza, vai continuar tentando, porque é da sua natureza não desistir. _

J.J. CAMARGO

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Postagem em destaque

12 de Agosto de 2026 CARPINEJAR Os efeitos colaterais das canetas nos restaurantes Desde maio, já circula no Brasil uma caneta emagrecedora ...

Postagens mais visitadas