sábado, 9 de outubro de 2021


09 DE OUTUBRO DE 2021
FRANCISCO MARSHALL

O ESTOICO MODERNO

Foi nas ruínas do sonho de uma pólis livre e próspera que Platão (427-348 a.C.) viu seu mestre Sócrates ser executado por Atenas, em 399 a.C., e escreveu sua utopia antidemocrática, a República. A Atenas de Péricles e dos grandes poetas trágicos, Ésquilo, Sófocles e Eurípides, a rica cidade plena de saber, beleza e poder, sucumbiu aos maus pensamentos dos homens da guerra e apostou em um litígio com Esparta, a Guerra do Peloponeso (431-404 a.C.), de que sairia como todos saem das guerras, derrotados. Na era seguinte, a pergunta foi: o que fazer quando o mundo desaba?

Assim como Platão, Aristóteles (384-322 a.C.) não abandonou a busca por solução política; comparou as constituições de dezenas de cidades e redigiu, na fase final de sua obra, o tratado Política, em que desponta o tema que rege também os livros que dedicou a seu filho Nicômaco e a seu melhor discípulo, Eudemo: a ética. Para comunidades e indivíduos, a meta maior, a felicidade (eudaimonia), pode ser alcançada por meio de virtudes e de boas escolhas. Por ironia da história, foi o mais poderoso pupilo de Aristóteles, Alexandre III de Macedônia (dito o Magno, 356-323 a.C.), quem pôs fim à reflexão política em Atenas, após derrotá-la, com seu pai Filipe II, na Batalha de Queroneia (338 a.C.). Os pensadores da geração seguinte já não sonhavam com um regime decente, mas sim em como viver bem apesar das agruras da vida. Foi então que floresceram as três escolas éticas da última fase da filosofia clássica, o cinismo, o epicurismo e o estoicismo; as soluções eram, respectivamente, viver fora do sistema, cultivar a felicidade ou buscar a serenidade.

Essas filosofias tiveram enorme sucesso no mundo antigo e ressurgiram com força na modernidade, para insuflar a vida nova no Renascimento, e para dar parâmetros às éticas do indivíduo. Na era atual, as adversidades históricas reanimaram as fontes éticas e atualizaram os programas do estoicismo. É então que despontam pensadoras como Philippa Foot (1920-2010) e Martha Nussbaum, a célebre autora de A Fragilidade do Bem (1986), com questões que tocam em cada um de nós: é possível ser feliz? Para tanto, qual o lugar da política e qual o papel da ética?

Do estoicismo antigo, sobrevive o conceito de apatheia (indiferença), assim transliterado do grego para não o confundirmos com a palavra correlata, apatia. O estoico não nega nem teme a ação, mas a realiza com serenidade para cumprir os deveres que tocam a cada um, na vida e em sociedade. Porém, é preciso evitar que as experiências no mundo nos imponham sofrimento, e isto exige um exercício mental, de cunho ético e psicológico, sujeito a constantes provações e aperfeiçoamentos: a auto-observação (reflexão) e o autocontrole. É filosofia analgésica, mas que não nega as emoções, apenas as domina para que descartemos as que nos ferem enquanto cevamos as que nos nutrem.

Para não sucumbirmos à angústia e resistirmos ao teatro de horrores que ora nos assombra, mas também para cuidarmos do que resta da pólis, sejamos todos estoicos modernos, e tratemos da felicidade possível.

FRANCISCO MARSHALL

09 DE OUTUBRO DE 2021
CRISTINA BONORINO

SETENTA

Há quase 30 anos ensino que, durante uma epidemia, o principal objetivo, depois de desenvolver uma vacina, é chegar aos 70% da população vacinada. Ali você começa a finalmente controlar a disseminação da doença na população. Então, é com um coração mais leve que escrevo hoje, logo depois de ler notícias de que Porto Alegre atingiu os 70% de vacinados (acima de 12 anos).

E, das diferentes cidades do Rio Grande do Sul, do Brasil e do mundo, por onde tenho amigos espalhados, que não vejo há quase dois anos, vêm notícias de números cada vez menores de casos e mortes. Sim, ainda precisamos vacinar as crianças, ainda precisamos usar máscaras, manter distância sempre que possível e dar reforços aos idosos e aos que tem doenças crônicas. Mas é inegável que o cotidiano começa a se transformar. Não necessariamente para o que era antes - mas algo que pode, e quer, ser melhor.

Curiosamente, a principal batalha não foi de saúde pública, e sim a enxurrada de mentiras e falsidades de um movimento anticiência, perpetuado pelas redes sociais. Essas empresas gigantes, os apps do seu celular, que sem nenhum critério, sem nenhuma fiscalização, são tão responsáveis pelas mortes no mundo quanto o vírus, junto com os que criaram as notícias falsas.

No dia em que o Facebook e suas outras redes caíram, sinceramente: que alívio. Quase um dia inteiro sem precisar desmentir alguma infâmia - serviço que tenho feito há 18 meses, em contato direto com diferentes veículos de comunicação. Desconfio seriamente que, ao desligar o botão do WhatsApp que abre e baixa vídeos e áudios, você automaticamente ganha vários pontos de QI. Experimente. E, apesar dos danos causados pela turma do "vamos criar um caos que assim a gente se dá bem", vejo uma vontade de pensar um futuro diferente se desenhando na maioria das pessoas.

Como se chama o governo do Estado lançar um edital de milhões de reais para tecnologias inovadoras? Um começo. O que significa a Moderna anunciar uma fábrica de vacinas de mRNA na África? Fazer a coisa certa. Entre as duas iniciativas, existe um universo de distância, mas dá para traçar uma linha. Que conecta os efeitos positivos de se conseguir atravessar uma crise. Que se traduz numa vontade, numa esperança que renasce, de ousar mirar pra Lua - o moonshot, como se diz. Algo que parece inatingível - e que ao mesmo tempo sabemos ser possível.

Mas propagar e trazer para o mercado os resultados de pesquisas revolucionárias não garante o futuro. Nunca estaremos seguros sem estimular a ciência básica - aquela que garante que o conhecimento avança, movida apenas pela curiosidade e persistência daqueles que têm essa vocação.

Meu agradecimento e admiração eternos a todos os cientistas que não desistiram durante esse período, quando toda a esperança parecia perdida. Principalmente, aos brasileiros - que foram completamente abandonados e sucateados pelo atual governo, numa política constante de destruição das instituições públicas e de toda a iniciativa de educação e pensamento. Só hoje, desenhando florezinhas ao redor de um número 70 e um sinal de porcentagem, me permito pensar que talvez tudo, afinal, possa dar certo.

CRISTINA BONORINO

09 DE OUTUBRO DE 2021
DRAUZIO VARELLA

A VARIANTE DELTA E AS VACINAS

A variante Delta se dissemina pelo mundo. A partir de abril, quando surgiu na Índia, deu volta à Terra e já chegou em mais de cem países.

Embora as características da transmissão e a agressividade tenham variado de um país para outro, está claro que ela se transmite com mais facilidade do que as demais, fato que explica o aumento do número de casos em locais em que a pandemia estava relativamente controlada.

Com o avanço da vacinação em alguns países, os dados iniciais mostravam que mesmo pessoas vacinadas poderiam adquirir o vírus, mas teriam mais dificuldade de transmiti-lo aos que entravam em contato com elas. O aparecimento da variante Delta, no entanto, subverteu essa ordem.

A revista Nature faz uma revisão dos últimos estudos realizados no Estados Unidos, no Reino Unido e em Cingapura, que avaliaram a carga vira presente nas mucosas nasais de pessoas infectadas pela Delta. Neles, ficou demonstrado que a carga viral: 1) chegava a ser mil vezes mais alta do que a das variantes anteriores; 2) era semelhante em vacinados ou não.

No Estado americano de Wisconsin, o estudo conduzido por David O?Connor e colaboradores, no Madison and Danny County Health Department, avaliou as características das infecções ocorridas nos meses de junho e julho de 2021, em plena epidemia de Delta.

Os autores determinaram as concentrações do material genético do vírus presente nas secreções nasais, por uma técnica laboratorial que permite amplificar o DNA, até detectá-lo por meio de um sinal fluorescente.

Foram testados 719 pacientes infectados pelo coronavírus, 311 dos quais tinham recebido as duas doses da vacina da Pfizer ou da Moderna. A maioria deles apresentava, na mucosa nasal, níveis de material genético do vírus comparáveis aos dos não vacinados. Os autores concluíram que indivíduos vacinados são igualmente capazes de disseminar o Sars-CoV-2, mas os dados não permitiram estabelecer a relevância desse achado na transmissão comunitária.

Um inquérito relatado ao Centers for Diseases Control (CDC), dos Estados Unidos, analisou 469 casos novos de infecção pelo coronavírus, ocorridos como consequência de grandes aglomerações ocorridas na pequena cidade de Provincetown, no Estado de Massachussets.

Das 469 pessoas que se infectaram nessas aglomerações, cerca de 75% haviam recebido as duas doses da vacina. Os autores sequenciaram o material genético em amostras colhidas em 133 pacientes sintomáticos: 90% pertenciam à variante Delta. As concentrações do vírus nas secreções nasais dos vacinados foram semelhantes às dos não vacinados.

Todos os pacientes acompanhados no Houston Methodist Hospital, no Texas, tiveram o material genético do vírus sequenciado. Nesse grupo, o número de infectados pela variante Delta era três vezes maior do que os das demais variantes. Havia 17% de vacinados entre os infectados por ela. Os pacientes internados por terem adquirido o vírus Delta, tiveram estadia hospitalar mais demorada, observação que sugere diferenças biológicas entre as variantes.

Em Cingapura, foi realizada uma pesquisa para comparar a carga viral nas fossas nasais, entre vacinados e não vacinados que apresentavam sintomas da covid-19. Os resultados mostraram que, no decorrer da primeira semana, ambos apresentavam as mesmas concentrações do coronavírus, mas que elas caíam mais rapidamente nos previamente imunizados.

O United Kingdom REACT-1 Programme, conduzido pelo Imperial College, de Londres, publicou os resultados da análise de amostra colhidas ao acaso nos meses de maio e junho de 2021. Como esperado, ficou evidente que a variante Delta havia deslocado as demais, mas, em aparente contradição com os estudos que acabamos de citar, a carga viral nos fluidos nasais encontrada nas pessoas vacinadas foi mais baixa do que a das não vacinadas.

A explicação mais provável é a de que no estudo inglês as amostras foram colhidas ao acaso, portanto incluiu portadores assintomáticos não avaliados nos anteriores.

Esses dados nos ensinam que, mesmo imunizados, corremos risco de adquirir o vírus e de transmiti-lo aos que entrarem em contato conosco. Evitar aglomerações e usar máscaras protetoras são medidas muito necessárias, exatamente o oposto do que insiste em fazer o atual presidente da República, comportamento criminoso ao qual adere o subserviente ministro da Saúde, quando se posiciona contra a obrigatoriedade do uso de máscaras em lugares fechados.

DRAUZIO VARELLA

09 DE OUTUBRO DE 2021
J.J. CAMARGO

QUAIS SÃO AS SUAS PRIORIDADES?

À medida que avançamos na vida, alternando escolhas empolgantes e decepções cruéis, terminamos por construir nossa biografia, que um dia, depois da nossa mudança de fase, encontrará nossa prole orgulhosa com nosso desempenho ou constrangida pela mediocridade que tentamos disfarçar o tempo todo.

Como os modelos anteriores caducaram, por conta de tantas mudanças, teremos que nos reinventar, sem perder a noção do ritmo alucinante imposto pela aceleração da vida.

Em paralelo, há uma ansiedade crescente, com a sensação de que sempre estamos aquém do esperado, o que tem aberto a porta ao reino dos coaches, esses profissionais convencidos de que podem ajudar, despertando em você virtudes que desconhecia, por nunca terem sido estimuladas, ou simplesmente por não existirem.

O fato de sermos completamente diferentes (e temos que bendizer as diferenças porque, se não, o mundo seria insuportavelmente chato) sempre alimentou em mim uma certa irritação com a proposta típica dos livros de autoajuda, que oferecem formulas idênticas para a busca da felicidade por pessoas diferentes. Porque é assim que somos: diferentes.

Mas como nas últimas duas décadas esse tipo de literatura passou a ocupar espaços progressivamente maiores em todas as livrarias, daqui e de fora, é irresistível dar uma espiada nos mais badalados, em busca de uma ideia nova, que faça algum sentido.

E então, quando Alfredo Fedrizzi, um cara inteligente para não se impressionar com bobagens, recomenda um livro novo, melhor dar uma conferida. E o Essencialismo: A Disciplinada Busca por Menos, de Greg McKeown, merece mais do que isso, porque contesta, com uma linguagem coerente, alguns conceitos considerados clássicos. Esses que por falta de argumentação lógica ninguém se animava a contrariá-los.

O essencialismo é considerado mais do que uma estratégia de gestão de tempo ou uma técnica de produtividade. Trata-se de um método para identificar o que é vital e eliminar todo o resto, para que possamos dar a maior contribuição possível àquilo que realmente importa.

Enquanto a leitura avança, mais vezes nos perguntamos "Por que eu não pensei nisso antes?", numa mistura de perplexidade com encantamento pela fluência das ideias.

A experiência pessoal de Greg McKeown é muito convincente, porque ele representava o modelo do cara determinado e compulsivo, por fazer tudo perfeito e estar sempre disponível.

Um dia, Greg, um jovem ambicioso que emigrara da Inglaterra para o Vale do Silício, na Califórnia, foi apanhado numa encruzilhada da vida: sua esposa dera à luz naquela manhã de sexta-feira e quando o chefe ligou para convocá-lo para uma reunião com potenciais parceiros comerciais, vindos do Exterior, ele esboçou uma negativa que foi sepultada pela prepotência do comando: "Manhã de sexta-feira não é um bom momento para se ter filho!". Constrangido, ele deixou a família pra trás, mas ao ser apresentado aos estrangeiros como um modelo de engajamento por ser capaz de fazer o que tinha feito, recebeu em troca o olhar de repúdio dos visitantes, com a força de um comentário como "Mas que tipo é este, capaz de deixar esposa e filho numa hora dessas para vir a uma reunião com desconhecidos?".

A principal mensagem de Essencialismo é a necessidade intransferível de determinarmos, entre tantas coisas importantes, o que realmente fará diferença na nossa vida. Quando fechamos o livro, fica reverberando o conceito básico: "Se você não for capaz de eleger as suas prioridades, alguém fará isso por você". Então, antene-se.

J.J. CAMARGO

09 DE OUTUBRO DE 2021
DAVID COIMBRA

Não somos mais os mesmos

Meu avô, o velho sapateiro Walter, dizia sempre:

- O homem se acostuma com tudo.

E é verdade. Ainda que a situação seja ruim, o ser humano vai se adaptando até estabelecer uma rotina. A partir daí, a vida fica mais fácil, porque fica mais previsível.

Aliás, essa é a palavra mágica: rotina. A rotina tem injusta má fama. As pessoas reclamam:

- Não aguento mais essa rotina! - Preciso fugir da rotina.

Quer dizer: a rotina seria algo tão terrível que as pessoas tentam se afastar dela.

Só que não é assim. Na verdade, as pessoas estão sempre buscando a rotina.

Digamos que você faça uma viagem para "quebrar a rotina". Você chega a um país estrangeiro, se instala no hotel e se prepara para conhecer lugares novos. Em alguns dias, você passa a conhecer o ambiente que o rodeia e já sabe o que fazer em cada circunstância. Você acorda mais ou menos no mesmo horário, come mais ou menos as mesmas coisas no café da manhã, vai à mesma estação de metrô. Ou seja: você montou uma pequena rotina.

A rotina lhe dá segurança. Dificilmente há surpresas desagradáveis, se você caminha em terreno conhecido.

Isso se aplica a qualquer contingência. Restaurantes, por exemplo. Sei que o filé acebolado da Santo Antônio é ótimo. Então, se estou com vontade de comer um filé acebolado, é lá que vou. Não procurarei novidades, porque posso me decepcionar.

Já as mulheres... Ah, as mulheres... Elas gostam de experimentar restaurantes novos. Elas pedem:

- Vamos a um lugar diferente hoje? Para que isso? Você já sabe quais são os bons lugares, por que arriscar?

Entenda essa verdade: nós homens somos mais afeitos à rotina. Construímos hábitos e nos afeiçoamos a eles. As mulheres, não. Elas ficam inquietas, elas procuram novidades. Quando as encontram, essas novidades se transformam em novas rotinas. Aí elas procuram novas novidades.

As rotinas da humanidade inteira foram alteradas agora, no começo da segunda década do século, por causa do coronavírus. Foi algo único na história da civilização, o que não deixa de ser especial para nós, que estamos vivos. Porque, pela primeira vez, experimentamos um evento planetário. Nem a Segunda Guerra Mundial afetou de forma tão abrangente todas as esquinas da Terra, como essa pandemia.

Durante quase dois anos, os americanos, os japoneses, os paraguaios, os índios, os noruegueses e você compartilharam o mesmo problema, tiveram os mesmos medos e receberam as mesmas soluções. Isso nunca aconteceu antes.

A mudança forçada de hábitos teve consequências, porque novos hábitos se formaram. As pessoas se acostumaram a ficar em casa. Não saem nem para trabalhar, graças ao home office. Passam o dia com roupas moles - pijamas, moletons, abrigos, pantufas. Algumas nem querem mais sair. Quando há algo para fazer fora, elas dão desculpas para ficar em casa. Muitas se satisfazem com os contatos virtuais, pelas redes. Isto é: o toque, o olho no olho, o contato humano, enfim, perdeu prestígio nesses dois primeiros anos da década. Parte da humanidade se tornou mais caseira do que jamais foi. Viveremos num mundo cheio de ermitões, pessoas que passam o dia trancadas em suas tocas, vendo TV e discutindo política e futebol pelas redes. Não será de todo mau. Sobra mais espaço na rua para nós, que somos normais.

DAVID COIMBRA

09 DE OUTUBRO DE 2021
OPINIÃO DA RBS

RESPONSABILIDADE E PERSISTÊNCIA

Por anos a fio, tratar das finanças do Rio Grande do Sul significava esmiuçar números sombrios, escancarar déficits gigantescos e apresentar perspectivas pouco animadoras. Junto à penúria vinham as queixas com a precarização dos serviços públicos, as frustrações pelos investimentos cada vez menores e, mais recentemente, as lamúrias pelos salários do funcionalismo atrasados. Não há a ilusão de que as dificuldades estruturais do Estado foram finalmente contornadas, de que o tão esperado equilíbrio orçamentário duradouro foi conquistado e os gaúchos passaram a contar com educação, saúde e segurança de primeiro mundo. 

Os desafios pela frente ainda são imensos, mas é inegável que, com as reformas, privatizações e responsabilidade fiscal, a situação do caixa do Piratini é mais administrável e com um horizonte não tão soturno. Uma prova são os anúncios feitos nos últimos meses de investimentos significativos com recursos próprios em áreas como saúde, infraestrutura e inovação.

Os dados que atestam este quadro foram mostrados na quinta-feira pela Secretaria Estadual da Fazenda, ao serem detalhados os números do Relatório de Transparência Fiscal (RTF) dos dois primeiros quadrimestres do ano. Um dos indicadores aponta que, pela primeira vez desde a criação da Lei de Responsabilidade Fiscal, em 2000, o Rio Grande do Sul conseguiu ter a dívida consolidada bruta abaixo do teto previsto na legislação, de no máximo 200% da receita corrente líquida. 

O documento indica ainda que, após 10 anos, o Estado contabilizou despesas com pessoal abaixo do patamar de 60% também da receita líquida, pela metodologia da Secretaria do Tesouro Nacional (STN). Com um significativo incremento na arrecadação, o Rio Grande do Sul fechou os primeiros oito meses do ano com superávit de R$ 1,7 bilhão, ante déficit de R$ 753 milhões em igual período de 2021.

Parte do resultado capta reflexos positivos das reformas administrativa e da Previdência. Na coluna da receita, entretanto, há valores extraordinários, como de privatizações. A elevação da arrecadação de ICMS é fruto da recuperação da economia ao longo de 2021 e da inflação. Para 2022, no entanto, permanecem algumas incógnitas. A alíquota geral de ICMS e as que incidem sobre combustíveis, energia e telecomunicações serão reduzidas para os patamares de 2015, como já era previsto. A atividade econômica no país, por outro lado, é motivo de preocupação, devido às constantes revisões para baixo nas previsões para o PIB do próximo ano e a inflação, que agora engorda o caixa, tende a ser bem mais branda. O quadro de incertezas se completa por pressões nas despesas, como aumento do piso do magistério.

A crise financeira crônica do Estado não foi construída do dia para a noite. É resultado de décadas de endividamento, gestões perdulárias e excesso de benesses para determinados grupos de interesse, obtidos por meio de pressão política. Sair definitivamente do atoleiro também demandará tempo e só será possível com perseverança e alguns sacrifícios. É preciso persistir na responsabilidade fiscal, priorizando a qualificação dos serviços públicos básicos, dos quais dependem grande parte da população. Assim, pode-se celebrar os resultados financeiro até aqui, desde que com a devida moderação.


09 DE OUTUBRO DE 2021
DIÁRIOS DO MUNDO

As juízas caçadas pelos talibãs que condenaram no passado

Em guerras civis, não são incomuns massacres praticados por grupos que, ao chegarem ao poder, passam a perseguir quem foi desbancado. Foi assim quando os kosovares albaneses, caçados outrora por Slobodan Milosevic, buscaram se vingar dos sérvios nas Guerras dos Bálcãs.

No Afeganistão atual, onde o Talibã derrotado em 2001 voltou ao poder em 2021, agora passa a perseguir seus antigos algozes. E, nesse retorno, as magistradas têm sido os principais alvo. São caçadas pelos assassinos que condenaram, segundo denúncia da rede BBC, de Londres.

Conforme a reportagem, elas foram pioneiras dos direitos das mulheres, defensoras ferrenhas da lei e buscaram justiça para os mais marginalizados. Cerca de 220 juízas afegãs estão escondidas por medo de retaliação sob o novo regime.

Os relatos obtidos pela BBC são impressionantes. Uma delas, identificada como Masooma, julgou o caso de um membro do grupo pelo assassinato de sua esposa. O homem foi con­denado a 20 anos de prisão.

- Depois que o caso acabou, o criminoso se aproximou de mim e disse: ?Quando eu sair da prisão, farei com você o que fiz com minha esposa? - contou ela.

Depois que o Talibã voltou ao poder, em 15 de agosto, ela começou a receber mensagens em seu celular:

- Ele me disse: ?Vou te encontrar para ter a minha vingança?.

Todas as juízas receberam ameaças e, agora, encontram-se escondidas. Trocam de residência de tempos em tempos. Também tiveram suas casas revistadas por combatentes do Talibã.

Além do risco de violência, elas perderam o sustento de suas famílias. Estão sem salários e com contas bancárias congeladas. Procurado pela BBC, o comando da milícia, que agora é governo, diz que irá investigar as denúncias e repetiu a promessa de "anistia geral" para todos os ex-funcionários do antigo governo afegão.

RODRIGO LOPES

09 DE OUTUBRO DE 2021
PARA ALÉM DA IMAGINAÇÃO

Início será pelas capitais, mas há risco de oferta desigual

Em um primeiro momento, a implementação do 5G começa pelas capitais. Um cronograma foi definido pelo edital, com a promessa de que a tecnologia deva funcionar nas 26 capitais brasileiras e no Distrito Federal até julho de 2022. Para todas as demais cidades com mais de 30 mil habitantes, o prazo especificado é julho de 2029.

Por isso, de início, a tendência é de que o acesso ao 5G seja mais restrito, primeiro em razão da área de cobertura menor, abrangendo poucas cidades, e, segundo, pela compatibilidade de poucos celulares, o que vai demandar que o usuário adquira novo aparelho.

Segundo Cristina Nunes, professora da Escola Politécnica da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), uma das preocupações é se essa oferta de internet não será desigual:

- Será que a periferia vai ser atingida? Para funcionar, precisa de cinco vezes mais antenas do que o 4G. A maioria dos celulares não tem 5G ainda, é preciso comprar equipamento mais caro e isso vai exigir investimento do consumidor - pontua a professora.

Nesse sentido, os especialistas acreditam que a própria competição possa acelerar o processo de implantação. Para Eduardo Tude, sócio da consultoria Teleco, a disputa em leilão abre espaço para novos players explorarem a telefonia no Brasil.

- O leilão foi muito bem trabalhado no sentido de ter quantidade muito grande de frequências. Para oferecer esse serviço, cada operadora vai precisar de banda muito maior do que tem hoje. Nesse sentido, existem frequências para todo mundo comprar. Tanto as três maiores (Vivo, Claro e TIM - uma vez que a Oi está vendendo a sua unidade móvel e não vai participar), quanto a possibilidade de aparecerem novos players - observa Tude.

A questão é se esse espaço vai ser viável para os estreantes, já que a entrada no serviço móvel exige alto grau de investimento. Alguns já declararam interesse, como é o caso da Highline, que pretende comprar frequências para oferecer no atacado para outros players, mesmo caso da Brisanet, que atua na Região Nordeste.

Entre as grandes, a TIM foi a primeira operadora a fechar aprovação formal para participar do leilão e tentar arrematar uma das faixas de frequência. Em nota enviada à reportagem, a operadora avaliou que "o desenho do edital incentiva investimentos de longo prazo na nova tecnologia", e que nas próximas semanas deverá completar os passos para a apresentação das propostas. Conforme o edital, no dia 27 de outubro.

- Claro que a competição ajuda a acelerar o processo. O edital trouxe um dispositivo que permite antecipar a migração do 5G, caso não tenha interferência com as antenas parabólicas. Em algumas localidades, onde não houver interferência, poderá ligar o 5G de imediato, o que pode antecipar o cronograma - diz Marcos Ferrari, presidente executivo da Conéxis.

Olho na segurança

Outro debate que se abre é em relação à segurança. Segundo Cristina Nunes, professora da Escola Politécnica da PUCRS, como a internet será muito rápida, será preciso mais recursos para blindar a proteção das redes. Mesmo tendo monitoramento, talvez não dê tempo de o sistema bloquear ou agir em caso de ataques. Por isso, ela acredita que será necessário, inclusive, ter formação melhor de especialistas em segurança para a nova realidade tecnológica.

– No momento em que um criminoso entra na rede, em poucos segundos ele vai baixar todas as informações que quiser – alerta Cristina.


Ministério manda cortar 87% de verbas da ciência

O Ministério da Economia diminuiu em 87% o encaminhamento de verbas para o setor de ciência e tecnologia neste ano - a queda foi de R$ 690 milhões para R$ 89,8 milhões. A perda frustrou pesquisadores, que já contavam com o dinheiro em 2021. Na decisão, a pasta alega que a proposta de orçamento para 2022 aumentará consideravelmente os recursos para pesquisa.

O pedido de corte feito pela área econômica da gestão Jair Bolsonaro foi revelado pela colunista Míriam Leitão, do jornal O Globo. Em 25 de agosto, o governo enviou aos parlamentares o Projeto de Lei do Congresso Nacional (PLN) nº 16, que abria crédito suplementar de R$ 690 milhões para o Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovações no orçamento deste ano. Em ofício enviado na quinta-feira à Comissão Mista de Orçamento (CMO) do Congresso, o governo decidiu dividir os recursos que iriam para ciência e tecnologia com outros seis ministérios.

A Academia Brasileira de Ciên­cias, a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência e Andifes, que reúne reitores das universidades federais, reagiram à medida. Em nota, os acadêmicos fazem apelo pela reversão do corte no Congresso e dizem que "está em questão a sobrevivência da ciência e da inovação no país".

Lamentação

O ministro da Ciência, Tecnologia e Inovações, Marcos Pontes, lamentou o remanejamento de recursos.

- Ontem (quinta) não foi um dia muito bom com relação a orçamento, falando do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovações, mas a vida da gente é assim, tem um dia bom, um dia ruim. E eu tenho certeza, com o apoio do presidente Jair Bolsonaro, ele apoia e gosta de ciência, nós vamos conseguir recuperar e aumentar esse orçamento - afirmou Pontes na abertura da 1ª Feira Brasileira de Nióbio, rea­lizada no Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), em Campinas (SP).

O evento contou com a participação do presidente e de diversos ministros. 


09 DE OUTUBRO DE 2021
CARTA DA EDITORA

Um olhar para os investimentos

Desde o dia 2 até essa sexta-feira, os leitores de ZH e GZH e os ouvintes da Rádio Gaúcha tiveram a oportunidade de acompanhar os conteúdos que a colunista de Economia Giane Guerra enviou da Europa durante a missão oficial do governo do Estado.

Giane foi destacada para fazer a cobertura internacional tão logo confirmou-se a divulgação da agenda oficial por parte do Palácio Piratini. Historicamente, o Grupo RBS envia jornalistas para viagens oficiais, especialmente quando o foco é a busca por investimentos para o Rio Grande do Sul. Essa, no entanto, ganhou uma dimensão ainda maior com a possibilidade de que Porto Alegre viesse a ser anunciada em Madri como a próxima cidade a abrigar o evento de inovação South Summit, o que acabou ocorrendo na última quarta-feira.

Acostumada a cobrir missões empresariais pelo Exterior, pela primeira vez Giane participou de uma agenda internacional liderada por governos.

- Foi uma experiência diferente ver como essas duas áreas, governamental e empresarial, estão bem ligadas em várias situações. Conversar com as pessoas, dividir várias horas do dia e ver e viver as situações sempre é muito enriquecedor. Fomos a Madri e Barcelona, na Espanha, e Toulouse, na França. Construí ou fortaleci relações sobre assuntos que eu irei continuar de olho - diz a colunista.

Giane também destaca a importância de ter viajado no momento em que o mundo começa a controlar a covid-19. Ainda que a herança da pandemia esteja por todos os lugares.

- A burocracia está maior, o que exige muito mais atenção, pesquisa e cuidados. São exigidos documentos da pandemia e testes em vários momentos, do check-in ao desembarque no aeroporto, em restaurantes e na feira de negócios. Andar na rua sem máscara é permitido, mas ainda não me acostumei. Retirei em poucos momentos - conta.

De volta ao Brasil, Giane terá a sua própria missão: a de acompanhar os desdobramentos do que foi plantado pelo governo nessa jornada de sete dias.

DIONE KUHN

09 DE OUTUBRO DE 2021
MARCELO RECH

Eles nos representam

O anúncio do Nobel da Paz a dois jornalistas tem uma dimensão especialmente gratificante para mim, e não apenas porque meus caminhos se cruzaram nos últimos anos com os dois vencedores, Maria Ressa e Dmitry Muratov. Em 2016, como presidente do Fórum Mundial de Editores, entreguei em um congresso em Cartagena ao jornal do qual Dmitry é editorchefe, o Novaya Gazeta, o prêmio Golden Pen of Freedom, concedido desde 1961 a pessoas e organizações que se destacam na defesa da liberdade de imprensa. E em 2018, como vicepresidente do fórum, tomei parte da entrega do mesmo prêmio, desta vez em Cascais, em Portugal, a Maria Ressa.

Pequena em estatura mas uma gigante na sua capacidade de argumentar e resistir a pressões, Maria é um ícone e, posso dizer, uma amiga de muitos anos. Conheci-a em congressos e reuniões de chefes de redação mundo afora. Foi durante nossos muitos almoços e jantares e incontáveis conversas que me dei conta de que havia algo de muito errado no fato de o negócio das redes sociais produzir um efeito colateral que desvirtuava a realidade e, portanto, o direito de se fazer escolhas sobre informações e dados verdadeiros, base de qualquer processo democrático.

Dois anos antes das últimas eleições presidenciais, também foi Maria quem me acendeu o alerta de que o Brasil caminhava na mesma trilha populista e radical das Filipinas. Em março de 2017, na primeira reunião de um organismo da ONU, na sede da Unesco, em Paris, para discutirmos os impactos da erosão do jornalismo na estabilidade mundial, Maria fez um relato dramático da perseguição que sofria no seu país por contestar o discurso extremista do candidato e depois presidente Rodrigo Duterte.

Atacada noite e dia pelas redes sociais, Maria cunhou a expressão "weaponization", que pode ser traduzida como "uso bélico", das redes sociais, um meio, aliás, em que tanto confiara para criar e catapultar o site Rappler. Logo depois do evento da Unesco, coordenei na sede do jornal Le Figaro uma reunião com duas dúzias de dirigentes de redações de quatro continentes. Maria brilhou de novo e ajudou a fazer brotar ali a convicção de que o reino maravilhoso das big techs tinha algo de podre.

A decisão do comitê do Nobel da Paz é, antes de tudo, uma poderosa mensagem ao mundo em favor do jornalismo livre e contra a desinformação e os autocratas que a manipulam. Quando entreguei na Colômbia o Golden Pen ao Novaya Gazeta, lembrei as intimidações contra veículos que não se subordinavam ao Kremlin e a "coragem e determinação" de Dmitry e sua equipe em seguir produzindo jornalismo independente, a despeito, inclusive do assassinato de seis de seus jornalistas. E sexta de manhã, assim que soube da concessão do Nobel da Paz, enviei uma mensagem a Maria Ressa. "Você nos representa", disse a ela. Não poderia ter sido mais sincero. Desta vez, a verdade venceu.


09 DE OUTUBRO DE 2021
INFORME ESPECIAL

Por que o sabiá anda cantando cada vez mais cedo

Quem vive na zona rural costuma dizer que o despertador da família é o galo. Em Porto Alegre, só pode ser o sabiá. Desde a chegada da primavera, não falha nunca: a cantoria vara as madrugadas, cada vez mais precoce, antes mesmo do nascer do sol. Noite dessas, um dos pequenos solistas emplumados abriu o bico na minha janela. Olhei para o relógio: 2h15min. Será que é normal?

Para tirar a dúvida, conversei com Paulo Fenalti, que divide com Fernando Jacobs a autoria do livro Aves do Rio Grande do Sul (Editora Aratinga, 454 páginas). É um guia de identificação com detalhes sobre 711 pássaros encontrados no Estado, dos mais comuns aos mais raros.

Fotógrafo especializado em captar imagens desses animais, Fenalti explica que existem diferentes tipos de sabiás em território gaúcho, incluindo espécies migratórias e residentes. Entre os habitantes fixos, está o sabiá-laranjeira, tenor magnífico de peito alaranjado.

A cantata noturna, segundo Fenalti, se tornou comum nos centros urbanos, e nós, humanos, somos a causa do despertar antecipado:

- Essa época é de reprodução, e quem canta a essa hora são os sabiás da cidade. A culpa é toda nossa. Eles precisam se fazer ouvir pelas fêmeas. Cantam cada vez mais cedo para driblar os ruídos que nós produzimos diariamente.

Apaixonado pelos bichinhos, Fenalti faz um apelo aos citadinos mais impacientes.

- Muita gente se irrita, mas é preciso ter empatia. Afinal, não podemos deixar o coitado do sabiá sem namorada, né? - brinca o fotógrafo.

JULIANA BUBLITZ | INTERINA

sábado, 2 de outubro de 2021


02 DE OUTUBRO DE 2021
LYA LUFT

O espelho sobre a mesa de jantar

Desde quando me lembro, família tinha para mim uma importância extraordinária. Meu pai a considerava muito. Era a árvore, com raiz e galharia, com sombra, com tempestade, ramos caindo, raios atingindo, mas estava ali, a velha árvore. Eu, menina intrometida, de orelhas em pé ouvindo conversas adultas, pois durante alguns anos fui a única criança na casa, absorvia aquelas tramas, dramas, comédias, e coisas ternas e alegres que passavam como fios de teia de aranha entre tantas pessoas.

Eu adorava os almoços: avôs, avós, tios, tias, primos, primas. Aquilo me dava uma extraordinária sensação de proteção e pertença. E tudo se refletia num grande espelho diante da mesa de jantar. Também me fascinavam - não foi por nada que décadas depois comecei a escrever sobre laços familiares, embora nada a ver com aquela minha família - as conversas e posturas, que em qualquer grupo podem passar da inocência à bizarrice. Sentada à mesa, tendo de me esticar para manejar os talheres, embora posta sobre almofadas, com as perninhas balançando no ar, mais do que comer ou beber meu suco, eu espiava as pessoas.

Tomava um distanciamento involuntário, que me divertia e assustava: as pessoas pareciam salsichas enormes, com tufos de cabelo em cima, buraquinhos com olhos dentro, que giravam, outro buraquinho que se abria e fechava para receber comida ou soltar palavras. Ali aprendi que palavras podem ser plumas ou punhais - e que significam muito mais do que aquilo que expressam. Que uma inflexão muda o sentido, de amoroso para crítico; e que as mãos complementam tudo, com arabescos bailarinos por cima dos pratos.

Talvez tenha nascido assim meu encanto pelas palavras, pelo que dizem nos sons ou letras, e mais ainda nos espaços brancos ou silêncios. Ou isso simplesmente veio comigo como a cor dos olhos e dos cabelos, um sinal qualquer. Para mim, foram sempre motivo de felicidade, palavras como balas de tantos sabores e cores, ou pedrinhas coloridas que eu revirava na boca como se fossem pitangas ou uvas.

Sou uma mulher das palavras, e família tem entre elas um lugar especial: mais do que dissidências, importam as semelhanças; mais do que contradições, reinam os encontros; mais do que as ausências, predominam os gestos, as vozes, ou os sinais num WhatsApp. Uma dor por mal-entendidos pode ser curada com a palavra certa; uma ilusão alegrinha pode virar ferida, mas a gente nunca tem certeza...

Esse berço, esse colo ou esse peso chamado família pode magoar, irritar e salvar se tivermos a sorte de nascer num grupo amoroso. Nas horas mais escuras, essa rede pode nos impedir de cairmos no alçapão embaixo do poço. Nada como lembrar brincadeiras infantis entre irmãos, carinho de pais abrindo a porta com braçadas de orquídeas, dessas pequenas meio silvestres que florescem presas aos troncos das árvores no jardim. Nada como jogar conversa fora com quem se recorda, e nada como semear recordações futuras para os que, tão jovens, ainda nem têm passado. Não sei onde foi parar aquele grande espelho, com um raro tom rosa-antigo. Quem sabe ainda estamos lá, presos: imortalizados os momentos felizes, os risos, brindes, lágrimas - e todos nós, como éramos um dia.

Texto originalmente publicado na edição de 26 e 27 de agosto de 2017

LYA LUFT

02 DE OUTUBRO DE 2021
MARTHA MEDEIROS

Barbeiragens emocionais

Antes mesmo de o sol raiar, as ruas começam a ser preenchidas por milhares de carros, motos, bicicletas e pedestres, em um balé de deslocamentos nem sempre organizado. Nossos corpos são conduzidos dentro de caixas metálicas sobre quatro rodas e por veículos com apenas duas, e quem vê de fora acredita que estamos todos concentrados, cientes das responsabilidades que o trânsito exige e nem por um segundo com a cabeça na lua.

Tem, claro, quem beba uma garrafa de vinho e saia de carro depois. Quem fume um baseado e dirija logo em seguida. Quem se entupa de medicamentos e pegue o volante. Vou chamar de exceções. Condescendência minha, mas prefiro acreditar que a absoluta maioria de nós jamais seria reprovada no exame psicotécnico.

O mundo ideal, um delírio.

Esquecemos que essa absoluta maioria é regida por sangue, bile, humor, espírito, tormentas. Você descobre que seu namorado tem ficado com outra, vai até a casa dele, grita, explode em soluços, borra a maquiagem, termina o namoro de três anos, sai batendo a porta e entra no carro. Arranca cantando pneu, sem uso de bebida, maconha ou medicamento: dirige sob efeito de uma aguda dor no coração, droga que altera muito mais.

Ou você ficou acordado quase 24 horas durante um plantão. Ou está lidando com uma desesperante notificação de despejo. Ou acaba de ser demitido, e faltava tão pouco para se aposentar. Ou ligaram da escola dizendo que seu caçula está passando mal. Ou sua vizinha mandou um WhatsApp dizendo que viu água escorrendo por baixo da porta do seu apartamento. Você dá a partida no carro, totalmente atordoada, sem lembrar para que serve o sinal vermelho ou a placa de PARE.

Foram poucas as vezes em que me envolvi em algum incidente de trânsito e lembro que nunca sofri um arranhão, mas a alma já estava machucada. Na primeira vez, minhas lágrimas escorriam, a visão ficou turva, demorei a frear. Em outra, alguém fragilizado não via a hora de eu chegar e acelerei demais. Teve a vez em que, indo para o aeroporto, me distraí e colidi numa rua calma, em baixa velocidade, mas, ainda assim, o airbag estourou. 

Saí ilesa, apenas perdi o voo, o terceiro daquele mês: foi o aviso de que precisava diminuir o ritmo. E, semana passada, meu nível de estresse estava alto e bati com o carro no portão da garagem do meu edifício, barbeiragem aparentemente inexplicável. Foram apenas quatro vezes em 42 anos de habilitação, sem nunca ter sido preciso acionar polícia ou ambulância, mas acho que a reflexão é bastante oportuna: abalos emocionais sempre foram gatilhos para acidentes, e mais do que nunca andamos frágeis, tensos, preocupados. Sinal vermelho: pare. Menos empáfia, mais cautela.

MARTHA MEDEIROS

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