sábado, 9 de maio de 2020



09 DE MAIO DE 2020
FLÁVIO TAVARES

VIGIAR SEMPRE

A maldade maior do coronavírus não é ser invisível e atacar a esmo. A maldade suprema é nos fazer esquecer dos perigos maiores. Dedicados a impedir que a covid-19 continue a matar, toda a atenção voltou-se ao novo vírus, como se fosse única ameaça.

O diretor científico da Organização Mundial da Saúde já advertiu sobre algo "ainda pior" - as mudanças climáticas - cujos efeitos iniciais já sentimos e que nosso desdém agrava e nos aproxima do horror. Em 2014, uma pesquisa da UFRJ previu a hecatombe do clima deste 2020, com seca brutal no Sul e chuva torrencial inundando cidades do centro do país. Fingimos não ouvir e continuamos a tratar o planeta como inimigo, não como nosso lar.

No Rio Grande, a estiagem destruiu boa parte da nossa agricultura, mas não nos interessamos em sanar as causas do problema. Ao contrário, o governador (com apoio do Legislativo) mudou o Código Estadual do Meio Ambiente, facilitando a devastação irresponsável da cobiça.

Os combustíveis fósseis - a começar pelo carvão mineral - são a causa principal do horror das mudanças climáticas, mas aqui não falamos da mina a céu aberto, junto ao Rio Jacuí, a 12 quilômetros em linha reta da Capital, que pode transformar o Guaíba numa pestilenta lixeira líquida, como lembro sempre. Se não nos interessamos sequer pela água (que é vida), por que dar atenção a sarampo, dengue e outros vírus que pareciam extintos?

Não se conhece a origem exata do novo coronavírus, que se desenvolveu em ambiente degradado pela poluição do ar, das terras e águas. Não há horror que nasça da limpeza e da higiene. Só há poucos anos a China entendeu que a alavanca do seu progresso não podia continuar a ser o carvão mineral. O irrespirável ar das cidades chinesas faz com que, ao longo daquele país, há anos, todos usem máscaras como as que utilizamos aqui pela covid-19.

Em tempos de perigo, reiterar alertas e cuidados não é defeito, apesar de enfadonho. Ser vigilante é vigiar quando o perigo é contínuo mas se disfarça. Já pensaram onde estaríamos se a imprensa não alertasse sobre o vírus maldito?

No sábado de Aleluia, 11 de abril, escrevi aqui: "O atual outono frio faz prever um inverno gelado e úmido, ideal para o vírus se expandir e atacar".

O frio se antecipou, mas, por sorte, o governador entendeu o perigo e não se dobrou à insensatez dos que negam o horror da covid-19 e advogam abolir as medidas de vigilância e proteção.

Só o presidente da República segue alheio a tudo, chegando ao absurdo de sugerir que o Supremo Tribunal não reconheça como válidos os controles estabelecidos por governadores e prefeitos. Para ele, vigiar é controlar a liberdade de pensar, não o crime?

Jornalista e escritor - FLÁVIO TAVARES

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Postagem em destaque

12 de Agosto de 2026 CARPINEJAR Os efeitos colaterais das canetas nos restaurantes Desde maio, já circula no Brasil uma caneta emagrecedora ...

Postagens mais visitadas