sábado, 25 de julho de 2026

25 de Julho de 2026
MARCELO RECH

Por sua história, não se pode dizer que Lula já tenha ameaçado a democracia. Nunca planejou golpe, não questionou a lisura das urnas eletrônicas e não foi alcoviteiro de quartéis. Reconhecida sua trajetória, é de espantar a omissão de Lula quanto aos ímpetos antidemocráticos de movimentos de esquerda em países latino-americanos que buscam solapar eleições legítimas de candidatos da direita.

A última onda de silêncio começou pela Bolívia, onde partidários de Evo Morales bloquearam estradas e estrangularam a economia boliviana para exigir a deposição do centro-direitista Rodrigo Paz Pereira, assim como tentaram fazer no Brasil caminhoneiros inconformados com a eleição de Lula. Em um gesto humanitário, Lula despachou para a Bolívia um avião da FAB com alimentos, mas do brasileiro não se ouviu condenação veemente à tentativa de destituição de um governante eleito democraticamente.

A tradição brasileira é de não interferência, justificarão fiéis soldados de Lula. É, pode ser. Mas em junho de 2024 Lula foi às redes sociais para se solidarizar com o esquerdista Luís Roberto Arce (herdeiro político de Evo Morales, com quem romperia durante o governo), ameaçado de derrubada por militares. "A posição do Brasil é clara. Sou um amante da democracia e quero que ela prevaleça em toda a América Latina. Condenamos qualquer forma de golpe de Estado na Bolívia", proclamou Lula.

Seria bom que a posição também fosse clara quando esquerdistas inconformados com a vitória da direita, seja na Bolívia, na Colômbia ou no Peru, se recusam a aceitar a vitória dos adversários. Pode ser que a voz de Lula não tenha lá tanto eco no Oriente Médio, na África ou na Ásia. Mas nos trópicos latino-americanos a postura do presidente do Brasil ajudaria a fazer a diferença entre legitimar ou não tentações antidemocráticas.

Num gesto de descortesia à la Javier Milei, Lula não dará o ar da graça nas posses de Keiko Fujimori, no Peru, e Abelardo de la Espriella, na Colômbia, assim como já tinha se ausentado na do também direitista José Antonio Kast, no Chile. A seletividade política de suas relações contribui para a estratégia da Casa Branca de isolar ainda mais o governo de Lula - e, consequentemente, o Brasil - na América do Sul. Ao agir conforme a cartilha trumpista de dividir o mundo entre amigos e inimigos, Lula cai numa armadilha ideológica que só empurra ainda mais os vizinhos à direita para os braços dos EUA. Quem sai perdendo com essa postura? 

Marcelo Rech

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