sexta-feira, 31 de julho de 2026

31 de Julho de 2026
MARCO MATOS

Não é normal

Numa única semana: tornado, enchentes em vários rios, temporais com granizo. Tudo isso ainda no começo de um El Niño que, segundo as projeções, poderá estar entre os mais intensos já registrados.

Depois de uma sequência de dias assim, o que esperar? E nem estou falando do "futuro", de algo distante, reservado para as próximas gerações. As mudanças climáticas deixaram de ser um alerta para se tornar uma realidade que já provoca transformações profundas e impactos cada vez mais graves no planeta. A questão agora não é mais discutir se elas existem. A questão é como vamos nos adaptar a elas e a essa nova configuração do clima, mais instável, mais imprevisível e mais propensa a eventos extremos.

Logo após a enchente de 2024, um termo muito usado no período pós-pandemia voltou a circular com força: o novo normal. A expressão passou a ser repetida quase como um sinônimo de resignação, como uma forma de dizer que, daqui para a frente, as coisas serão assim mesmo.

Mas é preciso separar algumas coisas.

As mudanças no clima são reais. Seus efeitos já estão entre nós e dificilmente poderão ser revertidos completamente. Também é possível que os próximos meses tragam novos episódios de chuva intensa, vendavais e inundações. Ignorar essa realidade seria um erro.

Outra coisa, porém, é a sensação de insegurança, de despreparo, de desamparo e de impotência que muitos gaúchos ainda carregam desde a tragédia do ano passado. Isso não pode ser tratado como parte inevitável do novo cenário climático. Isso não pode ser o novo normal.

Há alguns dias estive em um colégio do bairro Sarandi, na Zona Norte de Porto Alegre, participando de um painel sobre o pós-enchente promovido por um grupo de pesquisadores. Durante minha participação, fiz uma pergunta ao auditório. Questionei o que fariam se, naquele exato momento, surgisse um alerta informando que o bairro voltaria a inundar. Para onde iriam? Quem procurariam? Onde buscariam abrigo ou ajuda?

O silêncio foi a resposta.

Ninguém soube dizer exatamente o que faria.

As obras estruturais de proteção são complexas, exigem recursos, planejamento e tempo. Todos conhecemos o ritmo estranho da burocracia e sabemos que soluções desse porte não aparecem da noite para o dia. Mas os planos de contingência, aqueles que orientam a população sobre como agir diante de uma emergência, já deveriam ser amplamente conhecidos pelas comunidades mais vulneráveis.

Não temos controle sobre a chuva, sobre os rios ou sobre a intensidade do próximo temporal. Mas temos responsabilidade sobre a forma como nos preparamos para eles. Se os eventos extremos tendem a fazer parte da rotina, a falta de informação e a ausência de respostas não podem fazer. Talvez o novo normal seja conviver com um clima mais difícil. O que não pode ser normal é ainda não saber o que fazer quando o próximo alerta tocar. _

O conteúdo desta coluna reflete a opinião do autor

MARCO MATOS

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