terça-feira, 26 de abril de 2022


26 DE ABRIL DE 2022
OPINIÃO DA RBS

BAIXAR A FERVURA

É inquietante a nova escalada de tensões institucionais que tomou conta do país nos últimos dias. Primeiro, os ânimos se exaltaram com a condenação por 10 a 1 no Supremo Tribunal Federal (STF) do deputado federal Daniel Silveira (PTB-RJ), seguida pelo decreto de "graça constitucional" do presidente da República, Jair Bolsonaro, destinado a perdoar o parlamentar do seu grupo de apoio. No domingo, a fervura voltou a subir com a declaração do ministro do STF e ex-presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) Luís Roberto Barroso de que as Forças Armadas estariam sendo usadas para lançar desconfiança sobre o sistema eleitoral. A afirmação de Barroso foi respondida de forma dura em nota assinada pelo ministro da Defesa, que considerou a colocação "irresponsável" e uma "ofensa grave".

O país vive um período de nervos aflorados derivado da aproximação das eleições. Cabe às lideranças ajuizadas compreenderem o momento e serem responsáveis e inteligentes para não acirrar ainda mais a crise institucional. O caso que envolve Silveira, por exemplo, será examinado a seu tempo pelo STF, a partir dos questionamentos sobre o ato do presidente que chegaram ao Supremo. A validade da decisão de Bolsonaro, e seu alcance e filigranas, deve ser analisada à luz da Constituição, com firmeza e serenidade expostas nos autos. Elevar a temperatura com verborragias inúteis interessa apenas a quem tem na confusão a sua arena predileta.

O mesmo discernimento deve ser demonstrado nas demais controvérsias que envolvem atritos entre os poderes. Certos ministros do STF, é inequívoco, adquiriram o costume do descomedimento em algumas declarações. Convém serem mais contidos, o que não exclui, quando necessário, a defesa da Corte e das eleições. A instituição e seus ministros, como em qualquer democracia, são passíveis de críticas. O que não pode ser aceito são ameaças ao STF e a seus membros, como fez Silveira. 

O deputado, aliás, estranhamente se escuda na liberdade de expressão e na imunidade parlamentar para suas afrontas antidemocráticas, mas, ao mesmo tempo, defende o AI-5, ato mais duro da ditadura, que fechou o Congresso e endureceu a censura. Nada mais contraditório. Sem falar no seu histórico na Polícia Militar do Rio de Janeiro, onde acumulou dezenas de sanções disciplinares, passou por prisões e detenções por transgressões e é dono de uma ficha onde constam avaliações como a de "mau comportamento", "inadequação ao serviço policial militar" e "conduta desviante".

O momento, entretanto, exige serenar de ânimos. Não é de interesse dos brasileiros o acirramento das tensões. Neste instante, milhões de cidadãos passam fome. O desemprego segue alto, a economia permanece cambaleante e a inflação se fortalece, erodindo a renda da população. Ao mesmo tempo, esperam-se investigações sérias sobre recentes denúncias relacionadas ao Ministério da Educação. São para essas questões que os eleitores gostariam de ter respostas. É preciso saber reconhecer cortinas de fumaça e manobras diversionistas usadas para desviar a atenção dos problemas reais.

Ser firme na defesa da democracia, da Constituição, das instituições e do sistema eleitoral, sem dúvida, é tarefa inescapável. Mas possivelmente a melhor estratégia não é alimentar tensionamentos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Postagem em destaque

12 de Agosto de 2026 CARPINEJAR Os efeitos colaterais das canetas nos restaurantes Desde maio, já circula no Brasil uma caneta emagrecedora ...

Postagens mais visitadas