sábado, 20 de novembro de 2021


20 DE NOVEMBRO DE 2021
FRANCISCO MARSHALL

GÊNERO NEUTRO

É excesso de pobreza supor-se que a expressão de gêneros restringe-se à polarização binária entre masculino e feminino. Em muitas famílias linguísticas e idiomas há numerosos casos de ausência de gênero gramatical e ricas variantes na sua expressão. O proto-indo-europeu, origem da maior família linguística do planeta, formado em meados do quinto milênio a.C., distinguia apenas entre gêneros animado e inanimado; posteriormente o gênero animado cindiu-se em masculino e feminino e o inanimado tornou-se neutro. 

Na maioria das línguas da família indo-europeia, como o grego, o latim, o alemão, o russo, o sânscrito e o romeno, há três gêneros, feminino, masculino e neutro. Em alguns casos, como no sueco e no dinamarquês, passou-se da definição binária de gêneros para um gênero comum. Além das línguas que simplesmente não diferenciam gênero, como o armênio, o turco, o húngaro, o japonês e o tupi-guarani, há casos como o da família Bantu, do centro e do sudeste da África, em que há línguas como o Shona, com mais de 20 gêneros. Exercite o conhecimento e a imaginação. O mundo dos gêneros é muito mais do que um par de opções.

Ao lado desses fatos da cultura linguística, cresceu na última década o movimento social pela neutralidade de gênero. Com nobreza ética, visa-se a evitar a discriminação e ampliar a inclusão social. A finalidade é eliminar de nosso convívio violências inconvenientes e desnecessárias. Não se negam gêneros masculino e feminino, mas expande-se o campo da linguagem com uma ou mais opções, com maior liberdade e respeito. Em 2012, na Suécia, foi proposto um novo pronome, hen, neutro, além de hon e han para ela e ele, e dois anos depois hen foi aceito no Glossário da Academia Sueca. 

Há uma necessária e frutífera relação entre cultura, língua falada e norma culta; esta não é uma fortaleza a cercear a coloquialidade popular, contra as mudanças, mas apenas uma forma de normalizar costumes. É arrogância apedeuta usar a autoridade da norma culta para tentar barrar a evolução da linguagem. Muitas legislações mundo afora e diversos comportamentos comunicativos, na educação, na economia, no direito, na ciência, na arte e na imprensa, avançam consolidando essa evolução cultural que aperfeiçoa a linguagem com delicadeza e respeito.

Do mesmo modo que usurparam a bandeira nacional para expressar sua visão tacanha de sociedade, muitas, muitos e muites reacionárias(os)(es) hoje fazem cavalo de batalha contra essa sadia e irreversível tendência histórica. Em uma escola tradicional de Porto Alegre, de gente rica de dinheiro e pobre de espírito, cujo nome homenageia a revolta de oligarcas sonegadores, censurou-se uma peça de teatro e a própria e multimilenar arte teatral para impedir o uso do gênero neutro. Sabemos quem é o monstro inspirador dessa estupidez, e seu governo é também agente de um ataque intolerante à modernidade ética e vernácula - bem como à ciência, à arte e à vida. É o sistema integrado da ignorância e da cafonice.

Há, todavia, novas cores na floreira do lácio. E isso é muito bom para todas, todos e todes.

FRANCISCO MARSHALL

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Postagem em destaque

12 de Agosto de 2026 CARPINEJAR Os efeitos colaterais das canetas nos restaurantes Desde maio, já circula no Brasil uma caneta emagrecedora ...

Postagens mais visitadas