sábado, 11 de julho de 2026

11 de Julho de 2026
EUGÊNIO ESBER

Um cadáver insepulto

Na última quinta-feira, 9 de julho, completaram-se sete meses, sete longos meses em que o Brasil fala de tudo - Carnaval, trivialidades diversas, futebol, eleição -, mas desvia o olhar, e as narinas, de um cadáver moral que se decompõe à vista de todos na Praça dos Três Poderes e empesta o ar da República.

A primeira informação que veio a público, em 9 de dezembro do ano passado, já era grave o bastante para levar ao imediato afastamento de Alexandre de Moraes como ministro do Supremo Tribunal Federal e à sua inscrição no rol de investigados pelo maior golpe já praticado contra o sistema financeiro do país. Pelos códigos morais que devem reger a mais alta Corte de Justiça em qualquer nação séria, Moraes não deveria voltar a vestir a toga que já pertenceu a ministros probos, como seu antecessor, Teory Zavascky, até que explicasse que diabo de negócio foi aquele firmado entre o escritório jurídico de sua família e Daniel Vorcaro, o banqueiro que fora preso três semanas antes.

Moraes nada fez ou disse que, diante da opinião pública, pudesse conferir algum sentido moralmente aceitável ao contrato em que o suposto dono do Banco Master se comprometia a pagar a exorbitância de R$ 129 milhões à então desconhecida banca de advogados liderada pela esposa do ministro, Viviane Barci de Moraes.

Diga-se que o ministro Dias Toffoli também apostou na estratégia de silêncio ante as revelações sobre sua sociedade com a família Vorcaro em um resort no Paraná. Mas o emudecimento de Alexandre de Moraes se tornou um escândalo à parte quando a Polícia Federal encontrou, em um dos vários telefones de Daniel Vorcaro, a mensagem "Alguma novidade? Conseguiu ter notícia ou bloquear?".

Era 17 de novembro, o dia em que Vorcaro, com base em sua bem-paga rede de informantes, temia ser preso - como de fato foi, momentos antes de embarcar em seu jatinho para fora do Brasil. O telefone para o qual ele dirigiu seu desesperado pedido de informações é do STF, mas a Corte se demora em responder com quem o celular estava naquele final de tarde. No aparelho de Vorcaro, o contato estava salvo como sendo de Alexandre de Moraes.

O procurador-geral da República, Paulo Gonet, não viu razão para investigar Moraes, escrevendo a mais infamante página de submissão da história do Ministério Público brasileiro, instituição que emergiu da Constituição de 1988 para, supostamente, atuar como fiscal da aplicação da lei. Edson Fachin, presidente do STF, adotou uma postura errática, fazendo por merecer o apelido de "Frachin" dentro da Corte que deveria liderar. É um homem bem-intencionado neste caso, mas amedrontado pelas investidas da bancada de Gilmar Mendes, o capo.

E aqui estamos. Sete meses de um cadáver insepulto. Sete insuportáveis meses de pestilência institucional. 

Eugênio Esber

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