sábado, 18 de julho de 2026

O prazer de ser um alienado

A Copa acaba neste fim de semana e já me sinto órfão da única coisa que parecia sustentar minha sanidade mental: a mais pura, cristalina e redentora alienação. Como é bom ser um idiota completo de vez em quando. Como é maravilhoso olhar para o abismo do mundo e responder com um sonoro "e eu com isso?".

Não que eu tenha abandonado minhas obrigações, que fique claro, mas meu projeto de vida, nas últimas semanas, foi basicamente derreter no sofá sob um cobertor marrom, engordando à base de pudim morno enquanto elaborava teses profundas sobre as tranças do Raphinha e a linha de cinco do Paraguai. Sempre que pude, ignorei o que importava. E foi a glória.

Alguém dirá que "enquanto você grita gol, o país desmorona", mas, em resposta, mencionarei um edificante meme que vi no TikTok, porque hoje não citarei Freud nem Hobbes nem qualquer outro sabichão, vou apenas celebrar a alienação e a cultura inútil, então falarei desse belo meme que dizia, com admirável sensatez, que "o país também desmorona enquanto você assiste àquela folha caindo da árvore no seu filme iraniano". Não é verdade?

Precisávamos desse coma induzido. A Copa serviu de oxigênio antes de sermos atirados no moedor de carne que nos aguarda ali na esquina: a eleição de outubro. Aliás, o futebol é maravilhoso porque nos permite terceirizar a angústia. Se a Seleção perde, a culpa é de onze milionários correndo de shortinho na TV. Mas, a partir de segunda-feira, a culpa de tudo volta a ser nossa. E o voto é o lembrete incômodo de que o destino desse hospício, vejam que perigo, está em nossas mãos.

Natural que bata um desânimo. O problema de passar 40 dias dopado de irrelevância é que a nossa imunidade contra a realidade despenca. Discutir as façanhas do goleiro Vozinha - que ganhou esse apelido, você sabe, porque foi criado pelos avós e vivia reclamando para sua vozinha - era o nosso recreio mental. Agora o mundo retorna às asperezas do arcabouço fiscal, do superávit primário e do trânsito da Bento Gonçalves.

Resta assinar o termo de gratidão a esse delírio de seis semanas. Obrigado por me fazer acreditar que a física quântica operava nos três centímetros que anularam aquele gol impedido. Valeu a pena gastar neurônios projetando o futuro da humanidade no contra-ataque da Argélia. A partir de segunda-feira, a realidade me confisca o crachá de idiota e exige que eu volte a ter opiniões adultas sobre o destino da nação.

Mas, até lá, por favor, não me interrompam: ainda tenho um domingo inteiro para tratar o supérfluo como caso de vida ou morte. 

PAULO GERMANO 

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