sábado, 25 de julho de 2026

25 de Julho de 2026
INFORME ESPECIAL - Rodrigo Lopes

Falhas na rede do Inmet continuam

Os problemas na rede de estações do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) no Rio Grande do Sul não se limitam aos dias mais críticos que antecederam as tempestades desta semana no Estado. As discrepâncias continuam, segundo aponta o meteorologista Gabriel Cassol, um dos autores do estudo que demonstrou falhas nos equipamentos entre os dias 17 e 21 de julho, período crítico das tempestades recentes no Estado. O Inmet é um órgão do governo federal.

Nesta sexta-feira, por exemplo, a estação de Uruguaiana trazia dados irreais de temperatura, falha de dados e não apresentava estatísticas sobre medição de chuva. Enquanto todos os sensores mostravam temperatura que variava entre 16°C e 16,5°C, a estação do Inmet registrava 22,9°C, uma diferença de pelo menos 6,9°C. A estação de Lavras do Sul não tinha dados sobre umidade e ponto de orvalho. Também registrava dados irreais de temperatura, com uma discrepância de pelo menos 8°C.

A estação de São Lourenço do Sul mostrava a velocidade do vento de 80,3 km/h, enquanto equipamentos na região indicavam entre 43,5 km/h e 45,9 km/h. A estação de Palmeira das Missões também continua registrando valores absurdos de rajadas de vento. O equipamento registrou 88,9 km/h sendo que não havia nenhuma tempestade ou algum sistema meteorológico atuando no Rio Grande do Sul capaz de produzir essas rajadas. Outros equipamentos na área indicavam ao meio-dia rajadas de 25,7 km/h.

Em Porto Alegre, a principal estação da Capital, localizada no Jardim Botânico, seguia apresentando três problemas: nenhum registro de ventos (velocidade, rajadas e direção), em vários horários ela não apresentava dados e sensores registrando temperaturas fora do normal.

- Isso é problema de equipamento de baixa qualidade, a única solução para corrigir esse problema é fazer a troca dos equipamentos e colocar sensores de qualidade - avalia o meteorologista.

Conforme o Ministério da Agricultura e Pecuária, responsável pelo Inmet, as estações meteorológicas "estão passando por manutenção preventiva e corretiva, que inclui a atualização do programa utilizado em sua operação". O órgão diz ainda: "os serviços são executados periodicamente e a previsão de conclusão, para o RS, é no mês de agosto". _

Conforme a Defesa Civil do RS, as 129 estações de monitoramento hidrometeorológico compradas pelo governo do Estado operam normalmente. O órgão pondera que, apesar de todas as unidades funcionarem, os sensores ainda estão no processo de calibragem, etapa que serve para garantir a qualidade da informação.

Entrevista - Gabriel Cassol
Meteorologista

"Ocorre uma degradação da previsão do tempo"

O meteorologista Gabriel Cassol assina, junto com o professor da Unisinos Artur Jacobus, o levantamento que mostrou que apenas 16 das 98 estações meteorológicas do Inmet estavam plenamente funcionando entre 17 e 21 de julho, dias críticos para os temporais no Estado. Mestre pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel), o especialista está radicado em Santa Catarina, onde é proprietário da Sigma Meteorologia. Ele conversou com a coluna.

Em que momento vocês se deram conta de que havia discrepâncias?

Logo após a instalação das estações, entre março e abril, começamos, aos poucos, a observar esses problemas. Inclusive, a estação do Jardim Botânico, em Porto Alegre, já apresentava, nas primeiras semanas, algumas falhas, principalmente na medição do vento. Posteriormente, esses detalhes foram sendo corrigidos e ajustados, mas, à medida que as estações foram instaladas nas demais regiões do Estado, elas também começaram a apresentar problemas.

Quais são os erros mais comuns?

Há estações com problemas na medição do vento. Elas estão registrando, por várias horas consecutivas, rajadas muito fortes, o que não se justifica, porque não há nenhum sistema meteorológico capaz de provocar essas rajadas de vento por tantas horas seguidas. É um erro de medição do equipamento que não acontece somente em uma estação, mas em várias outras pelo Estado. Além disso, também observamos erros na medição da temperatura. 

Em algumas estações, já identificamos picos de temperatura muito altos entre uma hora e outra de medição. Poucas semanas atrás, tivemos uma tarde bastante gelada em toda a Campanha, com temperaturas em torno de 10°C. Na hora seguinte, a estação do Inmet de Santana do Livramento registrou uma temperatura de 40°C. Isso não faz o menor sentido. Na hora seguinte, a estação voltou a registrar 10°C. Observamos esse mesmo comportamento em outras estações.

Qual é o impacto desses erros?

Os países têm Centros Nacionais de Meteorologia. No caso do Brasil, esse órgão é o Inmet. Os dados gerados pelo instituto são oficiais, têm certificação e uma numeração da OMM. Esses dados são enviados diariamente para centros meteorológicos do mundo inteiro, a fim de inicializar os modelos de previsão do tempo. O modelo americano, por exemplo, é inicializado e mantido pela NOAA (National Oceanic and Atmospheric Administration). Já o modelo europeu é mantido pelo Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo, o ECMWF. 

Todos os dias, o próprio Inmet envia esses dados para esses centros, para que as informações abasteçam os modelos de previsão do tempo. A partir delas, é possível prever o comportamento da atmosfera para os próximos dias. A partir do momento em que se tem uma informação errada ou faltante no modelo, ocorre uma degradação da previsão. Esse impacto geralmente é maior nas primeiras 12 a 24 horas, podendo chegar, no máximo, a 36 horas. Depois disso, vai se reduzindo aos poucos. 

Se tivéssemos dados mais precisos do Inmet, poderíamos ter previsões mais assertivas, inclusive para o último evento ocorrido no Rio Grande do Sul. Houve erros nos modelos naquele primeiro cenário, em que se projetava muita chuva para a região de Santa Maria. A previsão acabou não se confirmando, e a chuva ficou mais deslocada para a região norte do Estado. A partir do momento em que se informa uma condição errada da atmosfera, esse erro vai se propagando nas horas seguintes de previsão dos modelos.

Há outros impactos?

O Rio Grande do Sul é a porta de entrada dessas frentes frias. Se já temos dados errados aqui, à medida que essas frentes avançam para as demais regiões do país, o erro também vai se propagando. Sempre prezamos pela excelente qualidade desses dados, principalmente porque são informações oficiais e alimentam os modelos de previsão. 

INFORME ESPECIAL

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