sábado, 25 de julho de 2026

25 de Julho de 2026
EM FOCO - Marcelo Gonzatto

Prevenção

O que falhou e o que pode ser melhorado na previsão de cheias

Horas após avaliações indicarem cenário sem maiores riscos nos rios gaúchos depois de chuva intensa, cidades viram a água avançar. O episódio levou especialistas a discutir ajustes e formas de comunicar incertezas à população

Na última terça-feira, ainda traumatizados pela enchente de 2024, os gaúchos respiraram mais aliviados quando o governo gaúcho divulgou que, até aquele momento, não havia previsão de os rios subirem, apesar da chuva registrada desde o final da semana anterior. O cenário mudou rapidamente nas horas seguintes, e a água de cursos como o Taquari ultrapassou a cota de inundação em diferentes municípios.

A dificuldade de antever as cheias foi provocada por uma combinação entre incertezas na previsão do tempo ampliadas pelo El Niño, limitações do sistema utilizado pelos órgãos oficiais para projetar a subida dos rios e deficiências no modo de informar a população sobre os possíveis cenários.

O episódio deixa lições que deverão ser incorporadas por entidades como a Defesa Civil estadual e o Serviço Geológico do Brasil (SGB), de âmbito federal.

Zero Hora conversou com oito servidores da Defesa Civil, dois do SGB, um do Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e com o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) para avaliar as imperfeições da estrutura de alerta e o que deve ser melhorado para o futuro.

O monitoramento e a previsão da Defesa Civil se baseiam no chamado Modelo de Grandes Bacias (MGB), que processa três variáveis fundamentais: previsão de chuva para um horizonte de até 15 dias, chuva já observada e vazão atual dos rios obtida por meio de estações de medição.

Esses dados são integrados para gerar tendências de vazão que, para 60 municípios prioritários, alimentam um modelo hidrodinâmico capaz de desenhar as prováveis manchas de inundação e permitir a visualização de quais áreas serão atingidas.

Previsão regional

- Isso deverá ser incorporado em breve. É que a plataforma da Defesa Civil foi inicialmente implantada com o objetivo de ter um horizonte de previsão mais longo, de 15 dias, dos modelos globais, enquanto o regional tem um horizonte de 72 horas. Mas, realmente, precisaremos colocar a previsão regional - diz a hidróloga do Centro de Monitoramento da Defesa Civil Vanderleia Schmitz.

Sistema recente Diretora do Departamento de Gestão de Riscos da Defesa Civil, a tenente-coronel Ana Maria Hermes argumenta que esse sistema ainda é recente, tendo começado a operar no início deste ano, e garante que a experiência dos últimos dias será utilizada para aprimoramentos.

- Esse foi o primeiro evento (severo) que a gente enfrentou com esse sistema. Tudo na área de desastre vai estar em permanente melhoria, em permanente qualificação - afirma Ana Maria.

Nem todas as possíveis melhorias no sistema da Defesa Civil poderão ser executadas em pouco tempo. O governo gaúcho está concluindo a implantação da última de 130 novas estações que monitoram bacias hidrográficas e fornecem dados que subsidiam previsões. Porém, essa rede robusta ainda não é utilizada para alimentar os prognósticos.

- Contratamos 130 estações que hoje nos permitem o nowcasting (previsão de curtíssimo prazo) hidrológico. Só que essas estações ainda não conseguem alimentar esses modelos, e elas ficam em locais-chave. Para serem incluídas, precisamos ter uma série de dados histórica, e isso só pode ser obtido com tempo - argumenta a hidróloga Vanderleia.

Responsável pela operação do MGB, Stefano Boeira afirma que serão necessários cerca de quatro anos para formar esses bancos de dados e incorporar a nova rede de estações aos cálculos de resposta das bacias. _

Efeito de deslizamentos de terra será analisado

Há uma avaliação interna na Defesa Civil gaúcha de que os milhares de deslizamentos em morros de locais como o Vale do Taquari durante a tragédia de 2024 podem ter alterado a dinâmica dos rios. Estudos indicam que as "cicatrizes" deixadas no solo pela derrubada da vegetação e pela movimentação da terra podem atuar como "córregos" que concentram a água da chuva e a escoam para os rios vizinhos em velocidade superior à de um terreno preservado.

- Um levantamento da UFRGS mapeou cerca de 17 mil movimentos de massa no Estado. Só na bacia do Taquari-Antas temos 8,9 mil, e cerca de 50% dessas cicatrizes estão conectadas a corpos hídricos. Isso pode alterar a dinâmica da bacia, podendo diminuir o tempo de resposta dos rios (à chuva) e aumentar a velocidade com que a água chega até eles - afirma o geólogo da Defesa Civil Marcelo Ávila.

Na prática, isso pode fazer com que os rios subam mais rapidamente. Deverá ser realizado um estudo para verificar se essas alterações na geografia regional modificaram o comportamento dos mananciais em períodos de tempo severo. _

SGB deve rever terminologia de boletim

Como o SGB não faz previsão de tempo, utiliza as análises de órgãos internacionais e nacionais, a exemplo do Inmet. Essa é uma inovação implantada após a cheia de 2024. Até então, a entidade federal lançava apenas avisos de mais curto prazo, com menos tempo para prevenção, mas mais certeiros.

- Acredito que o termo "previsão" utilizado nesse tipo de boletim, que é mais de cenário, deverá ser trocado por outro daqui para frente. É um boletim inicial que apresenta possíveis cenários, mas ainda traz muita incerteza. O problema é quando isso é tomado como uma situação definitiva - argumenta a chefe do Departamento de Hidrologia do SGB, Andréa Germano.

À meia-noite, o órgão emitiu novo comunicado - já com caráter de alerta - prevendo que às 6h o Taquari já teria ultrapassado a cota de inundação (o que ocorreu). Esse segundo aviso já considerava a precipitação registrada de fato nas cabeceiras.

- Conseguimos fazer prognóstico, de fato, com no máximo 12 horas de antecedência para as partes mais baixas do Taquari, e de quatro a seis horas nas mais altas, porque é um rio de resposta rápida. Na bacia do Amazonas, boletins são divulgados com até 75 dias de antecedência - compara o chefe da Divisão de Hidrologia Aplicada do SGB, Emanuel Duarte.

Prudência nos prognósticos Procurado por ZH, o Inmet argumenta que emitiu 18 "avisos de tempo severo relacionados à chuva" entre os dias 17 e 21. Esses alertas previam possibilidade de precipitação "acima de cem milímetros ao dia" e possível "transbordamento de rios". Conforme o SGB, porém, houve pontos muito localizados onde a chuva oscilou ao redor de 200mm ao longo de um dia.

Em bacias de resposta rápida, pequenas diferenças na localização ou no volume da chuva sobre as cabeceiras podem alterar significativamente a projeção do nível dos rios poucas horas depois.

Para o professor do IPH Rodrigo Paiva, o episódio também deve servir de lição sobre como interpretar e divulgar as informações sobre possíveis cheias:

- Acho que uma das principais dificuldades foi fazer uma previsão dando a entender que existia uma certa certeza de que não aconteceria inundação antes de esperar o evento de chuva terminar. Nesses casos de bacias que respondem mais rapidamente, deve-se fazer uma interpretação mais prudente dos dados ou esperar mais. _

Sábado tem sol, mas temporais voltam ao longo da semana

Mas o fim de semana começa com um sábado ainda agradável, de sol entre nuvens na maior parte do Estado. As temperaturas mínimas variam entre 7°C e 14°C, e as máximas oscilam entre 16°C e 25°C.

Na Região Metropolitana, nos Vales e no Litoral, o tempo permanece estável e sem expectativa de chuva significativa. No entanto, o avanço gradual de instabilidades pelo Oeste, Missões, Noroeste e trechos do Sul provocará aumento da nebulosidade, com alguma precipitação ocasional entre a tarde e a noite. Apesar do tempo seco na Capital e na Região Metropolitana no sábado, a água que escoa das bacias do Interior - Taquari, Caí e Jacuí - continua chegando ao Guaíba.

Avanço nas Ilhas

A elevação, que começou de forma gradual na sexta-feira, já provocou avanços na Região das Ilhas. A projeção do Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH/UFRGS) indica que o nível do Guaíba na medição do Cais Mauá deve atingir 2m70cm até este sábado. Com isso, supera a cota de alerta (2m50cm) e se aproxima da cota de inundação (3m).

Prefeitura da Capital constrói dique provisório na Zona Sul

Leonardo Martins

O Departamento Municipal de Água e Esgotos (Dmae) construiu, nesta sexta-feira, dique provisório na orla do Guaíba, no bairro Guarujá, na zona sul de Porto Alegre. Com retroescavadeiras, a prefeitura ergueu barreira de terra em frente ao rio para conter eventual cheia.

A obra dá sequência a uma medida iniciada na última quinta-feira, na vizinha Praça Zeno Simon. No local, o Dmae instalou sacos de areia para bloquear o canal que liga a Rua Jacipuia ao Guaíba e posicionou uma bomba móvel, que retira a água da chuva acumulada e a devolve ao rio. O objetivo é impedir que o Guaíba avance pelo sistema de drenagem e provoque alagamentos nas ruas do entorno.

O Guarujá é um dos bairros da Zona Sul que ainda não conta com sistema de proteção contra cheias. Sem diques e comportas, a drenagem da chuva depende da diferença de nível entre a rede pluvial e o Guaíba. Quando o rio sobe, a água pode fazer o caminho inverso, voltar pelos canos e provocar alagamentos.

Alerta até segunda

O trabalho de sexta-feira dá continuidade à ação da véspera. À tarde, as equipes atuaram na construção de um pequeno dique para proteger o canal, de modo a manter o nível da água mais baixo do que o do Guaíba. As estruturas devem permanecer no local ao menos enquanto durar o alerta de cheia para as regiões ribeirinhas das Ilhas, do Guarujá e do extremo sul da Capital. O aviso da Defesa Civil vale até segunda-feira.

A projeção do Instituto de Pesquisas Hidráulicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (IPH/UFRGS) indica que a cota de alerta na região, de 2m50cm (nível a partir do qual o monitoramento se intensifica), deve ser superada, com o Guaíba chegando a 2m70cm até sábado.

Na madrugada de sexta-feira, o rio subiu de forma gradual e começou a avançar na Região das Ilhas. A elevação ocorre por causa do escoamento das águas das bacias dos rios Taquari, Caí e Jacuí, que deságuam no Guaíba.

Solução definitiva

A alternativa definitiva para proteger o Guarujá ainda está em fase de estudos. Entre as opções analisadas pelo Dmae estão a construção de um muro de proteção, a elevação da Avenida Guaíba ou da própria Praça Zeno Simon. Os estudos de viabilidade técnica devem ficar prontos até o fim do ano, e a estimativa é de que a obra custe cerca de R$ 300 milhões. O projeto ainda exigiria o reassentamento de famílias, além de desapropriações e indenizações. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Postagem em destaque

25 de Julho de 2026 CARPINEJAR O sagrado resto Adorava quando meus pais voltavam da feira com aquelas redinhas coloridas que acondicionavam ...

Postagens mais visitadas